Os incríveis erros do G1

fevereiro 10 12 Comments Category: Tecnologia

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Estagiários fazendo o que melhor sabem

Es­ta­giários fa­zendo o que melhor sabem

Dis­cu­tindo com meu antigo pro­fessor, deparei-​me com uma si­tuação ini­ma­gi­nável. Disse ele, “essa nova ge­ração é in­capaz de aprender”. Tomei pri­meiro como uma brin­ca­deira normal entre ele, um edu­cador pro­fis­sional, e eu, alguém que pagou seu cur­sinho en­si­nando muitos outros a como entrar no IME e no ITA. Porém, ele falava sério. A ge­ração atual parece in­capaz de reter co­nhe­ci­mento, e muito menos de con­seguir seguir sobre os pró­prios passos o ca­minho da educação.

Creio que em cinco anos eles es­tarão no mercado de tra­balho. Em dez, nem serão mais es­ta­giários. O pes­si­mismo me abala quando penso na si­tuação. Hoje mesmo, nos mais va­riados locais, há uma amostra do amanhã. Sinto mais quando vejo que o jor­na­lismo, uma área de ex­ce­lência das letras (apesar dos pe­sares), agora é medida por baixo, e não pelos me­lhores co­lu­nistas ou jornalistas.

Todos os bons es­cri­tores do Brasil tra­ba­lharam de alguma forma em jornais (e os ruins também). Garcia Marquez, Sa­ramago, He­mingway também. Outros tantos pro­fes­sores. Mas a tra­dição perdeu espaço. Não porque aqueles bons na es­crita não queiram um em­prego numa pu­bli­cação. A razão deve ser outra, embora eu re­al­mente não a en­xergue. E o pro­blema está aqui, é real e os veí­culos pa­recem des­co­nhecer a ex­tensão dessa crise. E o melhor exemplo disso é o melhor jor­na­lismo bra­si­leiro, o da Globo.

Há dois anos a Globo lançou o portal G1 de no­tícias. Ai afunila-​se todo o con­teúdo jor­na­lístico pro­duzido pela em­presa. Essa abran­gência visava, claro, fa­ci­litar a cir­cu­lação das no­tícias. En­tre­tanto, esse pro­pósito foi so­lapado por outro: a de reunir num mesmo lugar tudo o que o jor­na­lismo na­cional produz de ruim. Claro, todos os as­pectos da vida possuem coisas boas e más, o pro­blema é quando essa última sobressai.

Tento mostrar com alguns exemplos essa questão, mas o pro­blema é imenso. Ao menos uma chamada por dia do portal está cheia de erros pri­mários, tanto de re­dação como de gra­mática. Sobre a arte do jor­na­lismo, nem se fala. É um tra­balho in­grato, mas pior é pre­cisar ler tudo isso diariamente.

É es­pantoso a falta de vo­ca­bu­lário dos es­ta­giários do portal. Eles ouvem algo e acham que é sinônimo de algo, per­dendo to­tal­mente a ironia de certos co­men­tários in­ternos entre jor­na­listas. Nessa ma­téria sobre car­naval, o estagiário-​reporter não con­seguiu falar com a de­le­gacia para, enfim, ve­ri­ficar a his­tória apurada e assim publicá-​la, mas ele usa o verbo re­per­cutir para ex­pressar essa ação.

Matéria que faz uso errado de verbos

Ma­téria que faz uso errado de verbos

Re­per­cutir tem duas acepções no Houaiss, “refletir(-se), reproduzir(-se) [som e luz]” ou “causar im­pressão ge­ne­ra­lizada”. Até mesmo no Di­ci­o­nário Aulete, que não é lá essas coisas, aparece as de­fi­nições. De acordo com Dório Victor, o G1 não con­seguiu falar a de­le­gacia para que o causo dos sam­bistas im­pres­si­o­nasse, ti­vesse con­seqüências ou cau­sasse co­men­tários. Pela ética jor­na­lística, ele nem de­veria ter pu­blicado a his­tória sem confirmação.

Outra ma­téria de Daniel Bu­arque (que não presta ho­me­nagem alguma ao so­brenome) fala do re­fe­rendo na Ve­ne­zuela. Bom, no tal re­fe­rendo há duas es­colhas, o “sim” ou o “não”. Mas olhe que, para ele, há so­mente a al­ter­nativa “Sim”. Ou seja, será Daniel um agente da re­vo­lução bo­li­va­riana que tenta de ma­neira sub-​limiar con­verter os lei­tores ou apenas um re­dator des­cuidado? Uma ob­ser­vação in­te­res­sante é a per­ma­nência do ne­o­lo­gismo re­puita, algo nunca visto por mim antes e sem re­fe­rência no manual do novo acordo ortográfico.

Coisa errada

Duas opções, sim e sim, e o famoso verbo “repuitir”.

Pior ainda é o in­fo­gráfico sobre o so­ci­a­lismo do portal, ainda em es­panhol. Oras, se o site é bra­si­leiro, porque não tra­du­ziram para o por­tuguês? O que diabos é “co­gollos re­pre­sen­tantes”?

O mais grave, en­tre­tanto, con­tinua sendo a ad­je­ti­vação. Não sei a razão, mas as­sas­sinos, mesmo depois de con­de­nados, ou mortos em troca de tiros com a po­licia ou entre eles mesmo, são sempre sus­peitos. No caso de Césare Bat­tisti, isso vai ainda mais longe. Notem que o portal diz que ele é “acusado de ter­ro­rismo”. Não é não. Ele foi con­denado por ter­ro­rismo, ter­ro­rista é, as­sassino é. Apesar disso, os re­pór­teres do portal co­var­de­mente (ou será apro­xi­mação ide­o­lógica) não men­cionam o atual estado do ci­dadão italiano.

Mesmo condenado, ele ainda é suspeito?

Mesmo con­denado, ele ainda é suspeito?

Nem quando a si­tuação é es­can­dalosa a coisa me­lhora no portal. Du­rante o quebra-​quebra pro­movido na Favela de Pa­rai­só­polis em São Paulo, o G1 foi in­capaz até de iden­ti­ficar o bandido morto que deu origem ao con­fronto. Por todas as re­por­tagens você lê se­mente um su­posto bandido, mesmo que ele con­denado e fo­ragido da prisão. Se você não souber o nome dele, Marcos Purcino, nunca en­con­traria nada no portal. Aliás, só há duas ma­térias, ori­gi­nadas na Agência Estado e re­pro­duzida pelo G1. Em com­pen­sação, há cen­tenas sobre o con­flito sem men­cionar o bandido con­denado em questão. Veja por si mesmo.

Há outros casos es­can­da­losos onde as­sas­sinos con­fessos são apenas acu­sados. Eles não negam a au­toria do crime, como o Gil Rugai, por exemplo. São casos di­fe­rentes que re­cebem o mesmo tra­ta­mento de uma fofoca de ce­le­bri­dades. “Luana Pi­o­vanni pode estar com um ca­sinho novo com fulano de tal”. Não há mais pesos nas re­dações. Não há in­ves­ti­gação. Não há pro­fis­si­o­na­lismo nem com­pro­misso em buscar a verdade, nem mostrar o fato real. O G1 mostra que serve apenas para re­trans­mitir uma in­for­mação dada por ter­ceiros. Como já disse antes, falta co­ragem para ve­ri­ficar a verdade, seja na guerra ou na rua do lado.

Isso cria uma si­tuação inu­sitada. Ao invés de tra­balhar para fazer jus ao sa­lário e a pro­fissão, o jor­na­lismo virou apenas uma cesta de vai­dades. Blogs na rede fazem uma co­bertura mais com­pleta que o jor­na­lista pro­fis­sional. Diante da sua própria falha, o jor­na­lista tenta ocultar as novas in­for­mações, ou fingem que elas nem existem. An­ti­ga­mente, a com­pe­tição mo­tivava esse pessoal. Se fulano me passou a perna, faria tudo para dar o troco. A me­di­o­cridade assola as mesas dos jornais. Só não en­tendo como os res­pon­sáveis pelo maior jornal do país aceitam tão baixo padrão, muito aquém do tão di­fundido Padrão Globo de Jornalismo.

A morte do antigo di­retor do De­par­ta­mento de Jor­na­lismo da Globo, Evandro Carlos de An­drade, pode ter pi­orado a si­tuação geral. O atual, Carlos Hen­rique Sch­roeder, não sei por qual razão parece dis­tan­ciado da re­a­lidade que assola essa área da em­presa. O G1, nesse con­texto, aparece como um produto final da si­tuação que se ar­rasta por anos. A Globo News, essa sim, foi afetada e perdeu em muito a qua­lidade que um dia teve, sendo hoje só um vale a pena ver de novo per­ma­nente de no­tícias velhas. Ambos pa­recem ví­timas de espaço re­duzido, embora tanto a tv a cabo quanto a in­ternet ofe­reçam pos­si­bi­li­dades ili­mi­tadas nesse sentido.

Resta saber se algum acon­te­ci­mento abalará esses fracos ali­cerces. Não, não será a com­pe­tição da Band News ou da si­miliar Record News. Resta a Globo aprender com as con­cor­rentes e de­finir uma linha edi­torial. Um ma­terial tão di­ver­si­ficado termina uma por­caria. Minha maior cu­ri­o­sidade é saber quais sites esses novos re­pór­teres, jor­na­listas e es­ta­giários entrem du­rante seu tra­balho. Não me ad­mi­raria que os da Escola Dines de Não Fazer Jor­na­lismo fossem os pri­meiros na lista.

Foto: A Hermida

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12 Responses

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  1. Disse ele, ‘essa nova ge­ração é in­capaz de aprender’. Tomei pri­meiro como uma brin­ca­deira normal entre ele, um edu­cador pro­fis­sional, e eu, alguém que pagou seu cur­sinho en­si­nando muitos outros a como entrar no IME e no ITA. Porém, ele falava sério. A ge­ração atual parece in­capaz de reter co­nhe­ci­mento, e muito menos de con­seguir seguir sobre os pró­prios passos o ca­minho da edu­cação.“
    Sin­ce­ra­mente, não é isso que vejo: os pontos de corte nos ves­ti­bu­lares con­tinuam es­táveis ou au­men­tando. E você fala em “co­nhe­ci­mento”, mas só falou de pos­turas ide­o­ló­gicas, bom senso (tra­duzir um texto do es­panhol para o por­tuguês para os lei­tores brasileiros)e cri­ticou a es­colha de pa­lavras. É sim­ples­mente ri­dículo que alguém queira se fazer de juiz dos outros com bases tão pobres.

    Camilo 12 fevereiro 2009 at 11:31 Permalink
    • Des­culpa aí Camilo, mas você ra­tifica o que acabo de expor. Não julguei ninguém e não dei qualquer sen­tença. O que mostro são fatos. Não há no verbo re­puitir qualquer ide­o­logia. Uma ma­téria mal es­crita é igual a um co­men­tário mal re­digido, como o seu. Bases pobres fazem uma pessoa ser in­capaz de en­tender um texto. De não ir atrás para con­firmar in­for­mações. Obrigado e passar bem.

      Lefebvre de Saboya 12 fevereiro 2009 at 11:58 Permalink
  2. Le­febvre,
    Admiro muito a qua­lidade dos teus textos, tanto que sou as­si­nante pelo Fe­ed­Burner. Ademais, li­beral que sou, aprecio os teus ques­ti­o­na­mentos político-​ideológicos — e achei uma pena o fim do Capitólio.

    No en­tanto, no caso deste texto, acho que “for­çaste a barra” em alguns pontos.

    O que chama de ne­o­lo­gismo (“re­puita”) trata-​se de um erro de di­gi­tação (de­veria ser “repita”, presumo). Não que deixe de ser uma falha, mas culpar o ensino por o di­gi­tador, ao acaso, teclar duas letras tão pró­ximas é um exagero.

    A mesma ma­téria desse Daniel Bu­arque, aliás, cita várias vezes o “Não” — porém, em uma parte des­tinada ao fa­vo­ri­tismo do “Sim”, é lógico que a ênfase será dada a este lado.

    Quanto aos outros erros, es­pe­ci­al­mente a se­mântica do “acusado” x “con­denado”, con­cordo ple­na­mente contigo.

    Um abraço.

    Rafael Spengler 18 fevereiro 2009 at 17:30 Permalink
    • Não creio que me animei demais Rafael. Eu nem falo sobre ide­o­logias, como o es­querda Camilo disse num co­men­tário que não li­berei. Falo da arte. Como se pin­tores dis­cu­tissem pincel, tinta e pinceladas.

      Se um pintor dá uma pin­celada errada na pintura, ele vai ar­rumar. Nem toco na pintura em si, mas da parte técnica. Um erro claro de di­gi­tação não pode passar assim, prin­ci­pal­mente num texto que ficou horas como a man­chete prin­cipal do site.

      E mesmo que a ad­je­ti­vação dos crimes co­me­tidos pelo foco da re­por­tagem possa pa­recer ide­o­lógica, ela é na verdade algo técnico, hoje ma­ni­pulado na fa­culdade de jor­na­lismo. Chamar pelo que é, e o Cesare é um as­sassino con­denado. Nem im­porta se tenha ou não puxado o ga­tilho. O Charles Mason nunca matou ninguém e ainda assim é um psi­copata (os as­sas­si­natos foram co­me­tidos pelos se­gui­dores). O Osama Bin Laden também não estava no avião, então não tem nada contra ele?

      O jor­na­lista es­quer­dinha não pode dizer que ele é “acusado”. Ele foi con­denado, a culpa foi provada. Para me­lhorar a imagem do cara, só po­deriam usar o termo “fu­gitivo”, que é verdade. Isso é técnico, como o re­puitir.

      Lefebvre de Saboya 18 fevereiro 2009 at 18:27 Permalink
  3. Meu co­men­tário é breve: adorei o seu texto e con­cordo que a questão é, sim, um pro­blema de co­nhe­ci­mento da boa es­crita e uma re­tórica de­fi­ciente (uma epi­demia entre jor­na­listas). Parabéns!

    Émile Andrade 4 abril 2009 at 15:51 Permalink
  4. Com­pe­tente como sempre.
    Ins­ti­gador como poucos.
    Sensato, sim!
    Obrigada pelo texto.

    Geane Oliveira 28 maio 2009 at 10:26 Permalink
  5. Julia 27 agosto 2009 at 15:09 Permalink
  6. Mais uma do G1

    Esses dias eu tava vendo as no­ticias do G1 e me de­parei com essa raridade:

    Po­lêmica da chacaça chega ao Con­gresso Nacional

    Estive até pen­sando: Eu não tenho se­gundo grau, fugi da escola há alguns anos, será que eu consigo um ser­vi­cinho no G1? Kkkk. Valew galera, pa­rabéns pelo site!!!!

    Péricles 20 outubro 2009 at 19:02 Permalink
  7. Eu fiz um tumblr pra sa­ti­rizar a si­tuação. É http://​g1fail​.tumblr​.com
    Dêem uma olhada lá!

    Pedro 5 março 2010 at 16:20 Permalink

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