A quem servem os bafômetros

Livro econômico, que traz pouco sobre a nova lei

Livro econômico, que traz pouco sobre a nova lei

O Shikida lançou um e-​book sobre a Lei Seca (péssimo nome, por sinal, que de­monstra a falta de cultura do bra­si­leiro). Esse as­sunto me dá tanta pre­guiça… E dis­cutir com eco­no­mistas destrói com­ple­ta­mente minha libido. Eles são o pau-​pra-​toda-​obra da atu­a­lidade. Várias pro­fissões já su­biram nesse pe­destal: re­li­giosos, aris­to­cracia, ci­en­tistas, darwi­nistas, jor­na­listas, po­si­ti­vistas, hu­ma­nistas. O ne­gócio é não entrar no embate, por isso ou vou fazer um mo­nólogo, sem con­versas, muito menos vou entrar na di­a­lética por­caria de qualquer cor­rente ideológica. 

Pa­norama His­tórico o Termo “Lei Seca”

Isso é um resumo. Em 1917 os Es­tados Unidos de­cla­raram guerra à Ale­manha. Nesse mesmo ano, o con­gresso ame­ricano aprovou uma emenda à cons­ti­tuição que tornava ilegal a venda de bebida al­cóolica no país. Ao con­trário do Brasil, que adora aprovar leis da noite para o dia, o con­gresso ame­ricano apenas san­cionou uma lei que teve muito apoio po­pular antes de chegar ao Senado Americano.

Culpem os me­to­distas. Mas também os ci­en­tistas. Culpem um monte de gente, por via das dú­vidas. Essa la­dainha ronda a cultura ame­ricana desde os 1700’s, ganhou força nos 1800’s e no começo dos 1900’s virou lei. Ah, o álcool faz mal a saúde. Ah, o álcool trans­forma um bom pai de fa­mília num bebum. Ah, o álcool de­nigre os bons cos­tumes. Imagina os de­fen­sores dessa lei hoje, quando pro­vamos que uma taça de vinho por dia faz bem ao co­ração. Aliás, se eu tiver um en­farto (in­farto, in­farte, foda-​se), pro­cessem o estado. Vol­temos. A lei foi aprovada pelo senado devido a um clamor da sociedade. 

E todo mundo sabe o que acon­teceu (vocês vêem filmes, não?).

A bebida con­tinuou a ser vendida no mercado negro, criando uma classe de cri­mi­nosos tão pe­rigosa quanto charmosa nos anos 2030. A figura máxima era Al Capone. E en­volveu po­lí­ticos, po­li­ciais, fa­zen­deiros, bares, enfim… Depois de quase duas dé­cadas de proi­bição, fi­nal­mente che­garam à con­clusão que o melhor era mo­derar o consumo, mas nunca mais proibí-​lo com­ple­ta­mente. Esse é o resumo da ópera.

O novo texto do código bra­si­leiro de trânsito não faz nada disso aí. Apenas proíbe que você dirija um veículo au­to­motor se tiver con­sumido qualquer quan­tidade de álcool. Além de ser um pé no saco, pode te mandar pra cadeia assim, num es­talar de dedos (ou numa so­prada, ou numa recusa, enfim).

Eu de­testo esse termo desde o princípio.

O Novo Código Bra­si­leiro de Trânsito

Pouca gente se lembra de quando ele entrou em vigor. Mudou com­ple­ta­mente a nossa vida. Além de multas bem pe­sadas por ter, por exemplo, uma lan­terna queimada, ins­tituiu a obri­ga­to­ri­edade do cinto de se­gu­rança e ca­pacete, por exemplo. Lembro bem da dis­cussão na época. Se eu quiser di­rigir sem cinto, pro­blema meu. Sem ca­pacete, pro­blema meu. O lado oposto dessa dis­cussão era as man­chetes de jornal: Número de mortos cai em hos­pital. Cinto e ca­pa­cetes salvam vidas (assim, sem con­cor­dância nos termos). Alguma se­me­lhança com o debate hoje? Humm, depois de alguns anos o número de aci­dentes au­mentou, es­ta­bi­lizou ou di­i­minuiu? Hummm…

Mas também teve outras coisas bem di­ver­tidas, como a obri­ga­to­ri­edade de ter no carro um Kit de Pri­meiros So­corros. Lembram deles? Uma bol­sinha branca, com uma cruz ver­melha que só servia para acu­mular poeira no porta malas? Tinha que ter uma luva des­car­tável, es­pa­ra­drapo, gazes e outras coi­sinhas bem úteis quando uma ca­mi­nhonete passa por cima da sua cabeça ou você está preso nas fer­ragens. Ao mesmo tempo tí­nhamos novos cursos para tirar a car­teira de mo­to­rista, como o de pri­meiros so­corros que era mais ou menos assim: tente deixar a vítima imo­bi­lizada, sem ninguém tocar nela até a chegada da am­bu­lância. Aí um aluno bri­lhante per­guntava, “mas e o kit do carro?”. Eu ainda lembro das risadas.

Muita gente ganhou di­nheiro com isso, ven­dendo os kits. E muita gente ganhou di­nheiro fis­ca­li­zando os kits. Mé­dicos iam a te­le­visão falar que nem todos os kits eram es­téreis, que con­tinham bac­térias, isso e aquilo. Melhor nem usá-​los. Ao mesmo tempo, nas es­tradas, perto dos postos po­li­ciais, apa­re­ceram kombis ven­dendo toda sorte de equi­pa­mentos. Um kit que custava 5 reais na cidade ia pra 50 do lado da PRF. O dolár era um pra um, ok? Ah, essas kombis… elas ainda existem até hoje, ven­dendo lâm­padas de farol a mó­dicas quantias. Bela he­rança. Mas o grosso mesmo foram as em­presas que mon­tavam o tal kit. Da mesma forma que sur­giram, de­sa­pa­re­ceram quando essa exi­gência caiu.

Isso então é es­tranho pra você, leitor?

Pra mim não é.

Atuação da Po­lícia na Fis­ca­li­zação do Trânsito

No pri­meiro ano do Código de Trânsito ti­vemos que nos acos­tumar com as Blitz. E eram piores do que hoje. Não era raro pegar umas três antes de chegar em casa. A po­lícia apa­receu da noite pro dia. Com­praram novos guinchos ta­manha era a quan­tidade de carros ir­re­gu­lares. Até o tio da Kombi ter a bri­lhante idéia de es­ta­cionar perto delas. Seu carro não era guin­chado se você ar­ru­masse a coisa na hora. A po­lícia te abordava por causa de uma lâmpada queimada. Meu Deus, parece os Es­tados Unidos, as pessoas co­me­mo­ravam. E como ter­minou a fis­ca­li­zação? Bem, a lâmpada do freio de um amigo meu está queimada faz uns 3 anos e ele tem uma no­vinha no porta-​luvas. Não troco porque quero ver quando vão me parar por isso. Só por di­versão. No duro. Não foram poucas vezes que os po­li­ciais até qui­seram cobrar uma propina dele para es­quecer o caso. Tem hora que a car­teira vale o esforço.

Hoje, no­va­mente, vejo a mesma his­tória. As pessoas co­me­moram porque parece que elas estão nos Es­tados Unidos, na Europa. Eu tento lembrá-​las que não, elas vivem no BRASIL. Imagine o poder na mão do po­lícial que agora, por nada (des­culpa, mas o happy hour ainda é uma cultura bra­si­leira), pode te mandar pra prisão! Quem teme a lei não é o bêbado (ele já é louco por na­tureza), mas o tio da Kombi. Não pre­cisam mais dela (su­jeito in­de­ter­minado ou oculto, hein? hein?). Se mesmo depois de anos os ra­dares pegam um carro a 800 Km/​h e o Detran não admite sua parcela de culpa, imagina os bafô­metros em, di­gamos, 2010?

O Que O Futuro Nos Promete

Eco­no­mistas, pra voltar ao livro depois de tanta la­dainha, tem uma séria de­fi­ci­ência: eles não passam da ma­te­mática básica. Tudo bem que eles tem fór­mulas enormes, mas deviam se apro­fundar em ma­te­mática antes de emitir opinião. Tra­balhar com X e Y é fácil. A na­tureza humana está mais para cálculo avançado. É como acre­ditar que alunos me­dianos da escola pú­blica podem cons­truir uma nave espacial.

Não só os co-​autores do livro “es­que­ceram” da abran­gência de certas ex­ter­na­li­dades negativas.

Di­gamos, sei lá, que um agente pú­blico mal-​intencionado compre um bafô­metro no E-​Bay (o mesmo com­prado pela po­lícia por SETE MIL REAIS, nos Es­tados Unidos custa 150 DÓLARES) e re­solva adul­terar o número pra cima (bem, para os cé­ticos, alguém já pre­cisou des­blo­quear um ce­lular?)? Olha só eu dando idéia pra mar­manjo. Até você re­solver a si­tuação, meu bem… 

Ou pior, como o álcool sai do or­ga­nismo ra­pi­da­mente, e o IML não é um exemplo de com­pe­tência, logo logo irá criar uma si­tuação ju­rídica mais ou menos assim: o bafô­metro acusou po­sitivo, mas o su­jeito pre­cisou es­perar no IML, tomou um monte de re­fri­ge­rante e água e o exame de sangue deu ne­gativo ou abaixo do número acusado no bafô­metro. Vale qual leitura? Ah, no meu dia o IML fez o exame em cinco mi­nutos, mas o outro su­jeito teve 6 horas, a justiça é igual para todos ou o quê?

Eu não estou louco. Como a lei es­ta­belece li­mites tão baixos, um copo de cerveja, ou uma hora a mais ou a menos podem de­cidir entre li­berdade e CADEIA. Pela lei, eu posso me re­cusar a fazer tudo isso aí, bafô­metro, exame de sangue. Como o Estado vai di­fe­renciar os bê­bados ha­bi­tuais do pai de fa­mília que, sei lá, re­solveu tomar uma la­tinha a mais? Eu posso entrar com re­cursos con­tes­tando o tempo de espera, os equi­pa­mentos, qualquer coisa. Isso be­ne­ficia, uni­ca­mente, os piores ele­mentos. E não dá pra co­locar todo mundo no mesmo saco como o novo texto da lei fala.

Ou coisas bem en­gra­çadas como, um muy amigo teu re­solve te pregar uma peça e diz que a cerveja que ele te ofe­receu é sem álcool, mas não é. Ou sua em­presa faz uma festa po­li­ti­ca­mente correta sem álcool e um en­gra­ça­dinho re­solve zoar com todo mundo. O cara toma duas e nem sente, vai pra casa e cai na blitz, faz o teste do bafô­metro todo con­tente e vai pra Cadeia. Todo mundo vai na de­le­gacia dizer que foi um mal en­tendido (olha eu de novo dando idéia pra mar­manjo…), mas o pro­motor é meio pro­tó­genes e re­solve te pro­cessar mesmo assim. Le­vando em con­si­de­ração a lei, que diz que beber é po­ten­ci­al­mente co­locar outros em perigo de forma dolosa; e a loucura do pro­motor, claro – te­remos no Brasil o pri­meiro caso mundial, em outras letras, de Ten­tativa de Ho­mi­cídio sem a In­tenção de Matar.

O que eu tento dizer é: le­gislar pelo medo ou pelas emoções só traz con­seqüências ma­lé­ficas a médio e longo prazo. Hoje, é no­tório que as blitz param muito mais os mais jovens do que os mais velhos. E quando um “mais velho”, bêbado, passar pelos po­li­ciais e matar al­gumas pessoas no próximo cru­za­mento? O po­lícia tem o dever de evitar coisas como essa. Com melhor trei­na­mento, com uma ação efetiva, com método, eles po­deriam acabar com o crime or­ga­nizado no Rio de Ja­neiro. Mas do jeito que é, é dar muito crédito a uma cor­po­ração que ainda não o merece, mas tenta merecer.

E O Futuro Próximo?

Bem, com o passar do tempo a fis­ca­li­zação di­mi­nuirá. É um fato com­provado, porque o efetivo usado até as três ou quatro da manhã fará falta no resto do dia, ou em outros pontos da cidade. Bandido sabe onde tem blitz, onde po­li­ciais são re­qui­si­tados e dei­xando de lado outras atri­buições. Não é uma si­tuação sus­ten­tável (e os eco­no­mistas apostam num futuro exemplar onde haverá con­tra­tação de mais pessoal — gente, olha o or­ça­mento da se­gu­rança e acordem!). Mas o medo já estará instaurado.

Eu por exemplo, moro no Jardins, e não vou me ar­riscar be­bendo no centro, onde a de­le­gacia é outra, o perfil é outro. Eu não me ar­risco nem aqui, mas tem gente que pensa, HOJE, POR CAUSA DA LEI, no custo-​benefício de cruzar a cidade. E é um pen­sa­mento normal. As ba­tidas de trânsito vol­tarão aos níveis “normais”, sim, mas es­tarão es­pa­lhadas, e não mais con­cen­tradas onde nor­mal­mente tí­nhamos maior mo­vi­mento de bares, boates, etc. En­quanto a lei ficar como está, tudo ficará mais local, o que ajudará a ma­quiar os nú­meros por muito tempo.

E a mesma lei, que em suma po­deria criar dis­cussões pro­du­tivas, como a me­lhora da po­lícia, dos di­reitos dos ci­dadãos comuns e tanta coisa que ainda falta no país vai se trans­formar numa ba­talha entre os ditos anjos e os con­de­nados a serem demônios. Tal como no de­sar­ma­mento, a turma do paz e amor quer usar nossas emoções para uma agenda. Hoje, ninguém, salvo raras ex­ceções, pode andar armado. O crime não di­minuiu, au­mentou e ficou ainda pior. Po­li­ciais hoje dis­param a esmo, porque sabem se é bandido num carro, numa casa, ele vai estar armado. Hoje, bandido não leva mais 38 da casa do pai de fa­mília, andam com 765, 354, fuizis de as­salto, armas sempre foram de uso ex­clusivo e res­trito às forças ar­madas e a es­quecida po­lícia federal.

No­va­mente, otários são re­cru­tados, pen­sando terem as me­lhores in­tenções, para abrir uma lacuna pe­rigosa na vida, na justiça e no di­reito bra­si­leiro. Chuvas causam 35% mais aci­dentes. Só quando apro­varem uma lei que te mande pra cadeia por di­rigir com mal tempo as pessoas acor­darão? Acho que nem assim o bom-​senso do bra­si­leiro despertará.

E muito menos dos economistas.