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Livros

Lispector, Clarice. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres.

Estilo é tudo...

Eu detesto os livros da Clarice, desde que li o primeiro. Sempre vi neles não uma escritora, mas apenas uma autora, talentosa, que não queria ir até onde poderia. Mas eu tinha algo em comum com ela, o dia do nascimento. Ela nasceu no dia 10 de dezembro, eu no dia 11. Por essa “proximidade”, sempre me interessei mais pela sua vida do que por suas obras. Pode imaginar quão problemático é desgostar de uma das “escritoras” mais importantes do Brasil? Ainda não é fácil.

Naquela época, eu só tinha os meus achismos e a minha percepção dos seus textos. Do outro lado, diferente tipos de professores, uns que respeitavam minha opinião, outros que as desdenhavam. De qualquer forma, o tempo passou (como diz a Clarice). Minha opinião não mudou, nem a dos outros. Porém, em tempos de Youtube, é fácil ver que eu tinha razão, e não eles. O jeito blasé dela, misturado com um nervosismo incontrolável atiça a minha imaginação. Gosto de semear a idéia de que poderíamos ter sido bons amigos, se tivéssemos vivido na mesma época. Dividir um cigarro com ela deveria ser uma experiência e tanto. Vamos ao livro.

Uma aprendizagem… conta a história de Loreley – ou Lóri, como é chamada na maior parte do livro –, uma jovem professora primária que se estabelece no Rio De janeiro depois de sair da casa de sua rica família na cidade de Campos. Ali, vive desinteressadamente entre as suas aulas e os ocasionais namoros quando então conhece Ulisses, professor de filosofia. Então, ele começa a guiar Lóri por uma jornada de auto-conhecimento, na busca pelo sua verdadeira identidade para poderem começar um relacionamento baseado em amor e não em aparências.

Para Clarice, não há como viver plenamente sem o autoconhecimento. Lispector tenta mostrar durante a narrativa o processo de amadurecimento psicológico da personagem principal, Lóri. Orientada e incentivada por Ulisses, seu pretendente, Loreley começa a pensar sobre quem ela foi, é e quer ser, em um caminho confuso e, para ela, doloroso. Por fim, Lóri descobre o seu Eu, resolvendo importante parte das dúvidas que a preocupavam e pode entregar-se de corpo e alma para Ulisses. Simples assim, rápido mesmo. Clarice não ia nem pedir a minha opinião sobre o livro, porque saberia bem o que eu lhe diria.

Vargas Llosa divide a literatura moderna em dois blocos inquietantes. O primeiro é formado pela literatura de consumo, aquela que os autores só repetem formas e histórias: interessam-se pela vendagem. O outro é a patriotera, transigente, que se fecha em si mesma, na crença de que só o isolamento impedirá a contaminação do mundo consumista – escrevem para e entre eles. Clarice Lispector encontra-se no segundo grupo, é ela mesma quem diz, mas entendi isso de primeira.

Uma aprendizagem… faz parte da tradição de Clarice. Ela é estudada e elogiada sempre em conjunto, como se um livro automaticamente levasse a outro. Qualquer crítica é obrigada a destacar que sua literatura é intimista e psicológica, escrita para dentro, que se desenvolve de obra para obra, mas sempre como um todo. Um livro para ser considerado clássico precisa sustentar-se por si mesmo. Aí entramos na fragilidade desta obra. A própria Clarice dá de ombros para essas interpretações. Legal. Mas os tais doutores adoram esses por menores. Vamos lá.

O número de elementos teóricos na narrativa são muitos e, na maioria das vezes, redundantes. O tema central é a vida de Lóri e sua relação com Ulisses. Ok. Em uma referência direta a Homero, Clarice pega o episódio das sereias para compor uma história às avessas: Lóri, a sereia, não traga Ulisses, mas é resgatada por ele. Uma obra Clássica possui ingredientes fáceis de se identificar, mas que dão um trabalho homérico para o autor escrever. Clarice padece de preguiça crônica.

Linda, lindíssima!

Linda, lindíssima!

Clarice não se importa com o leitor. Eu digo isso e ela sustenta a minha opinião (chorem fãs…). O reconhecimento de sua obra baseia-se em uma legitimidade autoral vinda de uma credibilidade construída pelos admiradores. O efeito imaginário é grande, mas devido aos vácuos no enredo. O momento psicológico de Lóri é explorado à exaustão, mas não a sua psicologia. Sua relação com a família, principal propulsor para sua mudança de vida, é revelado superficialmente. Ulisses, o professor de filosofia, o principal responsável pela jornada de Loreley, não passa de um estereótipo de analista. Todos os alicerces dos personagens devem ser imaginados pelo leitor, mas pela ótica de Clarice. Praticamente; qualquer coisa cabe nessas lacunas, mas somente a imaginação do leitor vinculada a da autora completam o quadro. Para ler Clarice, precisa-se ser Clarice. Por isso, Otto Lara Resende disse que suas obras não são literatura, mas bruxaria. O leitor como leitor precisa perder o seu eu para poder encontrar o eu da obra: Clarice Lispector.

A alta literatura permite ao leitor participar da vida. Mas é a vida em seu sentido universal, não biográfico. Julien Sorel e Gina Pietranera, de Stendhal; Anna Karenina, de Toltói; Mademe Bovary, de Flaubert – todos esses personagens respiram em nossos ouvidos sem precisarmos recorrer a nada mais que o livro. São personagens magnificamente construídos, com uma profundidade psicológica tão grande que podemos jurar conhecer seus pensamentos mais ocultos. Ao contrário de Lóri, que, para ser compreendida em sua totalidade, precisa da ajuda ou dos outros livros da autora, ou da própria.

Ao fazer construir sua história sobre a passagem da Odisséia de Homero, Clarice descuida-se de relacionar sua narração com aquela. Por que Ulisses de Clarice apaixona-se pela algoz, ao contrário do original, que busca desesperadamente retornar para casa?

Por que Ulisses de Clarice resolve resgatar a sereia se o Ulisses de Homero faz o impossível para derrotá-la? E, mais importante, por que Lóri aceita buscar seu verdadeiro eu de uma hora para outra, já que ela era uma sedutora predadora?

A busca do Eu é complexa e exige muito do aventureiro. A vírgula e o dois pontos que, respectivamente, abrem e fecham o livro não delimitam somente um período na vida da personagem. Eles delimitam o entendimento do leitor. A magnitude de Fernando Pessoa, outro escritor intimista, esmaga qualquer pretensão de Uma aprendizagem… se comparados. E os clássicos devem ser comparados com clássicos, não é covardia fazê-lo. Tanto que a forma de Clarice aproxima-se da de James Joyce. Embora não haja razão para acreditar que Clarice conhecia a obra do escritor – e os historiadores insistem que não – é preciso relacionar um com o outro e se perguntar qual deles desenvolveu melhor o estilo.

Clarice precisa ser lido por Clarice. Palavras como “indizível” ou “intraduzível” – vistas no livro – são pecados dos quais os bons escritores fogem como o diabo da cruz. Suas obras fazem sentido dentro de sua biografia. Talvez, quando esta for escrita, cada livro possa fazer parte de seu anexo, ou até mesmo do enredo. Mas Uma aprendizagem.,., por si só, é insuficiente para um clássico. Talvez, o autor que encarar a história de Clarice Lispector (por que ela nunca quis ser uma profissional), se competente, a transformará em obra-prima. Mas o mérito não será dela, mas do escritor que ousar escrevê-la.

Mas eu gosto dela. Assim como algumas amigas minhas, é preguiçosa e não voa tão alto quanto poderia. Eu desculpo isso, afinal, são meninas e maravilhosamente lindas. Se isso soar machista para você leitor, aprenda a ler. A adoro a falsa futilidade de algumas mulheres, o seu desapego. Dá pra ver que é mentira, e isso faz nossa paixão por elas aumentar cada vez mais. Isso é uma aprendizagem. Irônico, não?

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Discussion

5 comments for “Lispector, Clarice. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres.”

  1. Gravatar

    Eu queria saber se você só leu este livro dela? Que nem de longe é o melhor (na minha opinião). Gosto muito do “Água Viva”, um discurso interno, leitura intimista… Você como um bom machista não consegue gostar de nenhuma escritora (mulher), nem mesmo as inglesas. Eu confesso que adquiri um grande desgosto pela obra de Lispector, mas não pela escritora, e sim por tantas pessoas que dizem amar e idolatrar Clarice sem ter nem mesmo lido um livro dela que seja, o que fazem é ler fragmentos na internet e se dizem grandes conhecedores. Eu acho que você deveria considerar muitas coisas; uma mulher, uma epoca, uma ditadura, um pais com pouquissima cultura. Como você mesmo disse, a biografia dela é importante para se analisar a sua obra. Mas é dificil querer que uma pessoa que morreu tão cedo tivesse a possibilidade de voar mais alto, não é?! haha Eu acho que ser lembrada com tanta ênfase depois de tantos anos, é um grande mérito sim!

    Posted by Letícia | outubro 3, 2008, 10:35 am
  2. Gravatar

    Já que vamos colocar o Brasil em pauta, vê se escreve alguma coisa sobre a bosta do Paulo Coelho… sujeitinho oportunista que ficou rico as custas de gente retardada, curiosa e fraca de espírito.

    Posted by Letícia | outubro 3, 2008, 10:39 am
  3. Gravatar

    Parabéns!
    Uma das melhores crônicas que já li sobre uma das autoras que não sei se amo ou odeio.
    Pena que os professores de literatura tenham tanta “crenças” que não sabem nada.

    Beijo!

    Posted by Neusa | outubro 3, 2008, 11:03 am
  4. Gravatar

    Isso é machismo. Mas tudo bem, homem não consegue captar as coisas que as mulheres podem… hunf!

    Posted by Cris | outubro 3, 2008, 3:51 pm
  5. Gravatar

    Você tem o direito de escrever o que quiser, é claro! Até tenta argumentar, mas não acho que o faça de uma forma eficaz ou sequer coerente. E isso me dá o direito (e a todos) de detestar o que você escreve, assim como vc detesta os livros de Clarice. Por que apesar da sua tentativa de desmistificar, tudo acaba se tornando apenas uma apologia ao machismo, afinal. Simples assim.

    Resposta do Dono do Blog: Olha, Ivy, você acha o que quiser, a inteligência não é um dom de todos. Estou feliz que tanto eu quanto a própria Clarice Lispector temos a mesmíssima opinião sobre os textos. Eu não sou preguiçoso. Ao menos você deveria ter seguido os links antes de dizer bobagens. Mas agora já disse, e isso é o que importa.

    Posted by Ivy | novembro 19, 2008, 9:48 am

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