Não escreverei sobre política em 2010. Vejo as manchetes sobre as eleições, acompanho o bate-boca entre os candidatos e só sinto tristeza: chegamos a um ponto muito baixo no Brasil. A linha do gráfico de inteligência brasileira desceu, desceu e desceu. O Mainardi foi pra Itália. O PSDB é um partido que não me representa nem um pouco. É uma pena, mas o Brasil, pra mim, não vale nada.
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Publicidade: Um desafio para o PT
A vida do PT não está fácil. Mas seguindo a tradição do Breves Notas, vou dar a eles o pulo do gato para a publicidade nas campanhas eleitorais vindouras. Eu sei, novamente trabalhando de graça (e dessa vez ajudando o inimigo). Nem tanto. Não há esperança alguma que os petistas leiam isso aqui e resolvam mudar. Eles não aprendem nada, eles não esquecem nada. A análise serve mais como curiosidade, quem sabe um aviso. Então, chega de lenga-lenga e vamos ao que interessa.
Ao contrário do que pensam os analistas políticos de porta de cadeia, os escândalos de corrupção nunca vistos antes nesse país fizeram um belo estrago para o Partido dos Trabalhadores, mesmo não atingindo o lider-mor do partido, Lula. A população, claro, não deu de ombros como muitos alegam. Alguns políticos juram de pé junto que o mensalão não existiu, que compras de votos não aconteceram e por aí vai. Isso funciona para a justiça (incrível, não?), mas o povo é mais desconfiado. Para eles, aconteceu e talvez ainda esteja acontecendo. Basta perguntar pela rua. E por que isso não atingiu a imagem do apedeuta? Por que ele ainda é presidente da República?
“Porque Lula é um semi-analfabeto como todos nós”. Essa é a resposta. Cuidado, eu não afirmo que o barbudo é ou não isso ou aquilo, digo que: no imaginário popular, Lula é um homem com baixa formação intelectual, mas com um bom coração, como a população brasileira.
Esse é o apelo de Lula, bem explorado nas últimas duas disputas eleitorais. Um homem do povo e blá-blá-blá. Tirando a militância petista, que o ama acima de todas as coisas, o cidadão comum vê um ser que enfrentou a adversidade e, por isso, “conhece” os reais problemas do país. Claro que isso é uma besteira monstruosa, mas funciona na publicidade. A imagem do Apedeuta é essa, foi construída assim e, devo admitir, dá certo demais na bananânia. Quem se lascou com essa história foi o resto do Partido.
Os diversos escândalos envolvendo o governo não “grudaram” em Lula porque
- A oposição quis explicitar para o Brasil o que realmente acontecia.
- O povo realmente acreditou que Lula de nada sabia
Mas, aí, o leitor se pergunta “como o povo pôde ser tão burro e acreditar que o presidente não sabia de nada que acontecia debaixo do seu nariz?”. A resposta é fácil, mas longe de ser simples: porque Lula também é um homem do povo, logo, seria tão, digamos, ingênuo como todos eles.
Esclareço. Um homem comum, sentado no Palácio do Planalto, teria sérias dificuldades em comandar um país. Delegar responsabilidades, contratar assessores, ministros, especialistas. Lidar com políticos, partidos, empreiteiros, empresários e “toda essa gente”. O Seu Zé, na cadeira do Presidente, sem ter experiência nessa história, faria muitas burradas. O homem comum sabe que nem todo amigo é amigo, e se você lida com muita gente, alguns traidores acabam infiltrados no seu círculo pessoal. Faz parte da vida.
Isso fica muito pior quando se tem “poder”. Para o homem comum, Lula até tenta fazer tudo certo, mas como ele é “gente como a gente”, não dá pra esperar muita coisa do sujeito, não é? Os analistas políticos festejaram a eleição do Apedeuta como a superação de preconceitos. Não foi, apenas é a reafirmação de todos eles. Já ouvi várias vezes (de eleitores do Apedeuta) a frase “esperar o que do Lula, meio burro né, vão tirar vantagem dele, lógico”.
Lula é um homem inteligente e maquiavélico. Mas a “blindagem” de sua imagem mais deve ao ar ordinário, de homem comum, do que às estratégias articuladas pela sua cúpula, identificação partidária ou outras análises do pessoal da USP ou da UNB. Populista como é, não dá para convencer alguém que Lula é um gênio político, não um cidadão igual aos outros. E nas eleições de 2008, essa sua vantagem virou contra o próprio partido. A ironia nunca morre, como diz o Mainardi.
O Partido dos Trabalhadores nas Eleições
As eleições 2006 foram marcadas por escândalos, sim. Nenhum outro candidato passaria incólume a essa onda de acusações. Lula passou, e já expliquei a razão. Ele é “ordinário como a gente”. Naquela época, uma bagunça foi instaurada no cenário político. Os próprios petistas se envolveram em situações nada honrosas. O Apedeuta, esperto, falou e não disse nada, esquivou-se das acusações, usou a tática do “fui traído, meu erro foi esperar o melhor das pessoas”. Disse que “cortaria da própria carne”. Lógico que não cortou, mas, nas campanhas a promessa sempre vale mais. Como não apareceu nenhum lasco por aí, os eleitores ficaram com sua esperança e votaram como fizeram em 2004.
Dois anos depois, os brasileiros resolveram ajudar Lula. No duro. A idéia é mais ou menos essa: “Lula não sabe escolher amizades, isso a gente já sabe, então não vamos votar nos amigos deles, oras, porque são traidores”. Não é a toa que o número de votos do PT diminuiu. Qualquer analista decente já teria aberto o bico para o Partido. “Cuidado, Lula pode afundar o resto de vocês”. Mas imagina falar isso para uma Martha Suplicy. Nunca, nunquinha. Eu diria, relaxa e goza minha filha, vocês fizeram a bagunça e eu não tenho nem idéia de como arrumar isso. Não é um trabalho fácil, não. A cada escândalo ao qual Lula sobrevive, o resto do PT sucumbe. É preciso ter um culpado para tantos crimes. Se a Justiça pega ou não os culpados, isso é irrelevante para a população. Eles também julgam e acham os bandidos que querem.
No imaginário popular, todo partido é um covil de lobos, gente gananciosa que querem ganhar muito dinheiro nas costas do país. Tanto que o “rouba mas faz” é um slogan positivo no Brasil. Maluf ainda seria um campeão de votos hoje se não tivesse feito uma besteira completa: o Pitta. Não se lembram?
O Dr. Paulo hoje foi varrido do mapa eleitoral por causa do ex-prefeito Celso Pitta. O povo de São Paulo não esquece.
A carreira do Maluf não acabou por causa de escândalos. Não mesmo. O Dr. Paulo hoje foi varrido do mapa eleitoral por causa do ex-prefeito Celso Pitta. O povo de São Paulo não esquece. Dr. Paulo assegurou que Pitta seria o prefeito ideal para a cidade e, do dia para a noite, aquele desconhecido acabou eleito. Esse sim se meteu num belo escândalo, com direito a ex-mulher e tudo. Mas o Maluf tinha prometido que o cara era bom. Não era e o paulistano não confia mais no Dr. Paulo. Um erro de cálculo inacreditável do maior gênio político do Brasil. E o Maluf até hoje não consegue sair desse buraco que ele próprio se meteu.
Os petistas hoje buscam essa indicação de confiança de Lula, sem a qual todos eles ficam em maus-lençóis. Sim, porque até hoje não se sabe quem é a ovelha negra do petismo, não há um bode-expiatório. Sem essa referência, todos eles estão virtualmente no mesmo saco. Lula sabe bem disso, aprendeu direito com a lição política do Maluf. Os analistas dizem que Lula não quer usar a máquina. Mentira. Lula não quer é embarcar num possível barco-furado. Ele sabe. Pitta foi eleito em 1997. Dez anos depois, o Maluf não sabe o que fazer.
Em Curitiba, o PT tentou emplacar a Dilma como porta-voz. Era uma prova de fogo visando a eleição presidencial de 2010. O PT levou uma lavada do PSDB. A estratégia não deu certo. Em Natal, Lula foi mais presente, mais agressivo e mesmo assim o PT se lascou. Em São Paulo, Kassab venceu o primeiro turno contra todas as expectativas. Em Porto Alegre, o PT quase não passa para o segundo. Passou perto de perder para uma comunista de primeira viagem que de concreto mesmo, só tem a beleza. É uma situação bem preocupante.
O Marketing Petista para o Futuro
As táticas publicitárias do petismo estão longe de serem inovadoras. Para tentar reverter o quadro de Martha em São Paulo, Gilberto Carvalho desembarca na capital para tentar fazer o que eu acabo de dizer acima, tentar colar Kassab no Maluf. Diminuir a rejeição da petista é uma missão impossível, principalmente depois do seu papel na crise aérea. Eles estão desesperados. Só restou essa saída.
Porém, em jogo está as eleições de 2010. O que eles farão quando ela chegar? Quem tem alguma dica?
O quadro não é favorável. Nenhum candidato do PT tem condições de entrar numa disputa presidencial. A Dilma Rousseff é uma personagem ainda em construção, mas falta a ela a empatia necessária aos grandes políticos. Não que mulheres fortes estejam fora das disputas. A baronesa Thatcher foi decisiva para a história da Inglaterra, e a ela sempre faltou carisma com o povo. Entretanto, Thatcher era um cérebro maravilhoso e uma ótima primeira-ministra, papel que Dilma não chega nem perto, tanto em termos de importância como de competência.
Uma dica para os petistas: mulheres são diretas, respondem na lata. Isso é essencial para vida política delas. Mas como o PT adora uma tangente, dificilmente Dilma será uma candidata a se temer, da mesma forma que Martha não é mais. O PT perde os cabelos porque, em seus quadros, não há um único político coma ficha mais ou menos incólume (politicamente falando, não judicialmente). E se Lula apoiá-los, poderá por em xeque a sua própria candidatura em 2014.
A situação é tão séria que não me espantaria o PT procurar um candidato em outros partidos. Mas isso vai contra a história petista, e dificilmente um candidato de fora conseguiria passar pela intermináveis prévias que eles adoram fazer. Só com o apoio individual de Lula. Mas coragem não é a principal característica do atual presidente.
A esquerda tem uma tendência natural para difamação nas campanhas. Acusam, acusam e acusam, com ou sem provas. Foi assim que eles chegaram ao poder. Mas para mantê-lo, em um regime democrático, o discurso precisaria mudar. Mas o PT não sabe fazer nada mais. Falta a esse partido o respeito pelo regime democrático, coisa que não consta em seu DNA.
A aposta deles continuará no populismo rasteiro. E se intensificará nos próximos dois anos. Quase seis anos de presidência e Lula não deu mais que uma ou duas coletivas, todas controladas. Enquanto isso, farão a campanha pautando o jornalismo, como fazem hoje. Acreditam ser essa uma boa técnica. Nem tanto, eu diria. Mesmo o Brasil sendo um terceiro mundo, hoje é uma boa classe média, e ela também influi nos resultados. Ela acaba irradiando suas opiniões para as pessoas de nível social acima ou abaixo delas. É um público que o PT não consegue lidar, nunca conseguiu e dificilmente conseguirá.
Concluindo, dias sombrios virão. Bate-bocas sem conteúdo se espalharão pela cena política nacional. Como o PT é incapaz de subir o nível, tentará rebaixar a todos para os termos confortáveis para eles. Veremos se a oposição cairá nessa armadilha. Aguardem as grandes denúncias de fraudes e corrupção. Haverá uma tentativa de polarização entre mocinhos e bandidos ainda mais radical. Eles gritarão, falarão grosso porque, no fim, nada tem a dizer. Suas respostas os incriminariam. Será muito feio…
Resta aos homens de bem não aceitarem essas condições. Responder a rudeza com a verdade. As dissimulações com a certeza. Ser direto ao invés de se esquivar. Apesar do Partido dos Trabalhadores possuir tanto poder hoje, uma única coisa pode acabar com sua hegemonia: quem aceitar as responsabilidades terá muito mais força do que toda a máquina petista pode produzir. Trazer o debate para o campo democrático sempre fará os petistas perderem o chão, porque eles não caminham pela trilha do respeito, do bom-senso e da honradez. Não, não. As estradas deles são feitas com as melhores das intenções, sim, mas são asfaltadas com as piores qualidades que a humanidade já produziu.
Agora, muitos militantes entendem isso e não sabem mais o que fazer. Interessante, não?
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Bagno, Marcos - A Norma Oculta
Marcos Bagno é doutor em lingüística e professor da UNB. Seus livros são figuras certas nas aulas dos cursos de comunicação. Possivelmente, é o primeiro de discussão da língua que o graduando toma conhecimento. É inegável que A NORMA OCULTA suscita pontos importantes na reflexão, nosso modo de falar e interagir socialmente com os outros falantes.
Entretanto, assim como é provocadora, a obra pode enganar os menos acostumados ao tema (e que por sinal, é maioria dos alunos de universidades). Talvez o melhor momento para abordá-lo fosse a partir do 3º semestre, quando o estudante já adquiriu o mínimo da bagagem teórica. Nem sempre o desejável é o rotineiro, por isso tomo a autoridade dada a mim por Bagno (afinal, como ele diz, sou um falante da língua e, portanto, especialista no assunto) para destrinchar os preconceitos e erros que aparecem constantemente dentro do livro. De outra forma, os deslizes poderiam simplificar demais o raciocínio dos que desejam conhecer mais os estranhos sons que pronunciamos diariamente.
Antes de mais nada, devemos observar que Marcos Bagno de A NORMA OCULTA não é um professor interessado em desenvolver o senso crítico de ninguém. Ele está mais para um combatente. Está em guerra com os gramáticos. E como das guerras só saem perdedores, Bagno destrói tudo e a todos, não deixando pedra sobre pedra para a democracia que visa instaurar. Na tentativa de acabar com um preconceito real, ele impossibilita o leitor de adquirir algo muito mais importante do que um simples panfleto doutrinário: pensar direito – a única arma eficaz contra o mundo injusto traçado pelo autor.
O VALOR DA LETRA “S”
A NORMA OCULTA pretende raciocinar sobre língua e poder na sociedade brasileira. De acordo com o autor, o último reduto do comportamento preconceituoso é a discriminação através da língua: falar ou não errado, usar ou não a norma culta gramatical. Ao criticar falhas de morfossintaxe no discurso ou texto de uma pessoa, o que está por trás desse “correcionismo” é a tentativa da classe dominante brasileira em manter a desigualdade econômico-social no país.
O livro começa e termina utilizando como exemplo a recepção do presidente brasileiro Luiz Inácio na grande imprensa. Vários articulistas relacionam o “relaxismo lingüístico” do presidente com uma possível falta de cultura e capacidade para comandar a nação.
Eles insistem em focalizar os erros de concordância de Lula e sua forma simples (ou simplória?) de se expressar. Para Bagno, isso nada mais é uma estratégia política contra a imagem daquele e o que ele representa (politicamente) na história brasileira. É fácil ver isso no tom do discurso de Bagno, enaltecendo a vitória nas eleições de 2002: (os grifos são meus, a não ser que eu diga o contrário)
“Seria uma ilusão supor que uma vitória como foi a de Lula nas eleições de 2002 bastaria para que o preconceito lingüístico desaparecesse de vez da nossa sociedade” – Pag. 15
“A história pessoal de Lula é, sem dúvida, uma revolução “quase mágica”, mas é uma revolução individual, particular, digna de assombro, é claro, num país tão injusto quanto o nosso.” – Pag 38
Para mostrar o erro da imprensa, Bagno usa como exemplo pessoas consideradas “letradas” – como outras matérias “respeitadas” veiculadas em jornais (pág 26) – que também cometem os mesmos “erros”, provando, em tese, a nulidade desses julgamentos.
“Em ambas as colunas, Dora Kramer deixa bem claro seu total despreparo para tratar desses assuntos, uma vez que fala de “plural e concordância verbal” e de “lições de plural e concordância” como se fossem duas coisas distintas, como se as regras de plural não fizessem parte das regras de concordância (verbal e nominal), como de fato fazem.” – Pág 22.
Porém, lembremos que Bagno tenta desacreditar a opinião dos jornalistas usando o mesmo julgamento: eles também comentem erros e não sabem do que falam. As críticas negativas contra o Lula valem-se do mesmo teor: lula não tem conhecimento para isso ou aquilo, portanto é incapaz de fazer isso ou aquilo. O que o autor não explica é por que formas de análise semelhantes são válidas no caso dele, mas não nos dos jornalistas. Por que Lula pode governar o Brasil na base de trapalhadas e o jornalista não pode, também atrapalhado, tentar analisar a língua? Mais, por que levaríamos a sério em livro cheio de trapalhadas mesmo de um autor doutorado e vacinado?
“As observações da jornalista, portanto, demonstram a atitude autoritária de quem se acha com o direito de opinar e propor legislação sobre o que desconhece, apenas por reverenciar o senso comum, sem criticá-lo com instrumento teórico adequado: não sendo lingüista nem pedagoga, com que fundamentação ela pode sustentar suas propostas de revisão dos currículos escolares?” – Pág. 23.
O mais incrível é o Lula ter pleno domínio da norma culta. No dia a dia, ele atua nos palanques usando a linguagem dos menos educados. Entretanto, nos discursos em 2005, depois da crise no governo, quando inflamado e sem roteiros para seguir, Lula demonstra saber falar muito bem, flexionando os verbos corretamente, usando os conectivos de forma apropriada, etc, etc, etc. Lula não é mais parte do povo comum: ele se educou lingüisticamente, ainda que tenhamos sérias dúvidas se o fez culturalmente. A qualidade veio depois da autoridade.
PRECONCEITO DE QUEM, CARA PÁLIDA?
O preconceito oculto detrás do purismo gramatical é verdadeiro. Ele existe, ponto. Entretanto, pensar que todo purismo é um ato dissimulado de preconceito é logicamente errado. E também vemos isso na prática. Defender a língua não significa menosprezar quem não pôde concluir os estudos ou não teve condições ou vontade de se instruir por conta própria. Imagine se a literatura fosse engajada na universalização do falar mal.
“Que ninguém se iluda: só a leitura intensa permite conhecer os múltiplos recursos da língua e usá-los com eficiência, sem a decoreba gramatiqueira“
Marcos Bagno
Porém, durante a obra, somos levados a crer que se não o é sempre, na maioria dos casos é preconceito (consciente ou inconsciente).
“(…) em boa medida, nós somos a língua que falamos, e acusar alguém de não saber falar sua própria língua materna é tão absurdo quanto acusar essa pessoa de não saber “usar”corretamente a visão (isto é, afirmar o absurdo de que alguém é capaz de enxergar, mas não é capaz de ver) ou o olfato (isto é, afirmar o absurdo de que alguém é capaz de sentir o cheiro, mas não de aspirá-lo).” Pág. 17 [grifos do autor].
Se Marcos Bagno é doutor em lingüística, deveria comprar um livro de lógica básica (bem como um de filosofia). As duas analogias são erradas de qualquer ponto de vista. Primeiro, elas não se equivalem. Se assim fosse, o “absurdo” seria alguém ver e não ser capaz de deixar a luz entrar na retina; ou alguém ser capaz de aspirar e não conseguir identificar o cheiro.
Isso porque “enxergar” não é sinônimo de “ver”. Quando as palavras perdem o seu poder simbólico (fruto da falta de leitura e cultura) criam, aí sim, proposições absurdas como essas.
Enxergar se relaciona com o ato fisiológico. Se você tem o globo, a retina e demais partes do sistema ocular bem formados, você poderá enxergar. Entretanto, um daltônico recebe a luz verde na retina. Por uma série de fatores, vê vermelho. Ou um esquizofrênico, que vê alucinações mas não enxerga os monstros (não há fisicamente nenhuma imagem na retina).
Falar e dizer seguem a mesma linha. Lula, por exemplo. Fala que foi traído, mas não diz quem foi. Uma pessoa pode falar durante horas mas não dizer nada, i.e., seu discurso não tem nenhuma intenção, não transmite qualquer dado relevante para o assunto em questão. Também ler. Qualquer pessoa alfabetizada é capaz de interpretar os caracteres em um livro do Sartre, mas só alguns terão a bagagem necessária para entender o que ele quis dizer.
LÍNGUA É PODER
A NORMA OCULTA não consegue acabar com os problemas que se propõe a explicitar. Muito menos desnudá-los de forma correta. Durante todo o livro Bagno usa as mesmas situações para ilustrar valores opostos. Tudo parece ser relativo. Sua missão é justificar sua luta contra os gramáticos e, no fim, também justificar uma postura política pessoal.
Ao acusar uma “elite privilegiada” de “oprimir” os brasileiros “vítimas de anos de desigualdade”, Marcos deixa de analisar os problemas estruturais que levaram e levam o povo a desconhecer as regras gramaticais da língua portuguesa.
Na página 124, lê-se que nas sociedades onde a cultura escrita é onipresente, existem instituições que inibem as forças de mudança da língua. O autor esquece de dizer (intencionalmente?) que essas sociedades são as mais ricas, democráticas e justas – além de terem enorme influência econômica, social e cultural nos países de terceiro mundo.
Esse poder nasce quando há oportunidades para povo ter acesso a uma boa educação. Ao tentar justificar a falta dessa educação no Brasil, Bagno presta um desserviço ao país. Ao invés de lutar para que as pessoas evoluam, ele parece querer que as respeitem pela sua ignorância, e não “apesar da”. Neste caso, não é só válido – é fundamental esse respeito para existir uma democracia. Mas naquele, ao poupar alguém pela sua incapacidade, tomamos um caminho muito perigoso. Não é apenas uma questão gramatical. Em última instância, é uma questão de integridade física: se duas pessoas não sabem se expressar, se eles não se compreendem, terminam sempre usando a violência.
Triste e decepcionante é a obra de Marcos Bagno. A NORMA OCULTA é um livro cheio de erros infantis de discurso, raciocínio e análise. Não deveria ser levado a sério, como o fazem várias pessoas. É antes de tudo, para aqueles que sabem pensar, a fagulha inicial de uma reflexão profunda sobre o povo brasileiro. Se bem feita, dará grandes frutos. Do contrário, se seguirmos a lógica do autor, voltaremos ao jardim de infância, quando discutíamos ferozmente para decidir se o mais feio era eu ou você.
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Esse blog apoia John McCain
Quem ficou surpreso com meu apoio ao McCain? Quem, quem? Já era de se esperar, não é? Nesse momento, o blog, publicamente, dá seu apoio a John McCain. Sim, sim. E a razão disso é simples: é único candidato que aceita meu total e completo apoio restrito à sua presidência. Isso mesmo, restrito. Essa é a razão de eu gostar tanto dos republicanos, eles não pedem minha fidelidade cega para seus programas de governo. Não mesmo. Não, não.
Votar no Obama é assinar uma folha em branco, com firma reconhecida e registrada em cartório. Não sejam ingênuos. A Left Wing não pede nada menos. Depois alegam que a Direita é a radical. Falo sobre isso mais abaixo.
Eu também gosto de um pouco de decoro, de uma certa vergonha, da hipocrisia. A hipocrisia significa que alguns valores ainda existem e não podem ser “quebrados”. Já a esquerda adora mudar o significado das coisas para seu proveito próprio. Lembro muito bem das estripulias orais do Sr. Bill Clinton. O que cada um faz no seu canto não me importa, mas não esqueço da Mônica L. falando sobre suas fornicações como Bill no salão oval. Óbvio que eu não coloco minha mão no fogo pelo W. Bush e nem por ninguém, mas ao menos, se ele tiver feito coisas feias naquela sala, eu não vou saber. Melhor ter estagiárias que saibam como ligar a máquina de lavar. Guardar vestidos sujos com fluídos corporais de um homem é anti-higiênico. E eu gosto de tudo limpinho.
E esses democratas gostam de um escândalo sexual, não é mesmo. JFK faturou a Mary Pinchot Meyer e também a Marilyn Monroe durante a presidência, e nem por isso deu o vexame do Bill Também. O cara era acostumado com mulheres bonitas.
Não me entendam mal. Eu não tenho aversão aos democratas americanos, não mesmo. Pra mim, tanto o Kennedy quanto o Roosevelt foram ótimos presidentes. Mas de lá pra cá, o partido perdeu a mão. Esses dois enfrentaram problemas concretos, de soluções nada fáceis. Compraram brigas homéricas, Obama pediria pra sair na menor delas. Faltam aos democratas grandes nomes. O partido ainda vive na nostalgia de precisar ser o partido da mudança, sem ter noção para onde querem mudar. Isso é perigoso, muito perigoso. Como não conseguem ter um foco definido agora, sabe-se lá para onde voltarão a sua atenção na Casa Branca.
Atualmente, os Republicanos possuem esse foco. No que diz respeito à economia, à religião, à segurança interna e tudo mais. Claro, as visões não são unanimidade na Right Wing, mas ao menos dá pra conversar. Ao saber as intenções de McCain na presidência, fica bem mais fácil colocar freios e limites aos planos malucos que qualquer partido tem. E isso só pode ser feito quando o discurso é claro. Os democratas vivem na tangente, tal qual o nosso PT. Falam muito mas não dizem nada. Desconhecem demais a si próprios.
Claro que a direita comporta radicalismos também. Os beatos de porta de igreja, o pessoal mais doido da Associação Nacional do Rifle e mais um monte de loucos. Tudo bem, democracia é assim mesmo. Mas a esquerda também tem sua cota, e acho que ela é bem mais perigosa. Transvestidos de bom-mocismo, com um descurso politicamente correto e sentimentalóide, os radicais da esquerda podem causar estragos reais, retirar várias liberdades individuais e todo tipo de coisa. Melhor discutir o ensino do criacionismo na escola do que, sei lá, a proibição de pesquisas com animais. Essa última sim, poderia levar o mundo de volta às trevas.
Também me desagrada a tentativa de massacre público contra a Sarah Palin. Tudo bem que a mulher é uma fera, mas espera um pouco. Criar boatos sobre a família dela? Que moral os democratas têm para querer dar essas lições? Agora vieram com a história das notas na faculdade, que ela teria sido uma aluna medíocre. O Obama até agora não liberou a ficha acadêmica dele. Têm medo de quê? O W. Bush freqüentou a Universidade de Yale e o chamam de idiota dia sim e no outro também. Nessa história de esconder a vida, Obama é um profissional, não existe nada sobre o cara…
Eu prefiro saber com quem estou lidando. Se fosse americano, votaria em McCain. Sou (infelizmente) brasileiro, e espero que ele vença. Mas apesar disso tudo, outra coisa me cativa na sua candidatura: a campanha. Os republicanos conseguem ser sérios, responsáveis e divertidos ao mesmo tempo. Eles tiram sarro da campanha democrata a toda hora. Adoro. Governar os EUA não deve ser uma brincadeira, mas encarar a presidência como um fardo, algo penoso e frágil, um emprego que só um enviado especial poderia encarar é besteira. Obama acha que é demais e o eleito pelo mundo para o cargo. Pense ele o que quiser. Ele não é um super-homem. Aliás, pode nem ter nascido na América. Isso sim é engraçado.
Photo: Thomas Halk
Eleições 2008
Como a maioria dos meus leitores já sabe, não falarei sobre as eleições brasileiras desse ano. Duas razões práticas me levaram a isso: primeiro, não tenho tempo para pesquisar todas as imbecilidades que os candidatos desse ano dirão. Não haveria tempo hábil para desconstruir todas essas mentiras. E também não tenho fé de que o brasileiro médio consiga, como num passe de mágica, pensar por si mesmo. Não, ele já não consegue. Depois, tem uma eleição mais importante para a gente, as eleições americanas. Essa sim, pode mudar nosso destino. Se o democrata vencer, o Brasil está lascado.
O que eu poderia falar sobre o pleito das cidades que me importam, Rio de Janeiro, Porto Alegre e São Paulo? Como eu poderia discutir a eleição gaúcha, quando a comunista do Brasil está concorrendo com sorriso nos lábios? Os porto-alegrenses que deitem nas sepulturas que cavam. O Rio de Janeiro já está fedendo faz anos. Ao menos poderiam cobrir o cadáver. São Paulo vai conseguir sobreviver, como já sobreviveu ao Maluf, a Erundina e a Martha “relaxa e goza”. Viram, uma candidata que falou algo do tipo ainda tem eleitores. Eu desisto.
Mas espero mesmo que carros de som não passem pela minha rua, que eu não veja idiotas distribuindo santinhos nas minhas esquinas. Não quero ver bicicletas do PV. E espero que no Suplicy Cafés não apareça nenhuma propaganda eleitoral, seja vermelha, azul ou com as lindas cores do arco-íris.
Meu desafio nessas eleições é ficar em paz, no duro.



