Queiroz, Eça de - A Cidade e as Serras

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A Cidade e as Serras é um livro póstumo de Eça de Queiroz. Pouca gente sabe, mas a his­tória já havia sido abordada por Eça em um conto, Ci­vi­li­zação, alguns anos antes. Apesar disso, o livro resgata alguns as­pectos da critica social mais pre­sentes nos pri­meiros tra­balhos dele, como o Primo Ba­sílio e os Mais. Não foi re­visado pelo autor, mas é al­ta­mente acon­se­lhável a sua leitura.

Chega de aca­demês e valos falar sério. Quero dar uma boa dica pra vocês.

Eça é muito bom. Hoje me dia não é muito ad­mirado pelo pú­blico em geral porque a des­crição deixou de ser va­lo­rizada. Hoje, ninguém precisa de de­talhes mi­nu­ciosos para ima­ginar uma es­trada na China, ou um prédio em ruínas em Paris.

Mas houve uma época quando tudo era di­fe­rente — eles não tinham internet.

E Eça era muito bom nesse quesito. Des­crevia como ninguém. Além de dar no texto todos os pe­quenos por me­nores ne­ces­sários à ima­gi­nação para criar um am­biente, uma roupa, uma rua – ainda usava o re­curso para dar con­sis­tência aos per­so­nagens. Muitos es­cri­tores da Escola Urbana deviam ler Eça e aprender alguma coisa. O Alex mostra (muito bem, por sinal) esse es­tra­nha­mento com as obras:

Os Maias, bem ou mal, tem um enredo: Eça so­mente parece que es­queceu dele por 400 pá­ginas para fazer um re­trato pi­to­resco de Lisboa. O pro­blema é que você está tão in­te­ressado pela trama prin­cipal que Eça cons­truiu tão bem (mas e o Carlos? mas e a Maria Eduarda?!) que mal con­segue prestar atenção às sub­tramas — por me­lhores que sejam. A auto-​estrada distrai a atenção do leitor de atalhos e ca­minhos pa­ra­lelos que po­deriam ser deliciosos.

Esse é o Eça. Por isso um bom livro para entrar no seu mundo pode muito bem ser A cidade… (e o melhor, boa li­te­ratura de grátis, clique e baixe)

Bom, a his­tória é narrada pelo lu­sitano Zé Fer­nandes, amigo do também filho de por­tu­gueses Ja­cinto de Tormes: este, um rico senhor de terras em Por­tugal que nasceu na França e nunca vi­sitou as terras de seus an­te­pas­sados. Ele vive em Paris usando toda a sua gorda renda para apro­veitar todos os avanços tec­no­ló­gicos do século XIX. Ja­cinto, no pri­meiro mo­mento, aparece como um au­têntico po­si­ti­vista: a “ sal­vação” da hu­ma­nidade está no avanços da ci­ência. Pé­rolas do Po­si­ti­vismo na obra:

“Ora, nesse tempo ja­cinto con­cebera uma idéia de que o ‘homem só é su­pe­ri­or­mente feliz quando é su­pe­ri­or­mente ci­vi­lizado’”
por volta da página 7

Não con­funda a opinião do autor com sua obra. Ao menos nesse caso. Vol­tando à vaca fria, Ja­cinto tinha uma po­sição res­peitada não só por causa do di­nheiro, mas também pelo seu pi­o­nei­rismo em achar e comprar novas in­venções – e ele com­prava muitas.

Eça pinta a nata da so­ci­edade pa­ri­siense da época. O en­tu­siasmo pelas no­vi­dades, pelos pas­seios pelo Bou­levard, as con­versas nas “cer­ve­jarias fi­lo­só­ficas”, os te­atros e, é claro, o in­te­resse pela vida alheia.

Do lado oposto está o amigo de Ja­cinto, Zé Fer­nandes. Ele aparece como con­tra­ponto à essa fas­ci­nação pelo pro­gresso. Num tom amistoso e com grande cu­ri­o­sidade, acom­panha as des­ven­turas de Ja­cinto, mas com uma ponta de ce­ti­cismo. É Fer­nandes que sempre ques­tiona a real uti­lidade de tanta pa­ra­fer­nalha, que muitas vezes mais atra­palha do que ajuda.

Mas a ge­ni­a­lidade de Eça de Queiroz está na ad­je­ti­vação. Ele a usa tanto para iro­nizar, sa­ti­rizar ou apro­fundar um as­sunto com o mínimo de pa­lavras. Na página 14, por exemplo, Zé Fer­nandes fala assim quando vê pela pri­meira vez as bu­gi­gangas que Ja­cinto compra e decide ficar cu­rioso no seu canto:

“Mas eu preferi in­ven­tariar o ga­binete, que dava à minha pro­fa­nidade serrana todos os gestos de uma iniciação.”

Para Ja­cinto, a serra resumi tudo que é ruim no mundo. Um lugar pri­mitivo acaba por “pri­mi­ti­vizar” o homem.

Outra ad­je­ti­vação in­te­res­sante: quando Ja­cinto, triste, recebe Zé de forma apática, Eça não cai no lugar comum: resume tudo na ex­pressão irônica “alegria sólida”. E ainda o clássico “ levantou-​o com uma força fácil”.

Os pre­fixos e os su­fixos têm grande im­por­tância na nar­rativa de Eça. São eles que rei­teram uma opinião, um estado de es­pírito, ou qualquer in­tenção da his­tória ou dos per­so­nagens. O “”super” é usado para dar im­por­tância à mo­der­ni­zação du­rante o texto: su­per­ci­vi­li­zação, su­pe­ri­o­ridade, su­perfino, superior.

Quando Ja­cinto entra na fase de sa­tu­ração e tédio (uma crítica ao pes­si­mismo de Scho­pe­nhauer e, por que não, Ni­etzsche), o es­critor usa o re— e o —mente para en­fa­tizar a de­pressiva rotina do pro­ta­go­nista: re­costado, re­clamava, re-​buscara o sen­ti­mento, re­me­xendo nos papeis.

A cidade é um livro no qual o “como se conta” é muito mais im­por­tante do a própria his­tória. Sem isso, a his­tória de um homem ma­ra­vi­lhado com a tec­no­logia fica sa­turado, triste, me­lan­cólico e só en­contra a fe­li­cidade quando vai para outro lugar e acha o equi­líbrio – essa enredo – é com­ple­ta­mente des­car­tável. E é no como conta que Eça apro­funda e dá força a um evento banal. São es­colhas nar­ra­tivas acertadas.

Um bom es­critor con­segue trans­formar qualquer bes­teira em boa li­te­ratura – e não li­te­ratura de bes­teira. Lembre-​se disso.

Saramago abre um blog

Eu mesmo tenho cá minhas fra­quezas. Uma delas é gostar do comunista-​escritor José Sa­ramago. Agora ele lançou um blog. O Ca­derno de Sa­ramago. Nem todo mundo é per­feito, não?

Se o mundo está louco, eu não preciso estar não

Amy Wi­nehouse re­clamou semana passada da pre­sença do rapper Jay alguma coisa num fes­tival de rock na In­gla­terra. O pessoal do Oasis também. O rapper Jay alguma coisa deu de ombros, se apre­sentou e, de acordo com a im­prensa, fez o melhor show do evento.

Corta. Nova cena. Brasil.

A Flip, Festa Li­te­rária In­ter­na­cional de Paraty, con­vidou para a edição desse ano o Neil Gaiman (ótima es­colha, sempre acom­panho o blog do cara), a ci­neasta ar­gentina Lu­crecia Martel, o dra­ma­turgo bri­tânico Tom Stoppard e a psi­ca­na­lista francesa Eli­sabeth Rou­di­nesco. A im­prensa bra­si­leira festeja o diálogo pro­posto pelo evento.

Corta. Volto pro meu blog.

God­damnit!!! Re­sol­veram di­ver­si­ficar não só as opções se­xuais, mas até mesmo eventos de­di­cados? Que merda. Eu posso querer ir ver Iron Maiden, mas preciso aturar o Car­linhos Brown? Aliás, o que o Rock’n’RIO faz em PORTUGAL? Não será mais pos­sível ver o show só de rock? Qualquer ci­dadão se apre­sen­tando em qualquer casa de Jazz no Brasil in­venta de co­locar Bossa Nova por quê? Desde quando se vai num PUB para ouvir Pop-​Rock?

Eu não tenho as res­postas para as per­guntas a cima. Aliás, eu mesmo prefiro ficar em casa sozinho.

En­tre­tanto, eu gosto de botar meu dedo nessas te­orias. A razão disso tudo acon­tecer é: a hu­ma­nidade está com­ple­ta­mente aco­vardada. As pessoas vi­raram uns co­var­de­zinhos, não comem mais carne ver­melha, aca­riciam ve­getais. Acham um ab­surdo alguém fumar um simples ci­garro (até mesmo em ta­ba­carias), mas não estão nem aí com a ma­rihuana . De acordo com uma amiga minha, falar do que re­al­mente im­porta é con­si­derado uma gafe. Eu já vejo eles con­si­de­rarem a verdade como um pecado. São uns pu­ri­tanos de meia tigela.

E por serem, assim, tão sen­síveis, não re­clamam de nada. Por exemplo, rapper em show de rock não. Eu fico mas se for pra jogar alguma coisa nele. Eu não vou nos guetos me meter em as­suntos alheios. Aliás, eles nem mais con­vidam outros para os seus as­suntos. Sau­dades do Run DMC. Já não basta hoje em dia a li­te­ratura estar na UTI da cultura, tem que piorar o estado do pa­ciente con­vo­cando psi­ca­na­lista e ci­neasta pro evento? Aliás, esse pessoal do cinema não tem vários eventos de­di­cados para eles? Já fui a alguns con­gressos psi­quiá­tricos, de­veriam con­vidar um grupo de dança tra­di­ci­o­na­lista po­lonês para esses eventos. Por que não? E se o 50 cent con­vi­dasse uma co­mu­nidade Amish para seu próximo vídeo-​clipe?

Vai en­tender a cabeça dessa gente… eu prefiro ficar com a minha. Sou meio con­ver­sador, sabe. Se uma coisa é bem boa, não vejo razão para deixá-​la de lado e ex­pe­ri­mentas novas coisas. Levo a minha ex­pe­ri­ência comigo, e não tenho ver­gonha ne­nhuma de mostrar. Não troco de alma toda semana feito alguns. Se isso soa mal, pro­blema dos outros. Não vivo pela cabeça deles, prefiro meu sistema de vida e morte.

Corta.