Jornalismo e mídia "internet"

Bad News

Bad News

Vez ou outra, o jor­na­lista acha uma in­for­mação apenas com a sorte. Apenas por estar no lugar certo, na hora certa. O jor­na­lismo ainda en­ga­tinha na in­ternet. Por en­quanto, as únicas ino­vações da rede é a ra­pidez de pu­bli­cação das ma­térias, os tais “co­men­tários” e, mais im­por­tante, a ca­pa­cidade de re­visar os textos cons­tan­te­mente.

A re­visão de textos (ou atu­a­li­zação, como é chamada pelos veí­culos) não foi ini­ci­ativa do setor. Nos pri­mórdios desses no­ti­ciários, erros ou re­visão de in­for­mação era feita sem o devido es­cla­re­ci­mento para o leitor. Não por má-​fé, a questão era que isso de ar­rumar uma re­por­tagem, re­al­mente, era algo novo para o jor­na­lismo, desde sempre acos­tumado com o fato de, uma vez pu­blicado, não dá pra voltar atrás no texto. Jornais, an­ti­ga­mente, pos­suíam duas edições, tanto para adi­cionar novas ma­térias como para con­sertar erros das edições ma­tu­tinas. Na era da in­ternet, atu­a­lizar o texto já pu­blicado era algo nunca antes pensado numa re­dação. Ma­térias eram pro­du­zidas as seis horas e, ma­gi­ca­mente, a mesma ma­téria das seis tinham in­for­mações que só apa­re­ceram as nove da noite na­quele dia.

Era preciso avisar que o texto re­cebeu uma atu­a­li­zação. Os lei­tores exigiam e, além disso, pega mal para a empresa.

Nesse começo, era di­fícil per­ceber as mu­danças no texto. Agora, é di­fícil saber quais foram essas mu­danças. Acres­cen­taram ou re­ti­raram in­for­mações? Foi preciso es­cla­recer certos pontos do texto? Ar­rumar a gra­mática? Ou, quem sabe, omitir uma bela bola-​fora que o re­pórter deu?

Do­cu­mentar essas re­visões é com­plicado por dois mo­tivos. O pri­meiro, é a fer­ra­menta para tornar isso re­a­lidade. Criada, como ela fun­ci­onará? Como fa­ci­litar o uso dessa fer­ra­menta? Esses são as­pectos técnicos.

O se­gundo motivo, e re­al­mente o que mais in­comoda os veí­culos, é as in­for­mações con­tidas nas re­visões. Ali, você poderá ver o que foi al­terado, re­tirado, acres­centado. Jornais, qualquer um, ainda não se sentem con­for­táveis para ta­manho tipo de trans­pa­rência. A Wi­ki­pédia, por exemplo, dispõe desse serviço. Através dele é pos­sível ver como as in­for­mações de um artigo são ma­ni­pu­ladas pelos autores/​colaboradores e a in­tenção deles quando o fazem.

En­tre­tanto, isso é pro­blema dos jornais. Eu gosto mesmo é de, vez ou outra, pegar um jor­na­lista no pulo! Dando uma in­for­mação equi­vocada e logo depois omitindo-​a. É muito engraçado.

Ontem, foi a vez do blog da BBC. Tive a sorte de acom­panhar a mu­dança dra­mática de um post en­quanto a no­tícia acontecia.

Esse post da BBC sobre o caso da Paula Oli­veira foi pu­blicado às 17:35. O texto serve para jus­ti­ficar a co­bertura da rede no caso, ale­gando que eles não se pre­ci­pi­taram como os jornais bra­si­leiros. O final do pe­núltimo pa­rá­grafo ori­ginal estava assim:

Fi­camos então ainda mais atentos para não abraçá-​la in­de­vi­da­mente. O que é um cálculo de­licado, afinal o caso, se ver­da­deiro, era ex­tre­ma­mente grave. In­clusive, ainda não foi to­tal­mente es­cla­recido. Paula Oli­veira não estava grávida, mas ainda não está provado que ela fan­tasiou a su­posta agressão.

Ali ainda se via uma pre­o­cu­pação de deixar as duas his­tórias em des­taque, não des­car­tando as opções e ainda co­lo­cando em dúvida a pe­rícia feita pela po­lícia da Suíça. Além disso, ele toca num as­sunto im­por­tante, o que deve fazer um jor­na­lista com um caso ex­plosivo na mão, o tal “cálculo de­licado”. Meia hora depois, às 18:00, uma re­vista suíça país di­vulgou a in­for­mação de que a ad­vogada bra­si­leira tinha con­fessado a farsa para a po­lícia. Ma­gi­ca­mente, o texto foi atu­a­lizado para isso:

Fi­camos então ainda mais atentos para não abraçá-​la indevidamente.

Bela re­dução, creio. Hoje, na versão final (acho), tal pa­rá­grafo mudou completamente:

Apesar do cuidado da noite an­terior, minha ten­dência na­quele mo­mento era achar que a his­tória fosse ve­rídica. Fi­camos então ainda mais atentos para não abraçá-​la in­de­vi­da­mente. O caso segue sendo in­ves­tigado na Suíça, e ainda não está provado se o su­posto ataque ocorreu ou não.

Minha dúvida é, há pro­blema nisso tudo? Creio que há.

O jor­na­lista parece-​se com o pu­bli­ci­tário porque ambos sempre querem estar certos. Talvez seja mais fácil um médico ad­mitir um erro do que esses dois. É o con­si­derado normal na pro­fissão. Talvez esteja no fer­mento que usam para criá-​los. Os as­ses­sores de im­prensa, por exemplo, não podem se dar a esse luxo, já que um erro na pro­fissão deles pode ser fatal. Nem coloco em questão esse com­por­ta­mento, já que nada irá mudá-​lo. Espanto-​me é como essa postura pode em­po­brecer um texto. A ne­ces­sidade de estar sempre “ligado” e “correto” empobrece.

Se o autor, Ro­gério Simões, man­ti­vesse o texto ori­ginal, não seria ver­go­nhoso. Já que ele re­solveu dar uma de om­budsman, que apro­vei­tasse a si­tuação para exem­pli­ficar ainda mais a questão prin­cipal de toda a con­fusão gerada pela Paula, a di­fi­culdade do tal “cálculo de­licado”. Seria ainda mais in­te­res­sante um se­gundo post mos­trando o quão di­fícil é isso. Po­deria ter até o mote “olha, quis mostrar os pro­blemas de fazer jor­na­lismo e, na mesma hora, o pior deles acon­teceu de novo, en­ten­deram a questão?”.

Porém, faltou visão ao Ro­gério, ou vontade, ou co­ragem, para mostrar que os jor­na­listas erram toda hora, todo dia, e con­sertar esses erros para não com­pro­meter ino­centes e a re­a­lidade também é peça im­por­tante no exer­cício da pro­fissão. In­fe­liz­mente, só de­monstrou que o cor­po­ra­ti­vismo é vivo e forte no setor, que nunca aprende com seus pró­prios erros até que seja tarde demais. E mesmo assim, quando tentam, aprendem errado. Esse blog da BBC é para ajudar o leitor a “a en­tender melhor o con­texto do no­ti­ciário in­ter­na­cional”. Já en­ten­demos. Na BBC, na TV Brasil, TVE, na Globo ou na Carta Ca­pital, o pro­blema é sempre o mesmo.

Foto: Bad News

JeffBridges tem um site muito louco

Na minha busca por blogs de fa­mosos, topei com o site mais louco que eu já vi, o Jeff​Bridges​.com. Muito divertido.

Saramago abre um blog

Eu mesmo tenho cá minhas fra­quezas. Uma delas é gostar do comunista-​escritor José Sa­ramago. Agora ele lançou um blog. O Ca­derno de Sa­ramago. Nem todo mundo é per­feito, não?