Por um mundo hipocondríaco

Smart Drugs

Smart Drugs

Ci­garros são a forma per­feita de prazer: são efé­meros e deixam-​nos in­sa­ciados. Oscar Wide. Sempre fiz questão de nunca fumar quando estou dor­mindo. Mark Twain. Pensar e fumar são duas ope­rações idên­ticas que con­sistem em atirar pe­quenas nuvens ao vento. Eça de Queiroz. Nunca pus um charuto na boca antes dos nove anos. Henry Mencken. Mas a opinião de dois hi­po­con­dríacos é mais forte do que a evo­lução da humanidade.

José Serra e Drauzio Va­rella são piores do que o tal Lula, que também é minha anta. Vou lhe dizer uma coisa, é mais fácil dar cabo de câncer do que de um po­lítico na sua cola. No duro. Por isso eu fumo e não voto. O Jean Paulhan largou uma muito boa, “tudo o que peço aos po­lí­ticos é que se con­tentem em mudar o mundo sem co­meçar por mudar a verdade”. Se te im­porta tua saúde, des­confie sempre dos calvos e dos médicos.

A po­lítica nasce quando acaba o cano da es­pin­garda. É aquele “não, não, por favor, não”. Por isso nenhum po­lítico deve ser levado a sério. O que fazer se, além disso, essa gente ainda é hi­po­con­dríaca — essa crença in­fundada de se pa­decer de uma doença grave acom­pa­nhada de um medo ir­ra­cional da morte, de uma ob­sessão com sin­tomas ou de­feitos fí­sicos irrelevantes?

O medo de morrer im­pul­sionou o homem. O medo da morte nos tornou mais ir­re­le­vante do que ovos de tar­taruga. E ainda querem que eu dis­curse sobre as bes­teiras de dois manés que, cer­ta­mente, so­freram muito nas mãos da turma do fundão?

Nem eu, nem meus amigos, nos pre­o­cu­pamos com essa lei. Nas nossas casas sempre tem blues, jazz, um bom uísque no copo e um cin­zeiro limpo na mesa. Mulher bonita, ou já é esposa, ou foi en­tregue pelo de­livery (outra grande in­venção da hu­ma­nidade). Careca só entra se souber tocar gui­tarra ou cantar alguma coisa. Por que diabos vou me pre­o­cupar se posso ou não fumar no seu bar?

Eu já mandei essa gente pro in­ferno quando eu nasci.

Miss Saigon: Um Opereta de Malandro

Kim e Chris

Kim e Chris

Ino­cente, as­sisti ao mu­sical Miss Saigon, a pro­dução in­ter­na­cional, em cartaz no Teatro Abril em São Paulo. Foram três horas de tortura e mas­sacre. Três horas as­sis­tindo ao pior que a raça bra­si­leira têm a ofe­recer. Três horas de mar­tírio, tristeza e me­lan­colia. E isso nada tem com a his­tória. Miss Saigon, obra ba­seada em Madame But­terfly, é uma tra­gédia linda. Mas a adap­tação bra­si­leira (que só pre­cisou tra­duzir o texto ori­ginal e mais nada) é me­díocre, baixa, vil, gay e por aí vai.

Mas eu de­veria des­confiar. Cláudio Bo­telho, o tal “mago dos mu­sicais” (leia-​se trans­forma tudo em merde, com di­reito a um eu­fe­mismo afran­cesado), já des­truíra My Fair Lady. O Eduardo me con­vidou para as­sistir, mas nem morto eu iria. Nessa apre­sen­tação no Teatro Alfa, meu bom amigo já an­tevia o que eu en­fren­taria essa semana no Teatro Abril:

E agora, a peça My fair lady ganhou uma adap­tação bra­si­leira, que me pa­receu meio in­sensata. É di­fícil adaptar peças da Bro­adway sim­ples­mente porque eles fazem peças per­feitas. E quando se imita algo que é per­feito, suas duas opções são: fazer igual ou fazer pior. É risco demais. — Eduardo Mineo

E Bo­telho sempre es­colhe a se­gunda opção.

Então o leitor se per­gunta “mas Le­febvre, eu não acredito que você foi as­sistir isso pen­sando no ori­ginal. Não foi, né?”. E eu res­pondo, fui sim. Estava lá na si­nopse bra­si­leira. Olha lá, no final, depois de in­for­mações im­por­tantes como os 500 fi­gu­rinos con­fec­ci­o­nados no Brasil, as oito trocas de ce­nário, os 336 sa­patos feitos sob medida, além de apro­xi­ma­da­mente 500 aces­sórios como chapéus e cintos. Diz: “Miss Saigon já ganhou 30 dos maiores prêmios te­a­trais do mundo, in­cluindo três Tony Awards, quatro Drama Desk Awards, três Outer Critics Circle Awards e um Theatre World Award. O mu­sical ficou mais de uma década em cartaz no West Wend e na Broadway.”

Mas não era nada disso. Não foi como eu pensei.

Essas pro­duções in­ter­na­ci­onais são com­pli­cadas. Tudo precisa ser igual ao ori­ginal. As atu­ações, os ce­nários, as mu­sicas. Tudo, tudo. De três em três meses os ame­ri­canos vêm ins­pe­cionar a adap­tação. In­fe­liz­mente, o texto precisa ser tra­duzido (por mim deixava no ori­ginal também, sou contra até le­gendas no cinema) e novos atores entram em cena. Bem, vamos de­vagar ou perco a pena.

Toda tra­dução não é a obra ori­ginal. É uma obra de co-​autoria entre o autor ori­ginal (morto ou não) e o tra­dutor. Toda tra­dução pode ser ava­liada. Boas tra­duções são aquelas que pegam o es­pírito da obra, o estilo do autor, as brin­ca­deiras lingüís­ticas do texto e con­seguem trans­mitir todos esses as­pectos em outra língua. Não é fácil. O tra­dutor precisa ser muito bom, mas bom mesmo, nos dois idiomas para ter su­cesso. Não pode ter pre­guiça. Precisa ler e reler tudo um monte de vezes. Isso só na li­te­ratura. Em mu­sicais, além de tudo isso, o cara também precisa saber de música. Não é só tra­duzir, mas adaptar a tra­dução à música, o que é mais di­fícil ainda. 

Cláudio Bo­telho não parece ter ne­nhuma das ca­rac­te­rís­ticas para o tra­balho. Em Miss Saigon as­sis­timos a uma prova da pre­guiça tro­pical e do mal-​gosto de certos se­tores da cultura brasileira. 

The American Dream - Miss Saigon

The Ame­rican Dream — Miss Saigon Brasil

Pri­meiro, a falta de cultura. Miss Saigon é uma tra­gédia. Sim, há mo­mentos cô­micos, mas é uma tra­gédia, Cristo Santo. E, além de tra­gédia, é uma triste his­tória de amor he­te­ros­sexual. No Brasil aparece homem vestido de sado-​maso bei­jando outro cara no palco. Fica ter­rível ver um monte de sol­dados mais pra lá do que pra cá dentro de um bordel. Os gays de­mo­raram anos para con­quis­tarem o res­peito que me­recem. Mas agora, aqui, in­sistem em co­locar algo que pensam ser uma certa cultura gay onde não cabe. Tenham dó. Vão en­cenar Oscar Wide então. 

Se­gundo, o bra­si­leiro trans­forma tudo em co­média. Credo. Isso está en­raizado na gente. Não tem como Escapar.

E há outras falhas gro­tescas, essa a minha prima pegou. A Kim (a pro­ta­go­nista), é vi­et­namita e bu­dista. Mas lá pelos tantos diz “pela Cruz, bla bla bla”. Como assim, “pela Cruz”? Desde quando nos anos 70 o Bu­dismo ab­sorveu o Cris­ti­a­nismo? Será esse o musical-​do-​crioulo-​doido?

En­tre­tanto, so­frível mesmo é a tra­dução de Bo­telho. Parece in­com­pe­tência mudar tanto o sentido ori­ginal. Quem sabe, o coi­ta­dinho apenas não é capaz de en­tender inglês di­reito. Ok. Mas nas rimas ele mostra que re­al­mente nada en­tende de por­tuguês. Nas rimas é onde a pe­quenêz bo­te­lhana salta aos olhos (ou ou­vidos, escolha).

Se a pri­meira rima termina em “mim”, saiba que se­guirão as se­guintes pa­lavras du­rante mi­nutos in­teiros: enfim, assim, sim, “verbos con­ju­gados com ter­mi­nação em im”, mim (de novo, várias vezes), enfim-​assim-​sim (de novo várias vezes). Se termina em “eu” (pronome), lá vai “meu”, “seu” e verbos con­ju­gados com ter­mi­nação em “eu”. Se termina em “Deus” (oh, god, aposto muito usado em inglês), as opções acabam e al­ternam as pa­lavras “meus”, “eus”, “seus” indefinidamente.

Depois de dez mi­nutos o meu cé­rebro desligou.

Um mu­sical é a com­bi­nação de música, canto, diá­logos fa­lados e dança. A emoção (humor, alegria, tristeza, drama, etc.) é trans­mitida através da própria his­tória, da música, das canções, dos mo­vi­mentos e dos as­pectos téc­nicos (como ilu­mi­nação, ce­nário, efeitos vi­suais, etc.). Isso é o básico.

Rimar em inglês parece mais prático. É da na­tureza da língua. Já em por­tuguês, talvez seja mais tra­ba­lhoso, nunca mais fácil. Rimas como essas usadas por Bo­telho são cha­madas de “rimas pobres”. Isso porque não mudam as funções das pa­lavras ri­madas e sempre no fim da sen­tença, não porque é ruim. “Rima rica” são aquelas que juntam pa­lavras de funções di­fe­rentes, em partes di­fe­rentes da frase. Essas são mais tra­ba­lhosas, mas não quer dizer que são me­lhores que as outras. 

Em mu­sicais e óperas as rimas são bem tra­ba­lhadas. Muito tempo de uma ou de outra cansa os ou­vidos. Não há esse cuidado em Miss Saigon. Fico ima­gi­nando razões hi­po­té­ticas. Se Bo­telho tiver um ca­chorro, será que este queria fazer xixi e logo ele pensou “vou enfiar uns mim’s aqui que tá bom, já fui pago mesmo”. Para ve­ri­ficar a mé­trica dos versos será que ele pegou as par­ti­turas e gritou “amor, pega a régua pra mim”? Não gosto de ser agressivo, mas diante do que vi e ouvi, so­mente um de­sapego com­pleto do pro­fis­sional ex­pe­riente pode ex­plicar tantos erros. Ele deu de ombros. Ou isso ou Bo­telho nem é pro­fis­sional, nem têm ex­pe­ri­ência de verdade. Não de­veria ter aceito a tra­dução do mu­sical. Mas não adianta, os pro­fis­si­onais de cultura no Brasil pa­recem mais membros de um cartel.

E como isso atra­palhou os atores. Eles estão até de pa­rabéns. Não perdem uma deixa. “Fazem das tripas, co­ração, para cantar a ter­rível tra­dução”. In­di­vi­du­al­mente, fazem o seu papel com emoção e energia.

Claro que isso seria per­feito se Miss Saigon não fosse com­posto por duetos e corais

Duetto é quando dois can­tores exe­cutam juntos a canção. Em Miss Saigon temos mo­nó­logos so­bre­postos. Di­fícil prestar atenção no outro cantor? Parece que sim. Nenhum dos atores parece ter o co­nhe­ci­mento técnico para ali estar. Aliás, nenhum ator con­se­guiria com­pletar um étude simples. Mas aí é querer demais, Le­febvre. Mu­sical no Brasil é coisa para Ju­liana Paes.

Enfim, Miss Saigon é qualquer coisa bra­si­leira, mas nada que po­deria re­ceber o nome ori­ginal. O texto é ruim, as danças não possuem sin­cro­nismo, os atores não con­vencem, os corais não trans­mitem emoção.

O ponto máximo da peça, a música The Ame­ricam Dream, fica com­ple­ta­mente sem sentido por causa da péssima tra­dução. Para en­tender os passos da co­re­o­grafia é preciso re­correr à versão ori­ginal, ou você nada en­tende. Miss Saigon, aqui, é apenas mais um es­pe­táculo vulgar (muito vulgar), ape­lativo e caro. Sinto como se ainda vi­vesse em 1700, quando os In­gleses nos vendiam esquis no Rio de Ja­neiro. Um par de esqui é bem bonito, mas qual é a uti­lidade para nós? E para ar­ranjar alguma forma de se mostrar, e de mostrar o ta­manho do poder aqui­sitivo, alguns bra­si­leiros fazem coisas bi­zarras. Miss Saigon é uma delas. Miss Saigon é uma ex­pe­ri­ência humana bizarra.

E, in­fe­liz­mente, não é a última.

Nanowrimo, Novembro, 2008

NaNoWriMo

Na­No­WriMo

Como em todos os anos, uma semana antes (tudo bem, ’08 veio atrasado), preparo-​me para o Na­no­wrimo. A idéia é bem simples. Um bando de ma­lucos re­solveu que No­vembro seria um bom mês para es­crever um livro. Outros doidos gos­taram dessa his­tória e se jun­taram. Dez anos depois, mi­lhares de pessoas tentam a loucura: es­crever uma novela de 50,000 pa­lavras, do zero, em um mês.

Não é nada fácil, e grandes au­tores ten­taram a jornada e não con­se­guiram. Nesse ano, Neil Gaiman re­solveu se aven­turar, e está mor­rendo de medo. Assim como ele, não recebi nenhum lem­brete do evento esse ano. O tra­balho começa sábado, e quem quiser par­ti­cipar vai ter que se apressar. 

Não existe ne­nhuma es­tra­tégia para ter­minar o Na­no­wrimo. Muitos vêem nisso o melhor do evento. Tudo é im­pre­vi­sível, novo e sur­presas sempre apa­recem. Claro que a ex­pe­ri­ência de cada es­critor é sua, cada um deles decide como en­frentará o desafio. 

Traduzo então o texto que o Neil pu­blicou ano passado. Será que ele se­guirá os pró­prios conselhos?

Caro Autor do Nanowrimo

Agora você deve estar pronto para de­sistir. Você está pas­sando pelo pri­meiro en­tu­siasmo fu­rioso quando os per­so­nagens e a idéia é nova e in­te­res­sante. Você ainda não está no mo­mento final, quando as pa­lavras e as imagens saltam da sua cabeça mais rápido do que você con­segue co­locar no papel. Você está no meio, só um pouco depois da metade. O glamour de­sa­pa­receu, a mágica se foi, suas costas doem por causa da di­gi­tação, sua fa­mília, amigos e os emails de co­nhe­cidos dei­xaram de ser en­co­ra­ja­dores, no mínimo re­clamam que não o vêem mais – e isso sabem que você está pre­o­cupado e não está se di­ver­tindo. Você não sabe porque co­meçou sua novela, você nem se lembra mais porque ima­ginou que alguém gos­taria de lê-​la, e você está certo de que, quando terminá-​la, ela não valerá o tempo ou a energia, e toda vez que você parar tempo o bas­tante para com­parar com aquilo que você tinha na cabeça quando co­meçou – uma bri­lhante e ma­ra­vi­lhosa novela, na qual toda pa­lavra solta fogo e queima, um livro tão bom ou melhor do que o melhor livro que você leu – seu livro desaba do­lo­ro­sa­mente que você ter certeza de que seria um ato de mi­se­ri­córdia apagar a coisa toda.

Neil Gaiman

Neil Gaiman

Bem-​vindo ao clube.

É assim que livros são escritos.

Você es­creve. Esse é parte di­fícil que ninguém vê. Você es­creve nos dias bons e es­creve nos dias ruins. Como um tu­barão, ou você con­tinua indo para frente ou morre. Es­crever pode ser sua sal­vação, ou não; pode ser o seu destino, ou não. Mas isso não im­porta. O que im­porta agora são as pa­lavras, uma depois da outra. Ache a próxima. Es­creva. Repita, repita, repita.

Um muro de pedras é uma coisa linda quando você o vê mar­geando um campo no meio do nada, mas fica mais im­pres­si­o­nante quando você se dá conta de que foi cons­truído sem ar­ga­massa, que o cons­trutor pre­cisou es­colher cada pedra e coloca-​la lá. Es­crever é como cons­truir um muro. ë uma busca con­tínua pela pa­lavra que se en­caixará no texto, na sua mente, na página. Trama e per­so­nagens e me­tá­foras e estilo, tudo isso se torna se­cun­dário para as pa­lavras. O cons­trutor de muros le­vanta sua parede com uma pedra por vez até que ele chega ao final do campo lá longe. Se ele não cons­truir, o muro não estará lá. Então ele olha a sua pilha de rochas, es­colhe a que melhor servirá ao seu pro­pósito e a encaixa.

A busca pela pa­lavra nunca fica mais fácil, mas ninguém mais es­creverá sua novela pra você.

A última novela que es­crevi (foi ANANSI BOYS, caso esteja cu­rioso), quando eu cheguei a 34 do ca­minho eu falei com minha agente. Disse a ela como me sentia es­túpido es­cre­vendo algo que ninguém nunca gos­taria de ler, como os per­so­nagens eram rasos, como a trama era sem sentido. Eu sugeri que estava preste a aban­donar esse livro e, no lugar, es­crever outra coisa, ou talvez eu po­deria aban­donar o livro e co­meçar vida nova como um jar­di­neiro de pai­sagens, as­sal­tante de banco, co­zi­nheiro ou um biólogo ma­rinho. E ao invés de sim­pa­tizar ou con­cordar comigo, eu me bom­bardear com uma onda de en­tu­siasmo – ou dis­cutir comigo – ela sim­ples­mente disse, com uma cor­di­a­lidade sus­peita: “Oh, você está na­quela parte do livro, não está?”

Eu fiquei chocado. “Quer dizer que eu já fiz isso antes?”

“Você não se lembra?”

“Na verdade, não”

“Ah, sim, ” ela disse. “Você faz isso toda vez que es­creve uma novela. Mas todos os meus outros cli­entes também fazem.”

E nem con­segui me sentir es­pecial no meu desespero.

Então eu des­liguei o te­lefone e dirigi até a ca­fe­teria onde eu estava es­cre­vendo o livro, se­guirei a caneta e con­tinuei a escrever.

Uma pa­lavra depois da outra.

É a única ma­neira ma­neira das no­velas serem es­critas e, a não ser que elfos venham na noite e trans­formem suas con­fusas ano­tações no Ca­pítulo Nove, é a única ma­neira de escrevê-​las.

Por­tanto, con­tinue a ir em frente. Es­creva uma pa­lavra depois da outra.

Logo logo você estará no final, e não é im­pos­sível que logo então você terá terminado.

Boa Sorte

Neil Gaiman.

Mais:

So­bre­vi­vendo aos 30 dias de Na­No­WriMo — MacWorld

Queiroz, Eça de - A Cidade e as Serras

Capa

Clique na capa para baixar o livro de graça

A Cidade e as Serras é um livro póstumo de Eça de Queiroz. Pouca gente sabe, mas a his­tória já havia sido abordada por Eça em um conto, Ci­vi­li­zação, alguns anos antes. Apesar disso, o livro resgata alguns as­pectos da critica social mais pre­sentes nos pri­meiros tra­balhos dele, como o Primo Ba­sílio e os Mais. Não foi re­visado pelo autor, mas é al­ta­mente acon­se­lhável a sua leitura.

Chega de aca­demês e valos falar sério. Quero dar uma boa dica pra vocês.

Eça é muito bom. Hoje me dia não é muito ad­mirado pelo pú­blico em geral porque a des­crição deixou de ser va­lo­rizada. Hoje, ninguém precisa de de­talhes mi­nu­ciosos para ima­ginar uma es­trada na China, ou um prédio em ruínas em Paris.

Mas houve uma época quando tudo era di­fe­rente — eles não tinham internet.

E Eça era muito bom nesse quesito. Des­crevia como ninguém. Além de dar no texto todos os pe­quenos por me­nores ne­ces­sários à ima­gi­nação para criar um am­biente, uma roupa, uma rua – ainda usava o re­curso para dar con­sis­tência aos per­so­nagens. Muitos es­cri­tores da Escola Urbana deviam ler Eça e aprender alguma coisa. O Alex mostra (muito bem, por sinal) esse es­tra­nha­mento com as obras:

Os Maias, bem ou mal, tem um enredo: Eça so­mente parece que es­queceu dele por 400 pá­ginas para fazer um re­trato pi­to­resco de Lisboa. O pro­blema é que você está tão in­te­ressado pela trama prin­cipal que Eça cons­truiu tão bem (mas e o Carlos? mas e a Maria Eduarda?!) que mal con­segue prestar atenção às sub­tramas — por me­lhores que sejam. A auto-​estrada distrai a atenção do leitor de atalhos e ca­minhos pa­ra­lelos que po­deriam ser deliciosos.

Esse é o Eça. Por isso um bom livro para entrar no seu mundo pode muito bem ser A cidade… (e o melhor, boa li­te­ratura de grátis, clique e baixe)

Bom, a his­tória é narrada pelo lu­sitano Zé Fer­nandes, amigo do também filho de por­tu­gueses Ja­cinto de Tormes: este, um rico senhor de terras em Por­tugal que nasceu na França e nunca vi­sitou as terras de seus an­te­pas­sados. Ele vive em Paris usando toda a sua gorda renda para apro­veitar todos os avanços tec­no­ló­gicos do século XIX. Ja­cinto, no pri­meiro mo­mento, aparece como um au­têntico po­si­ti­vista: a “ sal­vação” da hu­ma­nidade está no avanços da ci­ência. Pé­rolas do Po­si­ti­vismo na obra:

“Ora, nesse tempo ja­cinto con­cebera uma idéia de que o ‘homem só é su­pe­ri­or­mente feliz quando é su­pe­ri­or­mente ci­vi­lizado’”
por volta da página 7

Não con­funda a opinião do autor com sua obra. Ao menos nesse caso. Vol­tando à vaca fria, Ja­cinto tinha uma po­sição res­peitada não só por causa do di­nheiro, mas também pelo seu pi­o­nei­rismo em achar e comprar novas in­venções – e ele com­prava muitas.

Eça pinta a nata da so­ci­edade pa­ri­siense da época. O en­tu­siasmo pelas no­vi­dades, pelos pas­seios pelo Bou­levard, as con­versas nas “cer­ve­jarias fi­lo­só­ficas”, os te­atros e, é claro, o in­te­resse pela vida alheia.

Do lado oposto está o amigo de Ja­cinto, Zé Fer­nandes. Ele aparece como con­tra­ponto à essa fas­ci­nação pelo pro­gresso. Num tom amistoso e com grande cu­ri­o­sidade, acom­panha as des­ven­turas de Ja­cinto, mas com uma ponta de ce­ti­cismo. É Fer­nandes que sempre ques­tiona a real uti­lidade de tanta pa­ra­fer­nalha, que muitas vezes mais atra­palha do que ajuda.

Mas a ge­ni­a­lidade de Eça de Queiroz está na ad­je­ti­vação. Ele a usa tanto para iro­nizar, sa­ti­rizar ou apro­fundar um as­sunto com o mínimo de pa­lavras. Na página 14, por exemplo, Zé Fer­nandes fala assim quando vê pela pri­meira vez as bu­gi­gangas que Ja­cinto compra e decide ficar cu­rioso no seu canto:

“Mas eu preferi in­ven­tariar o ga­binete, que dava à minha pro­fa­nidade serrana todos os gestos de uma iniciação.”

Para Ja­cinto, a serra resumi tudo que é ruim no mundo. Um lugar pri­mitivo acaba por “pri­mi­ti­vizar” o homem.

Outra ad­je­ti­vação in­te­res­sante: quando Ja­cinto, triste, recebe Zé de forma apática, Eça não cai no lugar comum: resume tudo na ex­pressão irônica “alegria sólida”. E ainda o clássico “ levantou-​o com uma força fácil”.

Os pre­fixos e os su­fixos têm grande im­por­tância na nar­rativa de Eça. São eles que rei­teram uma opinião, um estado de es­pírito, ou qualquer in­tenção da his­tória ou dos per­so­nagens. O “”super” é usado para dar im­por­tância à mo­der­ni­zação du­rante o texto: su­per­ci­vi­li­zação, su­pe­ri­o­ridade, su­perfino, superior.

Quando Ja­cinto entra na fase de sa­tu­ração e tédio (uma crítica ao pes­si­mismo de Scho­pe­nhauer e, por que não, Ni­etzsche), o es­critor usa o re— e o —mente para en­fa­tizar a de­pressiva rotina do pro­ta­go­nista: re­costado, re­clamava, re-​buscara o sen­ti­mento, re­me­xendo nos papeis.

A cidade é um livro no qual o “como se conta” é muito mais im­por­tante do a própria his­tória. Sem isso, a his­tória de um homem ma­ra­vi­lhado com a tec­no­logia fica sa­turado, triste, me­lan­cólico e só en­contra a fe­li­cidade quando vai para outro lugar e acha o equi­líbrio – essa enredo – é com­ple­ta­mente des­car­tável. E é no como conta que Eça apro­funda e dá força a um evento banal. São es­colhas nar­ra­tivas acertadas.

Um bom es­critor con­segue trans­formar qualquer bes­teira em boa li­te­ratura – e não li­te­ratura de bes­teira. Lembre-​se disso.

Lispector, Clarice. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres.

Estilo é tudo…

Eu de­testo os livros da Clarice, desde que li o pri­meiro. Sempre vi neles não uma es­critora, mas apenas uma autora, ta­lentosa, que não queria ir até onde po­deria. Mas eu tinha algo em comum com ela, o dia do nas­ci­mento. Ela nasceu no dia 10 de de­zembro, eu no dia 11. Por essa “pro­xi­midade”, sempre me in­te­ressei mais pela sua vida do que por suas obras. Pode ima­ginar quão pro­ble­mático é des­gostar de uma das “es­cri­toras” mais im­por­tantes do Brasil? Ainda não é fácil.

Na­quela época, eu só tinha os meus achismos e a minha per­cepção dos seus textos. Do outro lado, di­fe­rente tipos de pro­fes­sores, uns que res­pei­tavam minha opinião, outros que as des­de­nhavam. De qualquer forma, o tempo passou (como diz a Clarice). Minha opinião não mudou, nem a dos outros. Porém, em tempos de Youtube, é fácil ver que eu tinha razão, e não eles. O jeito blasé dela, mis­turado com um ner­vo­sismo in­con­tro­lável atiça a minha ima­gi­nação. Gosto de semear a idéia de que po­de­ríamos ter sido bons amigos, se ti­vés­semos vivido na mesma época. Di­vidir um ci­garro com ela de­veria ser uma ex­pe­ri­ência e tanto. Vamos ao livro.

Uma apren­di­zagem… conta a his­tória de Lo­reley – ou Lóri, como é chamada na maior parte do livro –, uma jovem pro­fessora pri­mária que se es­ta­belece no Rio De ja­neiro depois de sair da casa de sua rica fa­mília na cidade de Campos. Ali, vive de­sin­te­res­sa­da­mente entre as suas aulas e os oca­si­onais na­moros quando então co­nhece Ulisses, pro­fessor de fi­lo­sofia. Então, ele começa a guiar Lóri por uma jornada de auto-​conhecimento, na busca pelo sua ver­da­deira iden­tidade para po­derem co­meçar um re­la­ci­o­na­mento ba­seado em amor e não em aparências.

Para Clarice, não há como viver ple­na­mente sem o au­to­co­nhe­ci­mento. Lis­pector tenta mostrar du­rante a nar­rativa o pro­cesso de ama­du­re­ci­mento psi­co­lógico da per­so­nagem prin­cipal, Lóri. Ori­entada e in­cen­tivada por Ulisses, seu pre­ten­dente, Lo­reley começa a pensar sobre quem ela foi, é e quer ser, em um ca­minho confuso e, para ela, do­loroso. Por fim, Lóri des­cobre o seu Eu, re­sol­vendo im­por­tante parte das dú­vidas que a pre­o­cu­pavam e pode entregar-​se de corpo e alma para Ulisses. Simples assim, rápido mesmo. Clarice não ia nem pedir a minha opinião sobre o livro, porque sa­beria bem o que eu lhe diria.

Vargas Llosa divide a li­te­ratura mo­derna em dois blocos in­qui­e­tantes. O pri­meiro é formado pela li­te­ratura de consumo, aquela que os au­tores só re­petem formas e his­tórias: interessam-​se pela ven­dagem. O outro é a pa­tri­otera, tran­si­gente, que se fecha em si mesma, na crença de que só o iso­la­mento im­pedirá a con­ta­mi­nação do mundo con­su­mista – es­crevem para e entre eles. Clarice Lis­pector encontra-​se no se­gundo grupo, é ela mesma quem diz, mas en­tendi isso de primeira.

Uma apren­di­zagem… faz parte da tra­dição de Clarice. Ela é es­tudada e elo­giada sempre em con­junto, como se um livro au­to­ma­ti­ca­mente le­vasse a outro. Qualquer crítica é obrigada a des­tacar que sua li­te­ratura é in­ti­mista e psi­co­lógica, es­crita para dentro, que se de­sen­volve de obra para obra, mas sempre como um todo. Um livro para ser con­si­derado clássico precisa sustentar-​se por si mesmo. Aí en­tramos na fra­gi­lidade desta obra. A própria Clarice dá de ombros para essas in­ter­pre­tações. Legal. Mas os tais dou­tores adoram esses por me­nores. Vamos lá.

O número de ele­mentos teó­ricos na nar­rativa são muitos e, na maioria das vezes, re­dun­dantes. O tema central é a vida de Lóri e sua re­lação com Ulisses. Ok. Em uma re­fe­rência direta a Homero, Clarice pega o epi­sódio das se­reias para compor uma his­tória às avessas: Lóri, a sereia, não traga Ulisses, mas é res­gatada por ele. Uma obra Clássica possui in­gre­di­entes fáceis de se iden­ti­ficar, mas que dão um tra­balho ho­mérico para o autor es­crever. Clarice padece de pre­guiça crônica.

Linda, lindíssima!

Linda, lin­díssima!

Clarice não se im­porta com o leitor. Eu digo isso e ela sus­tenta a minha opinião (chorem fãs…). O re­co­nhe­ci­mento de sua obra baseia-​se em uma le­gi­ti­midade au­toral vinda de uma cre­di­bi­lidade cons­truída pelos ad­mi­ra­dores. O efeito ima­gi­nário é grande, mas devido aos vácuos no enredo. O mo­mento psi­co­lógico de Lóri é ex­plorado à exaustão, mas não a sua psi­co­logia. Sua re­lação com a fa­mília, prin­cipal pro­pulsor para sua mu­dança de vida, é re­velado su­per­fi­ci­al­mente. Ulisses, o pro­fessor de fi­lo­sofia, o prin­cipal res­pon­sável pela jornada de Lo­reley, não passa de um es­te­reótipo de ana­lista. Todos os ali­cerces dos per­so­nagens devem ser ima­gi­nados pelo leitor, mas pela ótica de Clarice. Pra­ti­ca­mente; qualquer coisa cabe nessas la­cunas, mas so­mente a ima­gi­nação do leitor vin­culada a da autora com­pletam o quadro. Para ler Clarice, precisa-​se ser Clarice. Por isso, Otto Lara Re­sende disse que suas obras não são li­te­ratura, mas bru­xaria. O leitor como leitor precisa perder o seu eu para poder en­contrar o eu da obra: Clarice Lispector.

A alta li­te­ratura permite ao leitor par­ti­cipar da vida. Mas é a vida em seu sentido uni­versal, não bi­o­gráfico. Julien Sorel e Gina Pi­e­tranera, de Stendhal; Anna Ka­renina, de Toltói; Mademe Bovary, de Flaubert – todos esses per­so­nagens res­piram em nossos ou­vidos sem pre­ci­sarmos re­correr a nada mais que o livro. São per­so­nagens mag­ni­fi­ca­mente cons­truídos, com uma pro­fun­didade psi­co­lógica tão grande que po­demos jurar co­nhecer seus pen­sa­mentos mais ocultos. Ao con­trário de Lóri, que, para ser com­pre­endida em sua to­ta­lidade, precisa da ajuda ou dos outros livros da autora, ou da própria.

Ao fazer cons­truir sua his­tória sobre a pas­sagem da Odisséia de Homero, Clarice descuida-​se de re­la­cionar sua nar­ração com aquela. Por que Ulisses de Clarice apaixona-​se pela algoz, ao con­trário do ori­ginal, que busca de­ses­pe­ra­da­mente re­tornar para casa?

Por que Ulisses de Clarice re­solve res­gatar a sereia se o Ulisses de Homero faz o im­pos­sível para derrotá-​la? E, mais im­por­tante, por que Lóri aceita buscar seu ver­da­deiro eu de uma hora para outra, já que ela era uma se­dutora predadora?

A busca do Eu é com­plexa e exige muito do aven­tu­reiro. A vírgula e o dois pontos que, res­pec­ti­va­mente, abrem e fecham o livro não de­li­mitam so­mente um pe­ríodo na vida da per­so­nagem. Eles de­li­mitam o en­ten­di­mento do leitor. A mag­nitude de Fer­nando Pessoa, outro es­critor in­ti­mista, esmaga qualquer pre­tensão de Uma apren­di­zagem… se com­pa­rados. E os clás­sicos devem ser com­pa­rados com clás­sicos, não é co­vardia fazê-​lo. Tanto que a forma de Clarice aproxima-​se da de James Joyce. Embora não haja razão para acre­ditar que Clarice co­nhecia a obra do es­critor – e os his­to­ri­a­dores in­sistem que não – é preciso re­la­cionar um com o outro e se per­guntar qual deles de­sen­volveu melhor o estilo.

Clarice precisa ser lido por Clarice. Pa­lavras como “in­di­zível” ou “intraduzível” – vistas no livro – são pe­cados dos quais os bons es­cri­tores fogem como o diabo da cruz. Suas obras fazem sentido dentro de sua bi­o­grafia. Talvez, quando esta for es­crita, cada livro possa fazer parte de seu anexo, ou até mesmo do enredo. Mas Uma apren­di­zagem.,., por si só, é in­su­fi­ciente para um clássico. Talvez, o autor que en­carar a his­tória de Clarice Lis­pector (por que ela nunca quis ser uma pro­fis­sional), se com­pe­tente, a trans­formará em obra-​prima. Mas o mérito não será dela, mas do es­critor que ousar escrevê-​la.

Mas eu gosto dela. Assim como al­gumas amigas minhas, é pre­guiçosa e não voa tão alto quanto po­deria. Eu des­culpo isso, afinal, são me­ninas e ma­ra­vi­lho­sa­mente lindas. Se isso soar ma­chista para você leitor, aprenda a ler. A adoro a falsa fu­ti­lidade de al­gumas mu­lheres, o seu de­sapego. Dá pra ver que é mentira, e isso faz nossa paixão por elas au­mentar cada vez mais. Isso é uma apren­di­zagem. Irônico, não?

Quer começar seu website?

Quer co­meçar seu website?

Quer co­meçar um novo site? É fácil. A Dre­amHost é o melhor serviço de hos­pe­dagem do mundo. Basta clicar no banner e co­locar o código bre­ves­notas para ter 10% de des­conto e do­mínio grátis por um ano.

Ajude com­prando pelo site!