Comando dos Vermelhos

Não es­cre­verei sobre po­lítica em 2010. Vejo as man­chetes sobre as eleições, acom­panho o bate-​boca entre os can­di­datos e só sinto tristeza: che­gamos a um ponto muito baixo no Brasil. A linha do gráfico de in­te­li­gência bra­si­leira desceu, desceu e desceu. O Mai­nardi foi pra Itália. O PSDB é um partido que não me re­pre­senta nem um pouco. É uma pena, mas o Brasil, pra mim, não vale nada.

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Publicidade: Um desafio para o PT

Quem sabe os candidatos devam comprar um néon?

Quem sabe os can­di­datos devam comprar um néon?

A vida do PT não está fácil. Mas se­guindo a tra­dição do Breves Notas, vou dar a eles o pulo do gato para a pu­bli­cidade nas cam­panhas elei­torais vin­douras. Eu sei, no­va­mente tra­ba­lhando de graça (e dessa vez aju­dando o inimigo). Nem tanto. Não há es­pe­rança alguma que os pe­tistas leiam isso aqui e re­solvam mudar. Eles não aprendem nada, eles não es­quecem nada. A análise serve mais como cu­ri­o­sidade, quem sabe um aviso. Então, chega de lenga-​lenga e vamos ao que interessa.

Ao con­trário do que pensam os ana­listas po­lí­ticos de porta de cadeia, os es­cân­dalos de cor­rupção nunca vistos antes nesse país fi­zeram um belo es­trago para o Partido dos Tra­ba­lha­dores, mesmo não atin­gindo o lider-​mor do partido, Lula. A po­pu­lação, claro, não deu de ombros como muitos alegam. Alguns po­lí­ticos juram de pé junto que o men­salão não existiu, que compras de votos não acon­te­ceram e por aí vai. Isso fun­ciona para a justiça (in­crível, não?), mas o povo é mais des­con­fiado. Para eles, acon­teceu e talvez ainda esteja acon­te­cendo. Basta per­guntar pela rua. E por que isso não atingiu a imagem do ape­deuta? Por que ele ainda é pre­si­dente da República?

Porque Lula é um semi-​analfabeto como todos nós”. Essa é a res­posta. Cuidado, eu não afirmo que o barbudo é ou não isso ou aquilo, digo que: no ima­gi­nário po­pular, Lula é um homem com baixa for­mação in­te­lectual, mas com um bom co­ração, como a po­pu­lação brasileira.

Esse é o apelo de Lula, bem ex­plorado nas últimas duas dis­putas elei­torais. Um homem do povo e blá-​blá-​blá. Ti­rando a mi­li­tância pe­tista, que o ama acima de todas as coisas, o ci­dadão comum vê um ser que en­frentou a ad­ver­sidade e, por isso, “co­nhece” os reais pro­blemas do país. Claro que isso é uma bes­teira mons­truosa, mas fun­ciona na pu­bli­cidade. A imagem do Ape­deuta é essa, foi cons­truída assim e, devo ad­mitir, dá certo demais na ba­na­nânia. Quem se lascou com essa his­tória foi o resto do Partido.

Os di­versos es­cân­dalos en­vol­vendo o go­verno não “gru­daram” em Lula porque

  1. A opo­sição quis ex­pli­citar para o Brasil o que re­al­mente acontecia.
  2. O povo re­al­mente acre­ditou que Lula de nada sabia

Mas, aí, o leitor se per­gunta “como o povo pôde ser tão burro e acre­ditar que o pre­si­dente não sabia de nada que acon­tecia de­baixo do seu nariz?”. A res­posta é fácil, mas longe de ser simples: porque Lula também é um homem do povo, logo, seria tão, di­gamos, in­gênuo como todos eles.

Es­clareço. Um homem comum, sentado no Pa­lácio do Pla­nalto, teria sérias di­fi­cul­dades em co­mandar um país. De­legar res­pon­sa­bi­li­dades, con­tratar as­ses­sores, mi­nistros, es­pe­ci­a­listas. Lidar com po­lí­ticos, par­tidos, em­prei­teiros, em­pre­sários e “toda essa gente”. O Seu Zé, na ca­deira do Pre­si­dente, sem ter ex­pe­ri­ência nessa his­tória, faria muitas bur­radas. O homem comum sabe que nem todo amigo é amigo, e se você lida com muita gente, alguns trai­dores acabam in­fil­trados no seu círculo pessoal. Faz parte da vida.

Isso fica muito pior quando se tem “poder”. Para o homem comum, Lula até tenta fazer tudo certo, mas como ele é “gente como a gente”, não dá pra es­perar muita coisa do su­jeito, não é? Os ana­listas po­lí­ticos fes­te­jaram a eleição do Ape­deuta como a su­pe­ração de pre­con­ceitos. Não foi, apenas é a re­a­fir­mação de todos eles. Já ouvi várias vezes (de elei­tores do Ape­deuta) a frase “es­perar o que do Lula, meio burro né, vão tirar van­tagem dele, lógico”.

Lula é um homem in­te­li­gente e ma­qui­a­vélico. Mas a “blin­dagem” de sua imagem mais deve ao ar or­di­nário, de homem comum, do que às es­tra­tégias ar­ti­cu­ladas pela sua cúpula, iden­ti­fi­cação par­ti­dária ou outras aná­lises do pessoal da USP ou da UNB. Po­pu­lista como é, não dá para con­vencer alguém que Lula é um gênio po­lítico, não um ci­dadão igual aos outros. E nas eleições de 2008, essa sua van­tagem virou contra o próprio partido. A ironia nunca morre, como diz o Mainardi.

O Partido dos Trabalhadores nas Eleições

As eleições 2006 foram mar­cadas por es­cân­dalos, sim. Nenhum outro can­didato pas­saria in­cólume a essa onda de acu­sações. Lula passou, e já ex­pliquei a razão. Ele é “or­di­nário como a gente”. Na­quela época, uma ba­gunça foi ins­taurada no ce­nário po­lítico. Os pró­prios pe­tistas se en­vol­veram em si­tu­ações nada hon­rosas. O Ape­deuta, es­perto, falou e não disse nada, esquivou-​se das acu­sações, usou a tática do “fui traído, meu erro foi es­perar o melhor das pessoas”. Disse que “cor­taria da própria carne”. Lógico que não cortou, mas, nas cam­panhas a pro­messa sempre vale mais. Como não apa­receu nenhum lasco por aí, os elei­tores fi­caram com sua es­pe­rança e vo­taram como fi­zeram em 2004.

Dois anos depois, os bra­si­leiros re­sol­veram ajudar Lula. No duro. A idéia é mais ou menos essa: “Lula não sabe es­colher ami­zades, isso a gente já sabe, então não vamos votar nos amigos deles, oras, porque são trai­dores”. Não é a toa que o número de votos do PT di­minuiu. Qualquer ana­lista de­cente já teria aberto o bico para o Partido. “Cuidado, Lula pode afundar o resto de vocês”. Mas imagina falar isso para uma Martha Su­plicy. Nunca, nun­quinha. Eu diria, relaxa e goza minha filha, vocês fi­zeram a ba­gunça e eu não tenho nem idéia de como ar­rumar isso. Não é um tra­balho fácil, não. A cada es­cândalo ao qual Lula so­brevive, o resto do PT su­cumbe. É preciso ter um culpado para tantos crimes. Se a Justiça pega ou não os cul­pados, isso é ir­re­le­vante para a po­pu­lação. Eles também julgam e acham os ban­didos que querem.

No ima­gi­nário po­pular, todo partido é um covil de lobos, gente ga­nan­ciosa que querem ganhar muito di­nheiro nas costas do país. Tanto que o “rouba mas faz” é um slogan po­sitivo no Brasil. Maluf ainda seria um campeão de votos hoje se não ti­vesse feito uma bes­teira com­pleta: o Pitta. Não se lembram?

O Dr. Paulo hoje foi varrido do mapa elei­toral por causa do ex-​prefeito Celso Pitta. O povo de São Paulo não esquece.

A car­reira do Maluf não acabou por causa de es­cân­dalos. Não mesmo. O Dr. Paulo hoje foi varrido do mapa elei­toral por causa do ex-​prefeito Celso Pitta. O povo de São Paulo não es­quece. Dr. Paulo as­se­gurou que Pitta seria o pre­feito ideal para a cidade e, do dia para a noite, aquele des­co­nhecido acabou eleito. Esse sim se meteu num belo es­cândalo, com di­reito a ex-​mulher e tudo. Mas o Maluf tinha pro­metido que o cara era bom. Não era e o pau­listano não confia mais no Dr. Paulo. Um erro de cálculo ina­cre­di­tável do maior gênio po­lítico do Brasil. E o Maluf até hoje não con­segue sair desse buraco que ele próprio se meteu.

Os pe­tistas hoje buscam essa in­di­cação de con­fiança de Lula, sem a qual todos eles ficam em maus-​lençóis. Sim, porque até hoje não se sabe quem é a ovelha negra do pe­tismo, não há um bode-​expiatório. Sem essa re­fe­rência, todos eles estão vir­tu­al­mente no mesmo saco. Lula sabe bem disso, aprendeu di­reito com a lição po­lítica do Maluf. Os ana­listas dizem que Lula não quer usar a má­quina. Mentira. Lula não quer é em­barcar num pos­sível barco-​furado. Ele sabe. Pitta foi eleito em 1997. Dez anos depois, o Maluf não sabe o que fazer.

Em Cu­ritiba, o PT tentou em­placar a Dilma como porta-​voz. Era uma prova de fogo vi­sando a eleição pre­si­dencial de 2010. PT levou uma lavada do PSDB. A es­tra­tégia não deu certo. Em Natal, Lula foi mais pre­sente, mais agressivo e mesmo assim o PT se lascou. Em São Paulo, Kassab venceu o pri­meiro turno contra todas as ex­pec­ta­tivas. Em Porto Alegre, o PT quase não passa para o se­gundo. Passou perto de perder para uma co­mu­nista de pri­meira viagem que de con­creto mesmo, só tem a beleza. É uma si­tuação bem preocupante.

O Marketing Petista para o Futuro

As tá­ticas pu­bli­ci­tárias do pe­tismo estão longe de serem ino­va­doras. Para tentar re­verter o quadro de Martha em São Paulo, Gil­berto Car­valho de­sem­barca na ca­pital para tentar fazer o que eu acabo de dizer acima, tentar colar Kassab no Maluf. Di­minuir a re­jeição da pe­tista é uma missão im­pos­sível, prin­ci­pal­mente depois do seu papel na crise aérea. Eles estão de­ses­pe­rados. Só restou essa saída.

Porém, em jogo está as eleições de 2010. O que eles farão quando ela chegar? Quem tem alguma dica?

O quadro não é fa­vo­rável. Nenhum can­didato do PT tem con­dições de entrar numa disputa pre­si­dencial. A Dilma Rousseff é uma per­so­nagem ainda em cons­trução, mas falta a ela a em­patia ne­ces­sária aos grandes po­lí­ticos. Não que mu­lheres fortes es­tejam fora das dis­putas. A ba­ronesa Thatcher foi de­cisiva para a his­tória da In­gla­terra, e a ela sempre faltou ca­risma com o povo. En­tre­tanto, Thatcher era um cé­rebro ma­ra­vi­lhoso e uma ótima primeira-​ministra, papel que Dilma não chega nem perto, tanto em termos de im­por­tância como de competência.

Uma dica para os pe­tistas: mu­lheres são di­retas, res­pondem na lata. Isso é es­sencial para vida po­lítica delas. Mas como o PT adora uma tan­gente, di­fi­cil­mente Dilma será uma can­didata a se temer, da mesma forma que Martha não é mais. O PT perde os ca­belos porque, em seus quadros, não há um único po­lítico coma ficha mais ou menos in­cólume (po­li­ti­ca­mente fa­lando, não ju­di­ci­al­mente). E se Lula apoiá-​los, poderá por em xeque a sua própria can­di­datura em 2014.

A si­tuação é tão séria que não me es­pan­taria o PT pro­curar um can­didato em outros par­tidos. Mas isso vai contra a his­tória pe­tista, e di­fi­cil­mente um can­didato de fora con­se­guiria passar pela in­ter­mi­náveis prévias que eles adoram fazer. Só com o apoio in­di­vidual de Lula. Mas co­ragem não é a prin­cipal ca­rac­te­rística do atual presidente.

A es­querda tem uma ten­dência na­tural para di­fa­mação nas cam­panhas. Acusam, acusam e acusam, com ou sem provas. Foi assim que eles che­garam ao poder. Mas para mantê-​lo, em um regime de­mo­crático, o dis­curso pre­ci­saria mudar. Mas o PT não sabe fazer nada mais. Falta a esse partido o res­peito pelo regime de­mo­crático, coisa que não consta em seu DNA.

A aposta deles con­ti­nuará no po­pu­lismo ras­teiro. E se in­ten­si­ficará nos pró­ximos dois anos. Quase seis anos de pre­si­dência e Lula não deu mais que uma ou duas co­le­tivas, todas con­tro­ladas. En­quanto isso, farão a cam­panha pau­tando o jor­na­lismo, como fazem hoje. Acre­ditam ser essa uma boa técnica. Nem tanto, eu diria. Mesmo o Brasil sendo um ter­ceiro mundo, hoje é uma boa classe média, e ela também influi nos re­sul­tados. Ela acaba ir­ra­diando suas opi­niões para as pessoas de nível social acima ou abaixo delas. É um pú­blico que o PT não con­segue lidar, nunca con­seguiu e di­fi­cil­mente conseguirá.

Con­cluindo, dias som­brios virão. Bate-​bocas sem con­teúdo se es­pa­lharão pela cena po­lítica na­cional. Como o PT é in­capaz de subir o nível, tentará re­baixar a todos para os termos con­for­táveis para eles. Ve­remos se a opo­sição cairá nessa ar­ma­dilha. Aguardem as grandes de­núncias de fraudes e cor­rupção. Haverá uma ten­tativa de po­la­ri­zação entre mo­cinhos e ban­didos ainda mais ra­dical. Eles gri­tarão, fa­larão grosso porque, no fim, nada tem a dizer. Suas res­postas os in­cri­mi­nariam. Será muito feio…

Resta aos homens de bem não acei­tarem essas con­dições. Res­ponder a rudeza com a verdade. As dis­si­mu­lações com a certeza. Ser direto ao invés de se es­quivar. Apesar do Partido dos Tra­ba­lha­dores possuir tanto poder hoje, uma única coisa pode acabar com sua he­ge­monia: quem aceitar as res­pon­sa­bi­li­dades terá muito mais força do que toda a má­quina pe­tista pode pro­duzir. Trazer o debate para o campo de­mo­crático sempre fará os pe­tistas per­derem o chão, porque eles não ca­minham pela trilha do res­peito, do bom-​senso e da hon­radez. Não, não. As es­tradas deles são feitas com as me­lhores das in­tenções, sim, mas são as­fal­tadas com as piores qua­li­dades que a hu­ma­nidade já produziu.

Agora, muitos mi­li­tantes en­tendem isso e não sabem mais o que fazer. In­te­res­sante, não?

Bagno, Marcos - A Norma Oculta

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Foco!

Foco!

Marcos Bagno é doutor em lingüística e pro­fessor da UNB. Seus livros são fi­guras certas nas aulas dos cursos de co­mu­ni­cação. Pos­si­vel­mente, é o pri­meiro de dis­cussão da língua que o gra­duando toma co­nhe­ci­mento. É ine­gável que A NORMA OCULTA suscita pontos im­por­tantes na re­flexão, nosso modo de falar e in­te­ragir so­ci­al­mente com os outros falantes.

En­tre­tanto, assim como é pro­vo­cadora, a obra pode en­ganar os menos acos­tu­mados ao tema (e que por sinal, é maioria dos alunos de uni­ver­si­dades). Talvez o melhor mo­mento para abordá-​lo fosse a partir do 3º se­mestre, quando o es­tu­dante já ad­quiriu o mínimo da ba­gagem teórica. Nem sempre o de­se­jável é o ro­ti­neiro, por isso tomo a au­to­ridade dada a mim por Bagno (afinal, como ele diz, sou um fa­lante da língua e, por­tanto, es­pe­ci­a­lista no as­sunto) para des­trinchar os pre­con­ceitos e erros que apa­recem cons­tan­te­mente dentro do livro. De outra forma, os des­lizes po­deriam sim­pli­ficar demais o ra­ci­o­cínio dos que de­sejam co­nhecer mais os es­tranhos sons que pro­nun­ciamos diariamente.

Antes de mais nada, de­vemos ob­servar que Marcos Bagno de A NORMA OCULTA não é um pro­fessor in­te­ressado em de­sen­volver o senso crítico de ninguém. Ele está mais para um com­ba­tente. Está em guerra com os gra­má­ticos. E como das guerras só saem per­de­dores, Bagno destrói tudo e a todos, não dei­xando pedra sobre pedra para a de­mo­cracia que visa ins­taurar. Na ten­tativa de acabar com um pre­con­ceito real, ele im­pos­si­bilita o leitor de ad­quirir algo muito mais im­por­tante do que um simples pan­fleto dou­tri­nário: pensar di­reito – a única arma eficaz contra o mundo in­justo traçado pelo autor.

O VALOR DA LETRA “S”

A NORMA OCULTA pre­tende ra­ci­o­cinar sobre língua e poder na so­ci­edade bra­si­leira. De acordo com o autor, o último reduto do com­por­ta­mento pre­con­cei­tuoso é a dis­cri­mi­nação através da língua: falar ou não errado, usar ou não a norma culta gra­ma­tical. Ao cri­ticar falhas de mor­fos­sintaxe no dis­curso ou texto de uma pessoa, o que está por trás desse “cor­re­ci­o­nismo” é a ten­tativa da classe do­mi­nante bra­si­leira em manter a de­si­gualdade econômico-​social no país.

O livro começa e termina uti­li­zando como exemplo a re­cepção do pre­si­dente bra­si­leiro Luiz Inácio na grande im­prensa. Vários ar­ti­cu­listas re­la­cionam o “re­la­xismo lingüístico” do pre­si­dente com uma pos­sível falta de cultura e ca­pa­cidade para co­mandar a nação.

Eles in­sistem em fo­ca­lizar os erros de con­cor­dância de Lula e sua forma simples (ou sim­plória?) de se ex­pressar. Para Bagno, isso nada mais é uma es­tra­tégia po­lítica contra a imagem da­quele e o que ele re­pre­senta (po­li­ti­ca­mente) na his­tória bra­si­leira. É fácil ver isso no tom do dis­curso de Bagno, enal­te­cendo a vi­tória nas eleições de 2002: (os grifos são meus, a não ser que eu diga o contrário)

“Seria uma ilusão supor que uma vi­tória como foi a de Lula nas eleições de 2002 bas­taria para que o pre­con­ceito lingüístico de­sa­pa­re­cesse de vez da nossa sociedade” – Pag. 15

“A his­tória pessoal de Lula é, sem dúvida, uma re­vo­lução “quase mágica”, mas é uma re­vo­lução in­di­vidual, par­ti­cular, digna de as­sombro, é claro, num país tão in­justo quanto o nosso.” – Pag 38

Para mostrar o erro da im­prensa, Bagno usa como exemplo pessoas con­si­de­radas “letradas” – como outras ma­térias “res­pei­tadas” vei­cu­ladas em jornais (pág 26) – que também co­metem os mesmos “erros”, pro­vando, em tese, a nu­lidade desses julgamentos.

“Em ambas as co­lunas, Dora Kramer deixa bem claro seu total des­preparo para tratar desses as­suntos, uma vez que fala de “plural e con­cor­dância verbal” e de “lições de plural e con­cor­dância” como se fossem duas coisas dis­tintas, como se as regras de plural não fi­zessem parte das regras de con­cor­dância (verbal e no­minal), como de fato fazem.” – Pág 22.

Porém, lem­bremos que Bagno tenta de­sa­cre­ditar a opinião dos jor­na­listas usando o mesmo jul­ga­mento: eles também co­mentem erros e não sabem do que falam. As crí­ticas ne­ga­tivas contra o Lula valem-​se do mesmo teor: lula não tem co­nhe­ci­mento para isso ou aquilo, por­tanto é in­capaz de fazer isso ou aquilo. O que o autor não ex­plica é por que formas de análise se­me­lhantes são vá­lidas no caso dele, mas não nos dos jor­na­listas. Por que Lula pode go­vernar o Brasil na base de tra­pa­lhadas e o jor­na­lista não pode, também atra­pa­lhado, tentar ana­lisar a língua? Mais, por que le­va­ríamos a sério em livro cheio de tra­pa­lhadas mesmo de um autor dou­torado e vacinado?

“As ob­ser­vações da jor­na­lista, por­tanto, de­monstram a atitude au­to­ri­tária de quem se acha com o di­reito de opinar e propor le­gis­lação sobre o que des­co­nhece, apenas por re­ve­renciar o senso comum, sem criticá-​lo com ins­tru­mento teórico ade­quado: não sendo lingüista nem pe­dagoga, com que fun­da­men­tação ela pode sus­tentar suas pro­postas de re­visão dos cur­rí­culos escolares?” – Pág. 23.

O mais in­crível é o Lula ter pleno do­mínio da norma culta. No dia a dia, ele atua nos pa­lanques usando a lin­guagem dos menos edu­cados. En­tre­tanto, nos dis­cursos em 2005, depois da crise no go­verno, quando in­flamado e sem ro­teiros para seguir, Lula de­monstra saber falar muito bem, fle­xi­o­nando os verbos cor­re­ta­mente, usando os co­nec­tivos de forma apro­priada, etc, etc, etc. Lula não é mais parte do povo comum: ele se educou lingüis­ti­ca­mente, ainda que te­nhamos sérias dú­vidas se o fez cul­tu­ral­mente. A qua­lidade veio depois da autoridade.

PRECONCEITO DE QUEM, CARA PÁLIDA?

O pre­con­ceito oculto detrás do pu­rismo gra­ma­tical é ver­da­deiro. Ele existe, ponto. En­tre­tanto, pensar que todo pu­rismo é um ato dis­si­mulado de pre­con­ceito é lo­gi­ca­mente errado. E também vemos isso na prática. De­fender a língua não sig­nifica me­nos­prezar quem não pôde con­cluir os es­tudos ou não teve con­dições ou vontade de se ins­truir por conta própria. Imagine se a li­te­ratura fosse en­gajada na uni­ver­sa­li­zação do falar mal.

Que ninguém se iluda: só a leitura in­tensa permite co­nhecer os múl­tiplos re­cursos da língua e usá-​los com efi­ci­ência, sem a de­coreba gra­ma­ti­queira“
Marcos Bagno

Porém, du­rante a obra, somos le­vados a crer que se não o é sempre, na maioria dos casos é pre­con­ceito (cons­ciente ou inconsciente).

“(…) em boa medida, nós somos a língua que fa­lamos, e acusar alguém de não saber falar sua própria língua ma­terna é tão ab­surdo quanto acusar essa pessoa de não saber “usar”corretamente a visão (isto é, afirmar o ab­surdo de que alguém é capaz de en­xergar, mas não é capaz de ver) ou o olfato (isto é, afirmar o ab­surdo de que alguém é capaz de sentir o cheiro, mas não de aspirá-​lo).” Pág. 17 [grifos do autor].

Se Marcos Bagno é doutor em lingüística, de­veria comprar um livro de lógica básica (bem como um de fi­lo­sofia). As duas ana­logias são er­radas de qualquer ponto de vista. Pri­meiro, elas não se equi­valem. Se assim fosse, o “ab­surdo” seria alguém ver e não ser capaz de deixar a luz entrar na retina; ou alguém ser capaz de as­pirar e não con­seguir iden­ti­ficar o cheiro.

Isso porque “en­xergar” não é sinônimo de “ver”. Quando as pa­lavras perdem o seu poder sim­bólico (fruto da falta de leitura e cultura) criam, aí sim, pro­po­sições ab­surdas como essas.

En­xergar se re­la­ciona com o ato fi­si­o­lógico. Se você tem o globo, a retina e demais partes do sistema ocular bem for­mados, você poderá en­xergar. En­tre­tanto, um daltônico recebe a luz verde na retina. Por uma série de fa­tores, vê ver­melho. Ou um es­qui­zo­frênico, que vê alu­ci­nações mas não en­xerga os monstros (não há fi­si­ca­mente ne­nhuma imagem na retina).

Falar e dizer seguem a mesma linha. Lula, por exemplo. Fala que foi traído, mas não diz quem foi. Uma pessoa pode falar du­rante horas mas não dizer nada, i.e., seu dis­curso não tem ne­nhuma in­tenção, não transmite qualquer dado re­le­vante para o as­sunto em questão. Também ler. Qualquer pessoa al­fa­be­tizada é capaz de in­ter­pretar os ca­rac­teres em um livro do Sartre, mas só alguns terão a ba­gagem ne­ces­sária para en­tender o que ele quis dizer.

LÍNGUA É PODER

A NORMA OCULTA não con­segue acabar com os pro­blemas que se propõe a ex­pli­citar. Muito menos desnudá-​los de forma correta. Du­rante todo o livro Bagno usa as mesmas si­tu­ações para ilustrar va­lores opostos. Tudo parece ser re­lativo. Sua missão é jus­ti­ficar sua luta contra os gra­má­ticos e, no fim, também jus­ti­ficar uma postura po­lítica pessoal.

Ao acusar uma “elite pri­vi­le­giada” de “oprimir” os bra­si­leiros “ví­timas de anos de de­si­gualdade”, Marcos deixa de ana­lisar os pro­blemas es­tru­turais que le­varam e levam o povo a des­co­nhecer as regras gra­ma­ticais da língua portuguesa.

Na página 124, lê-​se que nas so­ci­e­dades onde a cultura es­crita é oni­pre­sente, existem ins­ti­tuições que inibem as forças de mu­dança da língua. O autor es­quece de dizer (in­ten­ci­o­nal­mente?) que essas so­ci­e­dades são as mais ricas, de­mo­crá­ticas e justas – além de terem enorme in­fluência econômica, social e cul­tural nos países de ter­ceiro mundo.

Esse poder nasce quando há opor­tu­ni­dades para povo ter acesso a uma boa edu­cação. Ao tentar jus­ti­ficar a falta dessa edu­cação no Brasil, Bagno presta um des­serviço ao país. Ao invés de lutar para que as pessoas evoluam, ele parece querer que as res­peitem pela sua ig­no­rância, e não “apesar da”. Neste caso, não é só válido – é fun­da­mental esse res­peito para existir uma de­mo­cracia. Mas na­quele, ao poupar alguém pela sua in­ca­pa­cidade, to­mamos um ca­minho muito pe­rigoso. Não é apenas uma questão gra­ma­tical. Em última ins­tância, é uma questão de in­te­gridade física: se duas pessoas não sabem se ex­pressar, se eles não se com­pre­endem, ter­minam sempre usando a violência.

Triste e de­cep­ci­o­nante é a obra de Marcos Bagno. A NORMA OCULTA é um livro cheio de erros in­fantis de dis­curso, ra­ci­o­cínio e análise. Não de­veria ser levado a sério, como o fazem várias pessoas. É antes de tudo, para aqueles que sabem pensar, a fa­gulha inicial de uma re­flexão pro­funda sobre o povo bra­si­leiro. Se bem feita, dará grandes frutos. Do con­trário, se se­guirmos a lógica do autor, vol­ta­remos ao jardim de in­fância, quando dis­cu­tíamos fe­roz­mente para de­cidir se o mais feio era eu ou você.

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Di­fe­renças nos dis­cursos (clique para ampliar)/Thomas Hawk

Quem ficou sur­preso com meu apoio ao McCain? Quem, quem? Já era de se es­perar, não é? Nesse mo­mento, o blog, pu­bli­ca­mente, dá seu apoio a John McCain. Sim, sim. E a razão disso é simples: é único can­didato que aceita meu total e com­pleto apoio res­trito à sua pre­si­dência. Isso mesmo, res­trito. Essa é a razão de eu gostar tanto dos re­pu­bli­canos, eles não pedem minha fi­de­lidade cega para seus pro­gramas de go­verno. Não mesmo. Não, não.

Votar no Obama é as­sinar uma folha em branco, com firma re­co­nhecida e re­gis­trada em car­tório. Não sejam in­gênuos. A Left Wing não pede nada menos. Depois alegam que a Di­reita é a ra­dical. Falo sobre isso mais abaixo.

Eu também gosto de um pouco de decoro, de uma certa ver­gonha, da hi­po­crisia. A hi­po­crisia sig­nifica que alguns va­lores ainda existem e não podem ser “que­brados”. Já a es­querda adora mudar o sig­ni­ficado das coisas para seu pro­veito próprio. Lembro muito bem das es­tri­pulias orais do Sr. Bill Clinton. O que cada um faz no seu canto não me im­porta, mas não es­queço da Mônica L. fa­lando sobre suas for­ni­cações como Bill no salão oval. Óbvio que eu não coloco minha mão no fogo pelo W. Bush e nem por ninguém, mas ao menos, se ele tiver feito coisas feias na­quela sala, eu não vou saber. Melhor ter es­ta­giárias que saibam como ligar a má­quina de lavar. Guardar ves­tidos sujos com fluídos cor­porais de um homem é anti-​higiênico. E eu gosto de tudo limpinho.

E esses de­mo­cratas gostam de um es­cândalo sexual, não é mesmo. JFK fa­turou a Mary Pinchot Meyer e também a Ma­rilyn Monroe du­rante a pre­si­dência, e nem por isso deu o vexame do Bill Também. O cara era acos­tumado com mu­lheres bo­nitas.

Não me en­tendam mal. Eu não tenho aversão aos de­mo­cratas ame­ri­canos, não mesmo. Pra mim, tanto o Kennedy quanto o Ro­o­sevelt foram ótimos pre­si­dentes. Mas de lá pra cá, o partido perdeu a mão. Esses dois en­fren­taram pro­blemas con­cretos, de so­luções nada fáceis. Com­praram brigas ho­mé­ricas, Obama pe­diria pra sair na menor delas. Faltam aos de­mo­cratas grandes nomes. O partido ainda vive na nos­talgia de pre­cisar ser o partido da mu­dança, sem ter noção para onde querem mudar. Isso é pe­rigoso, muito pe­rigoso. Como não con­seguem ter um foco de­finido agora, sabe-​se lá para onde vol­tarão a sua atenção na Casa Branca.

Atu­al­mente, os Re­pu­bli­canos possuem esse foco. No que diz res­peito à eco­nomia, à re­ligião, à se­gu­rança in­terna e tudo mais. Claro, as visões não são una­ni­midade na Right Wing, mas ao menos dá pra con­versar. Ao saber as in­tenções de McCain na pre­si­dência, fica bem mais fácil co­locar freios e li­mites aos planos ma­lucos que qualquer partido tem. E isso só pode ser feito quando o dis­curso é claro. Os de­mo­cratas vivem na tan­gente, tal qual o nosso PT. Falam muito mas não dizem nada. Des­co­nhecem demais a si próprios.

Claro que a di­reita com­porta ra­di­ca­lismos também. Os beatos de porta de igreja, o pessoal mais doido da As­so­ciação Na­cional do Rifle e mais um monte de loucos. Tudo bem, de­mo­cracia é assim mesmo. Mas a es­querda também tem sua cota, e acho que ela é bem mais pe­rigosa. Trans­ves­tidos de bom-​mocismo, com um des­curso po­li­ti­ca­mente correto e sen­ti­men­ta­lóide, os ra­dicais da es­querda podem causar es­tragos reais, re­tirar várias li­ber­dades in­di­vi­duais e todo tipo de coisa. Melhor dis­cutir o ensino do cri­a­ci­o­nismo na escola do que, sei lá, a proi­bição de pes­quisas com animais. Essa última sim, po­deria levar o mundo de volta às trevas.

Também me de­sa­grada a ten­tativa de mas­sacre pú­blico contra a Sarah Palin. Tudo bem que a mulher é uma fera, mas espera um pouco. Criar boatos sobre a fa­mília dela? Que moral os de­mo­cratas têm para querer dar essas lições? Agora vieram com a his­tória das notas na fa­culdade, que ela teria sido uma aluna me­díocre. O Obama até agora não li­berou a ficha aca­dêmica dele. Têm medo de quê? O W. Bush freqüentou a Uni­ver­sidade de Yale e o chamam de idiota dia sim e no outro também. Nessa his­tória de es­conder a vida, Obama é um pro­fis­sional, não existe nada sobre o cara…

Eu prefiro saber com quem estou li­dando. Se fosse ame­ricano, vo­taria em McCain. Sou (in­fe­liz­mente) bra­si­leiro, e espero que ele vença. Mas apesar disso tudo, outra coisa me cativa na sua can­di­datura: a cam­panha. Os re­pu­bli­canos con­seguem ser sérios, res­pon­sáveis e di­ver­tidos ao mesmo tempo. Eles tiram sarro da cam­panha de­mo­crata a toda hora. Adoro. Go­vernar os EUA não deve ser uma brin­ca­deira, mas en­carar a pre­si­dência como um fardo, algo penoso e frágil, um em­prego que só um en­viado es­pecial po­deria en­carar é bes­teira. Obama acha que é demais e o eleito pelo mundo para o cargo. Pense ele o que quiser. Ele não é um super-​homem. Aliás, pode nem ter nascido na América. Isso sim é engraçado.

Photo: Thomas Halk

Eleições 2008

Como a maioria dos meus lei­tores já sabe, não fa­larei sobre as eleições bra­si­leiras desse ano. Duas razões prá­ticas me le­varam a isso: pri­meiro, não tenho tempo para pes­quisar todas as im­be­ci­li­dades que os can­di­datos desse ano dirão. Não ha­veria tempo hábil para des­cons­truir todas essas men­tiras. E também não tenho fé de que o bra­si­leiro médio consiga, como num passe de mágica, pensar por si mesmo. Não, ele já não con­segue. Depois, tem uma eleição mais im­por­tante para a gente, as eleições ame­ri­canas. Essa sim, pode mudar nosso destino. Se o de­mo­crata vencer, o Brasil está lascado.

O que eu po­deria falar sobre o pleito das ci­dades que me im­portam, Rio de Ja­neiro, Porto Alegre e São Paulo? Como eu po­deria dis­cutir a eleição gaúcha, quando a co­mu­nista do Brasil está con­cor­rendo com sorriso nos lábios? Os porto-​alegrenses que deitem nas se­pul­turas que cavam. O Rio de Ja­neiro já está fe­dendo faz anos. Ao menos po­deriam cobrir o ca­dáver. São Paulo vai con­seguir so­bre­viver, como já so­bre­viveu ao Maluf, a Erundina e a Martha “relaxa e goza”. Viram, uma can­didata que falou algo do tipo ainda tem elei­tores. Eu desisto.

Mas espero mesmo que carros de som não passem pela minha rua, que eu não veja idiotas dis­tri­buindo san­tinhos nas minhas es­quinas. Não quero ver bi­ci­cletas do PV. E espero que no Su­plicy Cafés não apareça ne­nhuma pro­pa­ganda elei­toral, seja ver­melha, azul ou com as lindas cores do arco-​íris. 

Meu de­safio nessas eleições é ficar em paz, no duro.