Bagno, Marcos - A Norma Oculta

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Foco!

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Marcos Bagno é doutor em lingüística e pro­fessor da UNB. Seus livros são fi­guras certas nas aulas dos cursos de co­mu­ni­cação. Pos­si­vel­mente, é o pri­meiro de dis­cussão da língua que o gra­duando toma co­nhe­ci­mento. É ine­gável que A NORMA OCULTA suscita pontos im­por­tantes na re­flexão, nosso modo de falar e in­te­ragir so­ci­al­mente com os outros falantes.

En­tre­tanto, assim como é pro­vo­cadora, a obra pode en­ganar os menos acos­tu­mados ao tema (e que por sinal, é maioria dos alunos de uni­ver­si­dades). Talvez o melhor mo­mento para abordá-​lo fosse a partir do 3º se­mestre, quando o es­tu­dante já ad­quiriu o mínimo da ba­gagem teórica. Nem sempre o de­se­jável é o ro­ti­neiro, por isso tomo a au­to­ridade dada a mim por Bagno (afinal, como ele diz, sou um fa­lante da língua e, por­tanto, es­pe­ci­a­lista no as­sunto) para des­trinchar os pre­con­ceitos e erros que apa­recem cons­tan­te­mente dentro do livro. De outra forma, os des­lizes po­deriam sim­pli­ficar demais o ra­ci­o­cínio dos que de­sejam co­nhecer mais os es­tranhos sons que pro­nun­ciamos diariamente.

Antes de mais nada, de­vemos ob­servar que Marcos Bagno de A NORMA OCULTA não é um pro­fessor in­te­ressado em de­sen­volver o senso crítico de ninguém. Ele está mais para um com­ba­tente. Está em guerra com os gra­má­ticos. E como das guerras só saem per­de­dores, Bagno destrói tudo e a todos, não dei­xando pedra sobre pedra para a de­mo­cracia que visa ins­taurar. Na ten­tativa de acabar com um pre­con­ceito real, ele im­pos­si­bilita o leitor de ad­quirir algo muito mais im­por­tante do que um simples pan­fleto dou­tri­nário: pensar di­reito – a única arma eficaz contra o mundo in­justo traçado pelo autor.

O VALOR DA LETRA “S”

A NORMA OCULTA pre­tende ra­ci­o­cinar sobre língua e poder na so­ci­edade bra­si­leira. De acordo com o autor, o último reduto do com­por­ta­mento pre­con­cei­tuoso é a dis­cri­mi­nação através da língua: falar ou não errado, usar ou não a norma culta gra­ma­tical. Ao cri­ticar falhas de mor­fos­sintaxe no dis­curso ou texto de uma pessoa, o que está por trás desse “cor­re­ci­o­nismo” é a ten­tativa da classe do­mi­nante bra­si­leira em manter a de­si­gualdade econômico-​social no país.

O livro começa e termina uti­li­zando como exemplo a re­cepção do pre­si­dente bra­si­leiro Luiz Inácio na grande im­prensa. Vários ar­ti­cu­listas re­la­cionam o “re­la­xismo lingüístico” do pre­si­dente com uma pos­sível falta de cultura e ca­pa­cidade para co­mandar a nação.

Eles in­sistem em fo­ca­lizar os erros de con­cor­dância de Lula e sua forma simples (ou sim­plória?) de se ex­pressar. Para Bagno, isso nada mais é uma es­tra­tégia po­lítica contra a imagem da­quele e o que ele re­pre­senta (po­li­ti­ca­mente) na his­tória bra­si­leira. É fácil ver isso no tom do dis­curso de Bagno, enal­te­cendo a vi­tória nas eleições de 2002: (os grifos são meus, a não ser que eu diga o contrário)

“Seria uma ilusão supor que uma vi­tória como foi a de Lula nas eleições de 2002 bas­taria para que o pre­con­ceito lingüístico de­sa­pa­re­cesse de vez da nossa sociedade” – Pag. 15

“A his­tória pessoal de Lula é, sem dúvida, uma re­vo­lução “quase mágica”, mas é uma re­vo­lução in­di­vidual, par­ti­cular, digna de as­sombro, é claro, num país tão in­justo quanto o nosso.” – Pag 38

Para mostrar o erro da im­prensa, Bagno usa como exemplo pessoas con­si­de­radas “letradas” – como outras ma­térias “res­pei­tadas” vei­cu­ladas em jornais (pág 26) – que também co­metem os mesmos “erros”, pro­vando, em tese, a nu­lidade desses julgamentos.

“Em ambas as co­lunas, Dora Kramer deixa bem claro seu total des­preparo para tratar desses as­suntos, uma vez que fala de “plural e con­cor­dância verbal” e de “lições de plural e con­cor­dância” como se fossem duas coisas dis­tintas, como se as regras de plural não fi­zessem parte das regras de con­cor­dância (verbal e no­minal), como de fato fazem.” – Pág 22.

Porém, lem­bremos que Bagno tenta de­sa­cre­ditar a opinião dos jor­na­listas usando o mesmo jul­ga­mento: eles também co­mentem erros e não sabem do que falam. As crí­ticas ne­ga­tivas contra o Lula valem-​se do mesmo teor: lula não tem co­nhe­ci­mento para isso ou aquilo, por­tanto é in­capaz de fazer isso ou aquilo. O que o autor não ex­plica é por que formas de análise se­me­lhantes são vá­lidas no caso dele, mas não nos dos jor­na­listas. Por que Lula pode go­vernar o Brasil na base de tra­pa­lhadas e o jor­na­lista não pode, também atra­pa­lhado, tentar ana­lisar a língua? Mais, por que le­va­ríamos a sério em livro cheio de tra­pa­lhadas mesmo de um autor dou­torado e vacinado?

“As ob­ser­vações da jor­na­lista, por­tanto, de­monstram a atitude au­to­ri­tária de quem se acha com o di­reito de opinar e propor le­gis­lação sobre o que des­co­nhece, apenas por re­ve­renciar o senso comum, sem criticá-​lo com ins­tru­mento teórico ade­quado: não sendo lingüista nem pe­dagoga, com que fun­da­men­tação ela pode sus­tentar suas pro­postas de re­visão dos cur­rí­culos escolares?” – Pág. 23.

O mais in­crível é o Lula ter pleno do­mínio da norma culta. No dia a dia, ele atua nos pa­lanques usando a lin­guagem dos menos edu­cados. En­tre­tanto, nos dis­cursos em 2005, depois da crise no go­verno, quando in­flamado e sem ro­teiros para seguir, Lula de­monstra saber falar muito bem, fle­xi­o­nando os verbos cor­re­ta­mente, usando os co­nec­tivos de forma apro­priada, etc, etc, etc. Lula não é mais parte do povo comum: ele se educou lingüis­ti­ca­mente, ainda que te­nhamos sérias dú­vidas se o fez cul­tu­ral­mente. A qua­lidade veio depois da autoridade.

PRECONCEITO DE QUEM, CARA PÁLIDA?

O pre­con­ceito oculto detrás do pu­rismo gra­ma­tical é ver­da­deiro. Ele existe, ponto. En­tre­tanto, pensar que todo pu­rismo é um ato dis­si­mulado de pre­con­ceito é lo­gi­ca­mente errado. E também vemos isso na prática. De­fender a língua não sig­nifica me­nos­prezar quem não pôde con­cluir os es­tudos ou não teve con­dições ou vontade de se ins­truir por conta própria. Imagine se a li­te­ratura fosse en­gajada na uni­ver­sa­li­zação do falar mal.

Que ninguém se iluda: só a leitura in­tensa permite co­nhecer os múl­tiplos re­cursos da língua e usá-​los com efi­ci­ência, sem a de­coreba gra­ma­ti­queira“
Marcos Bagno

Porém, du­rante a obra, somos le­vados a crer que se não o é sempre, na maioria dos casos é pre­con­ceito (cons­ciente ou inconsciente).

“(…) em boa medida, nós somos a língua que fa­lamos, e acusar alguém de não saber falar sua própria língua ma­terna é tão ab­surdo quanto acusar essa pessoa de não saber “usar”corretamente a visão (isto é, afirmar o ab­surdo de que alguém é capaz de en­xergar, mas não é capaz de ver) ou o olfato (isto é, afirmar o ab­surdo de que alguém é capaz de sentir o cheiro, mas não de aspirá-​lo).” Pág. 17 [grifos do autor].

Se Marcos Bagno é doutor em lingüística, de­veria comprar um livro de lógica básica (bem como um de fi­lo­sofia). As duas ana­logias são er­radas de qualquer ponto de vista. Pri­meiro, elas não se equi­valem. Se assim fosse, o “ab­surdo” seria alguém ver e não ser capaz de deixar a luz entrar na retina; ou alguém ser capaz de as­pirar e não con­seguir iden­ti­ficar o cheiro.

Isso porque “en­xergar” não é sinônimo de “ver”. Quando as pa­lavras perdem o seu poder sim­bólico (fruto da falta de leitura e cultura) criam, aí sim, pro­po­sições ab­surdas como essas.

En­xergar se re­la­ciona com o ato fi­si­o­lógico. Se você tem o globo, a retina e demais partes do sistema ocular bem for­mados, você poderá en­xergar. En­tre­tanto, um daltônico recebe a luz verde na retina. Por uma série de fa­tores, vê ver­melho. Ou um es­qui­zo­frênico, que vê alu­ci­nações mas não en­xerga os monstros (não há fi­si­ca­mente ne­nhuma imagem na retina).

Falar e dizer seguem a mesma linha. Lula, por exemplo. Fala que foi traído, mas não diz quem foi. Uma pessoa pode falar du­rante horas mas não dizer nada, i.e., seu dis­curso não tem ne­nhuma in­tenção, não transmite qualquer dado re­le­vante para o as­sunto em questão. Também ler. Qualquer pessoa al­fa­be­tizada é capaz de in­ter­pretar os ca­rac­teres em um livro do Sartre, mas só alguns terão a ba­gagem ne­ces­sária para en­tender o que ele quis dizer.

LÍNGUA É PODER

A NORMA OCULTA não con­segue acabar com os pro­blemas que se propõe a ex­pli­citar. Muito menos desnudá-​los de forma correta. Du­rante todo o livro Bagno usa as mesmas si­tu­ações para ilustrar va­lores opostos. Tudo parece ser re­lativo. Sua missão é jus­ti­ficar sua luta contra os gra­má­ticos e, no fim, também jus­ti­ficar uma postura po­lítica pessoal.

Ao acusar uma “elite pri­vi­le­giada” de “oprimir” os bra­si­leiros “ví­timas de anos de de­si­gualdade”, Marcos deixa de ana­lisar os pro­blemas es­tru­turais que le­varam e levam o povo a des­co­nhecer as regras gra­ma­ticais da língua portuguesa.

Na página 124, lê-​se que nas so­ci­e­dades onde a cultura es­crita é oni­pre­sente, existem ins­ti­tuições que inibem as forças de mu­dança da língua. O autor es­quece de dizer (in­ten­ci­o­nal­mente?) que essas so­ci­e­dades são as mais ricas, de­mo­crá­ticas e justas – além de terem enorme in­fluência econômica, social e cul­tural nos países de ter­ceiro mundo.

Esse poder nasce quando há opor­tu­ni­dades para povo ter acesso a uma boa edu­cação. Ao tentar jus­ti­ficar a falta dessa edu­cação no Brasil, Bagno presta um des­serviço ao país. Ao invés de lutar para que as pessoas evoluam, ele parece querer que as res­peitem pela sua ig­no­rância, e não “apesar da”. Neste caso, não é só válido – é fun­da­mental esse res­peito para existir uma de­mo­cracia. Mas na­quele, ao poupar alguém pela sua in­ca­pa­cidade, to­mamos um ca­minho muito pe­rigoso. Não é apenas uma questão gra­ma­tical. Em última ins­tância, é uma questão de in­te­gridade física: se duas pessoas não sabem se ex­pressar, se eles não se com­pre­endem, ter­minam sempre usando a violência.

Triste e de­cep­ci­o­nante é a obra de Marcos Bagno. A NORMA OCULTA é um livro cheio de erros in­fantis de dis­curso, ra­ci­o­cínio e análise. Não de­veria ser levado a sério, como o fazem várias pessoas. É antes de tudo, para aqueles que sabem pensar, a fa­gulha inicial de uma re­flexão pro­funda sobre o povo bra­si­leiro. Se bem feita, dará grandes frutos. Do con­trário, se se­guirmos a lógica do autor, vol­ta­remos ao jardim de in­fância, quando dis­cu­tíamos fe­roz­mente para de­cidir se o mais feio era eu ou você.

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