“Never before in the history of this country”

Deu lá fora

Deu lá fora

Esse é um post rápido. Nada demais.

Eu me per­gunto sempre, o que leva alguém a tra­balhar no G1? Sério, a cada dia vejo que re­vistas como a Veja, Es­tadão e Globo re­baixam seus níveis de ex­ce­lência. Falta gente com­pe­tente? Gente com­pe­tente não con­segue bons QI (quem indica)? Afinal, que merda acontece nas re­dações bra­si­leiras hoje?

Ve­jamos um exemplo simples e prático. A re­sista “The Eco­nomist” pu­blicou uma grande re­por­tagem sobre o Brasil. O que o portal G1, da Globo, tida como o melhor jor­na­lismo bra­si­leiro pu­blica? Uma nota, sem au­toria de­finida, re­su­mindo a ma­téria in­teira nessa bes­teira com chamada no site. Basta ler a ma­téria. Se não sabes inglês, confie no Rei­naldo Azevedo aqui e aqui.
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Jornalismo e mídia "internet"

Bad News

Bad News

Vez ou outra, o jor­na­lista acha uma in­for­mação apenas com a sorte. Apenas por estar no lugar certo, na hora certa. O jor­na­lismo ainda en­ga­tinha na in­ternet. Por en­quanto, as únicas ino­vações da rede é a ra­pidez de pu­bli­cação das ma­térias, os tais “co­men­tários” e, mais im­por­tante, a ca­pa­cidade de re­visar os textos cons­tan­te­mente.

A re­visão de textos (ou atu­a­li­zação, como é chamada pelos veí­culos) não foi ini­ci­ativa do setor. Nos pri­mórdios desses no­ti­ciários, erros ou re­visão de in­for­mação era feita sem o devido es­cla­re­ci­mento para o leitor. Não por má-​fé, a questão era que isso de ar­rumar uma re­por­tagem, re­al­mente, era algo novo para o jor­na­lismo, desde sempre acos­tumado com o fato de, uma vez pu­blicado, não dá pra voltar atrás no texto. Jornais, an­ti­ga­mente, pos­suíam duas edições, tanto para adi­cionar novas ma­térias como para con­sertar erros das edições ma­tu­tinas. Na era da in­ternet, atu­a­lizar o texto já pu­blicado era algo nunca antes pensado numa re­dação. Ma­térias eram pro­du­zidas as seis horas e, ma­gi­ca­mente, a mesma ma­téria das seis tinham in­for­mações que só apa­re­ceram as nove da noite na­quele dia.

Era preciso avisar que o texto re­cebeu uma atu­a­li­zação. Os lei­tores exigiam e, além disso, pega mal para a empresa.

Nesse começo, era di­fícil per­ceber as mu­danças no texto. Agora, é di­fícil saber quais foram essas mu­danças. Acres­cen­taram ou re­ti­raram in­for­mações? Foi preciso es­cla­recer certos pontos do texto? Ar­rumar a gra­mática? Ou, quem sabe, omitir uma bela bola-​fora que o re­pórter deu?

Do­cu­mentar essas re­visões é com­plicado por dois mo­tivos. O pri­meiro, é a fer­ra­menta para tornar isso re­a­lidade. Criada, como ela fun­ci­onará? Como fa­ci­litar o uso dessa fer­ra­menta? Esses são as­pectos técnicos.

O se­gundo motivo, e re­al­mente o que mais in­comoda os veí­culos, é as in­for­mações con­tidas nas re­visões. Ali, você poderá ver o que foi al­terado, re­tirado, acres­centado. Jornais, qualquer um, ainda não se sentem con­for­táveis para ta­manho tipo de trans­pa­rência. A Wi­ki­pédia, por exemplo, dispõe desse serviço. Através dele é pos­sível ver como as in­for­mações de um artigo são ma­ni­pu­ladas pelos autores/​colaboradores e a in­tenção deles quando o fazem.

En­tre­tanto, isso é pro­blema dos jornais. Eu gosto mesmo é de, vez ou outra, pegar um jor­na­lista no pulo! Dando uma in­for­mação equi­vocada e logo depois omitindo-​a. É muito engraçado.

Ontem, foi a vez do blog da BBC. Tive a sorte de acom­panhar a mu­dança dra­mática de um post en­quanto a no­tícia acontecia.

Esse post da BBC sobre o caso da Paula Oli­veira foi pu­blicado às 17:35. O texto serve para jus­ti­ficar a co­bertura da rede no caso, ale­gando que eles não se pre­ci­pi­taram como os jornais bra­si­leiros. O final do pe­núltimo pa­rá­grafo ori­ginal estava assim:

Fi­camos então ainda mais atentos para não abraçá-​la in­de­vi­da­mente. O que é um cálculo de­licado, afinal o caso, se ver­da­deiro, era ex­tre­ma­mente grave. In­clusive, ainda não foi to­tal­mente es­cla­recido. Paula Oli­veira não estava grávida, mas ainda não está provado que ela fan­tasiou a su­posta agressão.

Ali ainda se via uma pre­o­cu­pação de deixar as duas his­tórias em des­taque, não des­car­tando as opções e ainda co­lo­cando em dúvida a pe­rícia feita pela po­lícia da Suíça. Além disso, ele toca num as­sunto im­por­tante, o que deve fazer um jor­na­lista com um caso ex­plosivo na mão, o tal “cálculo de­licado”. Meia hora depois, às 18:00, uma re­vista suíça país di­vulgou a in­for­mação de que a ad­vogada bra­si­leira tinha con­fessado a farsa para a po­lícia. Ma­gi­ca­mente, o texto foi atu­a­lizado para isso:

Fi­camos então ainda mais atentos para não abraçá-​la indevidamente.

Bela re­dução, creio. Hoje, na versão final (acho), tal pa­rá­grafo mudou completamente:

Apesar do cuidado da noite an­terior, minha ten­dência na­quele mo­mento era achar que a his­tória fosse ve­rídica. Fi­camos então ainda mais atentos para não abraçá-​la in­de­vi­da­mente. O caso segue sendo in­ves­tigado na Suíça, e ainda não está provado se o su­posto ataque ocorreu ou não.

Minha dúvida é, há pro­blema nisso tudo? Creio que há.

O jor­na­lista parece-​se com o pu­bli­ci­tário porque ambos sempre querem estar certos. Talvez seja mais fácil um médico ad­mitir um erro do que esses dois. É o con­si­derado normal na pro­fissão. Talvez esteja no fer­mento que usam para criá-​los. Os as­ses­sores de im­prensa, por exemplo, não podem se dar a esse luxo, já que um erro na pro­fissão deles pode ser fatal. Nem coloco em questão esse com­por­ta­mento, já que nada irá mudá-​lo. Espanto-​me é como essa postura pode em­po­brecer um texto. A ne­ces­sidade de estar sempre “ligado” e “correto” empobrece.

Se o autor, Ro­gério Simões, man­ti­vesse o texto ori­ginal, não seria ver­go­nhoso. Já que ele re­solveu dar uma de om­budsman, que apro­vei­tasse a si­tuação para exem­pli­ficar ainda mais a questão prin­cipal de toda a con­fusão gerada pela Paula, a di­fi­culdade do tal “cálculo de­licado”. Seria ainda mais in­te­res­sante um se­gundo post mos­trando o quão di­fícil é isso. Po­deria ter até o mote “olha, quis mostrar os pro­blemas de fazer jor­na­lismo e, na mesma hora, o pior deles acon­teceu de novo, en­ten­deram a questão?”.

Porém, faltou visão ao Ro­gério, ou vontade, ou co­ragem, para mostrar que os jor­na­listas erram toda hora, todo dia, e con­sertar esses erros para não com­pro­meter ino­centes e a re­a­lidade também é peça im­por­tante no exer­cício da pro­fissão. In­fe­liz­mente, só de­monstrou que o cor­po­ra­ti­vismo é vivo e forte no setor, que nunca aprende com seus pró­prios erros até que seja tarde demais. E mesmo assim, quando tentam, aprendem errado. Esse blog da BBC é para ajudar o leitor a “a en­tender melhor o con­texto do no­ti­ciário in­ter­na­cional”. Já en­ten­demos. Na BBC, na TV Brasil, TVE, na Globo ou na Carta Ca­pital, o pro­blema é sempre o mesmo.

Foto: Bad News

Os incríveis erros do G1

Sub​marino​.com​.br
Estagiários fazendo o que melhor sabem

Es­ta­giários fa­zendo o que melhor sabem

Dis­cu­tindo com meu antigo pro­fessor, deparei-​me com uma si­tuação ini­ma­gi­nável. Disse ele, “essa nova ge­ração é in­capaz de aprender”. Tomei pri­meiro como uma brin­ca­deira normal entre ele, um edu­cador pro­fis­sional, e eu, alguém que pagou seu cur­sinho en­si­nando muitos outros a como entrar no IME e no ITA. Porém, ele falava sério. A ge­ração atual parece in­capaz de reter co­nhe­ci­mento, e muito menos de con­seguir seguir sobre os pró­prios passos o ca­minho da educação.

Creio que em cinco anos eles es­tarão no mercado de tra­balho. Em dez, nem serão mais es­ta­giários. O pes­si­mismo me abala quando penso na si­tuação. Hoje mesmo, nos mais va­riados locais, há uma amostra do amanhã. Sinto mais quando vejo que o jor­na­lismo, uma área de ex­ce­lência das letras (apesar dos pe­sares), agora é medida por baixo, e não pelos me­lhores co­lu­nistas ou jornalistas.

Todos os bons es­cri­tores do Brasil tra­ba­lharam de alguma forma em jornais (e os ruins também). Garcia Marquez, Sa­ramago, He­mingway também. Outros tantos pro­fes­sores. Mas a tra­dição perdeu espaço. Não porque aqueles bons na es­crita não queiram um em­prego numa pu­bli­cação. A razão deve ser outra, embora eu re­al­mente não a en­xergue. E o pro­blema está aqui, é real e os veí­culos pa­recem des­co­nhecer a ex­tensão dessa crise. E o melhor exemplo disso é o melhor jor­na­lismo bra­si­leiro, o da Globo.

Há dois anos a Globo lançou o portal G1 de no­tícias. Ai afunila-​se todo o con­teúdo jor­na­lístico pro­duzido pela em­presa. Essa abran­gência visava, claro, fa­ci­litar a cir­cu­lação das no­tícias. En­tre­tanto, esse pro­pósito foi so­lapado por outro: a de reunir num mesmo lugar tudo o que o jor­na­lismo na­cional produz de ruim. Claro, todos os as­pectos da vida possuem coisas boas e más, o pro­blema é quando essa última sobressai.

Tento mostrar com alguns exemplos essa questão, mas o pro­blema é imenso. Ao menos uma chamada por dia do portal está cheia de erros pri­mários, tanto de re­dação como de gra­mática. Sobre a arte do jor­na­lismo, nem se fala. É um tra­balho in­grato, mas pior é pre­cisar ler tudo isso diariamente.

É es­pantoso a falta de vo­ca­bu­lário dos es­ta­giários do portal. Eles ouvem algo e acham que é sinônimo de algo, per­dendo to­tal­mente a ironia de certos co­men­tários in­ternos entre jor­na­listas. Nessa ma­téria sobre car­naval, o estagiário-​reporter não con­seguiu falar com a de­le­gacia para, enfim, ve­ri­ficar a his­tória apurada e assim publicá-​la, mas ele usa o verbo re­per­cutir para ex­pressar essa ação.

Matéria que faz uso errado de verbos

Ma­téria que faz uso errado de verbos

Re­per­cutir tem duas acepções no Houaiss, “refletir(-se), reproduzir(-se) [som e luz]” ou “causar im­pressão ge­ne­ra­lizada”. Até mesmo no Di­ci­o­nário Aulete, que não é lá essas coisas, aparece as de­fi­nições. De acordo com Dório Victor, o G1 não con­seguiu falar a de­le­gacia para que o causo dos sam­bistas im­pres­si­o­nasse, ti­vesse con­seqüências ou cau­sasse co­men­tários. Pela ética jor­na­lística, ele nem de­veria ter pu­blicado a his­tória sem confirmação.

Outra ma­téria de Daniel Bu­arque (que não presta ho­me­nagem alguma ao so­brenome) fala do re­fe­rendo na Ve­ne­zuela. Bom, no tal re­fe­rendo há duas es­colhas, o “sim” ou o “não”. Mas olhe que, para ele, há so­mente a al­ter­nativa “Sim”. Ou seja, será Daniel um agente da re­vo­lução bo­li­va­riana que tenta de ma­neira sub-​limiar con­verter os lei­tores ou apenas um re­dator des­cuidado? Uma ob­ser­vação in­te­res­sante é a per­ma­nência do ne­o­lo­gismo re­puita, algo nunca visto por mim antes e sem re­fe­rência no manual do novo acordo ortográfico.

Coisa errada

Duas opções, sim e sim, e o famoso verbo “repuitir”.

Pior ainda é o in­fo­gráfico sobre o so­ci­a­lismo do portal, ainda em es­panhol. Oras, se o site é bra­si­leiro, porque não tra­du­ziram para o por­tuguês? O que diabos é “co­gollos re­pre­sen­tantes”?

O mais grave, en­tre­tanto, con­tinua sendo a ad­je­ti­vação. Não sei a razão, mas as­sas­sinos, mesmo depois de con­de­nados, ou mortos em troca de tiros com a po­licia ou entre eles mesmo, são sempre sus­peitos. No caso de Césare Bat­tisti, isso vai ainda mais longe. Notem que o portal diz que ele é “acusado de ter­ro­rismo”. Não é não. Ele foi con­denado por ter­ro­rismo, ter­ro­rista é, as­sassino é. Apesar disso, os re­pór­teres do portal co­var­de­mente (ou será apro­xi­mação ide­o­lógica) não men­cionam o atual estado do ci­dadão italiano.

Mesmo condenado, ele ainda é suspeito?

Mesmo con­denado, ele ainda é suspeito?

Nem quando a si­tuação é es­can­dalosa a coisa me­lhora no portal. Du­rante o quebra-​quebra pro­movido na Favela de Pa­rai­só­polis em São Paulo, o G1 foi in­capaz até de iden­ti­ficar o bandido morto que deu origem ao con­fronto. Por todas as re­por­tagens você lê se­mente um su­posto bandido, mesmo que ele con­denado e fo­ragido da prisão. Se você não souber o nome dele, Marcos Purcino, nunca en­con­traria nada no portal. Aliás, só há duas ma­térias, ori­gi­nadas na Agência Estado e re­pro­duzida pelo G1. Em com­pen­sação, há cen­tenas sobre o con­flito sem men­cionar o bandido con­denado em questão. Veja por si mesmo.

Há outros casos es­can­da­losos onde as­sas­sinos con­fessos são apenas acu­sados. Eles não negam a au­toria do crime, como o Gil Rugai, por exemplo. São casos di­fe­rentes que re­cebem o mesmo tra­ta­mento de uma fofoca de ce­le­bri­dades. “Luana Pi­o­vanni pode estar com um ca­sinho novo com fulano de tal”. Não há mais pesos nas re­dações. Não há in­ves­ti­gação. Não há pro­fis­si­o­na­lismo nem com­pro­misso em buscar a verdade, nem mostrar o fato real. O G1 mostra que serve apenas para re­trans­mitir uma in­for­mação dada por ter­ceiros. Como já disse antes, falta co­ragem para ve­ri­ficar a verdade, seja na guerra ou na rua do lado.

Isso cria uma si­tuação inu­sitada. Ao invés de tra­balhar para fazer jus ao sa­lário e a pro­fissão, o jor­na­lismo virou apenas uma cesta de vai­dades. Blogs na rede fazem uma co­bertura mais com­pleta que o jor­na­lista pro­fis­sional. Diante da sua própria falha, o jor­na­lista tenta ocultar as novas in­for­mações, ou fingem que elas nem existem. An­ti­ga­mente, a com­pe­tição mo­tivava esse pessoal. Se fulano me passou a perna, faria tudo para dar o troco. A me­di­o­cridade assola as mesas dos jornais. Só não en­tendo como os res­pon­sáveis pelo maior jornal do país aceitam tão baixo padrão, muito aquém do tão di­fundido Padrão Globo de Jornalismo.

A morte do antigo di­retor do De­par­ta­mento de Jor­na­lismo da Globo, Evandro Carlos de An­drade, pode ter pi­orado a si­tuação geral. O atual, Carlos Hen­rique Sch­roeder, não sei por qual razão parece dis­tan­ciado da re­a­lidade que assola essa área da em­presa. O G1, nesse con­texto, aparece como um produto final da si­tuação que se ar­rasta por anos. A Globo News, essa sim, foi afetada e perdeu em muito a qua­lidade que um dia teve, sendo hoje só um vale a pena ver de novo per­ma­nente de no­tícias velhas. Ambos pa­recem ví­timas de espaço re­duzido, embora tanto a tv a cabo quanto a in­ternet ofe­reçam pos­si­bi­li­dades ili­mi­tadas nesse sentido.

Resta saber se algum acon­te­ci­mento abalará esses fracos ali­cerces. Não, não será a com­pe­tição da Band News ou da si­miliar Record News. Resta a Globo aprender com as con­cor­rentes e de­finir uma linha edi­torial. Um ma­terial tão di­ver­si­ficado termina uma por­caria. Minha maior cu­ri­o­sidade é saber quais sites esses novos re­pór­teres, jor­na­listas e es­ta­giários entrem du­rante seu tra­balho. Não me ad­mi­raria que os da Escola Dines de Não Fazer Jor­na­lismo fossem os pri­meiros na lista.

Foto: A Hermida

Noticias Idiotas sobre uma Guerra

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Buraco, sim, onde es­tavas na hora da explosão?

Guerra nunca é uma ação boa, mas a co­bertura da im­prensa po­deria ser. Ou pelo menos algo mais útil. Antes, uma digressão.

Guerras são ter­ríveis, um ato para se evitar. Não digo “a todo custo” porque, bem, essa abor­dagem é mais pe­rigosa do que qualquer guerra em si. É o ar­gu­mento dos proto-​terroristas, esses que não vêem nada demais em ex­plodir bombas em res­tau­rantes, ou matar um mo­to­rista no sinal ver­melho. É o ar­gu­mento dos que querem ganhar alguma van­tagem na guerra, seja fi­nan­ceiro, po­lítico ou, até mesmo, ne­ces­si­dades da vaidade. Esse pen­sa­mento foi o res­pon­sável por Hitler, sua as­censão e pela Se­gunda Guerra. O mundo ainda car­regava os traumas da “Grande Guerra” e, por isso, esta hoje é co­nhecida como “A Pri­meira Grande Guerra”.

Na­quela época (pes­quisem), as no­tícias mos­tradas hoje em man­chete eram apenas os ro­dapés do jornal, porque, todos sabiam, guerras matam, guerras são es­tú­pidas e, não im­portam o que achem a ONU, guerras não poupam ninguém, nem ca­chorros, nem cri­an­cinhas. Era mais im­por­tante en­tender o con­flito. Nesse tempo, havia abertura e espaço para aná­lises apro­fun­dadas até de um combate es­pe­cífico. Hitler apro­veitou e criou aquilo que hoje cha­mamos de pro­pa­ganda e mar­keting na fa­culdade. Talvez seja essa a origem do trauma da im­prensa bra­si­leira, in­capaz de no­ticiar algo con­creto sobre o tema, restringindo-​se a nú­meros e bes­teiras sen­ti­mentais. Os jor­na­listas, quem sabe, não querem se ver res­pon­sáveis em pro­pagar uma visão ma­léfica como o fi­zeram pré se­gunda guerra. Como se os jor­na­listas sou­bessem di­fe­renciar uma arapuca de um estilingue.

En­tendo que as pessoas querem o melhor para o mundo, e que po­breza e in­justiça nem de­veriam existir. Mas, na re­a­lidade, não es­tamos tão de­sen­vol­vidos assim. Se você prestar atenção, os carros ainda usam ga­solina num motor de com­bustão in­terna, tal qual o modelo Ford T. A química nem tem 100 anos de evo­lução, mesmo assim temos alguns me­di­ca­mentos vitais. A física, bem, nos deu a res­so­nância mag­nética, o ultra-​som. En­tre­tanto, a me­dicina con­tinua igual: se tem algo errado, que nem a química e a física re­solvem, eles pegam uma faca e ar­rancam fora.

Correspondente de Guerra

Jor­na­lista no front, como deve ser.

En­tender o mo­mento que vi­vemos é es­sencial para não cair na ar­ma­dilha de jus­ti­ficar o ter­ro­rismo. Falo do Hamas. A Pa­lestina en­frenta di­fi­cul­dades sim, a maioria criada por eles pró­prios, com uma noção errada de is­la­mismo, ví­timas de uns poucos loucos que con­seguem con­vencer as pessoas que os judeus são maus e deve ser li­te­ral­mente mortos a qualquer custo. Eu sinto muito por essas pessoas, mas se elas não qui­serem mudar essa visão dis­torcida de mundo, bem, não a o que fazer a não ser combatê-​los. Ninguém aceita a ide­o­logia na­zista hoje. Quem a de­fende é tido como, no mínimo, um doido. Pois então, porque esses as­sas­sinos psi­co­patas, que usam o is­la­mismo como des­culpa, são tão bem-​vistos pelo mundo?

Existiu um tempo quando os re­pór­teres iam con­firmar quaisquer de­cla­rações dadas por au­to­ri­dades. Se o Hamas diz que 300 cri­anças foram mortas pelo exército de Israel, lá ia o jor­na­lista na linha de frente ver se isso era verdade. Ninguém tem mais co­ragem, e só um louco se en­fiaria nas fi­leiras do Hamas para tentar fazer uma re­por­tagem, pois sabem que essa turma mata sem dó, nem pi­edade. Então, que não no­ticiem tais coisas como verdade, co­lo­cando as res­pon­sa­bi­li­dades em quem de­clarou. Isso não é jor­na­lismo. Num con­flito assim, é pior do que falta de res­pon­sa­bi­lidade: é estar ao lado dos ter­ro­ristas. Fossem bons pro­fis­si­onais, os jor­na­listas iriam ao front pre­senciar os fatos.

O re­sultado desse jor­na­lismo de ca­deira é man­chetes como as que vão abaixo. Nenhum cor­res­pon­dente de guerra que se res­peite acei­taria tais pautas para uma pos­sível pu­bli­cação. Aliás, não há nenhum re­pórter desse tipo por lá. Nunca o jor­na­lismo esteve tão baixo, tão pobre. No­tícia é quando o dono morde o ca­chorro, não o con­trário. E o con­trário dessas “re­por­tagens” é um bar­ba­rismo sem ta­manho, um humor negro.

A seguir, as cinco no­tícias mais bestas sobre uma guerra.

5 - Blogueiros (ou jornalistas, ou habitantes, ou entusiastas ou o Paulo Coelho) contam o terror da guerra

Sério, alguém já viu uma no­tícia de “10 lu­gares que se deve vi­sitar antes de morrer du­rante a Se­gunda Guerra Mundial”? Ou “Saiba o que abra e fecha du­rante a Guerra do Kosovo”? Ou “Yoko Ono mostra o lado sócio-​pós-​modernista-​estruturalista de Saigon du­rante a re­tirada ame­ricana”?

Claro que não, isso porque, numa guerra, só há coisas ter­ríveis para contar. Claro que, vez ou outra, en­ganam a Oprah com maças jo­gadas pela cerca. Ou um filme mostra o lado humano que ainda re­siste à cru­eldade de um con­flito. Quando acontece, são his­tórias anô­nimas. Seus pro­ta­go­nistas não fazem isso por algum apreço pelo mundo, ou para mudá-​lo. Não mesmo, no duro. Pessoas fazem isso para lembrarem-​se que ainda são pessoas, e não animais. É um querer de dignidade. 

Nenhum jor­na­lista atual vai se meter onde o con­flito está pior para apurar tais his­tórias. Eles gostam do con­forto da en­trada do hos­pital, ou da se­gu­rança de uma área onde equipes de busca fazem o seu tra­balho. Isso quando não exigem entrar dentro dos blin­dados, atra­pa­lhando a vida dos sol­dados que, bem, pre­cisam fazer di­reito seu tra­balho ou morrerão.

4 - Vídeo mostra desespero de civis na faixa de Gaza

In­te­res­sante. Pro­va­vel­mente os civis no meio de um con­flito armado de­veriam usar o manual do Código De Trânsito bra­si­leiro para manter a calma ha­bitual, como fa­zemos na hora do aci­dente. Em meio de mísseis voando sobre suas ca­beças, um Hamas que muito pro­va­vel­mente irá correr em sua di­reção, porque essa gente não tem es­crú­pulos e usam civis como re­tar­da­tários (nem escudo é, porque eles não ficam e lutam, mas dis­param e correm).

Pessoas normais se de­ses­peram em meio a ti­ro­teios e bom­bar­deios. Só mesmo mulher de tra­fi­cante fica entre o bandido e a po­lícia, com seus filhos bas­tardos no braço.

3 - Ofensiva terrestre (aérea, marítima ou espacial) piora crise humanitária em Gaza, afirma ONU

Juro que um dia quero ver “Guerra me­lhora o IDH do Ca­za­quistão, diz pre­si­dente”. Ou, quem sabe, “Kosovo bate re­corde na pro­dução agrícola du­rante a Guerra, po­pu­lação co­memora a baixa dos preços”.

Jor­na­listas e a gente da ONU sabem que, con­flitos desse tipo duram poucas se­manas, e não anos como uma guerra de verdade. O tempo é curto para alguns se fa­zerem de li­de­rança, de um homem forte que ajudou a di­minuir a pe­núria desses seres hu­manos. Dafur não faz man­chete, o Hamas sim. 

2 - Israel anuncia abertura de "corredor humanitário" (ou entrada de alimentos, ou entrada de médicos, sei lá) em Gaza

Adoro essas “aspas”. No duro, tem jor­na­lista que pre­cisava cobrir uma guerra mundial. E nem con­sidero o con­flito entre Hamas e Israel uma “guerra”. Pri­meiro, porque o Hamas é um grupo ter­ro­ristas, e ter­ro­rista não é exército, e sem dois exér­citos não há guerra. 

Já as “aspas”. Bem, em qualquer con­flito as duas partes pre­cisam con­trolar o ter­ri­tório. É uma questão de es­tra­tégia. A en­trada de ajuda precisa, sim, ser su­per­vi­si­onada de perto, afinal, podem con­tra­bandear su­pri­mentos ou ar­ma­mentos para o inimigo. Na­daaaaa mais normal que isso. Mas hoje, a “po­li­ti­ca­mente de­bi­lóide” acha tudo isso es­tranho. Isso é o que dá ali­mentar ge­rações in­teiras com Toddynho®. Acham que a carne vêm das árvores, que ter­ro­ristas irão res­peitar as “ajudas hu­ma­ni­tárias”. Se assim fosse, meu bem, essa ajuda nem seria ne­ces­sária, não é?

1 - Israel intensifica ação em Gaza; mortos passam dos 500

Sério que um dos países in­ten­sifica suas ações numa guerra? E que os mortos sempre sobem du­rante as ba­talhas? Em que mundo vi­vemos! Onde estão as man­chetes com algo novo, como “Número total de mortos di­minui 12% depois da pri­meira semana”? Quem sabe um lead assim: “Primeiro-​ministro de Gaza diz que o alto número de res­sur­reições e mi­lagres dos pro­fetas de Alá são os res­pon­sáveis pelo de­créscimo”.

Ou seja, todo dia mais pessoas mor­rerão. Pessoas morrem em guerras de verdade, ok?

Sou feliz quando apareço antes no Google

Fico feliz quando apareço antes das pessoas que admiro no Google. É uma alegria pe­quena, mas a vida é feita delas. Aqui vai um ins­tan­tâneo, porque alegria de pobre dura pouco…

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Roda Viva: Gilmar Mendes

Gilmar Mendes

Gilmar Mendes e Eliane Can­ta­nhêde e Carlos Marchi

O Roda Viva, da TV Cultura, en­tre­vistou o Mi­nistro do Su­permo Tri­bunal Fe­deral, Gilmar Mendes. Bons con­vi­dados sempre dão bons pro­gramas. O Mi­nistro nada mais fez do que re­petir tudo aquilo que já disse, e que é so­le­ne­mente ig­norado pelo jor­na­lismo de es­querda do Brasil. Como parte do es­pe­táculo estava Eliane Can­ta­nhêde, jor­na­lista da Folha de São Paulo.

Nada de novo no front. Gilmar Mendes re­petiu tudo aquilo que sempre diz. O Estado de Di­reito deve ser pedra fun­da­mental. O STF não deve julgar de acordo com a opinião pú­blica, e sim pelos fatos no pro­cesso. Tudo que um es­tu­dante de di­reito ci­vi­lizado de­veria saber antes de entrar na fa­culdade. Mesmo assim, pre­cisou re­petir tudo de novo, toda vez que Eliane Can­ta­nhêde abria a boca.

Bons juízes pre­cisam de boa edu­cação, boa cultura e, claro saber ler. Eliane Can­ta­nhêde também pre­cisava essas coisas para ser, sei lá, até um ser humano ci­vi­lizado. Mas a camisa ver­melha queima a retina mostra que em toda pro­fissão há pessoas pouco qua­li­fi­cadas para a tarefa. Eliane Can­ta­nhêde é uma dessas pessoas. 

As po­lê­micas entram em pauta. Mas, no­va­mente po­lê­micas são para quem nada en­tende do ju­di­ciário, como Eliane Can­ta­nhêde. Ou para quem não tem moral, nem mesmo es­crú­pulos (e gostam de es­crever Cartas…). As res­postas não foram novas, foram apenas re­prise da­quilo que já se viu nos jul­ga­mentos. Uma hora e meia de re­pe­tecos. Parece que os jor­na­listas Márcio Chaer, editor do site Con­sultor Ju­rídico, Rei­naldo Azevedo, ar­ti­cu­lista da re­vista Veja e do Blog Rei­naldo Azevedo, Eliane Can­ta­nhêde, co­lu­nista do jornal Folha de S. Paulo, Carlos Marchi, re­pórter e ana­lista de po­lítica do jornal O Estado de S. Paulo qui­seram ouvir de novo a ma­ra­vi­lhosa voz de Gilmar Mendes.

Con­teúdo, mesmo, nada. Faz parte desse mundo de jornal brasileiro.

Espantou-​se quem não lê o Rei­naldo Azevedo, quem não co­nhecia suas opi­niões. Quem não lê, não deve ter en­tendido nada. Mas tudo bem. Faz parte desse povo brasileiro.

Nem meus amigos ad­vo­gados es­tavam as­sis­tindo ao pro­grama. Ver­gonha, né, já que a vida pro­fis­sional deles têm tudo com o STF. Mas tudo bem. Faz parte desse ju­di­ciário brasileiro.

Espanta-​me é Eliane Can­ta­nhêde. Gostei de vê-​la re­petir suas as­nices em rede na­cional e ser tratada, bem, como um asna. Bo­bagem deve ser res­pondida com bom-​senso, com a aus­te­ridade de quem é su­perior ao ser que teve a ou­sadia de per­guntar bes­teiras. Não, ela não tem a prer­ro­gativa de não saber. Na pro­fissão dela, é fun­da­mental informar-​se antes de qualquer en­tre­vista. Mesmo assim ela usa essa “des­culpa”. É uma ver­gonha para a pro­fissão. Não é uma ver­gonha para a Folha de São Paulo.

Gilmar foi educado, mesmo diante disso tudo. 

Márcio Chaer não é muito ar­ti­culado, ou estava nervoso. Tentou co­locar bons ques­ti­o­na­mentos, mas faltou clareza nas per­guntas. Antes delas, fazia uma in­tro­dução sem ca­bi­mento. Não sei se era sua in­tenção in­formar os tele-​espectadores ou o Mi­nistro. Espero mesmo que tenha sido a pri­meira. Mas tudo bem.

Rei­naldo Azevedo e Carlos Marchi eram as pro­messas. En­tre­tanto, suas per­guntas vi­savam es­cla­recer as ma­térias ir­res­pon­sáveis pu­bli­cadas em di­versos jornais, es­pe­ci­al­mente como as da Eliane Can­ta­nhêde na Folha de São Paulo. Estou me re­pe­tindo demais. Enfim, eles de­veriam ter es­quecido a Eliane Can­ta­nhêde e sua turma. Ela própria con­seguiu ser o ele­mento cômico do programa.

Eliane Can­ta­nhêde quis re­petir suas co­lunas de fo­focas na frente do Mi­nistro. Levou umas “pal­ma­delas na bunda” (função que de­veria ter sido de­sem­pe­nhada por seus pais). Assim como uma criança que diz besteiras, Eliane Can­ta­nhêde re­petia seus bordões pre­di­letos vindo do manual da es­querda chic bra­si­leira. Assim como um pai severo, mas aten­cioso, Gilmar Mendes dizia a Eliane Can­ta­nhêde que isso ou aquilo era uma bo­bagem. Muitas coisas nem pre­ci­savam ser respondidas. Eliane Can­ta­nhêde re­petia que só “preto, pobre e pros­tituta” fica preso. Eliane Can­ta­nhêde não sabia que era Gilmar Mendes o homem res­pon­sável pela ten­tativa de acabar de uma vez por todas com esses erros. Eliane Can­ta­nhêde não sabia que Gilmar Mendes era res­pon­sável por tirar os “pretos, pobres e pros­ti­tutas” da cadeia. Será que as ONG de “pretos, pobres e pros­ti­tutas” pro­ces­sarão Eliane Can­ta­nhêde por usar essas pa­lavras ao invés de “afro­des­cen­dente, eco­no­mi­ca­mente li­mi­tados e pro­fis­si­onais da vida noturna”?

Gimar Mendes tem mais a ofe­recer. Mas não num país como o Brasil. Ao invés de saber mais sobre as idéias do Mi­nistro, foi mais im­por­tante as­suntos como Daniel Dantas, Pro­tó­genez, Habeas Corpus, e cordão de ouro, tudo por causa da Eliane Can­ta­nhêde. Deve-​se ig­norar gente como Eliane Can­ta­nhêde. Eles con­ta­minam o am­biente com suas de­fi­ci­ências e li­mi­tações. Uma pena para quem ficou acordado, e agora precisa de co­lírio para di­minuir a dor da camisa ver­melha de Eliane Cantanhêde.

Maldita te­le­visão de alta-​definição.

Gilmar Mendes

Gilmar Mendes

PS: Para com­pletar, nem preciso co­mentar a “co­bertura” dos “twit­teiros” Ju­liana, AloisioSam, não é?

A Justiça Brasileira na Imprensa

Law Class: Project Visual Aid - Cris Martin

Law Class: Project Visual Aid — Cris Martin

Não é de hoje que a co­bertura da im­prensa em geral é pre­cária quando o tema é o ju­di­ciário. Nas re­dações há uma regra nem sempre ex­plícita, mas clara, que é: deixe o “ju­ri­riquez” de lado, atenha-​se ao fato, ignore os laudos e faça que a his­tória pareça uma no­ve­linha. Tra­du­zindo em miúdos, a im­prensa (com raras ex­ceções) in­forma apenas o fato in­ves­tigado, e não diz nada sobre a in­ves­ti­gação em si, como consta nos laudos da justiça.

Um pe­quena di­gressão. O Caso da Escola BASE é um case de su­cesso no jor­na­lismo. Um erro co­lossal da im­prensa em geral levou à con­de­nação pú­blica dos acu­sados, mesmo não exis­tindo uma única prova contra eles. Até hoje, vários veí­culos tentam uma tirar o corpo fora, te­mendo pro­cessos ou te­mendo apenas perder a cre­di­bi­lidade que acre­ditam ter. No globo, há um resumo da confusão:

SÃO PAULO — Em março de 1994, vários órgãos da im­prensa pu­bli­caram uma série re­por­tagens sobre seis pessoas que es­tariam en­vol­vidas no abuso sexual de cri­anças, todas alunas da Escola Base, lo­ca­lizada no bairro da Acli­mação, na ca­pital. Os seis acu­sados eram os donos da escola Ichshiro Shimada e Maria Apa­recida Shimada; os fun­ci­o­nários deles, Mau­rício e Paula Mon­teiro de Al­va­renga; além de um casal de pais, Saulo da Costa Nunes e Mara Cristina França.

De acordo com as de­núncias apre­sen­tadas pelos pais, Mau­rício Al­va­renga, que tra­ba­lhava como pe­rueiro da escola, levava as cri­anças, no pe­ríodo de aula, para a casa de Nunes e Mara, onde os abusos eram co­me­tidos e fil­mados. O de­legado Edelcio Lemos, sem ve­ri­ficar a ve­ra­cidade das de­núncias e com base em laudos pre­li­mi­nares, di­vulgou as in­for­mações à imprensa.

A di­vul­gação do caso levou à de­pre­dação e saque da escola. Os donos da escola che­garam a ser presos. No en­tanto, o inquérito po­licial foi ar­quivado por falta de provas. Não havia qualquer in­dício de que a de­núncia ti­vesse fundamento.

Com o ar­qui­va­mento do inquérito, os donos e fun­ci­o­nários da escola acu­sados de abusos deram início à ba­talha ju­rídica por in­de­ni­zações. Além da em­presa ‘Folha da Manhã’, outros órgãos de im­prensa também foram con­de­nados, além do go­verno do estado de São Paulo. Outros pro­cessos de in­de­ni­zação ainda devem ser jul­gados. Globo On Line

Quando o as­sunto é jul­ga­mento, os re­pór­teres buscam a face mais dra­mática da his­tória. Uma análise pe­quena, su­per­ficial e idiota diz que a razão é “se­questrar” a atenção dos lei­tores com uma nar­rativa dra­mática para au­mentar a venda do jornal, ou a au­di­ência do te­le­jornal, etc. Sites como o Ob­ser­va­tório da Im­prensa in­sistem nessa tecla, mesmo não tendo estudo algum afir­mando que ma­térias de­ta­lhadas di­minuam o lucro dessas empresas.

O tra­ta­mento do pro­cesso ju­rídico pelos jor­na­listas é de­fi­ci­tário não por causa de uma norma cor­po­rativa, e sim porque os jor­na­listas nada ou pouco sabem sobre o sistema ju­rídico. Os jor­na­listas não sabem, nem querem, aprender a ler pro­cessos. Os jor­na­listas acham o tempo de trâmite no ju­di­ciário longo e te­dioso. Acusam os pa­trões de exi­girem prazos ime­diatos para a en­trega de ma­téria. O tempo de apu­ração e de re­dação de uma no­tícia não são tão curtos. O que falta à maioria dos pro­fis­si­onais é co­nhe­ci­mento e com­pe­tência para exercer suas funções. Tudo isso termina em erros de in­ter­pre­tação, em ma­térias que não in­formam (ou in­formam um de­lírio do re­pórter) e numa opinião pú­blica in­capaz de ter re­fe­rências para re­fletir sobre um fato. Isso torna a so­ci­edade mais débil, no duro.

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Re­pro­dução

O caso do pro­motor Thales Ferri Schoedl não se tornará um exemplo porque, duvido muito, Thales buscará na justiça in­de­ni­zação pelas re­por­tagens vei­cu­ladas contra ele. Prin­ci­pal­mente hoje quando ele foi ab­solvido do as­sas­sinato no li­toral pau­lista. As man­chetes mostram a de­cisão como uma sur­presa. Mas qualquer ser humano com um QI mo­derado já sabia disso. Bastava ler o pro­cesso, ou ter pa­ci­ência para pes­quisar as no­tícias sobre o caso.

Lá em 2004, uma das su­postas “ví­timas” do pro­motor cor­ro­borou a versão deste quando in­quirida ainda no hos­pital. Re­por­tagem da Folha de São Paulo em 2005 informa.

Thales Ferri Schoedl, 26, pro­motor que matou um rapaz e feriu outro em um luau em Ber­tioga (li­toral de São Paulo), em 30 de de­zembro do ano passado, du­rante uma dis­cussão por causa de sua na­morada, só passou a atirar contra as pessoas quando elas ten­taram tomar sua arma, uma pistola, e depois de dar dois tiros, um para cima e outro para o chão.
A afir­mação está no de­poi­mento do so­bre­vi­vente dos tiros, o uni­ver­si­tário Felipe Si­queira Cunha de Souza, 21. O tes­te­munho foi prestado em 9 de ja­neiro, em um quarto do hos­pital Sírio Li­banês (centro de São Paulo) ao pro­cu­rador Álvaro Busana e ao pro­motor Luiz Ro­berto Salles Souza.
Esse relato coincide com o dado por Schoedl em depoimento. — Folha de São Paulo

Logo depois, os de­poi­mentos mudam. Um agosto de 2005, o jovem diz que “ten­taram se de­fender” e para isso “cor­reram para cima do pro­motor”. Ele com­pleta “nunca che­gamos perto dele”. Oras, dois tiros de ad­ver­tência não bas­taram para os ga­rotos darem o fora. Ao invés disso par­tiram para cima de alguém acuado, armado e em menor número. E ainda querem ter razão.

De­poi­mentos dados logo após o crime nor­mal­mente têm mais peso no pro­cesso. Tanto pro bem quanto pro mal. Muitas pessoas já foram con­de­nadas in­jus­ta­mente por causa disso. E é por isso que há uma in­ves­ti­gação. En­tre­tanto, a im­prensa não parece dar pitaco para iso. Es­colhem uma versão e ficam com ela.

Depois do laudo, a pro­cu­ra­doria deu a se­guinte in­for­mação para a im­prensa. Notem que o lead (a parte da mais im­por­tante de uma re­por­tagem) nunca afirma que é uma versão, e não um fato consumado.

O es­tu­dante Diego Mendes Mo­danez, 20 anos, morto pelo pro­motor Thales Ferri Schoedl, 26, no dia 30 de de­zembro, em Ber­tioga, levou um tiro no an­te­braço di­reito, depois se agachou e levou outro, no peito. Isso é o que aponta laudo pe­ricial di­vulgado ontem pela Pro­cu­ra­doria Geral de Justiça do Estado, órgão que também de­nunciou o acusado por duplo ho­mi­cídio (doloso e tentado) qua­li­ficado por motivo fútil. — Folha de São Paulo

Agachou” ou “caiu”? A di­fe­rença da in­for­mação trans­mitida pelos verbos é brutal. Se eu levo um tiro no ante-​braço, eu cairei, já que não sou um soldado de elite. O re­pórter do Jornal Agora de­veria ter in­ter­pelado o pro­cu­rador do caso sobre essa hi­pótese, e não so­mente ser um papagaio-​de-​pirata. A Folha de­veria ter ido atrás da in­for­mação antes de pu­blicar o texto. Assim se faz um bom jornalismo.

Diz a lei bra­si­leira que, “Entende-​se em le­gítima defesa quem, usando mo­de­ra­da­mente dos meios ne­ces­sários, repele in­justa agressão, atual ou imi­nente, a di­reito seu ou de outrem.” Note os re­qui­sitos da le­gítima defesa: a) agressão in­justa (atual ou imi­nente); b) defesa de um di­reito (próprio ou de ter­ceiro); c) re­pelida por meios ne­ces­sários, usados mo­de­ra­da­mente. Vamos lá. Será que os jornais le­varam isso em consideração?

  1. Agressão In­justa. A agressão contra o pro­motor foi in­justa. Mesmo que ele tenha ficado fulo da vida por causa da na­morada, nada jus­tifica um bando de guris partir para cima de uma única pessoa.
  2. Defesa de um di­reito. Bom, o pro­motor de­fendia o di­reito de não apanhar de um monte de gente.
  3. Re­pelir por meios ne­ces­sários, usados mo­de­ra­da­mente. Esse é o pro­blema. O que seriam meios ne­ces­sários, usados mo­de­ra­da­mente? Bem, isso im­plica que, para a le­gítima defesa, você precisa estar com­ple­ta­mente zen. Não é como acontece. Sempre uso uma aula dada por um de­sem­bar­gador no RS, que sempre repito. Per­guntou ele na aula “seria justo atirar se alguém viesse para cima de ti com um pedaço de pau?”. Papo vai, papo vem, diz o cara que “não, porque o poder letal de um pedaço de pau é muito menor do que o de uma arma de fogo”. Pode pa­recer lógico, mas aí um colega meu in­terveio. “Bom, logo se vê que Vossa Ex­ce­lência nunca levou uma boa paulada na cabeça…”. Esse é o ponto que pega.

Na im­prensa, o ponto três teve a se­guinte in­ter­pre­tação: não, ele atirou um monte de vezes, logo ele é mal. Os dois pri­meiros, que eram bons ao pro­motor, foram ig­no­rados. Na questão do “meio ne­ces­sário”, surge o drama, a arma de fogo. Seria o seu uso legal ou não? As pessoas es­colhem um lado e ficam com ele, nem im­portam as outras questões. Claro que hoje em dia ter uma arma de fogo não é um di­reito a ser con­quisto (devido ao ab­surdo Es­tatuto do De­sar­ma­mento), mas uma fa­ci­lidade dos cargos pú­blicos. O in­te­res­sante é que a mesma im­prensa que apoiou ce­ga­mente o de­sar­ma­mento ig­no­rando todas as regras de apu­ração agora bate na tecla: quem ter arma por causa do cargo pú­blico teria ou não o di­reito de se de­fender com ela.

No­va­mente, a mesma im­prensa es­quece esse ponto na greve da Po­lícia Civil em São Paulo.

Não procuro aqui des­cobrir o que de fato acon­teceu, isso é pro­blema da po­lícia e do ju­di­ciário. E também da pro­mo­toria: você deve ter certeza que o acusado é culpado pelas provas, e não usar apenas as provas que trans­formam o réu em culpado.

Assim também se de­senrola a de­sas­trosa ope­ração da Po­lícia Fe­deral che­fiada pelo de­legado Pro­tó­genes Queiroz (e o ci­dadão ainda faz um blog…). O Dantas é culpado mesmo? Se for, Pro­tó­genes de­veria se en­car­regar de provar sem sombra de dúvida. Ao invés disso, “co­mandou” um de­sastre de in­ves­ti­gação, cheia de de­lírios, de es­pe­cu­lações, e ainda uma in­ves­ti­gação cri­minosa, já que usou de meios es­cusos para tentar en­contrar provas contra Dantas.

Num país mais ci­vi­lizado, Pro­tó­genes Queiroz teria sido exo­nerado antes de tornar o inquérito pú­blico. O Estado fi­caria tentado a pul­ve­rizar todo e qualquer re­gistro dessa ope­ração para co­meçar tudo do zero. A Po­lícia nunca viria a pú­blico com um de­la­tório que parece re­digido por um lu­nático de PINEL. Um de­legado não pode fugir da re­a­lidade dos fatos con­cretos que estão a frente dele. Es­pe­cu­lações existem, claro, porque sem elas não há in­ves­ti­gação. E se in­vestiga exa­ta­mente para com­provar se é ou não re­a­lidade o que pensa a po­lícia. A ope­ração de Pro­tó­genes co­locou no papel como se pensa uma ope­ração, antes de realizá-​la. De­lírios, brainstorm, con­jec­turas. Na de­núncia, apenas fatos.

A im­prensa não prestou atenção nisso, e nem presta.

Agora, o caso em des­taque é o tor­cedor do São Paulo ba­leado no Dis­trito Fe­deral. Imagens da te­le­visão dos bispos mostra o mo­mento quando o po­licial dispara (sem querer) contra o tor­cedor, que não reage e até já está vi­rando para a parede.

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A ma­téria da Rede Globo no­va­mente apela para o sen­ti­men­ta­lismo barato. Mas lembro, isso não é culpa da em­presa, mas da for­mação que os jor­na­listas bra­si­leiros ti­veram nos últimos anos. O lead mostra o fato, a li­berdade pro­vi­sória con­cedida ao sar­gento. Logo abaixo, o sub-​lead diz “In­dícios de Crime”. Qualquer pessoa que as­sistiu à cena sabe que, pri­meiro, o po­licial errou na abor­dagem. Se­gundo, ele não atirou porque quis. Foi um aci­dente. O vídeo mostra é o des­preparo da po­lícia bra­si­leira pra atuar ro­ti­nei­ra­mente.

Isso não isenta o sar­gento de res­pon­sa­bi­li­dades porque, como agente da lei, ele deve estar pre­parado para não co­meter uma idi­otice desse ta­manho. Mas por mais cruel que possa pa­recer, ele re­al­mente não é um perigo para a so­ci­edade. Não precisa ficar preso du­rante todo o pro­cesso e, na letra da lei, têm o di­reito de res­ponder a tudo em liberdade.

Claro que o acon­te­ci­mento é bi­zarro. Um po­licial atira sem querer, diz ainda que a vítima tentou tirar sua arma (o que é des­mentido pelas imagens) e ainda pode ficar livre. Pode ser ab­surdo, mas é o que acontece. O último fato, a de­cla­ração que a vítima re­agira, po­deria depor contra o sar­gento (e vai, du­rante o pro­cesso). E é exa­ta­mente isso que nenhum jornal no­ticia. O “ta­manho do texto” para os pe­rió­dicos não é des­culpa. Aqui na in­ternet é pior ainda. Na re­dação da ma­téria o re­pórter po­deria muito bem adi­cionar ele­mentos do pro­cesso ju­dicial que ex­plicam a de­cisão da justiça. O fato dele “possuir re­si­dência fixa, ter pro­fissão, um passado limpo e não re­pre­sentar perigo à so­ci­edade” não é in­venção, mas realidade. Entretanto, no jornal isso é “uma das partes”. Não é bem assim.

O jor­na­lismo for­matado pela escola “Al­berto Dines — Ob­ser­va­tório da Im­prensa” não in­forma nem corrige in­jus­tiças. Criam, aí sim, um char­la­ta­nismo, sempre ape­lando para a emoção, mesmo as ma­térias não pa­re­cendo um drama de fo­lhetim. É ainda pior, já que usa uma lin­guagem seca (sinônimo para os cas­pe­rianos e us­pianos de im­par­ci­a­lidade) para passar uma men­sagem me­lo­dra­mática, para dizer que a justiça bra­si­leira nunca fun­ciona (ge­ne­ra­li­zação men­tirosa), para sempre ma­ni­pular a opinião pú­blica (bem, a opinião dos de­sin­for­mados, o pessoal do voto de ca­bresto, aka voto de bolsa fa­mília).

Me­lhorar a re­dação de textos nos jornais é ur­gente, não para educar o povo, pois isso é função dos pais, da escola e da própria pessoa assim que ela aprende a andar sobre duas pernas. A me­lhora é es­sencial para bem in­formar o leitor, a meta do jor­na­lismo pro­fis­sional. Con­tribui também para a cre­di­bi­lidade da in­for­mação passada pelo veículo. O próprio jor­na­lista teria um res­peito maior como profissional.

Porém, hoje, tra­balhar num jornal é sa­tis­fa­tório para a maioria das pessoas. Vai ver é o medo de bater de frente com o editor, pre­cisar pro­curar em­prego, ter que re­al­mente le­vantar a bunda da ca­deira para apurar, e co­locar a bunda na ca­deira para aprender. In­fe­liz­mente, esse norte se in­verteu. Para apurar a ma­téria, nunca se le­vantam. Mas adoram sair para contar van­tagens nas mesas de bar. Isso não é no­vidade. O jor­na­lismo bra­si­leiro têm tra­dição em dizer bo­bagens e ter a pre­guiça como marca pro­fis­sional. É assim desde os tempos do império.

Ex­tra­or­di­nário mesmo, além de triste, é os jornais con­ti­nuarem com gente assim na sua folha de pa­ga­mento. Comunicar-​se sempre foi um pro­blema no Brasil. Desiformar-​se é como um método. E como se muda um status quo? A so­lução não sairá das fa­cul­dades de jor­na­lismo. Nem dos jor­na­listas de sala de aula. Alguém ai é cri­ativo o bas­tante para ter uma boa idéia?