Jornalismo e mídia "internet"

fevereiro 19 0 Comments Category: Style Guy, Tecnologia

Bad News

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Vez ou outra, o jornalista acha uma informação apenas com a sorte. Apenas por estar no lugar certo, na hora certa. O jornalismo ainda engatinha na internet. Por enquanto, as únicas inovações da rede é a rapidez de publicação das matérias, os tais "comentários" e, mais importante, a capacidade de revisar os textos constantemente.

A revisão de textos (ou atualização, como é chamada pelos veículos) não foi iniciativa do setor. Nos primórdios desses noticiários, erros ou revisão de informação era feita sem o devido esclarecimento para o leitor. Não por má-fé, a questão era que isso de arrumar uma reportagem, realmente, era algo novo para o jornalismo, desde sempre acostumado com o fato de, uma vez publicado, não dá pra voltar atrás no texto. Jornais, antigamente, possuíam duas edições, tanto para adicionar novas matérias como para consertar erros das edições matutinas. Na era da internet, atualizar o texto já publicado era algo nunca antes pensado numa redação. Matérias eram produzidas as seis horas e, magicamente, a mesma matéria das seis tinham informações que só apareceram as nove da noite naquele dia.

Era preciso avisar que o texto recebeu uma atualização. Os leitores exigiam e, além disso, pega mal para a empresa.

Nesse começo, era difícil perceber as mudanças no texto. Agora, é difícil saber quais foram essas mudanças. Acrescentaram ou retiraram informações? Foi preciso esclarecer certos pontos do texto? Arrumar a gramática? Ou, quem sabe, omitir uma bela bola-fora que o repórter deu?

Documentar essas revisões é complicado por dois motivos. O primeiro, é a ferramenta para tornar isso realidade. Criada, como ela funcionará? Como facilitar o uso dessa ferramenta? Esses são aspectos técnicos.

O segundo motivo, e realmente o que mais incomoda os veículos, é as informações contidas nas revisões. Ali, você poderá ver o que foi alterado, retirado, acrescentado. Jornais, qualquer um, ainda não se sentem confortáveis para tamanho tipo de transparência. A Wikipédia, por exemplo, dispõe desse serviço. Através dele é possível ver como as informações de um artigo são manipuladas pelos autores/colaboradores e a intenção deles quando o fazem.

Entretanto, isso é problema dos jornais. Eu gosto mesmo é de, vez ou outra, pegar um jornalista no pulo! Dando uma informação equivocada e logo depois omitindo-a. É muito engraçado.

Ontem, foi a vez do blog da BBC. Tive a sorte de acompanhar a mudança dramática de um post enquanto a notícia acontecia.

Esse post da BBC sobre o caso da Paula Oliveira foi publicado às 17:35. O texto serve para justificar a cobertura da rede no caso, alegando que eles não se precipitaram como os jornais brasileiros. O final do penúltimo parágrafo original estava assim:

Ficamos então ainda mais atentos para não abraçá-la indevidamente. O que é um cálculo delicado, afinal o caso, se verdadeiro, era extremamente grave. Inclusive, ainda não foi totalmente esclarecido. Paula Oliveira não estava grávida, mas ainda não está provado que ela fantasiou a suposta agressão.

Ali ainda se via uma preocupação de deixar as duas histórias em destaque, não descartando as opções e ainda colocando em dúvida a perícia feita pela polícia da Suíça. Além disso, ele toca num assunto importante, o que deve fazer um jornalista com um caso explosivo na mão, o tal "cálculo delicado". Meia hora depois, às 18:00, uma revista suíça país divulgou a informação de que a advogada brasileira tinha confessado a farsa para a polícia. Magicamente, o  texto foi atualizado para isso:

Ficamos então ainda mais atentos para não abraçá-la indevidamente.

Bela redução, creio. Hoje, na versão final (acho), tal parágrafo mudou completamente:

Apesar do cuidado da noite anterior, minha tendência naquele momento era achar que a história fosse verídica. Ficamos então ainda mais atentos para não abraçá-la indevidamente. O caso segue sendo investigado na Suíça, e ainda não está provado se o suposto ataque ocorreu ou não.

Minha dúvida é, há problema nisso tudo? Creio que há.

O jornalista parece-se com o publicitário porque ambos sempre querem estar certos. Talvez seja mais fácil um médico admitir um erro do que esses dois. É o considerado normal na profissão. Talvez esteja no fermento que usam para criá-los. Os assessores de imprensa, por exemplo, não podem se dar a esse luxo, já que um erro na profissão deles pode ser fatal. Nem coloco em questão esse comportamento, já que nada irá mudá-lo. Espanto-me é como essa postura pode empobrecer um texto. A necessidade de estar sempre "ligado" e "correto" empobrece.

Se o autor, Rogério Simões, mantivesse o texto original, não seria vergonhoso. Já que ele resolveu dar uma de ombudsman, que aproveitasse a situação para exemplificar ainda mais a questão principal de toda a confusão gerada pela Paula, a dificuldade do tal "cálculo delicado". Seria ainda mais interessante um segundo post mostrando o quão difícil é isso. Poderia ter até o mote "olha, quis mostrar os problemas de fazer jornalismo e, na mesma hora, o pior deles aconteceu de novo, entenderam a questão?".

Porém, faltou visão ao Rogério, ou vontade, ou coragem, para mostrar que os jornalistas erram toda hora, todo dia, e consertar esses erros para não comprometer inocentes e a realidade também é peça importante no exercício da profissão. Infelizmente, só demonstrou que o corporativismo é vivo e forte no setor, que nunca aprende com seus próprios erros até que seja tarde demais. E mesmo assim, quando tentam, aprendem errado. Esse blog da BBC é para ajudar o leitor a "a entender melhor o contexto do noticiário internacional". Já entendemos. Na BBC, na TV Brasil, TVE, na Globo ou na Carta Capital, o problema é sempre o mesmo.

Foto: Bad News

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