Cigarros são a forma perfeita de prazer: são efémeros e deixam-nos insaciados. Oscar Wide. Sempre fiz questão de nunca fumar quando estou dormindo. Mark Twain. Pensar e fumar são duas operações idênticas que consistem em atirar pequenas nuvens ao vento. Eça de Queiroz. Nunca pus um charuto na boca antes dos nove anos. Henry Mencken. Mas a opinião de dois hipocondríacos é mais forte do que a evolução da humanidade.
José Serra e Drauzio Varella são piores do que o tal Lula, que também é minha anta. Vou lhe dizer uma coisa, é mais fácil dar cabo de câncer do que de um político na sua cola. No duro. Por isso eu fumo e não voto. O Jean Paulhan largou uma muito boa, “tudo o que peço aos políticos é que se contentem em mudar o mundo sem começar por mudar a verdade”. Se te importa tua saúde, desconfie sempre dos calvos e dos médicos.
A política nasce quando acaba o cano da espingarda. É aquele “não, não, por favor, não”. Por isso nenhum político deve ser levado a sério. O que fazer se, além disso, essa gente ainda é hipocondríaca — essa crença infundada de se padecer de uma doença grave acompanhada de um medo irracional da morte, de uma obsessão com sintomas ou defeitos físicos irrelevantes?
O medo de morrer impulsionou o homem. O medo da morte nos tornou mais irrelevante do que ovos de tartaruga. E ainda querem que eu discurse sobre as besteiras de dois manés que, certamente, sofreram muito nas mãos da turma do fundão?
Nem eu, nem meus amigos, nos preocupamos com essa lei. Nas nossas casas sempre tem blues, jazz, um bom uísque no copo e um cinzeiro limpo na mesa. Mulher bonita, ou já é esposa, ou foi entregue pelo delivery (outra grande invenção da humanidade). Careca só entra se souber tocar guitarra ou cantar alguma coisa. Por que diabos vou me preocupar se posso ou não fumar no seu bar?
Eu já mandei essa gente pro inferno quando eu nasci.
Inocente, assisti ao musical Miss Saigon, a produção internacional, em cartaz no Teatro Abril em São Paulo. Foram três horas de tortura e massacre. Três horas assistindo ao pior que a raça brasileira têm a oferecer. Três horas de martírio, tristeza e melancolia. E isso nada tem com a história. Miss Saigon, obra baseada em Madame Butterfly, é uma tragédia linda. Mas a adaptação brasileira (que só precisou traduzir o texto original e mais nada) é medíocre, baixa, vil, gay e por aí vai.
Mas eu deveria desconfiar. Cláudio Botelho, o tal “mago dos musicais” (leia-se transforma tudo em merde, com direito a um eufemismo afrancesado), já destruíra My Fair Lady. O Eduardo me convidou para assistir, mas nem morto eu iria. Nessa apresentação no Teatro Alfa, meu bom amigo já antevia o que eu enfrentaria essa semana no Teatro Abril:
E agora, a peça My fair lady ganhou uma adaptação brasileira, que me pareceu meio insensata. É difícil adaptar peças da Broadway simplesmente porque eles fazem peças perfeitas. E quando se imita algo que é perfeito, suas duas opções são: fazer igual ou fazer pior. É risco demais. — Eduardo Mineo
E Botelho sempre escolhe a segunda opção.
Então o leitor se pergunta “mas Lefebvre, eu não acredito que você foi assistir isso pensando no original. Não foi, né?”. E eu respondo, fui sim. Estava lá na sinopse brasileira. Olha lá, no final, depois de informações importantes como os 500 figurinos confeccionados no Brasil, as oito trocas de cenário, os 336 sapatos feitos sob medida, além de aproximadamente 500 acessórios como chapéus e cintos. Diz: “Miss Saigon já ganhou 30 dos maiores prêmios teatrais do mundo, incluindo três Tony Awards, quatro Drama Desk Awards, três Outer Critics Circle Awards e um Theatre World Award. O musical ficou mais de uma década em cartaz no West Wend e na Broadway.”
Mas não era nada disso. Não foi como eu pensei.
Essas produções internacionais são complicadas. Tudo precisa ser igual ao original. As atuações, os cenários, as musicas. Tudo, tudo. De três em três meses os americanos vêm inspecionar a adaptação. Infelizmente, o texto precisa ser traduzido (por mim deixava no original também, sou contra até legendas no cinema) e novos atores entram em cena. Bem, vamos devagar ou perco a pena.
Toda tradução não é a obra original. É uma obra de co-autoria entre o autor original (morto ou não) e o tradutor. Toda tradução pode ser avaliada. Boas traduções são aquelas que pegam o espírito da obra, o estilo do autor, as brincadeiras lingüísticas do texto e conseguem transmitir todos esses aspectos em outra língua. Não é fácil. O tradutor precisa ser muito bom, mas bom mesmo, nos dois idiomas para ter sucesso. Não pode ter preguiça. Precisa ler e reler tudo um monte de vezes. Isso só na literatura. Em musicais, além de tudo isso, o cara também precisa saber de música. Não é só traduzir, mas adaptar a tradução à música, o que é mais difícil ainda.
Cláudio Botelho não parece ter nenhuma das características para o trabalho. Em Miss Saigon assistimos a uma prova da preguiça tropical e do mal-gosto de certos setores da cultura brasileira.
The American Dream — Miss Saigon Brasil
Primeiro, a falta de cultura. Miss Saigon é uma tragédia. Sim, há momentos cômicos, mas é uma tragédia, Cristo Santo. E, além de tragédia, é uma triste história de amor heterossexual. No Brasil aparece homem vestido de sado-maso beijando outro cara no palco. Fica terrível ver um monte de soldados mais pra lá do que pra cá dentro de um bordel. Os gays demoraram anos para conquistarem o respeito que merecem. Mas agora, aqui, insistem em colocar algo que pensam ser uma certa cultura gay onde não cabe. Tenham dó. Vão encenar Oscar Wide então.
Segundo, o brasileiro transforma tudo em comédia. Credo. Isso está enraizado na gente. Não tem como Escapar.
E há outras falhas grotescas, essa a minha prima pegou. A Kim (a protagonista), é vietnamita e budista. Mas lá pelos tantos diz “pela Cruz, bla bla bla”. Como assim, “pela Cruz”? Desde quando nos anos 70 o Budismo absorveu o Cristianismo? Será esse o musical-do-crioulo-doido?
Entretanto, sofrível mesmo é a tradução de Botelho. Parece incompetência mudar tanto o sentido original. Quem sabe, o coitadinho apenas não é capaz de entender inglês direito. Ok. Mas nas rimas ele mostra que realmente nada entende de português. Nas rimas é onde a pequenêz botelhana salta aos olhos (ou ouvidos, escolha).
Se a primeira rima termina em “mim”, saiba que seguirão as seguintes palavras durante minutos inteiros: enfim, assim, sim, “verbos conjugados com terminação em im”, mim (de novo, várias vezes), enfim-assim-sim (de novo várias vezes). Se termina em “eu” (pronome), lá vai “meu”, “seu” e verbos conjugados com terminação em “eu”. Se termina em “Deus” (oh, god, aposto muito usado em inglês), as opções acabam e alternam as palavras “meus”, “eus”, “seus” indefinidamente.
Depois de dez minutos o meu cérebro desligou.
Um musical é a combinação de música, canto, diálogos falados e dança. A emoção (humor, alegria, tristeza, drama, etc.) é transmitida através da própria história, da música, das canções, dos movimentos e dos aspectos técnicos (como iluminação, cenário, efeitos visuais, etc.). Isso é o básico.
Rimar em inglês parece mais prático. É da natureza da língua. Já em português, talvez seja mais trabalhoso, nunca mais fácil. Rimas como essas usadas por Botelho são chamadas de “rimas pobres”. Isso porque não mudam as funções das palavras rimadas e sempre no fim da sentença, não porque é ruim. “Rima rica” são aquelas que juntam palavras de funções diferentes, em partes diferentes da frase. Essas são mais trabalhosas, mas não quer dizer que são melhores que as outras.
Em musicais e óperas as rimas são bem trabalhadas. Muito tempo de uma ou de outra cansa os ouvidos. Não há esse cuidado em Miss Saigon. Fico imaginando razões hipotéticas. Se Botelho tiver um cachorro, será que este queria fazer xixi e logo ele pensou “vou enfiar uns mim’s aqui que tá bom, já fui pago mesmo”. Para verificar a métrica dos versos será que ele pegou as partituras e gritou “amor, pega a régua pra mim”? Não gosto de ser agressivo, mas diante do que vi e ouvi, somente um desapego completo do profissional experiente pode explicar tantos erros. Ele deu de ombros. Ou isso ou Botelho nem é profissional, nem têm experiência de verdade. Não deveria ter aceito a tradução do musical. Mas não adianta, os profissionais de cultura no Brasil parecem mais membros de um cartel.
E como isso atrapalhou os atores. Eles estão até de parabéns. Não perdem uma deixa. “Fazem das tripas, coração, para cantar a terrível tradução”. Individualmente, fazem o seu papel com emoção e energia.
Claro que isso seria perfeito se Miss Saigon não fosse composto por duetos e corais.
Duetto é quando dois cantores executam juntos a canção. Em Miss Saigon temos monólogos sobrepostos. Difícil prestar atenção no outro cantor? Parece que sim. Nenhum dos atores parece ter o conhecimento técnico para ali estar. Aliás, nenhum ator conseguiria completar um étude simples. Mas aí é querer demais, Lefebvre. Musical no Brasil é coisa para Juliana Paes.
Enfim, Miss Saigon é qualquer coisa brasileira, mas nada que poderia receber o nome original. O texto é ruim, as danças não possuem sincronismo, os atores não convencem, os corais não transmitem emoção.
O ponto máximo da peça, a música The Americam Dream, fica completamente sem sentido por causa da péssima tradução. Para entender os passos da coreografia é preciso recorrer à versão original, ou você nada entende. Miss Saigon, aqui, é apenas mais um espetáculo vulgar (muito vulgar), apelativo e caro. Sinto como se ainda vivesse em 1700, quando os Ingleses nos vendiam esquis no Rio de Janeiro. Um par de esqui é bem bonito, mas qual é a utilidade para nós? E para arranjar alguma forma de se mostrar, e de mostrar o tamanho do poder aquisitivo, alguns brasileiros fazem coisas bizarras. Miss Saigon é uma delas. Miss Saigon é uma experiência humana bizarra.
Como em todos os anos, uma semana antes (tudo bem, ’08 veio atrasado), preparo-me para o Nanowrimo. A idéia é bem simples. Um bando de malucos resolveu que Novembro seria um bom mês para escrever um livro. Outros doidos gostaram dessa história e se juntaram. Dez anos depois, milhares de pessoas tentam a loucura: escrever uma novela de 50,000 palavras, do zero, em um mês.
Não é nada fácil, e grandes autores tentaram a jornada e não conseguiram. Nesse ano, Neil Gaiman resolveu se aventurar, e está morrendo de medo. Assim como ele, não recebi nenhum lembrete do evento esse ano. O trabalho começa sábado, e quem quiser participar vai ter que se apressar.
Não existe nenhuma estratégia para terminar o Nanowrimo. Muitos vêem nisso o melhor do evento. Tudo é imprevisível, novo e surpresas sempre aparecem. Claro que a experiência de cada escritor é sua, cada um deles decide como enfrentará o desafio.
Traduzo então o texto que o Neil publicou ano passado. Será que ele seguirá os próprios conselhos?
Caro Autor do Nanowrimo
Agora você deve estar pronto para desistir. Você está passando pelo primeiro entusiasmo furioso quando os personagens e a idéia é nova e interessante. Você ainda não está no momento final, quando as palavras e as imagens saltam da sua cabeça mais rápido do que você consegue colocar no papel. Você está no meio, só um pouco depois da metade. O glamour desapareceu, a mágica se foi, suas costas doem por causa da digitação, sua família, amigos e os emails de conhecidos deixaram de ser encorajadores, no mínimo reclamam que não o vêem mais – e isso sabem que você está preocupado e não está se divertindo. Você não sabe porque começou sua novela, você nem se lembra mais porque imaginou que alguém gostaria de lê-la, e você está certo de que, quando terminá-la, ela não valerá o tempo ou a energia, e toda vez que você parar tempo o bastante para comparar com aquilo que você tinha na cabeça quando começou – uma brilhante e maravilhosa novela, na qual toda palavra solta fogo e queima, um livro tão bom ou melhor do que o melhor livro que você leu – seu livro desaba dolorosamente que você ter certeza de que seria um ato de misericórdia apagar a coisa toda.
Neil Gaiman
Bem-vindo ao clube.
É assim que livros são escritos.
Você escreve. Esse é parte difícil que ninguém vê. Você escreve nos dias bons e escreve nos dias ruins. Como um tubarão, ou você continua indo para frente ou morre. Escrever pode ser sua salvação, ou não; pode ser o seu destino, ou não. Mas isso não importa. O que importa agora são as palavras, uma depois da outra. Ache a próxima. Escreva. Repita, repita, repita.
Um muro de pedras é uma coisa linda quando você o vê margeando um campo no meio do nada, mas fica mais impressionante quando você se dá conta de que foi construído sem argamassa, que o construtor precisou escolher cada pedra e coloca-la lá. Escrever é como construir um muro. ë uma busca contínua pela palavra que se encaixará no texto, na sua mente, na página. Trama e personagens e metáforas e estilo, tudo isso se torna secundário para as palavras. O construtor de muros levanta sua parede com uma pedra por vez até que ele chega ao final do campo lá longe. Se ele não construir, o muro não estará lá. Então ele olha a sua pilha de rochas, escolhe a que melhor servirá ao seu propósito e a encaixa.
A busca pela palavra nunca fica mais fácil, mas ninguém mais escreverá sua novela pra você.
A última novela que escrevi (foi ANANSIBOYS, caso esteja curioso), quando eu cheguei a 3⁄4 do caminho eu falei com minha agente. Disse a ela como me sentia estúpido escrevendo algo que ninguém nunca gostaria de ler, como os personagens eram rasos, como a trama era sem sentido. Eu sugeri que estava preste a abandonar esse livro e, no lugar, escrever outra coisa, ou talvez eu poderia abandonar o livro e começar vida nova como um jardineiro de paisagens, assaltante de banco, cozinheiro ou um biólogo marinho. E ao invés de simpatizar ou concordar comigo, eu me bombardear com uma onda de entusiasmo – ou discutir comigo – ela simplesmente disse, com uma cordialidade suspeita: “Oh, você está naquela parte do livro, não está?”
Eu fiquei chocado. “Quer dizer que eu já fiz isso antes?”
“Você não se lembra?”
“Na verdade, não”
“Ah, sim, ” ela disse. “Você faz isso toda vez que escreve uma novela. Mas todos os meus outros clientes também fazem.”
E nem consegui me sentir especial no meu desespero.
Então eu desliguei o telefone e dirigi até a cafeteria onde eu estava escrevendo o livro, seguirei a caneta e continuei a escrever.
Uma palavra depois da outra.
É a única maneira maneira das novelas serem escritas e, a não ser que elfos venham na noite e transformem suas confusas anotações no Capítulo Nove, é a única maneira de escrevê-las.
Portanto, continue a ir em frente. Escreva uma palavra depois da outra.
Logo logo você estará no final, e não é impossível que logo então você terá terminado.
A Cidade e as Serras é um livro póstumo de Eça de Queiroz. Pouca gente sabe, mas a história já havia sido abordada por Eça em um conto, Civilização, alguns anos antes. Apesar disso, o livro resgata alguns aspectos da critica social mais presentes nos primeiros trabalhos dele, como o Primo Basílio e os Mais. Não foi revisado pelo autor, mas é altamente aconselhável a sua leitura.
Chega de academês e valos falar sério. Quero dar uma boa dica pra vocês.
Eça é muito bom. Hoje me dia não é muito admirado pelo público em geral porque a descrição deixou de ser valorizada. Hoje, ninguém precisa de detalhes minuciosos para imaginar uma estrada na China, ou um prédio em ruínas em Paris.
Mas houve uma época quando tudo era diferente — eles não tinham internet.
E Eça era muito bom nesse quesito. Descrevia como ninguém. Além de dar no texto todos os pequenos por menores necessários à imaginação para criar um ambiente, uma roupa, uma rua – ainda usava o recurso para dar consistência aos personagens. Muitos escritores da Escola Urbana deviam ler Eça e aprender alguma coisa. O Alex mostra (muito bem, por sinal) esse estranhamento com as obras:
Os Maias, bem ou mal, tem um enredo: Eça somente parece que esqueceu dele por 400 páginas para fazer um retrato pitoresco de Lisboa. O problema é que você está tão interessado pela trama principal que Eça construiu tão bem (mas e o Carlos? mas e a Maria Eduarda?!) que mal consegue prestar atenção às subtramas — por melhores que sejam. A auto-estrada distrai a atenção do leitor de atalhos e caminhos paralelos que poderiam ser deliciosos.
Esse é o Eça. Por isso um bom livro para entrar no seu mundo pode muito bem ser A cidade… (e o melhor, boa literatura de grátis, clique e baixe)
Bom, a história é narrada pelo lusitano Zé Fernandes, amigo do também filho de portugueses Jacinto de Tormes: este, um rico senhor de terras em Portugal que nasceu na França e nunca visitou as terras de seus antepassados. Ele vive em Paris usando toda a sua gorda renda para aproveitar todos os avanços tecnológicos do século XIX. Jacinto, no primeiro momento, aparece como um autêntico positivista: a “ salvação” da humanidade está no avanços da ciência. Pérolas do Positivismo na obra:
“Ora, nesse tempo jacinto concebera uma idéia de que o ‘homem só é superiormente feliz quando é superiormente civilizado’” por volta da página 7
Não confunda a opinião do autor com sua obra. Ao menos nesse caso. Voltando à vaca fria, Jacinto tinha uma posição respeitada não só por causa do dinheiro, mas também pelo seu pioneirismo em achar e comprar novas invenções – e ele comprava muitas.
Eça pinta a nata da sociedade parisiense da época. O entusiasmo pelas novidades, pelos passeios pelo Boulevard, as conversas nas “cervejarias filosóficas”, os teatros e, é claro, o interesse pela vida alheia.
Do lado oposto está o amigo de Jacinto, Zé Fernandes. Ele aparece como contraponto à essa fascinação pelo progresso. Num tom amistoso e com grande curiosidade, acompanha as desventuras de Jacinto, mas com uma ponta de ceticismo. É Fernandes que sempre questiona a real utilidade de tanta parafernalha, que muitas vezes mais atrapalha do que ajuda.
Mas a genialidade de Eça de Queiroz está na adjetivação. Ele a usa tanto para ironizar, satirizar ou aprofundar um assunto com o mínimo de palavras. Na página 14, por exemplo, Zé Fernandes fala assim quando vê pela primeira vez as bugigangas que Jacinto compra e decide ficar curioso no seu canto:
“Mas eu preferi inventariar o gabinete, que dava à minha profanidade serrana todos os gestos de uma iniciação.”
Para Jacinto, a serra resumi tudo que é ruim no mundo. Um lugar primitivo acaba por “primitivizar” o homem.
Outra adjetivação interessante: quando Jacinto, triste, recebe Zé de forma apática, Eça não cai no lugar comum: resume tudo na expressão irônica “alegria sólida”. E ainda o clássico “ levantou-o com uma força fácil”.
Os prefixos e os sufixos têm grande importância na narrativa de Eça. São eles que reiteram uma opinião, um estado de espírito, ou qualquer intenção da história ou dos personagens. O “”super” é usado para dar importância à modernização durante o texto: supercivilização, superioridade, superfino, superior.
Quando Jacinto entra na fase de saturação e tédio (uma crítica ao pessimismo de Schopenhauer e, por que não, Nietzsche), o escritor usa o re— e o —mente para enfatizar a depressiva rotina do protagonista: recostado, reclamava, re-buscara o sentimento, remexendo nos papeis.
A cidade é um livro no qual o “como se conta” é muito mais importante do a própria história. Sem isso, a história de um homem maravilhado com a tecnologia fica saturado, triste, melancólico e só encontra a felicidade quando vai para outro lugar e acha o equilíbrio – essa enredo – é completamente descartável. E é no como conta que Eça aprofunda e dá força a um evento banal. São escolhas narrativas acertadas.
Um bom escritor consegue transformar qualquer besteira em boa literatura – e não literatura de besteira. Lembre-se disso.
Eu detesto os livros da Clarice, desde que li o primeiro. Sempre vi neles não uma escritora, mas apenas uma autora, talentosa, que não queria ir até onde poderia. Mas eu tinha algo em comum com ela, o dia do nascimento. Ela nasceu no dia 10 de dezembro, eu no dia 11. Por essa “proximidade”, sempre me interessei mais pela sua vida do que por suas obras. Pode imaginar quão problemático é desgostar de uma das “escritoras” mais importantes do Brasil? Ainda não é fácil.
Naquela época, eu só tinha os meus achismos e a minha percepção dos seus textos. Do outro lado, diferente tipos de professores, uns que respeitavam minha opinião, outros que as desdenhavam. De qualquer forma, o tempo passou (como diz a Clarice). Minha opinião não mudou, nem a dos outros. Porém, em tempos de Youtube, é fácil ver que eu tinha razão, e não eles. O jeito blasé dela, misturado com um nervosismo incontrolável atiça a minha imaginação. Gosto de semear a idéia de que poderíamos ter sido bons amigos, se tivéssemos vivido na mesma época. Dividir um cigarro com ela deveria ser uma experiência e tanto. Vamos ao livro.
Uma aprendizagem… conta a história de Loreley – ou Lóri, como é chamada na maior parte do livro –, uma jovem professora primária que se estabelece no Rio De janeiro depois de sair da casa de sua rica família na cidade de Campos. Ali, vive desinteressadamente entre as suas aulas e os ocasionais namoros quando então conhece Ulisses, professor de filosofia. Então, ele começa a guiar Lóri por uma jornada de auto-conhecimento, na busca pelo sua verdadeira identidade para poderem começar um relacionamento baseado em amor e não em aparências.
Para Clarice, não há como viver plenamente sem o autoconhecimento. Lispector tenta mostrar durante a narrativa o processo de amadurecimento psicológico da personagem principal, Lóri. Orientada e incentivada por Ulisses, seu pretendente, Loreley começa a pensar sobre quem ela foi, é e quer ser, em um caminho confuso e, para ela, doloroso. Por fim, Lóri descobre o seu Eu, resolvendo importante parte das dúvidas que a preocupavam e pode entregar-se de corpo e alma para Ulisses. Simples assim, rápido mesmo. Clarice não ia nem pedir a minha opinião sobre o livro, porque saberia bem o que eu lhe diria.
Vargas Llosa divide a literatura moderna em dois blocos inquietantes. O primeiro é formado pela literatura de consumo, aquela que os autores só repetem formas e histórias: interessam-se pela vendagem. O outro é a patriotera, transigente, que se fecha em si mesma, na crença de que só o isolamento impedirá a contaminação do mundo consumista – escrevem para e entre eles. Clarice Lispector encontra-se no segundo grupo, é ela mesma quem diz, mas entendi isso de primeira.
Uma aprendizagem… faz parte da tradição de Clarice. Ela é estudada e elogiada sempre em conjunto, como se um livro automaticamente levasse a outro. Qualquer crítica é obrigada a destacar que sua literatura é intimista e psicológica, escrita para dentro, que se desenvolve de obra para obra, mas sempre como um todo. Um livro para ser considerado clássico precisa sustentar-se por si mesmo. Aí entramos na fragilidade desta obra. A própria Clarice dá de ombros para essas interpretações. Legal. Mas os tais doutores adoram esses por menores. Vamos lá.
O número de elementos teóricos na narrativa são muitos e, na maioria das vezes, redundantes. O tema central é a vida de Lóri e sua relação com Ulisses. Ok. Em uma referência direta a Homero, Clarice pega o episódio das sereias para compor uma história às avessas: Lóri, a sereia, não traga Ulisses, mas é resgatada por ele. Uma obra Clássica possui ingredientes fáceis de se identificar, mas que dão um trabalho homérico para o autor escrever. Clarice padece de preguiça crônica.
Linda, lindíssima!
Clarice não se importa com o leitor. Eu digo isso e ela sustenta a minha opinião (chorem fãs…). O reconhecimento de sua obra baseia-se em uma legitimidade autoral vinda de uma credibilidade construída pelos admiradores. O efeito imaginário é grande, mas devido aos vácuos no enredo. O momento psicológico de Lóri é explorado à exaustão, mas não a sua psicologia. Sua relação com a família, principal propulsor para sua mudança de vida, é revelado superficialmente. Ulisses, o professor de filosofia, o principal responsável pela jornada de Loreley, não passa de um estereótipo de analista. Todos os alicerces dos personagens devem ser imaginados pelo leitor, mas pela ótica de Clarice. Praticamente; qualquer coisa cabe nessas lacunas, mas somente a imaginação do leitor vinculada a da autora completam o quadro. Para ler Clarice, precisa-se ser Clarice. Por isso, Otto Lara Resende disse que suas obras não são literatura, mas bruxaria. O leitor como leitor precisa perder o seu eu para poder encontrar o eu da obra: Clarice Lispector.
A alta literatura permite ao leitor participar da vida. Mas é a vida em seu sentido universal, não biográfico. Julien Sorel e Gina Pietranera, de Stendhal; Anna Karenina, de Toltói; Mademe Bovary, de Flaubert – todos esses personagens respiram em nossos ouvidos sem precisarmos recorrer a nada mais que o livro. São personagens magnificamente construídos, com uma profundidade psicológica tão grande que podemos jurar conhecer seus pensamentos mais ocultos. Ao contrário de Lóri, que, para ser compreendida em sua totalidade, precisa da ajuda ou dos outros livros da autora, ou da própria.
Ao fazer construir sua história sobre a passagem da Odisséia de Homero, Clarice descuida-se de relacionar sua narração com aquela. Por que Ulisses de Clarice apaixona-se pela algoz, ao contrário do original, que busca desesperadamente retornar para casa?
Por que Ulisses de Clarice resolve resgatar a sereia se o Ulisses de Homero faz o impossível para derrotá-la? E, mais importante, por que Lóri aceita buscar seu verdadeiro eu de uma hora para outra, já que ela era uma sedutora predadora?
A busca do Eu é complexa e exige muito do aventureiro. A vírgula e o dois pontos que, respectivamente, abrem e fecham o livro não delimitam somente um período na vida da personagem. Eles delimitam o entendimento do leitor. A magnitude de Fernando Pessoa, outro escritor intimista, esmaga qualquer pretensão de Uma aprendizagem… se comparados. E os clássicos devem ser comparados com clássicos, não é covardia fazê-lo. Tanto que a forma de Clarice aproxima-se da de James Joyce. Embora não haja razão para acreditar que Clarice conhecia a obra do escritor – e os historiadores insistem que não – é preciso relacionar um com o outro e se perguntar qual deles desenvolveu melhor o estilo.
Clarice precisa ser lido por Clarice. Palavras como “indizível” ou “intraduzível” – vistas no livro – são pecados dos quais os bons escritores fogem como o diabo da cruz. Suas obras fazem sentido dentro de sua biografia. Talvez, quando esta for escrita, cada livro possa fazer parte de seu anexo, ou até mesmo do enredo. Mas Uma aprendizagem.,., por si só, é insuficiente para um clássico. Talvez, o autor que encarar a história de Clarice Lispector (por que ela nunca quis ser uma profissional), se competente, a transformará em obra-prima. Mas o mérito não será dela, mas do escritor que ousar escrevê-la.
Mas eu gosto dela. Assim como algumas amigas minhas, é preguiçosa e não voa tão alto quanto poderia. Eu desculpo isso, afinal, são meninas e maravilhosamente lindas. Se isso soar machista para você leitor, aprenda a ler. A adoro a falsa futilidade de algumas mulheres, o seu desapego. Dá pra ver que é mentira, e isso faz nossa paixão por elas aumentar cada vez mais. Isso é uma aprendizagem. Irônico, não?
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