Os incríveis erros do G1
Discutindo com meu antigo professor, deparei-me com uma situação inimaginável. Disse ele, “essa nova geração é incapaz de aprender”. Tomei primeiro como uma brincadeira normal entre ele, um educador profissional, e eu, alguém que pagou seu cursinho ensinando muitos outros a como entrar no IME e no ITA. Porém, ele falava sério. A geração atual parece incapaz de reter conhecimento, e muito menos de conseguir seguir sobre os próprios passos o caminho da educação.
Creio que em cinco anos eles estarão no mercado de trabalho. Em dez, nem serão mais estagiários. O pessimismo me abala quando penso na situação. Hoje mesmo, nos mais variados locais, há uma amostra do amanhã. Sinto mais quando vejo que o jornalismo, uma área de excelência das letras (apesar dos pesares), agora é medida por baixo, e não pelos melhores colunistas ou jornalistas.
Todos os bons escritores do Brasil trabalharam de alguma forma em jornais (e os ruins também). Garcia Marquez, Saramago, Hemingway também. Outros tantos professores. Mas a tradição perdeu espaço. Não porque aqueles bons na escrita não queiram um emprego numa publicação. A razão deve ser outra, embora eu realmente não a enxergue. E o problema está aqui, é real e os veículos parecem desconhecer a extensão dessa crise. E o melhor exemplo disso é o melhor jornalismo brasileiro, o da Globo.
Há dois anos a Globo lançou o portal G1 de notícias. Ai afunila-se todo o conteúdo jornalístico produzido pela empresa. Essa abrangência visava, claro, facilitar a circulação das notícias. Entretanto, esse propósito foi solapado por outro: a de reunir num mesmo lugar tudo o que o jornalismo nacional produz de ruim. Claro, todos os aspectos da vida possuem coisas boas e más, o problema é quando essa última sobressai.
Tento mostrar com alguns exemplos essa questão, mas o problema é imenso. Ao menos uma chamada por dia do portal está cheia de erros primários, tanto de redação como de gramática. Sobre a arte do jornalismo, nem se fala. É um trabalho ingrato, mas pior é precisar ler tudo isso diariamente.
É espantoso a falta de vocabulário dos estagiários do portal. Eles ouvem algo e acham que é sinônimo de algo, perdendo totalmente a ironia de certos comentários internos entre jornalistas. Nessa matéria sobre carnaval, o estagiário-reporter não conseguiu falar com a delegacia para, enfim, verificar a história apurada e assim publicá-la, mas ele usa o verbo repercutir para expressar essa ação.
Repercutir tem duas acepções no Houaiss, “refletir(-se), reproduzir(-se) [som e luz]” ou “causar impressão generalizada”. Até mesmo no Dicionário Aulete, que não é lá essas coisas, aparece as definições. De acordo com Dório Victor, o G1 não conseguiu falar a delegacia para que o causo dos sambistas impressionasse, tivesse conseqüências ou causasse comentários. Pela ética jornalística, ele nem deveria ter publicado a história sem confirmação.
Outra matéria de Daniel Buarque (que não presta homenagem alguma ao sobrenome) fala do referendo na Venezuela. Bom, no tal referendo há duas escolhas, o “sim” ou o “não”. Mas olhe que, para ele, há somente a alternativa “Sim”. Ou seja, será Daniel um agente da revolução bolivariana que tenta de maneira sub-limiar converter os leitores ou apenas um redator descuidado? Uma observação interessante é a permanência do neologismo repuita, algo nunca visto por mim antes e sem referência no manual do novo acordo ortográfico.
Pior ainda é o infográfico sobre o socialismo do portal, ainda em espanhol. Oras, se o site é brasileiro, porque não traduziram para o português? O que diabos é “cogollos representantes”?
O mais grave, entretanto, continua sendo a adjetivação. Não sei a razão, mas assassinos, mesmo depois de condenados, ou mortos em troca de tiros com a policia ou entre eles mesmo, são sempre suspeitos. No caso de Césare Battisti, isso vai ainda mais longe. Notem que o portal diz que ele é “acusado de terrorismo”. Não é não. Ele foi condenado por terrorismo, terrorista é, assassino é. Apesar disso, os repórteres do portal covardemente (ou será aproximação ideológica) não mencionam o atual estado do cidadão italiano.
Nem quando a situação é escandalosa a coisa melhora no portal. Durante o quebra-quebra promovido na Favela de Paraisópolis em São Paulo, o G1 foi incapaz até de identificar o bandido morto que deu origem ao confronto. Por todas as reportagens você lê semente um suposto bandido, mesmo que ele condenado e foragido da prisão. Se você não souber o nome dele, Marcos Purcino, nunca encontraria nada no portal. Aliás, só há duas matérias, originadas na Agência Estado e reproduzida pelo G1. Em compensação, há centenas sobre o conflito sem mencionar o bandido condenado em questão. Veja por si mesmo.
Há outros casos escandalosos onde assassinos confessos são apenas acusados. Eles não negam a autoria do crime, como o Gil Rugai, por exemplo. São casos diferentes que recebem o mesmo tratamento de uma fofoca de celebridades. “Luana Piovanni pode estar com um casinho novo com fulano de tal”. Não há mais pesos nas redações. Não há investigação. Não há profissionalismo nem compromisso em buscar a verdade, nem mostrar o fato real. O G1 mostra que serve apenas para retransmitir uma informação dada por terceiros. Como já disse antes, falta coragem para verificar a verdade, seja na guerra ou na rua do lado.
Isso cria uma situação inusitada. Ao invés de trabalhar para fazer jus ao salário e a profissão, o jornalismo virou apenas uma cesta de vaidades. Blogs na rede fazem uma cobertura mais completa que o jornalista profissional. Diante da sua própria falha, o jornalista tenta ocultar as novas informações, ou fingem que elas nem existem. Antigamente, a competição motivava esse pessoal. Se fulano me passou a perna, faria tudo para dar o troco. A mediocridade assola as mesas dos jornais. Só não entendo como os responsáveis pelo maior jornal do país aceitam tão baixo padrão, muito aquém do tão difundido Padrão Globo de Jornalismo.
A morte do antigo diretor do Departamento de Jornalismo da Globo, Evandro Carlos de Andrade, pode ter piorado a situação geral. O atual, Carlos Henrique Schroeder, não sei por qual razão parece distanciado da realidade que assola essa área da empresa. O G1, nesse contexto, aparece como um produto final da situação que se arrasta por anos. A Globo News, essa sim, foi afetada e perdeu em muito a qualidade que um dia teve, sendo hoje só um vale a pena ver de novo permanente de notícias velhas. Ambos parecem vítimas de espaço reduzido, embora tanto a tv a cabo quanto a internet ofereçam possibilidades ilimitadas nesse sentido.
Resta saber se algum acontecimento abalará esses fracos alicerces. Não, não será a competição da Band News ou da similiar Record News. Resta a Globo aprender com as concorrentes e definir uma linha editorial. Um material tão diversificado termina uma porcaria. Minha maior curiosidade é saber quais sites esses novos repórteres, jornalistas e estagiários entrem durante seu trabalho. Não me admiraria que os da Escola Dines de Não Fazer Jornalismo fossem os primeiros na lista.
Foto: A Hermida







“Disse ele, ‘essa nova geração é incapaz de aprender’. Tomei primeiro como uma brincadeira normal entre ele, um educador profissional, e eu, alguém que pagou seu cursinho ensinando muitos outros a como entrar no IME e no ITA. Porém, ele falava sério. A geração atual parece incapaz de reter conhecimento, e muito menos de conseguir seguir sobre os próprios passos o caminho da educação.“
Sinceramente, não é isso que vejo: os pontos de corte nos vestibulares continuam estáveis ou aumentando. E você fala em “conhecimento”, mas só falou de posturas ideológicas, bom senso (traduzir um texto do espanhol para o português para os leitores brasileiros)e criticou a escolha de palavras. É simplesmente ridículo que alguém queira se fazer de juiz dos outros com bases tão pobres.
Desculpa aí Camilo, mas você ratifica o que acabo de expor. Não julguei ninguém e não dei qualquer sentença. O que mostro são fatos. Não há no verbo repuitir qualquer ideologia. Uma matéria mal escrita é igual a um comentário mal redigido, como o seu. Bases pobres fazem uma pessoa ser incapaz de entender um texto. De não ir atrás para confirmar informações. Obrigado e passar bem.
Lefebvre,
Admiro muito a qualidade dos teus textos, tanto que sou assinante pelo FeedBurner. Ademais, liberal que sou, aprecio os teus questionamentos político-ideológicos — e achei uma pena o fim do Capitólio.
No entanto, no caso deste texto, acho que “forçaste a barra” em alguns pontos.
O que chama de neologismo (“repuita”) trata-se de um erro de digitação (deveria ser “repita”, presumo). Não que deixe de ser uma falha, mas culpar o ensino por o digitador, ao acaso, teclar duas letras tão próximas é um exagero.
A mesma matéria desse Daniel Buarque, aliás, cita várias vezes o “Não” — porém, em uma parte destinada ao favoritismo do “Sim”, é lógico que a ênfase será dada a este lado.
Quanto aos outros erros, especialmente a semântica do “acusado” x “condenado”, concordo plenamente contigo.
Um abraço.
Não creio que me animei demais Rafael. Eu nem falo sobre ideologias, como o esquerda Camilo disse num comentário que não liberei. Falo da arte. Como se pintores discutissem pincel, tinta e pinceladas.
Se um pintor dá uma pincelada errada na pintura, ele vai arrumar. Nem toco na pintura em si, mas da parte técnica. Um erro claro de digitação não pode passar assim, principalmente num texto que ficou horas como a manchete principal do site.
E mesmo que a adjetivação dos crimes cometidos pelo foco da reportagem possa parecer ideológica, ela é na verdade algo técnico, hoje manipulado na faculdade de jornalismo. Chamar pelo que é, e o Cesare é um assassino condenado. Nem importa se tenha ou não puxado o gatilho. O Charles Mason nunca matou ninguém e ainda assim é um psicopata (os assassinatos foram cometidos pelos seguidores). O Osama Bin Laden também não estava no avião, então não tem nada contra ele?
O jornalista esquerdinha não pode dizer que ele é “acusado”. Ele foi condenado, a culpa foi provada. Para melhorar a imagem do cara, só poderiam usar o termo “fugitivo”, que é verdade. Isso é técnico, como o repuitir.
Meu comentário é breve: adorei o seu texto e concordo que a questão é, sim, um problema de conhecimento da boa escrita e uma retórica deficiente (uma epidemia entre jornalistas). Parabéns!
Competente como sempre.
Instigador como poucos.
Sensato, sim!
Obrigada pelo texto.
Deixando bem claro que a capital da suiça nao e zurique e sim berna
Mais uma do G1
Esses dias eu tava vendo as noticias do G1 e me deparei com essa raridade:
Polêmica da chacaça chega ao Congresso Nacional
Estive até pensando: Eu não tenho segundo grau, fugi da escola há alguns anos, será que eu consigo um servicinho no G1? Kkkk. Valew galera, parabéns pelo site!!!!
Eu fiz um tumblr pra satirizar a situação. É http://g1fail.tumblr.com
Dêem uma olhada lá!