“Never before in the history of this country”

Deu lá fora

Deu lá fora

Esse é um post rápido. Nada demais.

Eu me per­gunto sempre, o que leva alguém a tra­balhar no G1? Sério, a cada dia vejo que re­vistas como a Veja, Es­tadão e Globo re­baixam seus níveis de ex­ce­lência. Falta gente com­pe­tente? Gente com­pe­tente não con­segue bons QI (quem indica)? Afinal, que merda acontece nas re­dações bra­si­leiras hoje?

Ve­jamos um exemplo simples e prático. A re­sista “The Eco­nomist” pu­blicou uma grande re­por­tagem sobre o Brasil. O que o portal G1, da Globo, tida como o melhor jor­na­lismo bra­si­leiro pu­blica? Uma nota, sem au­toria de­finida, re­su­mindo a ma­téria in­teira nessa bes­teira com chamada no site. Basta ler a ma­téria. Se não sabes inglês, confie no Rei­naldo Azevedo aqui e aqui.
Con­tinue Reading

O Brasil nasceu por engano e acabará porque quis

Pois ai está seu engano, Au­gusto, posto que o Brasil não se sente sem pai nem mãe, mas or­gu­lhoso do seu samba, do criolo doido, e dos amorais que ali estão, ma­mando em berço es­plêndido, tal qual os na­ve­gantes fan­ta­siados de sol­dados me­di­evais. Grande JK, ini­gua­lável go­ver­nante, homem de visão que de­duziu não ser mais ne­ces­sário atra­vessar o atlântico para en­contrar as me­re­trizes de Paris, ou muito menos mandar im­portar, já que mais simples seria cons­truir uma cidade no meio do nada para, no sigilo das pontes aéreas, ter ali a última peça da tra­di­cional da his­tória não contada da Pátria Bra­si­leira, a tão alar­deada Casa da Mãe Joana. Então es­tamos hoje na res­plan­de­cência do antigo sonho dourado da Pedra do Reino, sem a glória nem a ri­queza de um Se­bastião, e sim de um tião fla­gelado em sua mão, que achou na Pátria Amada o terreno fértil para sua pro­fecia, e tão pa­recido com a da nossa pri­meira rainha, que nosso exército re­gur­gitado das cinzas da his­tória mo­derna nos levará para o pa­tamar de exemplo divino de que um povo, quando sabe bem o que deve fazer, pode sempre acabar com tudo de uma forma ainda mais ori­ginal, bur­lesca, es­férica e batuta. Um dia nós sal­da­remos piolhos!

Ministério Público, Maísa, SBT

Maísa

Maísa

Dois mil e nove é o ano do cansaço. No duro, não tenho vontade e nem pique para es­crever. Tudo é re­peteco. Não adianta dizer, falar, ex­plicar. O Brasil fica mais burro a cada dia. E na vida não existe control-​z. O povo tem o dever cívico de ser ali­enado em certas áreas. Por exemplo, um povo que muito se in­te­ressa por po­lítica acaba fa­zendo merda. Veja a Ale­manha pós Pri­meira Guerra Mundial, ou a Rússia antes da URSS. Por causa disso, os Ame­ri­canos le­vavam van­tagem sobre o resto do mundo: po­lítica era pre­o­cu­pação de poucos. Bastou o poveco se in­te­ressar (afinal, o di­nheiro não falta para eles) para ele­gerem um Hussein nos USA.

Pois bem, nos tempos de far­mácia com “ph”, as fa­mílias es­tavam ten­tando educar bem seus filhos. Houve acertos e erros nessa his­tória (veja o caso do Zi­raldo e do Jaguar), mas tudo bem. Ao menos eles não es­tavam pre­o­cu­pados em co­locar o Mi­nis­tério Pú­blico no pé de gente bem criada e de su­cesso. Isso acabou também. A moda agora e criar cam­panhas para li­berar a Maísa. Um dos Los Her­manos re­solveu criar uma cam­panha. A banda de­veria co­locar um selo da ABRINQ nos discos e es­taria fa­zendo melhor.

As­sisti aos tais vídeos, eles estão no YouTube. Não vi ali nenhum abuso contra a criança, pelo con­trário. Sei lá como esses “pro­te­tores de cri­an­cinhas” cuidam ou deixam de cuidar de seus filhos, mas não deve ser a melhor in­fância já que viram algum abuso na in­te­ração Sílvio Santos–Maísa. Milha fa­mília é ita­liana, alemã e índia. Sempre que qualquer um fazia pirraça, tios e tias agiam do mesmo modo, brin­cando até a gente parar de manha. Tem gente que bate. Errado. Tem gente que lambe os filhos e acaba criando De­pu­tados e De­pu­tadas mi­mados – gente que chama se­gu­rança pra re­solver briga de co­légio e depois atropela e mata inocentes.

Essa falta de senso em re­lação a cri­anças não é a causa, mas a con­seqüência de uma ide­o­logia edu­ca­cional. E ela é ex­tre­ma­mente ri­dícula e pa­ra­doxal. No pri­meiro lado, a criança e o ado­les­cente tem tantos di­reitos que, na prática, anulam qualquer dever deles. Isso se ma­ni­festa na falta de edu­cação e res­peito que eles têm diante do pro­fessor, pai, qualquer adulto. Basta ver os pro­gramas de babás e afins que passam no GNT. Basta ver a si­tuação das es­colas em qualquer lugar do mundo. As cri­anças são in­ca­pazes de di­fe­renciar o certo e o errado, e de de­co­di­ficar os sinais so­ciais. Maísa, ao con­trário, é melhor do que todos. Ela pode ter medo, dar berros, mas con­segue es­ta­be­lecer uma re­lação com Sílvio e, mi­nutos depois, es­quecer o choro e voltar a ser uma menina alegra. Criança buscar o colo da mãe e do pai é normal. Criança bater a cabeça é normal. É dessa forma que apren­demos a não cair da árvore e quebrar o pescoço. É assim que de­du­zimos na mais tenra idade que fogos de ar­ti­fício ex­plode e pode ar­rancar as mãos.

A edu­cação na base da con­versa pura é pre­ju­dicial porque retira da criança os exemplos. A criança aprende que cair de bi­ci­cleta ma­chuca porque vêem os mais velhos se es­tri­bu­chando no chão. Quando perdem a re­fe­rência, acre­ditam que sacos plás­ticos podem ser para-​quedas e pulam do 13º andar. A mãe deixar uma criança de 13 anos so­zinha e ir fazer compras é normal, porque, enfim, para essa gente alguém com 13º anos é uma pessoa normal, um ado­les­cente. Bem, essa mãe des­cobriu que não era tarde demais. Na minha in­fância, antes de fazer uma bes­teira, a gente sabia que pre­ci­sá­vamos testar a bes­teira antes e depois fazer. Ao invés de morrer, só que­brá­vamos um braço.

A se­gunda e mais hor­renda parte da atual edu­cação está na subs­ti­tuição do papel edu­cador dos jovens. Hoje, ninguém mais pode dar uma lição nas cri­anças, nem pro­vocar uma. Brigar é abuso físico, brigar é abuso emo­cional. No passado, a escola era o campo de ex­pe­ri­ência das cri­anças e jovens. Ali apren­díamos como lidar com a au­to­ridade, tanto em res­peitar (ir na aula e fazer prova) quanto burlar a mesma (matar aula e colar na prova). Eu não sei quantos animais eu matei na minha vida. Só usando o es­ti­lingue já seria um crime ina­fi­an­çavel. Agora, um jovem de 17 anos, branco e bem vestido, vai preso por causa de uma cobra. Já o que mata deve ser educado, pre­servado, en­tendido e perdoado.

Eu brinco que a maior causa de morte evi­tável no mundo não são as pro­vo­cadas pelo ci­garro, e sim aquelas pro­vo­cadas pela fome. É verdade, mas ninguém mais en­tende o ab­surdo dessa re­a­lidade. Não é a toa que hoje o Mi­nis­tério Pú­blico prefere ir atrás da Maísa ao invés de re­solver o pro­blema das mi­lhares de cri­anças aban­do­nadas nas ruas. Uma ide­o­logia edu­ca­cional re­tirou o poder de todos os adultos sobre as cri­anças e o trans­feriu para a mão do estado. Até mesmo na época da es­cra­vidão, nenhum senhor de es­cravo teria a co­ragem de mandar uma criança negra para a tutela do Estado, porque sabiam que ali as con­dições seriam INUMANAS, e não sub-​humanas.

Resta saber onde isso vai dar o futuro. Em algo bom é que não será. Então, o que eu e você fa­remos com nosso filho nessa re­a­lidade tão irreal? Não é apenas criar bem, mas criar um ser para en­frentar um mundo di­fe­rente, com pro­vações tão iné­ditas. A saída mais fácil é comprar um sítio e aban­donar a vida mo­derna para ir pro in­terior e viver em paz. Hoje eu en­tendo per­fei­ta­mente como os feudos e a idade média sur­giram. Imagina a ba­gunça se na­quele tempo já exis­tisse a in­ternet. Nem o exílio é hoje uma opção

Jornalismo e mídia "internet"

Bad News

Bad News

Vez ou outra, o jor­na­lista acha uma in­for­mação apenas com a sorte. Apenas por estar no lugar certo, na hora certa. O jor­na­lismo ainda en­ga­tinha na in­ternet. Por en­quanto, as únicas ino­vações da rede é a ra­pidez de pu­bli­cação das ma­térias, os tais “co­men­tários” e, mais im­por­tante, a ca­pa­cidade de re­visar os textos cons­tan­te­mente.

A re­visão de textos (ou atu­a­li­zação, como é chamada pelos veí­culos) não foi ini­ci­ativa do setor. Nos pri­mórdios desses no­ti­ciários, erros ou re­visão de in­for­mação era feita sem o devido es­cla­re­ci­mento para o leitor. Não por má-​fé, a questão era que isso de ar­rumar uma re­por­tagem, re­al­mente, era algo novo para o jor­na­lismo, desde sempre acos­tumado com o fato de, uma vez pu­blicado, não dá pra voltar atrás no texto. Jornais, an­ti­ga­mente, pos­suíam duas edições, tanto para adi­cionar novas ma­térias como para con­sertar erros das edições ma­tu­tinas. Na era da in­ternet, atu­a­lizar o texto já pu­blicado era algo nunca antes pensado numa re­dação. Ma­térias eram pro­du­zidas as seis horas e, ma­gi­ca­mente, a mesma ma­téria das seis tinham in­for­mações que só apa­re­ceram as nove da noite na­quele dia.

Era preciso avisar que o texto re­cebeu uma atu­a­li­zação. Os lei­tores exigiam e, além disso, pega mal para a empresa.

Nesse começo, era di­fícil per­ceber as mu­danças no texto. Agora, é di­fícil saber quais foram essas mu­danças. Acres­cen­taram ou re­ti­raram in­for­mações? Foi preciso es­cla­recer certos pontos do texto? Ar­rumar a gra­mática? Ou, quem sabe, omitir uma bela bola-​fora que o re­pórter deu?

Do­cu­mentar essas re­visões é com­plicado por dois mo­tivos. O pri­meiro, é a fer­ra­menta para tornar isso re­a­lidade. Criada, como ela fun­ci­onará? Como fa­ci­litar o uso dessa fer­ra­menta? Esses são as­pectos técnicos.

O se­gundo motivo, e re­al­mente o que mais in­comoda os veí­culos, é as in­for­mações con­tidas nas re­visões. Ali, você poderá ver o que foi al­terado, re­tirado, acres­centado. Jornais, qualquer um, ainda não se sentem con­for­táveis para ta­manho tipo de trans­pa­rência. A Wi­ki­pédia, por exemplo, dispõe desse serviço. Através dele é pos­sível ver como as in­for­mações de um artigo são ma­ni­pu­ladas pelos autores/​colaboradores e a in­tenção deles quando o fazem.

En­tre­tanto, isso é pro­blema dos jornais. Eu gosto mesmo é de, vez ou outra, pegar um jor­na­lista no pulo! Dando uma in­for­mação equi­vocada e logo depois omitindo-​a. É muito engraçado.

Ontem, foi a vez do blog da BBC. Tive a sorte de acom­panhar a mu­dança dra­mática de um post en­quanto a no­tícia acontecia.

Esse post da BBC sobre o caso da Paula Oli­veira foi pu­blicado às 17:35. O texto serve para jus­ti­ficar a co­bertura da rede no caso, ale­gando que eles não se pre­ci­pi­taram como os jornais bra­si­leiros. O final do pe­núltimo pa­rá­grafo ori­ginal estava assim:

Fi­camos então ainda mais atentos para não abraçá-​la in­de­vi­da­mente. O que é um cálculo de­licado, afinal o caso, se ver­da­deiro, era ex­tre­ma­mente grave. In­clusive, ainda não foi to­tal­mente es­cla­recido. Paula Oli­veira não estava grávida, mas ainda não está provado que ela fan­tasiou a su­posta agressão.

Ali ainda se via uma pre­o­cu­pação de deixar as duas his­tórias em des­taque, não des­car­tando as opções e ainda co­lo­cando em dúvida a pe­rícia feita pela po­lícia da Suíça. Além disso, ele toca num as­sunto im­por­tante, o que deve fazer um jor­na­lista com um caso ex­plosivo na mão, o tal “cálculo de­licado”. Meia hora depois, às 18:00, uma re­vista suíça país di­vulgou a in­for­mação de que a ad­vogada bra­si­leira tinha con­fessado a farsa para a po­lícia. Ma­gi­ca­mente, o texto foi atu­a­lizado para isso:

Fi­camos então ainda mais atentos para não abraçá-​la indevidamente.

Bela re­dução, creio. Hoje, na versão final (acho), tal pa­rá­grafo mudou completamente:

Apesar do cuidado da noite an­terior, minha ten­dência na­quele mo­mento era achar que a his­tória fosse ve­rídica. Fi­camos então ainda mais atentos para não abraçá-​la in­de­vi­da­mente. O caso segue sendo in­ves­tigado na Suíça, e ainda não está provado se o su­posto ataque ocorreu ou não.

Minha dúvida é, há pro­blema nisso tudo? Creio que há.

O jor­na­lista parece-​se com o pu­bli­ci­tário porque ambos sempre querem estar certos. Talvez seja mais fácil um médico ad­mitir um erro do que esses dois. É o con­si­derado normal na pro­fissão. Talvez esteja no fer­mento que usam para criá-​los. Os as­ses­sores de im­prensa, por exemplo, não podem se dar a esse luxo, já que um erro na pro­fissão deles pode ser fatal. Nem coloco em questão esse com­por­ta­mento, já que nada irá mudá-​lo. Espanto-​me é como essa postura pode em­po­brecer um texto. A ne­ces­sidade de estar sempre “ligado” e “correto” empobrece.

Se o autor, Ro­gério Simões, man­ti­vesse o texto ori­ginal, não seria ver­go­nhoso. Já que ele re­solveu dar uma de om­budsman, que apro­vei­tasse a si­tuação para exem­pli­ficar ainda mais a questão prin­cipal de toda a con­fusão gerada pela Paula, a di­fi­culdade do tal “cálculo de­licado”. Seria ainda mais in­te­res­sante um se­gundo post mos­trando o quão di­fícil é isso. Po­deria ter até o mote “olha, quis mostrar os pro­blemas de fazer jor­na­lismo e, na mesma hora, o pior deles acon­teceu de novo, en­ten­deram a questão?”.

Porém, faltou visão ao Ro­gério, ou vontade, ou co­ragem, para mostrar que os jor­na­listas erram toda hora, todo dia, e con­sertar esses erros para não com­pro­meter ino­centes e a re­a­lidade também é peça im­por­tante no exer­cício da pro­fissão. In­fe­liz­mente, só de­monstrou que o cor­po­ra­ti­vismo é vivo e forte no setor, que nunca aprende com seus pró­prios erros até que seja tarde demais. E mesmo assim, quando tentam, aprendem errado. Esse blog da BBC é para ajudar o leitor a “a en­tender melhor o con­texto do no­ti­ciário in­ter­na­cional”. Já en­ten­demos. Na BBC, na TV Brasil, TVE, na Globo ou na Carta Ca­pital, o pro­blema é sempre o mesmo.

Foto: Bad News

Brasil para todos

Sobre a re­forma gramatical.

Ah, o Alckmin gostou. Olha só.

Nas pró­ximas eleições ele pode lascar um o se­guinte slogan:

Alckmin para governador”

Não só será can­didato, mas irá sim­ples­mente pa­ra­lisar o go­ver­nador, resta saber se é a admistração.

E o Lula? Agora o slogan dele está corretíssimo!

Brasil para todos”.

Ou seja, o PT re­al­mente nos deixou imóveis du­rante oito anos.

Há re­formas que vêm para o bem.

Roda Viva: Gilmar Mendes

Gilmar Mendes

Gilmar Mendes e Eliane Can­ta­nhêde e Carlos Marchi

O Roda Viva, da TV Cultura, en­tre­vistou o Mi­nistro do Su­permo Tri­bunal Fe­deral, Gilmar Mendes. Bons con­vi­dados sempre dão bons pro­gramas. O Mi­nistro nada mais fez do que re­petir tudo aquilo que já disse, e que é so­le­ne­mente ig­norado pelo jor­na­lismo de es­querda do Brasil. Como parte do es­pe­táculo estava Eliane Can­ta­nhêde, jor­na­lista da Folha de São Paulo.

Nada de novo no front. Gilmar Mendes re­petiu tudo aquilo que sempre diz. O Estado de Di­reito deve ser pedra fun­da­mental. O STF não deve julgar de acordo com a opinião pú­blica, e sim pelos fatos no pro­cesso. Tudo que um es­tu­dante de di­reito ci­vi­lizado de­veria saber antes de entrar na fa­culdade. Mesmo assim, pre­cisou re­petir tudo de novo, toda vez que Eliane Can­ta­nhêde abria a boca.

Bons juízes pre­cisam de boa edu­cação, boa cultura e, claro saber ler. Eliane Can­ta­nhêde também pre­cisava essas coisas para ser, sei lá, até um ser humano ci­vi­lizado. Mas a camisa ver­melha queima a retina mostra que em toda pro­fissão há pessoas pouco qua­li­fi­cadas para a tarefa. Eliane Can­ta­nhêde é uma dessas pessoas. 

As po­lê­micas entram em pauta. Mas, no­va­mente po­lê­micas são para quem nada en­tende do ju­di­ciário, como Eliane Can­ta­nhêde. Ou para quem não tem moral, nem mesmo es­crú­pulos (e gostam de es­crever Cartas…). As res­postas não foram novas, foram apenas re­prise da­quilo que já se viu nos jul­ga­mentos. Uma hora e meia de re­pe­tecos. Parece que os jor­na­listas Márcio Chaer, editor do site Con­sultor Ju­rídico, Rei­naldo Azevedo, ar­ti­cu­lista da re­vista Veja e do Blog Rei­naldo Azevedo, Eliane Can­ta­nhêde, co­lu­nista do jornal Folha de S. Paulo, Carlos Marchi, re­pórter e ana­lista de po­lítica do jornal O Estado de S. Paulo qui­seram ouvir de novo a ma­ra­vi­lhosa voz de Gilmar Mendes.

Con­teúdo, mesmo, nada. Faz parte desse mundo de jornal brasileiro.

Espantou-​se quem não lê o Rei­naldo Azevedo, quem não co­nhecia suas opi­niões. Quem não lê, não deve ter en­tendido nada. Mas tudo bem. Faz parte desse povo brasileiro.

Nem meus amigos ad­vo­gados es­tavam as­sis­tindo ao pro­grama. Ver­gonha, né, já que a vida pro­fis­sional deles têm tudo com o STF. Mas tudo bem. Faz parte desse ju­di­ciário brasileiro.

Espanta-​me é Eliane Can­ta­nhêde. Gostei de vê-​la re­petir suas as­nices em rede na­cional e ser tratada, bem, como um asna. Bo­bagem deve ser res­pondida com bom-​senso, com a aus­te­ridade de quem é su­perior ao ser que teve a ou­sadia de per­guntar bes­teiras. Não, ela não tem a prer­ro­gativa de não saber. Na pro­fissão dela, é fun­da­mental informar-​se antes de qualquer en­tre­vista. Mesmo assim ela usa essa “des­culpa”. É uma ver­gonha para a pro­fissão. Não é uma ver­gonha para a Folha de São Paulo.

Gilmar foi educado, mesmo diante disso tudo. 

Márcio Chaer não é muito ar­ti­culado, ou estava nervoso. Tentou co­locar bons ques­ti­o­na­mentos, mas faltou clareza nas per­guntas. Antes delas, fazia uma in­tro­dução sem ca­bi­mento. Não sei se era sua in­tenção in­formar os tele-​espectadores ou o Mi­nistro. Espero mesmo que tenha sido a pri­meira. Mas tudo bem.

Rei­naldo Azevedo e Carlos Marchi eram as pro­messas. En­tre­tanto, suas per­guntas vi­savam es­cla­recer as ma­térias ir­res­pon­sáveis pu­bli­cadas em di­versos jornais, es­pe­ci­al­mente como as da Eliane Can­ta­nhêde na Folha de São Paulo. Estou me re­pe­tindo demais. Enfim, eles de­veriam ter es­quecido a Eliane Can­ta­nhêde e sua turma. Ela própria con­seguiu ser o ele­mento cômico do programa.

Eliane Can­ta­nhêde quis re­petir suas co­lunas de fo­focas na frente do Mi­nistro. Levou umas “pal­ma­delas na bunda” (função que de­veria ter sido de­sem­pe­nhada por seus pais). Assim como uma criança que diz besteiras, Eliane Can­ta­nhêde re­petia seus bordões pre­di­letos vindo do manual da es­querda chic bra­si­leira. Assim como um pai severo, mas aten­cioso, Gilmar Mendes dizia a Eliane Can­ta­nhêde que isso ou aquilo era uma bo­bagem. Muitas coisas nem pre­ci­savam ser respondidas. Eliane Can­ta­nhêde re­petia que só “preto, pobre e pros­tituta” fica preso. Eliane Can­ta­nhêde não sabia que era Gilmar Mendes o homem res­pon­sável pela ten­tativa de acabar de uma vez por todas com esses erros. Eliane Can­ta­nhêde não sabia que Gilmar Mendes era res­pon­sável por tirar os “pretos, pobres e pros­ti­tutas” da cadeia. Será que as ONG de “pretos, pobres e pros­ti­tutas” pro­ces­sarão Eliane Can­ta­nhêde por usar essas pa­lavras ao invés de “afro­des­cen­dente, eco­no­mi­ca­mente li­mi­tados e pro­fis­si­onais da vida noturna”?

Gimar Mendes tem mais a ofe­recer. Mas não num país como o Brasil. Ao invés de saber mais sobre as idéias do Mi­nistro, foi mais im­por­tante as­suntos como Daniel Dantas, Pro­tó­genez, Habeas Corpus, e cordão de ouro, tudo por causa da Eliane Can­ta­nhêde. Deve-​se ig­norar gente como Eliane Can­ta­nhêde. Eles con­ta­minam o am­biente com suas de­fi­ci­ências e li­mi­tações. Uma pena para quem ficou acordado, e agora precisa de co­lírio para di­minuir a dor da camisa ver­melha de Eliane Cantanhêde.

Maldita te­le­visão de alta-​definição.

Gilmar Mendes

Gilmar Mendes

PS: Para com­pletar, nem preciso co­mentar a “co­bertura” dos “twit­teiros” Ju­liana, AloisioSam, não é?

Publicidade: Um desafio para o PT

Quem sabe os candidatos devam comprar um néon?

Quem sabe os can­di­datos devam comprar um néon?

A vida do PT não está fácil. Mas se­guindo a tra­dição do Breves Notas, vou dar a eles o pulo do gato para a pu­bli­cidade nas cam­panhas elei­torais vin­douras. Eu sei, no­va­mente tra­ba­lhando de graça (e dessa vez aju­dando o inimigo). Nem tanto. Não há es­pe­rança alguma que os pe­tistas leiam isso aqui e re­solvam mudar. Eles não aprendem nada, eles não es­quecem nada. A análise serve mais como cu­ri­o­sidade, quem sabe um aviso. Então, chega de lenga-​lenga e vamos ao que interessa.

Ao con­trário do que pensam os ana­listas po­lí­ticos de porta de cadeia, os es­cân­dalos de cor­rupção nunca vistos antes nesse país fi­zeram um belo es­trago para o Partido dos Tra­ba­lha­dores, mesmo não atin­gindo o lider-​mor do partido, Lula. A po­pu­lação, claro, não deu de ombros como muitos alegam. Alguns po­lí­ticos juram de pé junto que o men­salão não existiu, que compras de votos não acon­te­ceram e por aí vai. Isso fun­ciona para a justiça (in­crível, não?), mas o povo é mais des­con­fiado. Para eles, acon­teceu e talvez ainda esteja acon­te­cendo. Basta per­guntar pela rua. E por que isso não atingiu a imagem do ape­deuta? Por que ele ainda é pre­si­dente da República?

Porque Lula é um semi-​analfabeto como todos nós”. Essa é a res­posta. Cuidado, eu não afirmo que o barbudo é ou não isso ou aquilo, digo que: no ima­gi­nário po­pular, Lula é um homem com baixa for­mação in­te­lectual, mas com um bom co­ração, como a po­pu­lação brasileira.

Esse é o apelo de Lula, bem ex­plorado nas últimas duas dis­putas elei­torais. Um homem do povo e blá-​blá-​blá. Ti­rando a mi­li­tância pe­tista, que o ama acima de todas as coisas, o ci­dadão comum vê um ser que en­frentou a ad­ver­sidade e, por isso, “co­nhece” os reais pro­blemas do país. Claro que isso é uma bes­teira mons­truosa, mas fun­ciona na pu­bli­cidade. A imagem do Ape­deuta é essa, foi cons­truída assim e, devo ad­mitir, dá certo demais na ba­na­nânia. Quem se lascou com essa his­tória foi o resto do Partido.

Os di­versos es­cân­dalos en­vol­vendo o go­verno não “gru­daram” em Lula porque

  1. A opo­sição quis ex­pli­citar para o Brasil o que re­al­mente acontecia.
  2. O povo re­al­mente acre­ditou que Lula de nada sabia

Mas, aí, o leitor se per­gunta “como o povo pôde ser tão burro e acre­ditar que o pre­si­dente não sabia de nada que acon­tecia de­baixo do seu nariz?”. A res­posta é fácil, mas longe de ser simples: porque Lula também é um homem do povo, logo, seria tão, di­gamos, in­gênuo como todos eles.

Es­clareço. Um homem comum, sentado no Pa­lácio do Pla­nalto, teria sérias di­fi­cul­dades em co­mandar um país. De­legar res­pon­sa­bi­li­dades, con­tratar as­ses­sores, mi­nistros, es­pe­ci­a­listas. Lidar com po­lí­ticos, par­tidos, em­prei­teiros, em­pre­sários e “toda essa gente”. O Seu Zé, na ca­deira do Pre­si­dente, sem ter ex­pe­ri­ência nessa his­tória, faria muitas bur­radas. O homem comum sabe que nem todo amigo é amigo, e se você lida com muita gente, alguns trai­dores acabam in­fil­trados no seu círculo pessoal. Faz parte da vida.

Isso fica muito pior quando se tem “poder”. Para o homem comum, Lula até tenta fazer tudo certo, mas como ele é “gente como a gente”, não dá pra es­perar muita coisa do su­jeito, não é? Os ana­listas po­lí­ticos fes­te­jaram a eleição do Ape­deuta como a su­pe­ração de pre­con­ceitos. Não foi, apenas é a re­a­fir­mação de todos eles. Já ouvi várias vezes (de elei­tores do Ape­deuta) a frase “es­perar o que do Lula, meio burro né, vão tirar van­tagem dele, lógico”.

Lula é um homem in­te­li­gente e ma­qui­a­vélico. Mas a “blin­dagem” de sua imagem mais deve ao ar or­di­nário, de homem comum, do que às es­tra­tégias ar­ti­cu­ladas pela sua cúpula, iden­ti­fi­cação par­ti­dária ou outras aná­lises do pessoal da USP ou da UNB. Po­pu­lista como é, não dá para con­vencer alguém que Lula é um gênio po­lítico, não um ci­dadão igual aos outros. E nas eleições de 2008, essa sua van­tagem virou contra o próprio partido. A ironia nunca morre, como diz o Mainardi.

O Partido dos Trabalhadores nas Eleições

As eleições 2006 foram mar­cadas por es­cân­dalos, sim. Nenhum outro can­didato pas­saria in­cólume a essa onda de acu­sações. Lula passou, e já ex­pliquei a razão. Ele é “or­di­nário como a gente”. Na­quela época, uma ba­gunça foi ins­taurada no ce­nário po­lítico. Os pró­prios pe­tistas se en­vol­veram em si­tu­ações nada hon­rosas. O Ape­deuta, es­perto, falou e não disse nada, esquivou-​se das acu­sações, usou a tática do “fui traído, meu erro foi es­perar o melhor das pessoas”. Disse que “cor­taria da própria carne”. Lógico que não cortou, mas, nas cam­panhas a pro­messa sempre vale mais. Como não apa­receu nenhum lasco por aí, os elei­tores fi­caram com sua es­pe­rança e vo­taram como fi­zeram em 2004.

Dois anos depois, os bra­si­leiros re­sol­veram ajudar Lula. No duro. A idéia é mais ou menos essa: “Lula não sabe es­colher ami­zades, isso a gente já sabe, então não vamos votar nos amigos deles, oras, porque são trai­dores”. Não é a toa que o número de votos do PT di­minuiu. Qualquer ana­lista de­cente já teria aberto o bico para o Partido. “Cuidado, Lula pode afundar o resto de vocês”. Mas imagina falar isso para uma Martha Su­plicy. Nunca, nun­quinha. Eu diria, relaxa e goza minha filha, vocês fi­zeram a ba­gunça e eu não tenho nem idéia de como ar­rumar isso. Não é um tra­balho fácil, não. A cada es­cândalo ao qual Lula so­brevive, o resto do PT su­cumbe. É preciso ter um culpado para tantos crimes. Se a Justiça pega ou não os cul­pados, isso é ir­re­le­vante para a po­pu­lação. Eles também julgam e acham os ban­didos que querem.

No ima­gi­nário po­pular, todo partido é um covil de lobos, gente ga­nan­ciosa que querem ganhar muito di­nheiro nas costas do país. Tanto que o “rouba mas faz” é um slogan po­sitivo no Brasil. Maluf ainda seria um campeão de votos hoje se não ti­vesse feito uma bes­teira com­pleta: o Pitta. Não se lembram?

O Dr. Paulo hoje foi varrido do mapa elei­toral por causa do ex-​prefeito Celso Pitta. O povo de São Paulo não esquece.

A car­reira do Maluf não acabou por causa de es­cân­dalos. Não mesmo. O Dr. Paulo hoje foi varrido do mapa elei­toral por causa do ex-​prefeito Celso Pitta. O povo de São Paulo não es­quece. Dr. Paulo as­se­gurou que Pitta seria o pre­feito ideal para a cidade e, do dia para a noite, aquele des­co­nhecido acabou eleito. Esse sim se meteu num belo es­cândalo, com di­reito a ex-​mulher e tudo. Mas o Maluf tinha pro­metido que o cara era bom. Não era e o pau­listano não confia mais no Dr. Paulo. Um erro de cálculo ina­cre­di­tável do maior gênio po­lítico do Brasil. E o Maluf até hoje não con­segue sair desse buraco que ele próprio se meteu.

Os pe­tistas hoje buscam essa in­di­cação de con­fiança de Lula, sem a qual todos eles ficam em maus-​lençóis. Sim, porque até hoje não se sabe quem é a ovelha negra do pe­tismo, não há um bode-​expiatório. Sem essa re­fe­rência, todos eles estão vir­tu­al­mente no mesmo saco. Lula sabe bem disso, aprendeu di­reito com a lição po­lítica do Maluf. Os ana­listas dizem que Lula não quer usar a má­quina. Mentira. Lula não quer é em­barcar num pos­sível barco-​furado. Ele sabe. Pitta foi eleito em 1997. Dez anos depois, o Maluf não sabe o que fazer.

Em Cu­ritiba, o PT tentou em­placar a Dilma como porta-​voz. Era uma prova de fogo vi­sando a eleição pre­si­dencial de 2010. PT levou uma lavada do PSDB. A es­tra­tégia não deu certo. Em Natal, Lula foi mais pre­sente, mais agressivo e mesmo assim o PT se lascou. Em São Paulo, Kassab venceu o pri­meiro turno contra todas as ex­pec­ta­tivas. Em Porto Alegre, o PT quase não passa para o se­gundo. Passou perto de perder para uma co­mu­nista de pri­meira viagem que de con­creto mesmo, só tem a beleza. É uma si­tuação bem preocupante.

O Marketing Petista para o Futuro

As tá­ticas pu­bli­ci­tárias do pe­tismo estão longe de serem ino­va­doras. Para tentar re­verter o quadro de Martha em São Paulo, Gil­berto Car­valho de­sem­barca na ca­pital para tentar fazer o que eu acabo de dizer acima, tentar colar Kassab no Maluf. Di­minuir a re­jeição da pe­tista é uma missão im­pos­sível, prin­ci­pal­mente depois do seu papel na crise aérea. Eles estão de­ses­pe­rados. Só restou essa saída.

Porém, em jogo está as eleições de 2010. O que eles farão quando ela chegar? Quem tem alguma dica?

O quadro não é fa­vo­rável. Nenhum can­didato do PT tem con­dições de entrar numa disputa pre­si­dencial. A Dilma Rousseff é uma per­so­nagem ainda em cons­trução, mas falta a ela a em­patia ne­ces­sária aos grandes po­lí­ticos. Não que mu­lheres fortes es­tejam fora das dis­putas. A ba­ronesa Thatcher foi de­cisiva para a his­tória da In­gla­terra, e a ela sempre faltou ca­risma com o povo. En­tre­tanto, Thatcher era um cé­rebro ma­ra­vi­lhoso e uma ótima primeira-​ministra, papel que Dilma não chega nem perto, tanto em termos de im­por­tância como de competência.

Uma dica para os pe­tistas: mu­lheres são di­retas, res­pondem na lata. Isso é es­sencial para vida po­lítica delas. Mas como o PT adora uma tan­gente, di­fi­cil­mente Dilma será uma can­didata a se temer, da mesma forma que Martha não é mais. O PT perde os ca­belos porque, em seus quadros, não há um único po­lítico coma ficha mais ou menos in­cólume (po­li­ti­ca­mente fa­lando, não ju­di­ci­al­mente). E se Lula apoiá-​los, poderá por em xeque a sua própria can­di­datura em 2014.

A si­tuação é tão séria que não me es­pan­taria o PT pro­curar um can­didato em outros par­tidos. Mas isso vai contra a his­tória pe­tista, e di­fi­cil­mente um can­didato de fora con­se­guiria passar pela in­ter­mi­náveis prévias que eles adoram fazer. Só com o apoio in­di­vidual de Lula. Mas co­ragem não é a prin­cipal ca­rac­te­rística do atual presidente.

A es­querda tem uma ten­dência na­tural para di­fa­mação nas cam­panhas. Acusam, acusam e acusam, com ou sem provas. Foi assim que eles che­garam ao poder. Mas para mantê-​lo, em um regime de­mo­crático, o dis­curso pre­ci­saria mudar. Mas o PT não sabe fazer nada mais. Falta a esse partido o res­peito pelo regime de­mo­crático, coisa que não consta em seu DNA.

A aposta deles con­ti­nuará no po­pu­lismo ras­teiro. E se in­ten­si­ficará nos pró­ximos dois anos. Quase seis anos de pre­si­dência e Lula não deu mais que uma ou duas co­le­tivas, todas con­tro­ladas. En­quanto isso, farão a cam­panha pau­tando o jor­na­lismo, como fazem hoje. Acre­ditam ser essa uma boa técnica. Nem tanto, eu diria. Mesmo o Brasil sendo um ter­ceiro mundo, hoje é uma boa classe média, e ela também influi nos re­sul­tados. Ela acaba ir­ra­diando suas opi­niões para as pessoas de nível social acima ou abaixo delas. É um pú­blico que o PT não con­segue lidar, nunca con­seguiu e di­fi­cil­mente conseguirá.

Con­cluindo, dias som­brios virão. Bate-​bocas sem con­teúdo se es­pa­lharão pela cena po­lítica na­cional. Como o PT é in­capaz de subir o nível, tentará re­baixar a todos para os termos con­for­táveis para eles. Ve­remos se a opo­sição cairá nessa ar­ma­dilha. Aguardem as grandes de­núncias de fraudes e cor­rupção. Haverá uma ten­tativa de po­la­ri­zação entre mo­cinhos e ban­didos ainda mais ra­dical. Eles gri­tarão, fa­larão grosso porque, no fim, nada tem a dizer. Suas res­postas os in­cri­mi­nariam. Será muito feio…

Resta aos homens de bem não acei­tarem essas con­dições. Res­ponder a rudeza com a verdade. As dis­si­mu­lações com a certeza. Ser direto ao invés de se es­quivar. Apesar do Partido dos Tra­ba­lha­dores possuir tanto poder hoje, uma única coisa pode acabar com sua he­ge­monia: quem aceitar as res­pon­sa­bi­li­dades terá muito mais força do que toda a má­quina pe­tista pode pro­duzir. Trazer o debate para o campo de­mo­crático sempre fará os pe­tistas per­derem o chão, porque eles não ca­minham pela trilha do res­peito, do bom-​senso e da hon­radez. Não, não. As es­tradas deles são feitas com as me­lhores das in­tenções, sim, mas são as­fal­tadas com as piores qua­li­dades que a hu­ma­nidade já produziu.

Agora, muitos mi­li­tantes en­tendem isso e não sabem mais o que fazer. In­te­res­sante, não?

Bagno, Marcos - A Norma Oculta

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Foco!

Foco!

Marcos Bagno é doutor em lingüística e pro­fessor da UNB. Seus livros são fi­guras certas nas aulas dos cursos de co­mu­ni­cação. Pos­si­vel­mente, é o pri­meiro de dis­cussão da língua que o gra­duando toma co­nhe­ci­mento. É ine­gável que A NORMA OCULTA suscita pontos im­por­tantes na re­flexão, nosso modo de falar e in­te­ragir so­ci­al­mente com os outros falantes.

En­tre­tanto, assim como é pro­vo­cadora, a obra pode en­ganar os menos acos­tu­mados ao tema (e que por sinal, é maioria dos alunos de uni­ver­si­dades). Talvez o melhor mo­mento para abordá-​lo fosse a partir do 3º se­mestre, quando o es­tu­dante já ad­quiriu o mínimo da ba­gagem teórica. Nem sempre o de­se­jável é o ro­ti­neiro, por isso tomo a au­to­ridade dada a mim por Bagno (afinal, como ele diz, sou um fa­lante da língua e, por­tanto, es­pe­ci­a­lista no as­sunto) para des­trinchar os pre­con­ceitos e erros que apa­recem cons­tan­te­mente dentro do livro. De outra forma, os des­lizes po­deriam sim­pli­ficar demais o ra­ci­o­cínio dos que de­sejam co­nhecer mais os es­tranhos sons que pro­nun­ciamos diariamente.

Antes de mais nada, de­vemos ob­servar que Marcos Bagno de A NORMA OCULTA não é um pro­fessor in­te­ressado em de­sen­volver o senso crítico de ninguém. Ele está mais para um com­ba­tente. Está em guerra com os gra­má­ticos. E como das guerras só saem per­de­dores, Bagno destrói tudo e a todos, não dei­xando pedra sobre pedra para a de­mo­cracia que visa ins­taurar. Na ten­tativa de acabar com um pre­con­ceito real, ele im­pos­si­bilita o leitor de ad­quirir algo muito mais im­por­tante do que um simples pan­fleto dou­tri­nário: pensar di­reito – a única arma eficaz contra o mundo in­justo traçado pelo autor.

O VALOR DA LETRA “S”

A NORMA OCULTA pre­tende ra­ci­o­cinar sobre língua e poder na so­ci­edade bra­si­leira. De acordo com o autor, o último reduto do com­por­ta­mento pre­con­cei­tuoso é a dis­cri­mi­nação através da língua: falar ou não errado, usar ou não a norma culta gra­ma­tical. Ao cri­ticar falhas de mor­fos­sintaxe no dis­curso ou texto de uma pessoa, o que está por trás desse “cor­re­ci­o­nismo” é a ten­tativa da classe do­mi­nante bra­si­leira em manter a de­si­gualdade econômico-​social no país.

O livro começa e termina uti­li­zando como exemplo a re­cepção do pre­si­dente bra­si­leiro Luiz Inácio na grande im­prensa. Vários ar­ti­cu­listas re­la­cionam o “re­la­xismo lingüístico” do pre­si­dente com uma pos­sível falta de cultura e ca­pa­cidade para co­mandar a nação.

Eles in­sistem em fo­ca­lizar os erros de con­cor­dância de Lula e sua forma simples (ou sim­plória?) de se ex­pressar. Para Bagno, isso nada mais é uma es­tra­tégia po­lítica contra a imagem da­quele e o que ele re­pre­senta (po­li­ti­ca­mente) na his­tória bra­si­leira. É fácil ver isso no tom do dis­curso de Bagno, enal­te­cendo a vi­tória nas eleições de 2002: (os grifos são meus, a não ser que eu diga o contrário)

“Seria uma ilusão supor que uma vi­tória como foi a de Lula nas eleições de 2002 bas­taria para que o pre­con­ceito lingüístico de­sa­pa­re­cesse de vez da nossa sociedade” – Pag. 15

“A his­tória pessoal de Lula é, sem dúvida, uma re­vo­lução “quase mágica”, mas é uma re­vo­lução in­di­vidual, par­ti­cular, digna de as­sombro, é claro, num país tão in­justo quanto o nosso.” – Pag 38

Para mostrar o erro da im­prensa, Bagno usa como exemplo pessoas con­si­de­radas “letradas” – como outras ma­térias “res­pei­tadas” vei­cu­ladas em jornais (pág 26) – que também co­metem os mesmos “erros”, pro­vando, em tese, a nu­lidade desses julgamentos.

“Em ambas as co­lunas, Dora Kramer deixa bem claro seu total des­preparo para tratar desses as­suntos, uma vez que fala de “plural e con­cor­dância verbal” e de “lições de plural e con­cor­dância” como se fossem duas coisas dis­tintas, como se as regras de plural não fi­zessem parte das regras de con­cor­dância (verbal e no­minal), como de fato fazem.” – Pág 22.

Porém, lem­bremos que Bagno tenta de­sa­cre­ditar a opinião dos jor­na­listas usando o mesmo jul­ga­mento: eles também co­mentem erros e não sabem do que falam. As crí­ticas ne­ga­tivas contra o Lula valem-​se do mesmo teor: lula não tem co­nhe­ci­mento para isso ou aquilo, por­tanto é in­capaz de fazer isso ou aquilo. O que o autor não ex­plica é por que formas de análise se­me­lhantes são vá­lidas no caso dele, mas não nos dos jor­na­listas. Por que Lula pode go­vernar o Brasil na base de tra­pa­lhadas e o jor­na­lista não pode, também atra­pa­lhado, tentar ana­lisar a língua? Mais, por que le­va­ríamos a sério em livro cheio de tra­pa­lhadas mesmo de um autor dou­torado e vacinado?

“As ob­ser­vações da jor­na­lista, por­tanto, de­monstram a atitude au­to­ri­tária de quem se acha com o di­reito de opinar e propor le­gis­lação sobre o que des­co­nhece, apenas por re­ve­renciar o senso comum, sem criticá-​lo com ins­tru­mento teórico ade­quado: não sendo lingüista nem pe­dagoga, com que fun­da­men­tação ela pode sus­tentar suas pro­postas de re­visão dos cur­rí­culos escolares?” – Pág. 23.

O mais in­crível é o Lula ter pleno do­mínio da norma culta. No dia a dia, ele atua nos pa­lanques usando a lin­guagem dos menos edu­cados. En­tre­tanto, nos dis­cursos em 2005, depois da crise no go­verno, quando in­flamado e sem ro­teiros para seguir, Lula de­monstra saber falar muito bem, fle­xi­o­nando os verbos cor­re­ta­mente, usando os co­nec­tivos de forma apro­priada, etc, etc, etc. Lula não é mais parte do povo comum: ele se educou lingüis­ti­ca­mente, ainda que te­nhamos sérias dú­vidas se o fez cul­tu­ral­mente. A qua­lidade veio depois da autoridade.

PRECONCEITO DE QUEM, CARA PÁLIDA?

O pre­con­ceito oculto detrás do pu­rismo gra­ma­tical é ver­da­deiro. Ele existe, ponto. En­tre­tanto, pensar que todo pu­rismo é um ato dis­si­mulado de pre­con­ceito é lo­gi­ca­mente errado. E também vemos isso na prática. De­fender a língua não sig­nifica me­nos­prezar quem não pôde con­cluir os es­tudos ou não teve con­dições ou vontade de se ins­truir por conta própria. Imagine se a li­te­ratura fosse en­gajada na uni­ver­sa­li­zação do falar mal.

Que ninguém se iluda: só a leitura in­tensa permite co­nhecer os múl­tiplos re­cursos da língua e usá-​los com efi­ci­ência, sem a de­coreba gra­ma­ti­queira“
Marcos Bagno

Porém, du­rante a obra, somos le­vados a crer que se não o é sempre, na maioria dos casos é pre­con­ceito (cons­ciente ou inconsciente).

“(…) em boa medida, nós somos a língua que fa­lamos, e acusar alguém de não saber falar sua própria língua ma­terna é tão ab­surdo quanto acusar essa pessoa de não saber “usar”corretamente a visão (isto é, afirmar o ab­surdo de que alguém é capaz de en­xergar, mas não é capaz de ver) ou o olfato (isto é, afirmar o ab­surdo de que alguém é capaz de sentir o cheiro, mas não de aspirá-​lo).” Pág. 17 [grifos do autor].

Se Marcos Bagno é doutor em lingüística, de­veria comprar um livro de lógica básica (bem como um de fi­lo­sofia). As duas ana­logias são er­radas de qualquer ponto de vista. Pri­meiro, elas não se equi­valem. Se assim fosse, o “ab­surdo” seria alguém ver e não ser capaz de deixar a luz entrar na retina; ou alguém ser capaz de as­pirar e não con­seguir iden­ti­ficar o cheiro.

Isso porque “en­xergar” não é sinônimo de “ver”. Quando as pa­lavras perdem o seu poder sim­bólico (fruto da falta de leitura e cultura) criam, aí sim, pro­po­sições ab­surdas como essas.

En­xergar se re­la­ciona com o ato fi­si­o­lógico. Se você tem o globo, a retina e demais partes do sistema ocular bem for­mados, você poderá en­xergar. En­tre­tanto, um daltônico recebe a luz verde na retina. Por uma série de fa­tores, vê ver­melho. Ou um es­qui­zo­frênico, que vê alu­ci­nações mas não en­xerga os monstros (não há fi­si­ca­mente ne­nhuma imagem na retina).

Falar e dizer seguem a mesma linha. Lula, por exemplo. Fala que foi traído, mas não diz quem foi. Uma pessoa pode falar du­rante horas mas não dizer nada, i.e., seu dis­curso não tem ne­nhuma in­tenção, não transmite qualquer dado re­le­vante para o as­sunto em questão. Também ler. Qualquer pessoa al­fa­be­tizada é capaz de in­ter­pretar os ca­rac­teres em um livro do Sartre, mas só alguns terão a ba­gagem ne­ces­sária para en­tender o que ele quis dizer.

LÍNGUA É PODER

A NORMA OCULTA não con­segue acabar com os pro­blemas que se propõe a ex­pli­citar. Muito menos desnudá-​los de forma correta. Du­rante todo o livro Bagno usa as mesmas si­tu­ações para ilustrar va­lores opostos. Tudo parece ser re­lativo. Sua missão é jus­ti­ficar sua luta contra os gra­má­ticos e, no fim, também jus­ti­ficar uma postura po­lítica pessoal.

Ao acusar uma “elite pri­vi­le­giada” de “oprimir” os bra­si­leiros “ví­timas de anos de de­si­gualdade”, Marcos deixa de ana­lisar os pro­blemas es­tru­turais que le­varam e levam o povo a des­co­nhecer as regras gra­ma­ticais da língua portuguesa.

Na página 124, lê-​se que nas so­ci­e­dades onde a cultura es­crita é oni­pre­sente, existem ins­ti­tuições que inibem as forças de mu­dança da língua. O autor es­quece de dizer (in­ten­ci­o­nal­mente?) que essas so­ci­e­dades são as mais ricas, de­mo­crá­ticas e justas – além de terem enorme in­fluência econômica, social e cul­tural nos países de ter­ceiro mundo.

Esse poder nasce quando há opor­tu­ni­dades para povo ter acesso a uma boa edu­cação. Ao tentar jus­ti­ficar a falta dessa edu­cação no Brasil, Bagno presta um des­serviço ao país. Ao invés de lutar para que as pessoas evoluam, ele parece querer que as res­peitem pela sua ig­no­rância, e não “apesar da”. Neste caso, não é só válido – é fun­da­mental esse res­peito para existir uma de­mo­cracia. Mas na­quele, ao poupar alguém pela sua in­ca­pa­cidade, to­mamos um ca­minho muito pe­rigoso. Não é apenas uma questão gra­ma­tical. Em última ins­tância, é uma questão de in­te­gridade física: se duas pessoas não sabem se ex­pressar, se eles não se com­pre­endem, ter­minam sempre usando a violência.

Triste e de­cep­ci­o­nante é a obra de Marcos Bagno. A NORMA OCULTA é um livro cheio de erros in­fantis de dis­curso, ra­ci­o­cínio e análise. Não de­veria ser levado a sério, como o fazem várias pessoas. É antes de tudo, para aqueles que sabem pensar, a fa­gulha inicial de uma re­flexão pro­funda sobre o povo bra­si­leiro. Se bem feita, dará grandes frutos. Do con­trário, se se­guirmos a lógica do autor, vol­ta­remos ao jardim de in­fância, quando dis­cu­tíamos fe­roz­mente para de­cidir se o mais feio era eu ou você.

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Lispector, Clarice. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres.

Estilo é tudo…

Eu de­testo os livros da Clarice, desde que li o pri­meiro. Sempre vi neles não uma es­critora, mas apenas uma autora, ta­lentosa, que não queria ir até onde po­deria. Mas eu tinha algo em comum com ela, o dia do nas­ci­mento. Ela nasceu no dia 10 de de­zembro, eu no dia 11. Por essa “pro­xi­midade”, sempre me in­te­ressei mais pela sua vida do que por suas obras. Pode ima­ginar quão pro­ble­mático é des­gostar de uma das “es­cri­toras” mais im­por­tantes do Brasil? Ainda não é fácil.

Na­quela época, eu só tinha os meus achismos e a minha per­cepção dos seus textos. Do outro lado, di­fe­rente tipos de pro­fes­sores, uns que res­pei­tavam minha opinião, outros que as des­de­nhavam. De qualquer forma, o tempo passou (como diz a Clarice). Minha opinião não mudou, nem a dos outros. Porém, em tempos de Youtube, é fácil ver que eu tinha razão, e não eles. O jeito blasé dela, mis­turado com um ner­vo­sismo in­con­tro­lável atiça a minha ima­gi­nação. Gosto de semear a idéia de que po­de­ríamos ter sido bons amigos, se ti­vés­semos vivido na mesma época. Di­vidir um ci­garro com ela de­veria ser uma ex­pe­ri­ência e tanto. Vamos ao livro.

Uma apren­di­zagem… conta a his­tória de Lo­reley – ou Lóri, como é chamada na maior parte do livro –, uma jovem pro­fessora pri­mária que se es­ta­belece no Rio De ja­neiro depois de sair da casa de sua rica fa­mília na cidade de Campos. Ali, vive de­sin­te­res­sa­da­mente entre as suas aulas e os oca­si­onais na­moros quando então co­nhece Ulisses, pro­fessor de fi­lo­sofia. Então, ele começa a guiar Lóri por uma jornada de auto-​conhecimento, na busca pelo sua ver­da­deira iden­tidade para po­derem co­meçar um re­la­ci­o­na­mento ba­seado em amor e não em aparências.

Para Clarice, não há como viver ple­na­mente sem o au­to­co­nhe­ci­mento. Lis­pector tenta mostrar du­rante a nar­rativa o pro­cesso de ama­du­re­ci­mento psi­co­lógico da per­so­nagem prin­cipal, Lóri. Ori­entada e in­cen­tivada por Ulisses, seu pre­ten­dente, Lo­reley começa a pensar sobre quem ela foi, é e quer ser, em um ca­minho confuso e, para ela, do­loroso. Por fim, Lóri des­cobre o seu Eu, re­sol­vendo im­por­tante parte das dú­vidas que a pre­o­cu­pavam e pode entregar-​se de corpo e alma para Ulisses. Simples assim, rápido mesmo. Clarice não ia nem pedir a minha opinião sobre o livro, porque sa­beria bem o que eu lhe diria.

Vargas Llosa divide a li­te­ratura mo­derna em dois blocos in­qui­e­tantes. O pri­meiro é formado pela li­te­ratura de consumo, aquela que os au­tores só re­petem formas e his­tórias: interessam-​se pela ven­dagem. O outro é a pa­tri­otera, tran­si­gente, que se fecha em si mesma, na crença de que só o iso­la­mento im­pedirá a con­ta­mi­nação do mundo con­su­mista – es­crevem para e entre eles. Clarice Lis­pector encontra-​se no se­gundo grupo, é ela mesma quem diz, mas en­tendi isso de primeira.

Uma apren­di­zagem… faz parte da tra­dição de Clarice. Ela é es­tudada e elo­giada sempre em con­junto, como se um livro au­to­ma­ti­ca­mente le­vasse a outro. Qualquer crítica é obrigada a des­tacar que sua li­te­ratura é in­ti­mista e psi­co­lógica, es­crita para dentro, que se de­sen­volve de obra para obra, mas sempre como um todo. Um livro para ser con­si­derado clássico precisa sustentar-​se por si mesmo. Aí en­tramos na fra­gi­lidade desta obra. A própria Clarice dá de ombros para essas in­ter­pre­tações. Legal. Mas os tais dou­tores adoram esses por me­nores. Vamos lá.

O número de ele­mentos teó­ricos na nar­rativa são muitos e, na maioria das vezes, re­dun­dantes. O tema central é a vida de Lóri e sua re­lação com Ulisses. Ok. Em uma re­fe­rência direta a Homero, Clarice pega o epi­sódio das se­reias para compor uma his­tória às avessas: Lóri, a sereia, não traga Ulisses, mas é res­gatada por ele. Uma obra Clássica possui in­gre­di­entes fáceis de se iden­ti­ficar, mas que dão um tra­balho ho­mérico para o autor es­crever. Clarice padece de pre­guiça crônica.

Linda, lindíssima!

Linda, lin­díssima!

Clarice não se im­porta com o leitor. Eu digo isso e ela sus­tenta a minha opinião (chorem fãs…). O re­co­nhe­ci­mento de sua obra baseia-​se em uma le­gi­ti­midade au­toral vinda de uma cre­di­bi­lidade cons­truída pelos ad­mi­ra­dores. O efeito ima­gi­nário é grande, mas devido aos vácuos no enredo. O mo­mento psi­co­lógico de Lóri é ex­plorado à exaustão, mas não a sua psi­co­logia. Sua re­lação com a fa­mília, prin­cipal pro­pulsor para sua mu­dança de vida, é re­velado su­per­fi­ci­al­mente. Ulisses, o pro­fessor de fi­lo­sofia, o prin­cipal res­pon­sável pela jornada de Lo­reley, não passa de um es­te­reótipo de ana­lista. Todos os ali­cerces dos per­so­nagens devem ser ima­gi­nados pelo leitor, mas pela ótica de Clarice. Pra­ti­ca­mente; qualquer coisa cabe nessas la­cunas, mas so­mente a ima­gi­nação do leitor vin­culada a da autora com­pletam o quadro. Para ler Clarice, precisa-​se ser Clarice. Por isso, Otto Lara Re­sende disse que suas obras não são li­te­ratura, mas bru­xaria. O leitor como leitor precisa perder o seu eu para poder en­contrar o eu da obra: Clarice Lispector.

A alta li­te­ratura permite ao leitor par­ti­cipar da vida. Mas é a vida em seu sentido uni­versal, não bi­o­gráfico. Julien Sorel e Gina Pi­e­tranera, de Stendhal; Anna Ka­renina, de Toltói; Mademe Bovary, de Flaubert – todos esses per­so­nagens res­piram em nossos ou­vidos sem pre­ci­sarmos re­correr a nada mais que o livro. São per­so­nagens mag­ni­fi­ca­mente cons­truídos, com uma pro­fun­didade psi­co­lógica tão grande que po­demos jurar co­nhecer seus pen­sa­mentos mais ocultos. Ao con­trário de Lóri, que, para ser com­pre­endida em sua to­ta­lidade, precisa da ajuda ou dos outros livros da autora, ou da própria.

Ao fazer cons­truir sua his­tória sobre a pas­sagem da Odisséia de Homero, Clarice descuida-​se de re­la­cionar sua nar­ração com aquela. Por que Ulisses de Clarice apaixona-​se pela algoz, ao con­trário do ori­ginal, que busca de­ses­pe­ra­da­mente re­tornar para casa?

Por que Ulisses de Clarice re­solve res­gatar a sereia se o Ulisses de Homero faz o im­pos­sível para derrotá-​la? E, mais im­por­tante, por que Lóri aceita buscar seu ver­da­deiro eu de uma hora para outra, já que ela era uma se­dutora predadora?

A busca do Eu é com­plexa e exige muito do aven­tu­reiro. A vírgula e o dois pontos que, res­pec­ti­va­mente, abrem e fecham o livro não de­li­mitam so­mente um pe­ríodo na vida da per­so­nagem. Eles de­li­mitam o en­ten­di­mento do leitor. A mag­nitude de Fer­nando Pessoa, outro es­critor in­ti­mista, esmaga qualquer pre­tensão de Uma apren­di­zagem… se com­pa­rados. E os clás­sicos devem ser com­pa­rados com clás­sicos, não é co­vardia fazê-​lo. Tanto que a forma de Clarice aproxima-​se da de James Joyce. Embora não haja razão para acre­ditar que Clarice co­nhecia a obra do es­critor – e os his­to­ri­a­dores in­sistem que não – é preciso re­la­cionar um com o outro e se per­guntar qual deles de­sen­volveu melhor o estilo.

Clarice precisa ser lido por Clarice. Pa­lavras como “in­di­zível” ou “intraduzível” – vistas no livro – são pe­cados dos quais os bons es­cri­tores fogem como o diabo da cruz. Suas obras fazem sentido dentro de sua bi­o­grafia. Talvez, quando esta for es­crita, cada livro possa fazer parte de seu anexo, ou até mesmo do enredo. Mas Uma apren­di­zagem.,., por si só, é in­su­fi­ciente para um clássico. Talvez, o autor que en­carar a his­tória de Clarice Lis­pector (por que ela nunca quis ser uma pro­fis­sional), se com­pe­tente, a trans­formará em obra-​prima. Mas o mérito não será dela, mas do es­critor que ousar escrevê-​la.

Mas eu gosto dela. Assim como al­gumas amigas minhas, é pre­guiçosa e não voa tão alto quanto po­deria. Eu des­culpo isso, afinal, são me­ninas e ma­ra­vi­lho­sa­mente lindas. Se isso soar ma­chista para você leitor, aprenda a ler. A adoro a falsa fu­ti­lidade de al­gumas mu­lheres, o seu de­sapego. Dá pra ver que é mentira, e isso faz nossa paixão por elas au­mentar cada vez mais. Isso é uma apren­di­zagem. Irônico, não?

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A quem servem os bafômetros

Livro econômico, que traz pouco sobre a nova lei

Livro econômico, que traz pouco sobre a nova lei

O Shikida lançou um e-​book sobre a Lei Seca (péssimo nome, por sinal, que de­monstra a falta de cultura do bra­si­leiro). Esse as­sunto me dá tanta pre­guiça… E dis­cutir com eco­no­mistas destrói com­ple­ta­mente minha libido. Eles são o pau-​pra-​toda-​obra da atu­a­lidade. Várias pro­fissões já su­biram nesse pe­destal: re­li­giosos, aris­to­cracia, ci­en­tistas, darwi­nistas, jor­na­listas, po­si­ti­vistas, hu­ma­nistas. O ne­gócio é não entrar no embate, por isso ou vou fazer um mo­nólogo, sem con­versas, muito menos vou entrar na di­a­lética por­caria de qualquer cor­rente ideológica. 

Pa­norama His­tórico o Termo “Lei Seca”

Isso é um resumo. Em 1917 os Es­tados Unidos de­cla­raram guerra à Ale­manha. Nesse mesmo ano, o con­gresso ame­ricano aprovou uma emenda à cons­ti­tuição que tornava ilegal a venda de bebida al­cóolica no país. Ao con­trário do Brasil, que adora aprovar leis da noite para o dia, o con­gresso ame­ricano apenas san­cionou uma lei que teve muito apoio po­pular antes de chegar ao Senado Americano.

Culpem os me­to­distas. Mas também os ci­en­tistas. Culpem um monte de gente, por via das dú­vidas. Essa la­dainha ronda a cultura ame­ricana desde os 1700’s, ganhou força nos 1800’s e no começo dos 1900’s virou lei. Ah, o álcool faz mal a saúde. Ah, o álcool trans­forma um bom pai de fa­mília num bebum. Ah, o álcool de­nigre os bons cos­tumes. Imagina os de­fen­sores dessa lei hoje, quando pro­vamos que uma taça de vinho por dia faz bem ao co­ração. Aliás, se eu tiver um en­farto (in­farto, in­farte, foda-​se), pro­cessem o estado. Vol­temos. A lei foi aprovada pelo senado devido a um clamor da sociedade. 

E todo mundo sabe o que acon­teceu (vocês vêem filmes, não?).

A bebida con­tinuou a ser vendida no mercado negro, criando uma classe de cri­mi­nosos tão pe­rigosa quanto charmosa nos anos 2030. A figura máxima era Al Capone. E en­volveu po­lí­ticos, po­li­ciais, fa­zen­deiros, bares, enfim… Depois de quase duas dé­cadas de proi­bição, fi­nal­mente che­garam à con­clusão que o melhor era mo­derar o consumo, mas nunca mais proibí-​lo com­ple­ta­mente. Esse é o resumo da ópera.

O novo texto do código bra­si­leiro de trânsito não faz nada disso aí. Apenas proíbe que você dirija um veículo au­to­motor se tiver con­sumido qualquer quan­tidade de álcool. Além de ser um pé no saco, pode te mandar pra cadeia assim, num es­talar de dedos (ou numa so­prada, ou numa recusa, enfim).

Eu de­testo esse termo desde o princípio.

O Novo Código Bra­si­leiro de Trânsito

Pouca gente se lembra de quando ele entrou em vigor. Mudou com­ple­ta­mente a nossa vida. Além de multas bem pe­sadas por ter, por exemplo, uma lan­terna queimada, ins­tituiu a obri­ga­to­ri­edade do cinto de se­gu­rança e ca­pacete, por exemplo. Lembro bem da dis­cussão na época. Se eu quiser di­rigir sem cinto, pro­blema meu. Sem ca­pacete, pro­blema meu. O lado oposto dessa dis­cussão era as man­chetes de jornal: Número de mortos cai em hos­pital. Cinto e ca­pa­cetes salvam vidas (assim, sem con­cor­dância nos termos). Alguma se­me­lhança com o debate hoje? Humm, depois de alguns anos o número de aci­dentes au­mentou, es­ta­bi­lizou ou di­i­minuiu? Hummm…

Mas também teve outras coisas bem di­ver­tidas, como a obri­ga­to­ri­edade de ter no carro um Kit de Pri­meiros So­corros. Lembram deles? Uma bol­sinha branca, com uma cruz ver­melha que só servia para acu­mular poeira no porta malas? Tinha que ter uma luva des­car­tável, es­pa­ra­drapo, gazes e outras coi­sinhas bem úteis quando uma ca­mi­nhonete passa por cima da sua cabeça ou você está preso nas fer­ragens. Ao mesmo tempo tí­nhamos novos cursos para tirar a car­teira de mo­to­rista, como o de pri­meiros so­corros que era mais ou menos assim: tente deixar a vítima imo­bi­lizada, sem ninguém tocar nela até a chegada da am­bu­lância. Aí um aluno bri­lhante per­guntava, “mas e o kit do carro?”. Eu ainda lembro das risadas.

Muita gente ganhou di­nheiro com isso, ven­dendo os kits. E muita gente ganhou di­nheiro fis­ca­li­zando os kits. Mé­dicos iam a te­le­visão falar que nem todos os kits eram es­téreis, que con­tinham bac­térias, isso e aquilo. Melhor nem usá-​los. Ao mesmo tempo, nas es­tradas, perto dos postos po­li­ciais, apa­re­ceram kombis ven­dendo toda sorte de equi­pa­mentos. Um kit que custava 5 reais na cidade ia pra 50 do lado da PRF. O dolár era um pra um, ok? Ah, essas kombis… elas ainda existem até hoje, ven­dendo lâm­padas de farol a mó­dicas quantias. Bela he­rança. Mas o grosso mesmo foram as em­presas que mon­tavam o tal kit. Da mesma forma que sur­giram, de­sa­pa­re­ceram quando essa exi­gência caiu.

Isso então é es­tranho pra você, leitor?

Pra mim não é.

Atuação da Po­lícia na Fis­ca­li­zação do Trânsito

No pri­meiro ano do Código de Trânsito ti­vemos que nos acos­tumar com as Blitz. E eram piores do que hoje. Não era raro pegar umas três antes de chegar em casa. A po­lícia apa­receu da noite pro dia. Com­praram novos guinchos ta­manha era a quan­tidade de carros ir­re­gu­lares. Até o tio da Kombi ter a bri­lhante idéia de es­ta­cionar perto delas. Seu carro não era guin­chado se você ar­ru­masse a coisa na hora. A po­lícia te abordava por causa de uma lâmpada queimada. Meu Deus, parece os Es­tados Unidos, as pessoas co­me­mo­ravam. E como ter­minou a fis­ca­li­zação? Bem, a lâmpada do freio de um amigo meu está queimada faz uns 3 anos e ele tem uma no­vinha no porta-​luvas. Não troco porque quero ver quando vão me parar por isso. Só por di­versão. No duro. Não foram poucas vezes que os po­li­ciais até qui­seram cobrar uma propina dele para es­quecer o caso. Tem hora que a car­teira vale o esforço.

Hoje, no­va­mente, vejo a mesma his­tória. As pessoas co­me­moram porque parece que elas estão nos Es­tados Unidos, na Europa. Eu tento lembrá-​las que não, elas vivem no BRASIL. Imagine o poder na mão do po­lícial que agora, por nada (des­culpa, mas o happy hour ainda é uma cultura bra­si­leira), pode te mandar pra prisão! Quem teme a lei não é o bêbado (ele já é louco por na­tureza), mas o tio da Kombi. Não pre­cisam mais dela (su­jeito in­de­ter­minado ou oculto, hein? hein?). Se mesmo depois de anos os ra­dares pegam um carro a 800 Km/​h e o Detran não admite sua parcela de culpa, imagina os bafô­metros em, di­gamos, 2010?

O Que O Futuro Nos Promete

Eco­no­mistas, pra voltar ao livro depois de tanta la­dainha, tem uma séria de­fi­ci­ência: eles não passam da ma­te­mática básica. Tudo bem que eles tem fór­mulas enormes, mas deviam se apro­fundar em ma­te­mática antes de emitir opinião. Tra­balhar com X e Y é fácil. A na­tureza humana está mais para cálculo avançado. É como acre­ditar que alunos me­dianos da escola pú­blica podem cons­truir uma nave espacial.

Não só os co-​autores do livro “es­que­ceram” da abran­gência de certas ex­ter­na­li­dades negativas.

Di­gamos, sei lá, que um agente pú­blico mal-​intencionado compre um bafô­metro no E-​Bay (o mesmo com­prado pela po­lícia por SETE MIL REAIS, nos Es­tados Unidos custa 150 DÓLARES) e re­solva adul­terar o número pra cima (bem, para os cé­ticos, alguém já pre­cisou des­blo­quear um ce­lular?)? Olha só eu dando idéia pra mar­manjo. Até você re­solver a si­tuação, meu bem… 

Ou pior, como o álcool sai do or­ga­nismo ra­pi­da­mente, e o IML não é um exemplo de com­pe­tência, logo logo irá criar uma si­tuação ju­rídica mais ou menos assim: o bafô­metro acusou po­sitivo, mas o su­jeito pre­cisou es­perar no IML, tomou um monte de re­fri­ge­rante e água e o exame de sangue deu ne­gativo ou abaixo do número acusado no bafô­metro. Vale qual leitura? Ah, no meu dia o IML fez o exame em cinco mi­nutos, mas o outro su­jeito teve 6 horas, a justiça é igual para todos ou o quê?

Eu não estou louco. Como a lei es­ta­belece li­mites tão baixos, um copo de cerveja, ou uma hora a mais ou a menos podem de­cidir entre li­berdade e CADEIA. Pela lei, eu posso me re­cusar a fazer tudo isso aí, bafô­metro, exame de sangue. Como o Estado vai di­fe­renciar os bê­bados ha­bi­tuais do pai de fa­mília que, sei lá, re­solveu tomar uma la­tinha a mais? Eu posso entrar com re­cursos con­tes­tando o tempo de espera, os equi­pa­mentos, qualquer coisa. Isso be­ne­ficia, uni­ca­mente, os piores ele­mentos. E não dá pra co­locar todo mundo no mesmo saco como o novo texto da lei fala.

Ou coisas bem en­gra­çadas como, um muy amigo teu re­solve te pregar uma peça e diz que a cerveja que ele te ofe­receu é sem álcool, mas não é. Ou sua em­presa faz uma festa po­li­ti­ca­mente correta sem álcool e um en­gra­ça­dinho re­solve zoar com todo mundo. O cara toma duas e nem sente, vai pra casa e cai na blitz, faz o teste do bafô­metro todo con­tente e vai pra Cadeia. Todo mundo vai na de­le­gacia dizer que foi um mal en­tendido (olha eu de novo dando idéia pra mar­manjo…), mas o pro­motor é meio pro­tó­genes e re­solve te pro­cessar mesmo assim. Le­vando em con­si­de­ração a lei, que diz que beber é po­ten­ci­al­mente co­locar outros em perigo de forma dolosa; e a loucura do pro­motor, claro – te­remos no Brasil o pri­meiro caso mundial, em outras letras, de Ten­tativa de Ho­mi­cídio sem a In­tenção de Matar.

O que eu tento dizer é: le­gislar pelo medo ou pelas emoções só traz con­seqüências ma­lé­ficas a médio e longo prazo. Hoje, é no­tório que as blitz param muito mais os mais jovens do que os mais velhos. E quando um “mais velho”, bêbado, passar pelos po­li­ciais e matar al­gumas pessoas no próximo cru­za­mento? O po­lícia tem o dever de evitar coisas como essa. Com melhor trei­na­mento, com uma ação efetiva, com método, eles po­deriam acabar com o crime or­ga­nizado no Rio de Ja­neiro. Mas do jeito que é, é dar muito crédito a uma cor­po­ração que ainda não o merece, mas tenta merecer.

E O Futuro Próximo?

Bem, com o passar do tempo a fis­ca­li­zação di­mi­nuirá. É um fato com­provado, porque o efetivo usado até as três ou quatro da manhã fará falta no resto do dia, ou em outros pontos da cidade. Bandido sabe onde tem blitz, onde po­li­ciais são re­qui­si­tados e dei­xando de lado outras atri­buições. Não é uma si­tuação sus­ten­tável (e os eco­no­mistas apostam num futuro exemplar onde haverá con­tra­tação de mais pessoal — gente, olha o or­ça­mento da se­gu­rança e acordem!). Mas o medo já estará instaurado.

Eu por exemplo, moro no Jardins, e não vou me ar­riscar be­bendo no centro, onde a de­le­gacia é outra, o perfil é outro. Eu não me ar­risco nem aqui, mas tem gente que pensa, HOJE, POR CAUSA DA LEI, no custo-​benefício de cruzar a cidade. E é um pen­sa­mento normal. As ba­tidas de trânsito vol­tarão aos níveis “normais”, sim, mas es­tarão es­pa­lhadas, e não mais con­cen­tradas onde nor­mal­mente tí­nhamos maior mo­vi­mento de bares, boates, etc. En­quanto a lei ficar como está, tudo ficará mais local, o que ajudará a ma­quiar os nú­meros por muito tempo.

E a mesma lei, que em suma po­deria criar dis­cussões pro­du­tivas, como a me­lhora da po­lícia, dos di­reitos dos ci­dadãos comuns e tanta coisa que ainda falta no país vai se trans­formar numa ba­talha entre os ditos anjos e os con­de­nados a serem demônios. Tal como no de­sar­ma­mento, a turma do paz e amor quer usar nossas emoções para uma agenda. Hoje, ninguém, salvo raras ex­ceções, pode andar armado. O crime não di­minuiu, au­mentou e ficou ainda pior. Po­li­ciais hoje dis­param a esmo, porque sabem se é bandido num carro, numa casa, ele vai estar armado. Hoje, bandido não leva mais 38 da casa do pai de fa­mília, andam com 765, 354, fuizis de as­salto, armas sempre foram de uso ex­clusivo e res­trito às forças ar­madas e a es­quecida po­lícia federal.

No­va­mente, otários são re­cru­tados, pen­sando terem as me­lhores in­tenções, para abrir uma lacuna pe­rigosa na vida, na justiça e no di­reito bra­si­leiro. Chuvas causam 35% mais aci­dentes. Só quando apro­varem uma lei que te mande pra cadeia por di­rigir com mal tempo as pessoas acor­darão? Acho que nem assim o bom-​senso do bra­si­leiro despertará.

E muito menos dos economistas.