Como em todos os anos, uma semana antes (tudo bem, ’08 veio atrasado), preparo-me para o Nanowrimo. A idéia é bem simples. Um bando de malucos resolveu que Novembro seria um bom mês para escrever um livro. Outros doidos gostaram dessa história e se juntaram. Dez anos depois, milhares de pessoas tentam a loucura: escrever uma novela de 50,000 palavras, do zero, em um mês.
Não é nada fácil, e grandes autores tentaram a jornada e não conseguiram. Nesse ano, Neil Gaiman resolveu se aventurar, e está morrendo de medo. Assim como ele, não recebi nenhum lembrete do evento esse ano. O trabalho começa sábado, e quem quiser participar vai ter que se apressar.
Não existe nenhuma estratégia para terminar o Nanowrimo. Muitos vêem nisso o melhor do evento. Tudo é imprevisível, novo e surpresas sempre aparecem. Claro que a experiência de cada escritor é sua, cada um deles decide como enfrentará o desafio.
Traduzo então o texto que o Neil publicou ano passado. Será que ele seguirá os próprios conselhos?
Caro Autor do Nanowrimo
Agora você deve estar pronto para desistir. Você está passando pelo primeiro entusiasmo furioso quando os personagens e a idéia é nova e interessante. Você ainda não está no momento final, quando as palavras e as imagens saltam da sua cabeça mais rápido do que você consegue colocar no papel. Você está no meio, só um pouco depois da metade. O glamour desapareceu, a mágica se foi, suas costas doem por causa da digitação, sua família, amigos e os emails de conhecidos deixaram de ser encorajadores, no mínimo reclamam que não o vêem mais – e isso sabem que você está preocupado e não está se divertindo. Você não sabe porque começou sua novela, você nem se lembra mais porque imaginou que alguém gostaria de lê-la, e você está certo de que, quando terminá-la, ela não valerá o tempo ou a energia, e toda vez que você parar tempo o bastante para comparar com aquilo que você tinha na cabeça quando começou – uma brilhante e maravilhosa novela, na qual toda palavra solta fogo e queima, um livro tão bom ou melhor do que o melhor livro que você leu – seu livro desaba dolorosamente que você ter certeza de que seria um ato de misericórdia apagar a coisa toda.
Bem-vindo ao clube.
É assim que livros são escritos.
Você escreve. Esse é parte difícil que ninguém vê. Você escreve nos dias bons e escreve nos dias ruins. Como um tubarão, ou você continua indo para frente ou morre. Escrever pode ser sua salvação, ou não; pode ser o seu destino, ou não. Mas isso não importa. O que importa agora são as palavras, uma depois da outra. Ache a próxima. Escreva. Repita, repita, repita.
Um muro de pedras é uma coisa linda quando você o vê margeando um campo no meio do nada, mas fica mais impressionante quando você se dá conta de que foi construído sem argamassa, que o construtor precisou escolher cada pedra e coloca-la lá. Escrever é como construir um muro. ë uma busca contínua pela palavra que se encaixará no texto, na sua mente, na página. Trama e personagens e metáforas e estilo, tudo isso se torna secundário para as palavras. O construtor de muros levanta sua parede com uma pedra por vez até que ele chega ao final do campo lá longe. Se ele não construir, o muro não estará lá. Então ele olha a sua pilha de rochas, escolhe a que melhor servirá ao seu propósito e a encaixa.
A busca pela palavra nunca fica mais fácil, mas ninguém mais escreverá sua novela pra você.
A última novela que escrevi (foi ANANSI BOYS, caso esteja curioso), quando eu cheguei a 3⁄4 do caminho eu falei com minha agente. Disse a ela como me sentia estúpido escrevendo algo que ninguém nunca gostaria de ler, como os personagens eram rasos, como a trama era sem sentido. Eu sugeri que estava preste a abandonar esse livro e, no lugar, escrever outra coisa, ou talvez eu poderia abandonar o livro e começar vida nova como um jardineiro de paisagens, assaltante de banco, cozinheiro ou um biólogo marinho. E ao invés de simpatizar ou concordar comigo, eu me bombardear com uma onda de entusiasmo – ou discutir comigo – ela simplesmente disse, com uma cordialidade suspeita: “Oh, você está naquela parte do livro, não está?”
Eu fiquei chocado. “Quer dizer que eu já fiz isso antes?”
“Você não se lembra?”
“Na verdade, não”
“Ah, sim, ” ela disse. “Você faz isso toda vez que escreve uma novela. Mas todos os meus outros clientes também fazem.”
E nem consegui me sentir especial no meu desespero.
Então eu desliguei o telefone e dirigi até a cafeteria onde eu estava escrevendo o livro, seguirei a caneta e continuei a escrever.
Uma palavra depois da outra.
É a única maneira maneira das novelas serem escritas e, a não ser que elfos venham na noite e transformem suas confusas anotações no Capítulo Nove, é a única maneira de escrevê-las.
Portanto, continue a ir em frente. Escreva uma palavra depois da outra.
Logo logo você estará no final, e não é impossível que logo então você terá terminado.
Boa Sorte
Neil Gaiman.
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