Verbetes de Um Dicionário - Roberto Campos

Carta Para Obama

Carta Para Obama

Es­condido no meio da minha bi­bli­oteca, achei o “Guia Para os Per­plexos”, do Ro­berto Campos. Livro bem útil, ainda mais nesses tempos de “crises”, de gente apa­vorada, de um povo que não aprende nada e es­quece tudo. É uma co­le­tânea de textos pu­bli­cados pelo Eco­no­mista, Di­plomata e Se­nador. Sua pri­meira parte é com­posta de um mini glos­sário, uma de­fi­nição de termos para o mútuo en­ten­di­mento nas con­versas. Como eu preciso ficar a toda hora re­lem­brando o sig­ni­ficado deles no Breves Notas, melhor pu­blicar logo todos os ver­betes. O livro já se es­gotou, não é re­pu­blicado e con­tinua a ser uma necessidade.

Até mesmo uma uti­lidade pública.

As se­me­lhanças do Go­verno Sarney com o atual Pe­tismo de ca­bresto não é pura coin­ci­dência. Muitos do que fi­zeram parte do go­verno de lá ocupam cargos no go­verno de cá, e sem nunca ter mudado de partido. Mas isso merece uma maior re­flexão mais tarde.

Verbetes de Um Dicionário (I)

Não é proibido dizer a verdade sob o véu do gracejo” — Horatio

Estou de partida para a China, na es­pe­rança de trazer um es­toque de va­cinas “Deng Xi­a­oping” para com­bater as epi­demias de “Tu­pi­nic­cocus pal­lidus”, “Bu­re­auc­cocus Pla­nal­tinus” e “Papy­ro­coccus car­to­rialos ac phy­si­o­lo­gicus Bra­si­li­ensis”, que grassam em Bra­sília. Afinal de contas, se o líder chinês – que, há pouco mais de um de­cênio, du­rante a Re­vo­lução Cul­tural, foi ex­posto à exe­cração pú­blica, obrigado a car­regar es­trume na cabeça nas ruas de Beijing, com um cartas que dizia “traidor capitalista” – conseguiu sa­cudir a mul­ti­mi­lenar bu­ro­cracia chinesa, deve ser pos­sível des­car­to­ri­a­lizar nossa bu­ro­cracia, es­cle­rosada há apenas 164 anos…

Mas antes de partir, ocorreu-​me que po­deria dar uma con­tri­buição ao es­cla­re­ci­mento das massas, se lhes fa­ci­li­tasse a com­pre­ensão da “no­vi­língua” da Nova Re­pú­blica. Por isso pre­parei alguns ver­betes de dicionário.

SECA, s.f. — Acidente cli­mático, ca­rac­te­rizado pela falta de chuvas, que produz in­flação de preços agrí­colas. O antônimo é “Cheia” ou “En­chente”, ca­rac­te­rizada pela abun­dância de chuvas, que também produz alta de preços agrícolas.

ESPECULADOR, s.m. — Agente econômico que só compra na baixa para vender na alta. Entra em hi­ber­nação quando não há ex­pansão mo­ne­tária, porque então ine­xistem altas.

PROGRESSISTA, adj. também usado como s.m. e s.f. — Denominação aplicada aos que re­clamam mu­danças ur­gentes. Não se pre­o­cupam com o en­dereço da mu­dança e muito menos com os mé­todos e veí­culos para fazê-​la. O im­por­tante é manter o Go­verno me­tendo o be­delho na eco­nomia., em postura di­nâmica. Os se­tores “pro­gres­sistas” mais de van­guarda en­tendem por “pro­gresso” o “re­gresso” à si­tuação pré-​1964.

ESQUERDISTA, adj. também usado como s.m. e s.f. — Denominação aplicada aos que não estão no centro, nem na di­reita, nem no alto. Ha­bi­tu­al­mente estão a Leste. De­sejam dis­tribuir a pro­pri­edade alheia e gostam de votar im­postos porém não de pagá-​los. De um modo geral, acham que a so­ci­edade deve dis­tribuir mais do que produz, desde que as es­querdas (quer dizer, eles mesmos) se en­car­reguem da dis­tri­buição. Donde o pro­vérbio: “muitos dos in­te­res­sados na dis­tri­buição do bolo querem so­bretudo o con­trole da faca”. A tra­dução latina de homem de es­querda é “homo si­nistrae”.

PACTO SOCIAL — Ex­pressão usada para de­no­minar um en­ten­di­mento no qual os as­sa­la­riados con­sentem em me­nores sa­lários, os em­pre­sários em me­nores lucros, pos­si­bi­li­tando ao Go­verno con­tinuar abis­coi­tando a maior parte do bolo.

CATOLICISMO DE ESQUERDA — Por pu­di­cícia, este di­ci­o­na­rista se abstém de qualquer de­fi­nição, re­cor­rendo ao verbete do es­critor Leon Bloy, uma das glórias do pen­sa­mento ca­tólico francês: “Catho­li­cisme de gauche n’est que pro­tes­tan­tisme de merde”.

NEGOCIAÇÃO DURA - Ex­pressão usada em re­lação à dívida ex­terna. Indica dis­po­sição para pagar “spreads” mais altos e ter prazos mais curtos, em troca do di­reito de xingar os ban­queiros e dizer “não” ao FMI. Permite evitar au­di­torias ex­ternas, ha­bi­li­tando o país a manter um “Caixa Dois”. A van­tagem prin­cipal é emitir papel moeda e au­mentar o dé­ficit pú­blico sem dar sa­tis­fação a ninguém.

INFORMÁTICA, s.f. — Aliança entre mi­li­tares, es­quer­distas e em­pre­sários an­ti­darw­nianos. Estes acre­ditam que deve so­bre­viver não o mais apto e sim o mais pro­tegido da con­cor­rência alheia. De­precam às au­to­ri­dades que o mercado seja re­servado para o menor número pos­sível (ide­al­mente apenas três em­pre­sários, como no caso da micro ele­trônica). Ar­ti­fício usado para in­duzir a “maioria” — centenas de mi­lhares de usuários — a se su­bor­dinar aos in­te­resses de uma “minoria” — poucas de­zenas — de in­dus­triais do setor. Também usado para ga­rantir pri­vi­légios aos que co­piaram antes dos outros. Serve freqüen­te­mente para que os filhos e netos de imi­grantes (Dytz, Suaer, Brizida, Fregni, etc.) do­cu­mentem seu ca­ráter “ge­nui­na­mente na­cional” ve­tando qualquer as­so­ciação com em­presas dos países an­ces­trais. Se­gundo essa seita, pro­duzir no país só é bom se o pro­dutor tiver cer­ti­ficado de ba­tismo local, sendo, em caso con­trário, pre­fe­rível importar.

PRIVATIZAÇÃO, s.f. — Política se­gundo a qual o go­verno guarda o que é re­le­vante e vende o que é ir­re­le­vante. Para di­fi­cultar a venda, usa-​se o cri­tério do in­ves­ti­mento his­tórico cor­rigido, ou do valor pa­tri­monial con­tábil, sem re­fe­rência à ren­ta­bi­lidade ava­liada pelo mercado.

PACOTE FISCAL — Con­junto de me­didas para ex­trair di­nheiro do setor privado a fim de fi­nanciar o dé­ficit pú­blico, cuja di­mensão é sa­grada. Após essa ex­tração, os con­tri­buintes sentir-​se-​ão es­ti­mu­lados a fazer novos in­ves­ti­mentos, e os que es­tavam na eco­nomia sub­ter­rânea re­co­nhe­cerão as van­tagens pa­trió­ticas de pagar impostos.

COMBATEINFLAÇÃO — Ex­pressão que denota o en­ga­ja­mento do Go­verno na “guerra à ca­restia”. Mais pre­ci­sa­mente, é o combate à alta de preços pro­vocada por aci­dentes cli­má­ticos, ou pelos atra­ves­sa­dores e es­pe­cu­la­dores, não de­vendo ser con­fundido com o combate à in­flação pro­pri­a­mente dita, re­sul­tante da ex­pansão mo­ne­tária. A ex­pressão abrange várias mo­da­li­dades de ação. Na chamada va­riante “corpo-​a-​corpo”, o Mi­nistro da Fa­zenda e altas au­to­ri­dades ins­pe­cionam pes­so­al­mente a di­a­ri­a­mente os preços da cebola e do chuchu. Na va­riante “es­ta­tística” o índice de preços é en­curtado ou alongado du­rante o mês, introduzindo-​se, quando oportuno, um “fator de aci­den­ta­lidade”. Na va­riante “es­tru­tural”, os preços do pe­tróleo e ta­rifas de uti­li­dades pú­blicas são ace­le­rados ou re­pas­sados em função do preço do feijão.

CONTROLE DE PREÇOS — Ar­ti­fício an­ti­in­fla­ci­o­nário ten­tando sem êxito desde o Código de Ha­murabi (2000 anos a.C.). Foi objeto do famoso Edito de Di­o­cle­ciano no ano 301 da era cristã, cujo único re­sultado foi a es­cassez de óleo, pão e sal nas pro­víncias. Como as damas bal­za­quianas, de vida airada, o ta­be­la­mento de preços re­ju­ve­nesce à medida que se es­quecem as ex­pe­ri­ências pas­sadas. É a teoria dos que não têm teoria.

O tra­balho le­xi­co­gráfico acima não tem a pre­tensão de se equi­parar aos feitos de Caldas Aulete ou do Au­rélio… De volta da China, munido de pa­ci­ência chinesa, pro­cu­rarei con­verter esses ver­betes des­pre­ten­siosos num ver­da­deiro “Di­ci­o­nário”. Para “es­cla­re­ci­mento das massas”, na­tu­ral­mente. Mas também para ganhar di­reitos au­torais, pois ninguém é de ferro e tenho de pagar as novas alí­quotas do pacote fiscal. De leve…

(02.02.86)

Verbetes de Um Dicionário (II)

A burrice é o único símile do infinito” — Aforismo Chinês

Em longas vi­agens de trem pelo in­terior da China, a dois mil quilô­metros de Beijing, tive tempo de adi­cionar alguns ver­betes à minha an­si­o­sa­mente es­perada obra “En­ci­clo­pédia da Ig­no­rância”. Recebi pro­postas de vários edi­tores, sendo que a mais atraente su­geria um nome para o “magnum opus”; — “Bagunçologia”. Eis os novos ver­betes que in­te­res­sarão aos seg­mentos mais es­cla­re­cidos da sociedade.

LIVRE EMPRESA — Ex­pressão que denota o di­reito de proibir o in­gresso de outras empresas.

LIVRE INICIATIVA — Ex­pressão que denota o di­reito de provar os outros da iniciativa.

CONGELAMENTO DE PREÇOS — Con­junto de me­didas des­ti­nadas a trans­mitir ao mercado os sinais er­rados — au­mentar a procura e di­minuir a oferta — com o pro­pósito pa­triótico de de­so­ri­entar os es­pe­cu­la­dores. Na forma mais branda, o bu­ro­crata se arroga das funções do mercado e os preços são “ci­pados”. Na versão mais ra­dical, os preços são “con­ge­lados”, o que sig­nifica o triunfo de­fi­nitivo do bu­ro­crata sobre o mercado, coisa ple­na­mente jus­ti­fi­cável à luz da melhor in­for­mação, maior sen­si­bi­lidade social e su­perior ve­lo­cidade de reação, ca­rac­te­rís­ticas das en­ti­dades go­ver­na­mentais. Isso faz emergir uma nova classe so­ci­o­lógica, dotada do poder de vida e morte sobre as em­presas — a dos “tabuladores” — que se so­brepõe à te­tra­logia me­dieval dos “ora­dores”, “bel­la­tores”, “mer­ca­tores” e “fa­bri­ca­tores”. O Pro­fessor An­tonius, em sua mui con­sultada obra “Imi­tatio Delphini ad usum Novae Rei­pu­blicae” relata ex­pe­ri­ências pes­soais de in­ter­fe­rência no mercado, todas de­sa­pon­ta­doras. Assim se ex­pressa: “Vix aut nunquam rí­gi­da­dis­ci­plina pre­tiorum prodest. Hoc dis­cimus abhinc multos anos ab Codici Ham­murabi ax Di­o­cle­tiani Edicto” (O con­ge­la­mento de preços quase nunca adianta, con­forme apren­demos com o Código de Ha­murabi e o Edito de Di­o­cle­ciano). Idêntica pre­o­cu­pação é re­velada pelo Pro­fessor Pau­linus, em sua obra “De ef­fectis plethorae nu­mis­ma­ticae” (Dos efeitos da ex­pansão mo­ne­tária), que assim dou­trina: “Nisi su­blata causa quae est pletora nu­mis­matica nin tol­litur ef­fectus, sci­licet in­flatio pre­tiorum” (A não ser que se ex­tirpe a causa, que é a ex­pansão mo­ne­tária, não se remove o efeito, que é a in­flação de preços). Outros au­tores de no­meada, en­tre­tanto, atribuem a alta de preços a causas diferentes, como a seca (sic­citas), a in­ter­fe­rência do Fundo Mo­ne­tário In­ter­na­cional (in­tro­misio Pa­nethnici Nmis­matici The­sauri) ou à in­de­xação de preços (vin­culum ad pre­te­ritum pretium).

USUÁRIO, s. e adj. m. e f. — Consumidor bra­si­leiro, misto de otário e cobaia. USUÁRIO DA PREVIDÊNCIA SOCIAL: de­signa aquele que tem o di­reito de con­tratar um seguro provado depois de ter con­tri­buído par a Pre­vi­dência Pú­blica, dada a in­dis­po­ni­bi­lidade de ser­viços desta última. USUÁRIO DA INFORMÁTICA: aquele que tem o di­reito legal de pagar três vezes mais pela cópia que pelo ori­ginal. USUÁRIO DE PETRÓLEO: aquele que paga preços in­ternos cres­centes quando os preços in­ter­na­ci­onais são de­cres­centes. USUÁRIO FERROVIÁRIO: aquele que tem o di­reito a atrasos e sa­cu­di­delas para chegar ao tra­balho, e também ao desvio e avaria de mercadorias.

REFORMA MINISTERIAL — Versão ver­na­cular da ex­pressão francesa “plus ça change, plus c’est la même chose”. É de boa eti­queta que, por ocasião da re­forma, os novos mi­nistros elogie seu an­te­cessor con­quanto acentuem, no dis­curso de posse, que têm um pro­grama muito melhor. No fundo, imi­tando um velho mi­nistro francês, o que pensam mesmo é que “tous nos pre­de­ces­seurs sont des idiots, tous nos suc­ces­seurs sont des in­tri­gants” (todos os nossos an­te­ces­sores são idiotas, todos os nossos su­ces­sores são in­tri­gantes). MINISTERIÁVEL (também usado na forma ge­rundial MINISTRANDO) é aquele que acha que a si­tuação do go­verno se de­te­riorou tão sa­tis­fa­to­ri­a­mente que a Pátria em breve exigirá seus ser­viços. A ocasião das re­formas mi­nis­te­riais provoca uma pro­li­fe­ração de uma es­pécie de répteis, os “puxa-​sacos”. O fenômeno era co­nhecido desde a época dos ro­manos sob o nome “ti­til­latio tes­ti­cu­lorum” (pu­xação de saco). O Pro­fessor Freudius em sua obra “De pec­catis oc­cultis” aponta como evi­dência his­tória uma ins­crição queixosa en­con­trada sob as lavas de Pompéia: “Quan­do­cumque mu­tantur pro­con­sules arduus est ve­riter labor tes­ti­culos ti­til­landi” (Quando mudam as li­de­ranças é árduo o tra­balho dos puxa-​sacos). Afirma ou­trossim que essa prática existia também entre os gregos, pois se­gundo a lenda e a tra­dição, uma das prin­cipais razões porque o grande Ar­conte Solon, pro­mul­gadas as leis, retirou-​se para um navio e ve­lejou no Egeu du­rante dez anos, foi pre­ci­sa­mente livrar-​se do “el­ch­tichos or­chios” (puxa-​saquismo).

NACIONALISMO, s.m. — Atitude que freqüen­te­mente denota um misto de com­plexo de in­fe­ri­o­ridade e mania de grandeza. A ex­pressão com­porta várias mo­da­li­dades. NACIONALISMO AUTÊNTICO: o da­queles que, não tendo re­a­li­zações ob­je­tivas a exibir, usam o na­ci­o­na­lismo como uma es­pécie de di­ploma dado pelas Fa­cul­dades de De­ma­gogia. NACIONALISMO DE FANCARIA: o da­queles que usam o na­ci­o­na­lismo para obter pri­vi­légios do Go­verno, para pre­ju­dicar ad­ver­sários po­lí­ticos ou para se pro­teger da con­cor­rência es­tran­geira. NACIONALISMO DE FINS: o da­queles que acre­ditam que o de­sen­vol­vi­mento na­cional é um fim para qual devam ser mo­bi­li­zados quaisquer ca­pitais dis­po­níveis — na­ci­onais e es­tran­geiros. NACIONALISMO DE MEIOS: o da­queles que, dis­pondo de sa­lário e renda ade­quados, acham que é melhor um de­sen­vol­vi­mento lento, pu­ra­mente in­terno, ainda que os pobres tenham de sofrer por mais tempo. São co­nhe­cidas va­riadas de­fi­nições de na­ci­o­na­lismo, por mestres emi­nentes. Se­gundo Einstein “é como um sa­rampo, essa doença in­fantil da hu­ma­nidade”. Se­gundo Vargas Llosa é “a cultura dos in­cultos, uma me­díocre re­volta ge­o­gráfica contra a his­tória”. Se­gundo Gil­berto Amado é a “forma zangada do pa­tri­o­tismo”. Para Mus­solini era uma es­pécie de “ódio sa­grado”. Se­gundo Albert Schweizer “é um pa­tri­o­tismo que perdeu sua no­breza”, ao passo que o pa­tri­o­tismo, se­gundo o Dr. Johnson, é o “último re­fúgio dos ve­lhacos”. Para Jorge Luiz Borges “o na­ci­o­na­lismo é um campo minado onde só se to­leram afirmações”.

TERMOESTÁTICA — Con­junto de leis ci­en­tí­ficas que regem a con­versão da ace­le­ração em inércia e com­provam a ori­gi­na­lidade do com­por­ta­mento da eco­nomia bra­si­leira. A pri­meira lei de ter­mo­es­tática — a lei inercial — assim se ex­pressa: “Se ata­cados vi­go­ro­sa­mente por sin­tomas de in­flação, não é ne­ces­sário atacar as causas, porque aqueles são di­nâ­micos, e esta, inercial”. A se­gunda lei da ter­mo­es­tática, a “lei de pre­ser­vação do dé­ficit” é assim for­mulada: “Os gastos go­ver­na­mentais são ir­re­du­tíveis porque toda a ação para reduzi-​los produz uma reação po­lítica, ime­diata e mais do que pro­por­cional, em sentido con­trário”. A ter­ceira lei da ter­mo­es­tática, também chamada “lei do en­di­vi­da­mento” tem for­mu­lação mais com­plexa: “Uma vez trans­posto o seg­mento ex­po­nencial da curva de en­di­vi­da­mento e atingido o limite as­simp­tótico, o poder do grande de­vedor se equipara ao do grande credor, pois ambos detêm o poder de levar o outro à fa­lência. Nessa hi­pótese, os en­cargos da dívida va­riarão na razão in­versa da mas­cu­li­nidade da ne­go­ciação e menos que pro­por­ci­o­nal­mente à in­ten­sidade da lamentação”.

NOTA DO AUTOR (RC): Se o in­ques­ti­o­nável brilho e eru­dição le­xi­co­gráfica acima re­ve­lados não me cre­den­ciarem para a Aca­demia Bra­si­leira de Letras, é porque não há justiça social nesse país.

(06.04.86)

Verbetes de Um Dicionário (III)

Os povos in­te­li­gentes aprendem da ex­pe­ri­ência alheia; os me­díocres aprendem por sua própria ex­pe­ri­ência; os ineptos sim­ples­mente não aprendem” — Chanceler Bismark

Pros­se­guindo na tarefa de es­cla­re­ci­mento das massas, facilitando-​lhes a com­pre­ensão da “no­vi­língua” da Nova Re­pú­blica, adi­cionei alguns ver­betes ao meu “di­ci­o­nário do sur­re­a­lismo” brasileiro.

ASSEMBLÉIA CONSTITUINTE — Grupo de po­lí­ticos que dis­cutem as pri­o­ri­dades da re­forma da “es­trutura”, quando o ur­gente é re­mendar a “con­juntura”. Numa sábia di­visão de funções, tratam de de­senhar o futuro, en­quanto o Poder Exe­cutivo se en­carrega de de­sor­ga­nizar o pre­sente. Entre suas várias cor­rentes, se in­cluem os “xiitas”, que querem des­truir o ca­pi­ta­lismo (melhor dito, o mer­can­ti­lismo, pois o Brasil ainda não chegou à era ca­pi­ta­lista), sem saber como im­plantar o so­ci­a­lismo. Alguns poucos são ver­da­deiros “li­berais”, pois acre­ditam que a de­mo­cracia po­lítica é in­se­pa­rável da li­berdade econômica, tra­duzida esta na eco­nomia de mercado. Há também os “cen­tristas”, que gostam da li­berdade po­lítica mas admite que bu­ro­cratas im­per­feitos cor­rijam as im­per­feições do mercado e que se criem car­tórios econô­micos, desde que sejam par­ti­ci­pantes dos be­ne­fícios. Todos os grupos são contra a cas­sação dos di­reitos po­lí­ticos in­di­vi­duais, mas aceitam a cas­sação do di­reito econômico de pro­duzir, sob a forma de mo­no­pólios es­tatais ou re­servas de mercado.

FUNARONOMICS — Nova ci­ência econômica que, se­gundo o Pro­fessor Afonso Celso Pastore, não obedece às leis da lógica de Karl Popper, pois, quando fal­si­ficada pelos fatos, mudam-​se os fatos. Sua im­ple­men­tação é feita por me­didas de “cen­tra­lismo de­mo­crático”, isto é, decretos-​leis. Sua tese central é a do vo­lun­ta­rismo, isto é, as coisas acon­tecem não por de­cisões vo­lun­tárias dos agentes econô­micos, mas pela acei­tação pa­triótica, por parte deles, das in­tenções, de­sejos e ca­prichos dos “Funaro Boys”, que são “ap­pa­rat­chicks” mo­dernos, ins­ta­lados no Planalto.

MORATÓRIA SOBERANA — De­cla­ração de in­sol­vência, em nome da in­de­pen­dência, como re­sultado da in­com­pe­tência. Se­gundo alguns, deve ser levada “às últimas con­seqüências”, isto é, o apro­fun­da­mento da re­cessão in­terna, o em­bargo de navios e aviões bra­si­leiros no ex­terior, a ruptura com o sistema fi­nan­ceiro in­ter­na­cional, ou seja, a trans­for­mação do país de uma “Be­lindia” numa “Albanindia”.

ESQUERDISMO — Dou­trina de gru­pa­mentos po­lí­ticos es­pe­ci­a­li­zados em dis­tribuir pro­pri­edade alheia e propor uma ade­quada re­par­tição do bolo, desde que man­tenha o con­trole da faca.

PEFELISTA — Falso li­beral, isto é, aquele que acredita si­mul­ta­ne­a­mente em li­berdade po­lítica e in­ter­ven­ci­o­nismo econômico.

PMDEBISTA — Assim de­signam os membros do maior partido po­lítico do oci­dente. O partido é contra o de­sem­prego e também contra os in­ves­ti­dores es­tran­geiros, que criam os em­pregos. Re­clama contra o en­di­vi­da­mento ex­cessivo, mas quer que os bancos es­tran­geiros se com­pro­metam a for­necer “di­nheiro novo”, com a con­dição de não termos que pagar o “antigo”. Contem grupos pre­si­den­ci­a­listas, par­la­men­ta­ristas e ime­di­a­tistas (“Di­retas Já”), mas a linha pre­do­mi­nante é a “fa­li­men­ta­rista”, a qual propõe a fa­lência do país como tema central da ide­o­logia par­ti­dária. É a favor dos ta­be­la­mentos de juros, sem se dar conta de que os juros são di­tados pelo Banco Central e pelos bancos es­ta­duais ao le­van­tarem di­nheiro para cobrir os dé­ficits. É contra os dé­ficits or­ça­mentais, desde que não se cortem des­pesas e que a tri­bu­tação não atinja a classe média. Deseja a pre­ser­vação do sa­lário real, por de­cisão go­ver­na­mental (mesmo através de decretos-​leis), es­que­cidos de que o go­verno só pode pres­crever sa­lários no­minais, os quais, se ir­re­a­listas, re­sultam no sa­lário zero do de­sem­prego. Está em per­feita sin­tonia com o “povo”, en­tendido por “povo” aquela parte da so­ci­edade que não sabe o que quer.

OPÇÃO PELOS POBRES — Ex­pressão que, quando usada pela Igreja, sig­nifica au­mentar o número de pobres pelo di­fi­cul­ta­mento das praxes an­ti­con­cep­ci­onais usadas pelos ricos. Quando em­pregada pelo Go­verno, sig­nifica uma forma de po­pu­lismo, com as se­guintes con­seqüências: (1) congelam-​se os preços para ajudar os pobres, mas isso de­sen­coraja in­ves­ti­mentos, diminuindo-​se o em­prego para os pobres, ou provoca es­cassez, pre­ju­di­cando os pobres que não podem pagar ágio; (2) subvencionam-​se in­dis­cri­mi­na­da­mente, para pobres e ricos, alguns pro­dutos es­sen­ciais, como o trigo, com o re­sultado de que o nor­destino, que come fa­rinha, paga im­postos ou sofre alta de outros preços, para pagar a “ma­car­ronada” do pau­lista; (3) cria-​se uma “in­dústria de dis­tri­buição”, de sorte que os maiores be­ne­fi­ciários da dis­tri­buição são os bu­ro­cratas que se en­car­regam de fazê-​la.

RECURSOS NATURAIS — Ca­dá­veres ge­o­ló­gicos, sob forma mi­neral, que só se trans­formam em ri­queza se houver in­ves­ti­mentos e mercado. Para exem­pli­ficar a di­fe­rença entre “re­curso” e “ri­queza”, basta lembrar que o Brasil tem “re­cursos” e não tem “ri­queza” e o Japão tem “ri­queza” mas não tem “recursos”.

BANCO CENTRAL — Or­ga­ni­zação in­de­pen­dente, criada para ser o “guardião da moeda”, ade­quando a ex­pansão da moeda ao cres­ci­mento da pro­dução. Tornou-​se de­pen­dência do Mi­nis­tério da Fa­zenda. Está na em­ba­raçosa po­sição de, tendo levado o país à fa­lência global, pela mo­ra­tória ex­terna, encarregar-​se da cor­reção da fa­lência se­torial dos bancos es­ta­duais, que re­clamam uma mo­ra­tória interna.

INFLAÇÃO INERCIAL — Teoria de­sen­volvida pelos par­ti­dários da “Fu­na­ro­nomics” que acre­ditam que, apesar do dé­ficit pú­blico, a in­flação é inercial. Para curar o dé­ficit, basta mudar sua de­fi­nição; para mudar as ex­pec­ta­tivas, basta pro­ceder à desindexação.

(05.04.87)

Verbetes de Um Dicionário (IV)

O príncipe deve evitar qualquer idéia nova.. a ino­vação é um obs­táculo… Em último caso, se existe uma si­tuação ab­so­lu­ta­mente in­su­por­tável, a mu­dança deve ser feita, mas só gra­du­al­mente, e por mãos experientes” — Erasmo

Con­tinuo hoje meu es­forço le­xi­co­gráfico, na es­pe­rança de acu­mular cre­den­ciais li­te­rárias para in­gressar na Aca­demia Bra­si­leira de Letras, sem con­chavos hu­mi­lhantes, e graças ao voto de­mo­crático, se­creto e es­cla­recido de meus pares. Eis os novos verbetes:

CAMELO — Cavalo de­se­nhado por um comitê de eco­no­mistas. Há uma su­bes­pécie, o dro­me­dário, que é um cavalo de­se­nhado por um grupo de tra­balho de eco­no­mistas da UNICAMP e da PUC, também co­nhe­cidos pelo cognome de “país do cruzado”.

BURGUÊS DE ESQUERDA — Homem rico, la­ti­fun­diário ou in­dus­trial, que deseja con­ciliar opu­lência com po­pu­la­ridade. Adora pro­mover me­didas para que o Estado dis­tribua a renda dos outros, pre­ser­vando a sua através de in­cen­tivos fiscais. Uma va­ri­edade par­ti­cu­lar­mente da­ninha é o gen­ro­crata, isto é, o pobre que casa com mulher rica. Acha que sendo seu pa­trimônio ime­recido, também o deve ser o dos que o ad­qui­riram no eito e não no leito. De­fendem a justiça social e a opção pelos pobres, mas não abrem mão de seus di­reitos mí­nimos — “whisky” le­gítimo e vi­de­o­cassete con­tra­ban­deado. No máximo aceitam a re­forma agrária nas terras dos cu­nhados e con­cu­nhados. Ge­ral­mente não re­colhem o INPS e o FGTS, mas não tem ob­jeção à ex­pansão da ati­vi­dades as­sis­ten­ciais do Estado, em favor pri­mor­di­al­mente dos bu­ro­cratas e, se­cun­da­ri­a­mente, dos pobres. Dizem-​se “na­ci­o­na­listas” e também “so­ci­a­listas”, esquecendo-​se de que as duas pa­lavras juntas con­fi­guram o nacional-​socialismo, partido muito po­pular na Ale­manha até o fim da II Guerra Mundial.

FIDELCOCCUS — Re­tro­vírus que está gras­sando no pla­nalto bra­si­liense, cuja sín­drome mais séria é a re­tro­gra­dação mental até a década de ses­senta, quando os so­ci­a­listas eu­ropeus con­si­de­ravam a re­vo­lução uma aventura ex­ci­tante. O vírus já atacou este ano (1986) três Mi­nistros de Es­tados bra­si­leiros, que de­man­daram Havana, pre­su­mi­vel­mente para tra­ta­mento do vírus pelo próprio Fidel, de acordo com a tra­dição da me­dicina ho­me­o­pática — “si­milia si­mi­libus cu­rantur”. O último in­fectado, o Mi­nistro da Justiça, in­quieto com as cons­tantes re­be­liões nos pre­sídios bra­si­leiros, se de­dicou a in­ves­tigar como Fidel Castro logra manter a ordem e a dis­ci­plina nas 200 prisões cu­banas (in­clusive La Cabaña e Bo­niato). Estima-​se exis­tirem 1015 mil presos po­lí­ticos, alguns com penas já cum­pridas de 2025 anos, por in­con­for­mismo com os prin­cípios re­vo­lu­ci­o­nários, sem que se tenha no­tícia de de­pre­dações e motins, o que com­prova o avenço tec­no­lógico de Cuba nas artes de re­pressão político-​ideológica. Recomenda-​se par­ti­cu­lar­mente aos poetas e li­te­ratos que evitem con­ta­mi­nação pelo Fi­del­coccus, pois Fidel tem es­pecial pre­di­leção por tor­turar portas como Ar­mando Val­la­dares e Herbert Pa­dilha.
Agora que se redige a Cons­ti­tuinte bra­si­leira, seria bom es­tu­darmos o art. 52 da Cons­ti­nuição cubana, que ga­rante li­berdade de ex­pressão e pen­sa­mento, desde que na con­for­midade dos ideais comunistas…

FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL — Hos­pital fi­nan­ceiro, também chamado de “bode ex­pi­a­tório”, a que re­correm países “dro­gados” (ha­bi­tu­al­mente em estado pré-​comatoso), que exigem fi­nan­ci­a­mento para con­ti­nuarem vi­vendo acima de suas posses. Recebe vários tipos de vi­ciados. Os países “es­ta­ti­zantes”, por exemplo, que gastam tanto com a má­quina do Estado, que a re­ceita mal dá para pagar os fun­ci­o­nários, pouco res­tando para in­ves­ti­mento ou pa­ga­mento das dí­vidas es­tatais. Os “na­ci­o­na­li­zantes”, que re­jeitam os in­ves­ti­dores es­tran­geiros dis­postos a correr riscos, e men­digam dos ban­queiros, que não querem correr riscos. Os “au­tistas”, que querem a re­serva de seu próprio mercado e a abertura dos mer­cados alheios e que de­cidem uni­la­te­ral­mente a taxa de cres­ci­mento que o mundo tem a obri­gação de lhes fi­nanciar. O FMI comete a obs­ce­nidade in­su­por­tável de re­co­mendar aos países que “ponham sua casa em ordem”, isto é, que man­tenham seu consumo e in­ves­ti­mento nem nível com­pa­tível com sua pou­pança in­terna mais ca­pitais vo­lun­tários do ex­terior. Sua arma mais re­pug­nante é a “au­di­toria” tri­mestral, que viola a so­be­rania dos go­vernos, obrigando-​os a uma ver­go­nhosa men­su­ração do dé­ficit do setor pú­blico e do grau de des­per­dício dos tri­butos pró­prios e dos em­prés­timos alheios. Essas prá­ticas con­fi­guram o que se con­ven­ciona chamar de “re­ceita re­cessiva” do FMI. A ex­pe­ri­ência revela que só há uma coisa pior que a re­cessão comFMI. É a re­cessão semFMI.

NEGOCIAÇÃO SOBERANA — Mo­da­lidade de ne­go­ciação em que o de­vedor prega um sermão uni­la­teral ao credor sobre suas ne­ces­si­dades de cres­ci­mento e a res­pon­sa­bi­lidade do sistema fi­nan­ceiro in­ter­na­cional de prover os re­cursos ne­ces­sários. É ba­seada em duas te­orias — a da “res­pon­sa­bi­lidade mútua” e a da “im­pre­visão”. Con­forme a teoria da “res­pon­sa­bi­lidade mútua”, o ban­queiro, pro­pri­e­tário da loja de be­bidas, é co-​responsável pelos porres da cli­entela. Isso porque expõe os cli­entes a uma ten­tação ir­re­sis­tível e, se­gundo os je­suítas, cair numa ten­tação ir­re­sis­tível não e pecado. Con­forme a teoria da im­pre­visão, os con­tratos so­mente são vá­lidos “rebus sic sta­tibus”, de modo que os juros flu­tu­antes só são de­vidos e co­bráveis se os juros não flu­tuarem. Com sua dou­trina de ne­go­ciação so­berana, o PMDB já logrou uma subs­tancial vi­tória: os cre­dores ad­mi­tiram que não plei­tearão o pa­ga­mento da dívida “nem com o sangue nem com a fome do povo”, pois só querem pa­ga­mento através de ex­por­tações, acei­tando in­clusive ex­ce­dentes de que o Brasil não ne­cessite.
Há três prin­cípios fun­da­mentais na ne­go­ciação so­berana: (1) o de­vedor não deve submeter-​se à malsã cu­ri­o­sidade dos cre­dores quanto aos seus pro­gramas de re­cu­pe­ração de sol­vência, pois se trata de ma­téria de so­be­rania in­terna; (2) só é lícito dis­cutir os en­cargos da dívida, porém não o prin­cipal, por ser óbvio que a amor­ti­zação do prin­cipal seria danosa aos pró­prios cre­dores, que fi­cariam de­sem­pre­gados se os de­ve­dores li­qui­dassem seus mútuos; (3) só se deve dis­cutir dí­vidas de go­verno a go­verno, ainda que os con­tratos sejam com cre­dores pri­vados.
A teoria da ne­go­ciação so­berana foi de­sen­volvida e tec­ni­ca­mente aper­fei­çoada pelos eco­no­mistas do Mi­nis­tério da Fa­zenda, com res­paldo po­pular do PMDB. A fim de as­se­gurar ade­quado su­pri­mento de ne­go­ci­a­dores, fun­ci­o­nários do Ita­marati estão sendo trei­nados na teoria da ne­go­ciação so­berana, também chamada de “tec­no­logia da confrontação”.

PAÍSES CAPITALISTAS — Países cujo pro­gresso é deixado às forças do mercado, im­pes­soais e in­justas, e cujo maior pro­blema é im­pedir o in­gresso de imigrantes.

REPÚBLICA POPULAR DEMOCRÁTICA — Ple­o­nasmo usado pelos países co­mu­nistas para sig­ni­ficar que a de­mo­cracia fica com a NOMENKLATURA, e a obe­di­ência, com o povo.

(19.04.87)

Foto: Riot Jane