O site está reformado, totalmente 2.0. Têm twitter, lifestream, um visual muito bacana, um luxo. Perdi 47 horas da minha vida trabalhando de graça para mim mesmo. E a puta recompensa? Por esse esforço eu agora tenho um faggot site. Minha mãe deve estar morrendo de vergonha. Adiante, espartanos!
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Um novo mundo é possível e sem o socialismo
Em épocas de Fórum Social Mundial, a ideologia mais feroz, desumana e assassina novamente ganha ares de salvadora. Desde que Stalin lançou sou plano mais abominável, o socialismo retoma um falso papel de “um mundo melhor”. Sem dúvida é melhor para os psicopatas, assassinos e estupradores. E adianta dizer essas coisas? Pouco provável que a visão estreita dos auto-assumidos esquerdistas mude. Difícil desfazer um mito, principalmente um que usa igualdade entre os homens como norte de uma utopia. Se essa é a premissa básica, acreditar numa descrição imaginativa de uma sociedade ideal, fundamentada em leis justas e em instituições político-econômicas verdadeiramente comprometidas com o bem-estar da coletividade, não há batalha a ser travada, não há lógica ou discussão racional que façam dois lados opostos chegarem num denominador comum. Essas pessoas já não vivem na realidade. Estão no campo da psiquiatria, não da filosofia, política, etc.
Acho muito engraçadas a brincadeiras feitas com as 600 mil camisinhas distribuídas no Fórum. É um contra-senso, já que ali na multidão a maioria defende uma sociedade mais aberta com a liberação do aborto e de algumas drogas. De tão bem informados e antenados, nem precisariam dessa ajudinha. Mas como eu disse, não adianta discutir e tentar demonstrar o absurdo dessa e de outras situações.
Também não existe nada a acrescentar no caso do assassino Battisti, que recebeu do atual Ministro da Justiça um indulto para fazer no Brasil o que um dia fez na Itália. Isso ser discutido numa mesa que quer rever a Lei da Anistia brasileiro é uma piada sem graça.
Porém, nem o Brasil, nem o mundo, é composto apenas por pessoas da esquerda. Elas só fazem “mais barulho”, principalmente porque não precisam trabalhar, tem um protecionismo exemplar (principalmente o protecionismo acadêmico no Brasil e no mundo) e muito tempo livre para alardear suas besteiras. A outra parte da população, aquela que vive a realidade, pouco se importa com as besteiras ditas nesses fóruns. O que as preocupa é o que fazer para não deixar essa gente transformar o mundo num caos?
Claro, num primeiro momento, retirar esse povo do processo social vêm à mente. Mas, no meu caso e nos de muito, isso é injusto. Quem gosta de fuzilar quem os contraria são os esquerdistas. Num Estado Democrático de Direito eles também têm voz, mesmo que essa seja uma fala louca e psicótica na maioria dos casos. É uma questão aparentemente complicada de resolver, como impedir que façam loucuras e coloquem em prática suas idéias loucas sem recorrer a recursos extremos, não é mesmo?
Mas para um problema complicado, muitas vezes a resposta é a mais simples. Para defender o jogo justo, basta aplicar as regras do jogo. Fácil assim.
As idéias do socialismo e do comunismo vão contra as idéias de um Estado de Direito e de uma democracia. No seu núcleo, as duas ideologias são criminosas. Partindo disso, as suas idéias também terão algo fora da lei, em maior ou menor grau, não importa a maquiagem usada para disfarçar os seus fins. Também os meios utilizados pelos socialismo e o comunismo não chegam na esfera da legalidade. Para impedir essas maluquices, basta recorrer às leis.
No Governo Brasileiro, por exemplo, há inúmeras denúncias de corrupção, de mal-uso dos recursos públicos e tantos outros atos criminosos que alguém cometeu. Para parar uma máquina, basta tirar uma engrenagem e não deixar colocar outra no lugar. Como a máquina de esquerda flerta sempre com alguma ilegalidade, pela lei, poderia-se facilmente frear suas ambições fiscalizando eficientemente suas ações. Sei bem que sempre haverá juízes de primeira instância compactuando com tais idéias, mas nas esferas superiores do judiciário a ideologia não possui tanto espaço. Ali as análises técnicas valem mais. Sim, pode demorar para surtir efeitos, mas eles hão de aparecer sim. Da mesma forma que o investimento maciço em educação não mudará um país no curto prazo, zelar pela lei não trará resultados amanhã, mas depois de cinco, dez ou quinze anos as mudanças serão evidentes.
Valorizar o mérito também funciona bem para evitar um surto esquerdista. Nessa questão a realidade brasileira apresenta desafios enormes. As universidades públicas são estaleiros de embarcações destinadas ao fracasso. Infelizmente, esses barcos nunca saem das instituições, eles sabem que não constroem nada que realmente funcione, portanto nunca os vemos afundarem. Como mudar a lei do funcionalismo público é um tanto mais complicado, a saída é pegar os monstros gerados na USP, UFBA e congêneres e largá-los na realidade. Suas teses, suas pesquisas, trazê-las à luz e deixar que flutuem por ai. Não duram muito tempo. Não é a toa que as Bibliotecas Digitais dessas “grandes faculdades” nunca saem do papel. Exigir transparência no trabalho acadêmico diminuiria a sanha dessa gente.
Outro aspecto preocupante é a invasão da esquerda na cultura geral, ou “cultura de massa” como gostam de dizer. Isso já não dá para combater, mas a lei pode imperar nesse setor também. Livros, revistas, etc obedecem a lei da oferta e da cultura. Se já gente que gosta da Carta Capital, tudo bem. Mas seria preciso rever a publicidade estatal como um todo. Investigar para ver se há alguma irregularidade na distribuição dos anúncios, porque uma revista A e outra B recebem cotas diferentes se possuem o mesmo número de leitores. Caso haja alguma espécie de “discriminação ideológica” nos setores de publicidade de empresas públicas, metam a constituição em cima deles. Se há alguma espécie de “aspecto social” nessa história, ou as próprias “teorias de acesso à informação” geradas nas USPs da vida, mais fácil ainda. Isso também vale para a ANCINE e todo o ministério da cultura. Basta um bom advogado querer. Não ligue para as primeiras instâncias. A gente resolve isso é no STF.
Muitas vezes a máquina de esquerda nos faz sentir impotentes. Mas até isso é falso. Ela não é tão grande, nem tão poderosa. Aliás, essa mentira, a da sua grandiosidade, é a única defesa que ela possui. Todo e qualquer aspecto do socialismo/comunismo rui diante da realidade. E boas doses de realidade são suficientes para impedir uma “dominação” completa. Não precisa de uma força homérica, só um pouco de disposição no nosso tempo livre. Uma pessoa com bom-senso pode causar mais estrago na esquerda num domingo a tarde do que todo um Fórum Social Mundial na nossa vida. É sério. No duro.
Foto: Erik
Tags:absorto, biblioteca, homens, internet, J. G. de Araujo Jorge, livros, Mulheres, nanowrimo, noite, penguin, pessoas, Poesia, rio de janeiro, são paulo
Minha Biblioteca
E num desses diálogos, eu absorto nos devaneios de final de tarde, um grande colega interrompeu-me:
“Lefebvre, estamos na Vieira Souto, o metro quadrado mais caro do país. Olhe pros apartamentos e me diga o que vê.”
“Bem, luzes acesas, quadros, salas, televisão…” eu dizia.
“Então, e o que você não vê?”, perguntou ele.
“Humm…”, pensei, “bibliotecas?”, respondi.
“Sim, exatamente. Brasileiro não gosta de livros. Na Europa, a biblioteca fica sempre na sala. Não para impressionar as visitas, mas porque é mais prático. A família lê. No Brasil, ninguém lê, ninguém se importa com isso. Livro serve para juntar pó. Agora com a internet, com o computador, acabaram até mesmo com as enciclopédias. Muito carpinteiro faliu com isso. É o que eu chamo de crise. Brasileiro não lê. Não usa jornal nem para catar cocô de cachorro…”
Desde então, decidi usar a biblioteca como meu índice pessoal de desenvolvimento humano. Quando faço uma visita, procuro primeiro a biblioteca. Pouco me importa o que o ser lê. Se tem uma biblioteca, e os livros são “usados”, fico contente, á vontade. Tenho medo ao entrar numa casa sem livros. Peço logo uma água com açúcar para me acalmar.
Andei muito pelo Rio a caça de bibliotecas pessoais. Olhava atentamente as janelas em busca de livros. “Carioca não lê”, pensava. Uma vez, no Leblon, vi cinco apartamentos com biblioteca na sala. Quis me mudar para o prédio imediatamente. Quando cheguei em São Paulo, comecei a analisar os meus vizinhos com um binóculo.
Aqui, há cerca de 500 janelas (ou mais). Em todo prédio, ao menos um cidadão possui uma estante de livros. O assunto deles, não sei. Nas minhas noites de insônia, muitas vezes apagava a luz do meu quarto e bisbilhotava a vida alheia. Tem um velhinho que mora no terceiro prédio do outro lado da rua. Toda a noite ele acende o seu abajur, senta na poltrona e lê ininterruptamente por quase duas horas. Ninguém o incomoda. Acho isso tão legal. Quero ser assim quando eu crescer.
No prédio atrás do meu, uma família se reúne religiosamente todo dia para jantar. É tão bonito. Depois, conversam um pouco na frente da televisão, sempre sintonizada num canal de notícias. Quando se separam, fico de olho na janela do escritório, onde fica a biblioteca deles. A luz acende e apaga. Toda hora alguém pega algum volume. Penso que nessa família todo mundo é doutorando. Só pode. Ou advogados, vai saber. Mas é uma rotina viciante. Quase me esqueço que dois andares acima mora uma das mulheres mais bonitas que já vi.
Nisso, olho para os meus próprios livros. Coitados, nem são muitos mas são queridos. Bem devagar, como um sapatinho-de-judia (Tumbergia mysorensis), eles tentam tomar conta da parede da minha sala. Toda biblioteca é um projeto eterno. Os arquitetos devem gostar quando pegam um cliente com uma coleção imensa, porque, além de tudo, a ela é um ótimo objeto de decoração. E a biblioteca é a pupila dos olhos do dono. Nem o carro a vence.
Minha biblioteca, como as histórias de amor, também é um clichê. Talvez a de todo mundo seja, mesmo que ninguém admita. Eu gosto de passar por ela, e me pego, às vezes, admirando os livrinhos enfileirados. Sinto uma sensação tão grande de orgulho que só pode ser pecado. “Padre, perdoe porque eu pequei. Faz 16 anos desde minha última confissão. Eu olho a minha biblioteca é fico todo orgulhoso…”. Talvez por isso eu goste tanto desse poema do J. G. de Araújo Jorge (desculpe a música, não é minha culpa), que nada tem de grandioso, mas que é tão eficiente quanto riminhas entre namorados.
A biblioteca é toda do dono, é uma daquelas coisas que ninguém pode fazer por você. Quer dizer, até pode, em casos extremos. Mas de nada adianta se os livros ficarem por lá. Livros não servem apenas para pegar pó. Livros servem para dar vida, principalmente para nós, homens. É que nós não podemos gerar filhos, e essa deve ser uma experiência maravilhosa. Mas através dos livros, talvez cheguemos bem perto disso. Junto com outra pessoa, o autor, através da leitura, transformamos em realidade algo que até então não existia para nós. É por isso que fico tão orgulhoso e cheio de mim. Assim como meu cachorro, a biblioteca faz parte da família e é insubstituível.
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Nanowrimo, Novembro, 2008
Como em todos os anos, uma semana antes (tudo bem, ’08 veio atrasado), preparo-me para o Nanowrimo. A idéia é bem simples. Um bando de malucos resolveu que Novembro seria um bom mês para escrever um livro. Outros doidos gostaram dessa história e se juntaram. Dez anos depois, milhares de pessoas tentam a loucura: escrever uma novela de 50,000 palavras, do zero, em um mês.
Não é nada fácil, e grandes autores tentaram a jornada e não conseguiram. Nesse ano, Neil Gaiman resolveu se aventurar, e está morrendo de medo. Assim como ele, não recebi nenhum lembrete do evento esse ano. O trabalho começa sábado, e quem quiser participar vai ter que se apressar.
Não existe nenhuma estratégia para terminar o Nanowrimo. Muitos vêem nisso o melhor do evento. Tudo é imprevisível, novo e surpresas sempre aparecem. Claro que a experiência de cada escritor é sua, cada um deles decide como enfrentará o desafio.
Traduzo então o texto que o Neil publicou ano passado. Será que ele seguirá os próprios conselhos?
Caro Autor do Nanowrimo
Agora você deve estar pronto para desistir. Você está passando pelo primeiro entusiasmo furioso quando os personagens e a idéia é nova e interessante. Você ainda não está no momento final, quando as palavras e as imagens saltam da sua cabeça mais rápido do que você consegue colocar no papel. Você está no meio, só um pouco depois da metade. O glamour desapareceu, a mágica se foi, suas costas doem por causa da digitação, sua família, amigos e os emails de conhecidos deixaram de ser encorajadores, no mínimo reclamam que não o vêem mais – e isso sabem que você está preocupado e não está se divertindo. Você não sabe porque começou sua novela, você nem se lembra mais porque imaginou que alguém gostaria de lê-la, e você está certo de que, quando terminá-la, ela não valerá o tempo ou a energia, e toda vez que você parar tempo o bastante para comparar com aquilo que você tinha na cabeça quando começou – uma brilhante e maravilhosa novela, na qual toda palavra solta fogo e queima, um livro tão bom ou melhor do que o melhor livro que você leu – seu livro desaba dolorosamente que você ter certeza de que seria um ato de misericórdia apagar a coisa toda.
Bem-vindo ao clube.
É assim que livros são escritos.
Você escreve. Esse é parte difícil que ninguém vê. Você escreve nos dias bons e escreve nos dias ruins. Como um tubarão, ou você continua indo para frente ou morre. Escrever pode ser sua salvação, ou não; pode ser o seu destino, ou não. Mas isso não importa. O que importa agora são as palavras, uma depois da outra. Ache a próxima. Escreva. Repita, repita, repita.
Um muro de pedras é uma coisa linda quando você o vê margeando um campo no meio do nada, mas fica mais impressionante quando você se dá conta de que foi construído sem argamassa, que o construtor precisou escolher cada pedra e coloca-la lá. Escrever é como construir um muro. ë uma busca contínua pela palavra que se encaixará no texto, na sua mente, na página. Trama e personagens e metáforas e estilo, tudo isso se torna secundário para as palavras. O construtor de muros levanta sua parede com uma pedra por vez até que ele chega ao final do campo lá longe. Se ele não construir, o muro não estará lá. Então ele olha a sua pilha de rochas, escolhe a que melhor servirá ao seu propósito e a encaixa.
A busca pela palavra nunca fica mais fácil, mas ninguém mais escreverá sua novela pra você.
A última novela que escrevi (foi ANANSI BOYS, caso esteja curioso), quando eu cheguei a 3⁄4 do caminho eu falei com minha agente. Disse a ela como me sentia estúpido escrevendo algo que ninguém nunca gostaria de ler, como os personagens eram rasos, como a trama era sem sentido. Eu sugeri que estava preste a abandonar esse livro e, no lugar, escrever outra coisa, ou talvez eu poderia abandonar o livro e começar vida nova como um jardineiro de paisagens, assaltante de banco, cozinheiro ou um biólogo marinho. E ao invés de simpatizar ou concordar comigo, eu me bombardear com uma onda de entusiasmo – ou discutir comigo – ela simplesmente disse, com uma cordialidade suspeita: “Oh, você está naquela parte do livro, não está?”
Eu fiquei chocado. “Quer dizer que eu já fiz isso antes?”
“Você não se lembra?”
“Na verdade, não”
“Ah, sim, ” ela disse. “Você faz isso toda vez que escreve uma novela. Mas todos os meus outros clientes também fazem.”
E nem consegui me sentir especial no meu desespero.
Então eu desliguei o telefone e dirigi até a cafeteria onde eu estava escrevendo o livro, seguirei a caneta e continuei a escrever.
Uma palavra depois da outra.
É a única maneira maneira das novelas serem escritas e, a não ser que elfos venham na noite e transformem suas confusas anotações no Capítulo Nove, é a única maneira de escrevê-las.
Portanto, continue a ir em frente. Escreva uma palavra depois da outra.
Logo logo você estará no final, e não é impossível que logo então você terá terminado.
Boa Sorte
Neil Gaiman.
Mais:
Sobrevivendo aos 30 dias de NaNoWriMo — MacWorld
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Queiroz, Eça de - A Cidade e as Serras
A Cidade e as Serras é um livro póstumo de Eça de Queiroz. Pouca gente sabe, mas a história já havia sido abordada por Eça em um conto, Civilização, alguns anos antes. Apesar disso, o livro resgata alguns aspectos da critica social mais presentes nos primeiros trabalhos dele, como o Primo Basílio e os Mais. Não foi revisado pelo autor, mas é altamente aconselhável a sua leitura.
Chega de academês e valos falar sério. Quero dar uma boa dica pra vocês.
Eça é muito bom. Hoje me dia não é muito admirado pelo público em geral porque a descrição deixou de ser valorizada. Hoje, ninguém precisa de detalhes minuciosos para imaginar uma estrada na China, ou um prédio em ruínas em Paris.
Mas houve uma época quando tudo era diferente — eles não tinham internet.
E Eça era muito bom nesse quesito. Descrevia como ninguém. Além de dar no texto todos os pequenos por menores necessários à imaginação para criar um ambiente, uma roupa, uma rua – ainda usava o recurso para dar consistência aos personagens. Muitos escritores da Escola Urbana deviam ler Eça e aprender alguma coisa. O Alex mostra (muito bem, por sinal) esse estranhamento com as obras:
Os Maias, bem ou mal, tem um enredo: Eça somente parece que esqueceu dele por 400 páginas para fazer um retrato pitoresco de Lisboa. O problema é que você está tão interessado pela trama principal que Eça construiu tão bem (mas e o Carlos? mas e a Maria Eduarda?!) que mal consegue prestar atenção às subtramas — por melhores que sejam. A auto-estrada distrai a atenção do leitor de atalhos e caminhos paralelos que poderiam ser deliciosos.
Esse é o Eça. Por isso um bom livro para entrar no seu mundo pode muito bem ser A cidade… (e o melhor, boa literatura de grátis, clique e baixe)
Bom, a história é narrada pelo lusitano Zé Fernandes, amigo do também filho de portugueses Jacinto de Tormes: este, um rico senhor de terras em Portugal que nasceu na França e nunca visitou as terras de seus antepassados. Ele vive em Paris usando toda a sua gorda renda para aproveitar todos os avanços tecnológicos do século XIX. Jacinto, no primeiro momento, aparece como um autêntico positivista: a “ salvação” da humanidade está no avanços da ciência. Pérolas do Positivismo na obra:
“Ora, nesse tempo jacinto concebera uma idéia de que o ‘homem só é superiormente feliz quando é superiormente civilizado’”
por volta da página 7
Não confunda a opinião do autor com sua obra. Ao menos nesse caso. Voltando à vaca fria, Jacinto tinha uma posição respeitada não só por causa do dinheiro, mas também pelo seu pioneirismo em achar e comprar novas invenções – e ele comprava muitas.
Eça pinta a nata da sociedade parisiense da época. O entusiasmo pelas novidades, pelos passeios pelo Boulevard, as conversas nas “cervejarias filosóficas”, os teatros e, é claro, o interesse pela vida alheia.
Do lado oposto está o amigo de Jacinto, Zé Fernandes. Ele aparece como contraponto à essa fascinação pelo progresso. Num tom amistoso e com grande curiosidade, acompanha as desventuras de Jacinto, mas com uma ponta de ceticismo. É Fernandes que sempre questiona a real utilidade de tanta parafernalha, que muitas vezes mais atrapalha do que ajuda.
Mas a genialidade de Eça de Queiroz está na adjetivação. Ele a usa tanto para ironizar, satirizar ou aprofundar um assunto com o mínimo de palavras. Na página 14, por exemplo, Zé Fernandes fala assim quando vê pela primeira vez as bugigangas que Jacinto compra e decide ficar curioso no seu canto:
“Mas eu preferi inventariar o gabinete, que dava à minha profanidade serrana todos os gestos de uma iniciação.”
Para Jacinto, a serra resumi tudo que é ruim no mundo. Um lugar primitivo acaba por “primitivizar” o homem.
Outra adjetivação interessante: quando Jacinto, triste, recebe Zé de forma apática, Eça não cai no lugar comum: resume tudo na expressão irônica “alegria sólida”. E ainda o clássico “ levantou-o com uma força fácil”.
Os prefixos e os sufixos têm grande importância na narrativa de Eça. São eles que reiteram uma opinião, um estado de espírito, ou qualquer intenção da história ou dos personagens. O “”super” é usado para dar importância à modernização durante o texto: supercivilização, superioridade, superfino, superior.
Quando Jacinto entra na fase de saturação e tédio (uma crítica ao pessimismo de Schopenhauer e, por que não, Nietzsche), o escritor usa o re— e o —mente para enfatizar a depressiva rotina do protagonista: recostado, reclamava, re-buscara o sentimento, remexendo nos papeis.
A cidade é um livro no qual o “como se conta” é muito mais importante do a própria história. Sem isso, a história de um homem maravilhado com a tecnologia fica saturado, triste, melancólico e só encontra a felicidade quando vai para outro lugar e acha o equilíbrio – essa enredo – é completamente descartável. E é no como conta que Eça aprofunda e dá força a um evento banal. São escolhas narrativas acertadas.
Um bom escritor consegue transformar qualquer besteira em boa literatura – e não literatura de besteira. Lembre-se disso.
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Bagno, Marcos - A Norma Oculta
Marcos Bagno é doutor em lingüística e professor da UNB. Seus livros são figuras certas nas aulas dos cursos de comunicação. Possivelmente, é o primeiro de discussão da língua que o graduando toma conhecimento. É inegável que A NORMA OCULTA suscita pontos importantes na reflexão, nosso modo de falar e interagir socialmente com os outros falantes.
Entretanto, assim como é provocadora, a obra pode enganar os menos acostumados ao tema (e que por sinal, é maioria dos alunos de universidades). Talvez o melhor momento para abordá-lo fosse a partir do 3º semestre, quando o estudante já adquiriu o mínimo da bagagem teórica. Nem sempre o desejável é o rotineiro, por isso tomo a autoridade dada a mim por Bagno (afinal, como ele diz, sou um falante da língua e, portanto, especialista no assunto) para destrinchar os preconceitos e erros que aparecem constantemente dentro do livro. De outra forma, os deslizes poderiam simplificar demais o raciocínio dos que desejam conhecer mais os estranhos sons que pronunciamos diariamente.
Antes de mais nada, devemos observar que Marcos Bagno de A NORMA OCULTA não é um professor interessado em desenvolver o senso crítico de ninguém. Ele está mais para um combatente. Está em guerra com os gramáticos. E como das guerras só saem perdedores, Bagno destrói tudo e a todos, não deixando pedra sobre pedra para a democracia que visa instaurar. Na tentativa de acabar com um preconceito real, ele impossibilita o leitor de adquirir algo muito mais importante do que um simples panfleto doutrinário: pensar direito – a única arma eficaz contra o mundo injusto traçado pelo autor.
O VALOR DA LETRA “S”
A NORMA OCULTA pretende raciocinar sobre língua e poder na sociedade brasileira. De acordo com o autor, o último reduto do comportamento preconceituoso é a discriminação através da língua: falar ou não errado, usar ou não a norma culta gramatical. Ao criticar falhas de morfossintaxe no discurso ou texto de uma pessoa, o que está por trás desse “correcionismo” é a tentativa da classe dominante brasileira em manter a desigualdade econômico-social no país.
O livro começa e termina utilizando como exemplo a recepção do presidente brasileiro Luiz Inácio na grande imprensa. Vários articulistas relacionam o “relaxismo lingüístico” do presidente com uma possível falta de cultura e capacidade para comandar a nação.
Eles insistem em focalizar os erros de concordância de Lula e sua forma simples (ou simplória?) de se expressar. Para Bagno, isso nada mais é uma estratégia política contra a imagem daquele e o que ele representa (politicamente) na história brasileira. É fácil ver isso no tom do discurso de Bagno, enaltecendo a vitória nas eleições de 2002: (os grifos são meus, a não ser que eu diga o contrário)
“Seria uma ilusão supor que uma vitória como foi a de Lula nas eleições de 2002 bastaria para que o preconceito lingüístico desaparecesse de vez da nossa sociedade” – Pag. 15
“A história pessoal de Lula é, sem dúvida, uma revolução “quase mágica”, mas é uma revolução individual, particular, digna de assombro, é claro, num país tão injusto quanto o nosso.” – Pag 38
Para mostrar o erro da imprensa, Bagno usa como exemplo pessoas consideradas “letradas” – como outras matérias “respeitadas” veiculadas em jornais (pág 26) – que também cometem os mesmos “erros”, provando, em tese, a nulidade desses julgamentos.
“Em ambas as colunas, Dora Kramer deixa bem claro seu total despreparo para tratar desses assuntos, uma vez que fala de “plural e concordância verbal” e de “lições de plural e concordância” como se fossem duas coisas distintas, como se as regras de plural não fizessem parte das regras de concordância (verbal e nominal), como de fato fazem.” – Pág 22.
Porém, lembremos que Bagno tenta desacreditar a opinião dos jornalistas usando o mesmo julgamento: eles também comentem erros e não sabem do que falam. As críticas negativas contra o Lula valem-se do mesmo teor: lula não tem conhecimento para isso ou aquilo, portanto é incapaz de fazer isso ou aquilo. O que o autor não explica é por que formas de análise semelhantes são válidas no caso dele, mas não nos dos jornalistas. Por que Lula pode governar o Brasil na base de trapalhadas e o jornalista não pode, também atrapalhado, tentar analisar a língua? Mais, por que levaríamos a sério em livro cheio de trapalhadas mesmo de um autor doutorado e vacinado?
“As observações da jornalista, portanto, demonstram a atitude autoritária de quem se acha com o direito de opinar e propor legislação sobre o que desconhece, apenas por reverenciar o senso comum, sem criticá-lo com instrumento teórico adequado: não sendo lingüista nem pedagoga, com que fundamentação ela pode sustentar suas propostas de revisão dos currículos escolares?” – Pág. 23.
O mais incrível é o Lula ter pleno domínio da norma culta. No dia a dia, ele atua nos palanques usando a linguagem dos menos educados. Entretanto, nos discursos em 2005, depois da crise no governo, quando inflamado e sem roteiros para seguir, Lula demonstra saber falar muito bem, flexionando os verbos corretamente, usando os conectivos de forma apropriada, etc, etc, etc. Lula não é mais parte do povo comum: ele se educou lingüisticamente, ainda que tenhamos sérias dúvidas se o fez culturalmente. A qualidade veio depois da autoridade.
PRECONCEITO DE QUEM, CARA PÁLIDA?
O preconceito oculto detrás do purismo gramatical é verdadeiro. Ele existe, ponto. Entretanto, pensar que todo purismo é um ato dissimulado de preconceito é logicamente errado. E também vemos isso na prática. Defender a língua não significa menosprezar quem não pôde concluir os estudos ou não teve condições ou vontade de se instruir por conta própria. Imagine se a literatura fosse engajada na universalização do falar mal.
“Que ninguém se iluda: só a leitura intensa permite conhecer os múltiplos recursos da língua e usá-los com eficiência, sem a decoreba gramatiqueira“
Marcos Bagno
Porém, durante a obra, somos levados a crer que se não o é sempre, na maioria dos casos é preconceito (consciente ou inconsciente).
“(…) em boa medida, nós somos a língua que falamos, e acusar alguém de não saber falar sua própria língua materna é tão absurdo quanto acusar essa pessoa de não saber “usar”corretamente a visão (isto é, afirmar o absurdo de que alguém é capaz de enxergar, mas não é capaz de ver) ou o olfato (isto é, afirmar o absurdo de que alguém é capaz de sentir o cheiro, mas não de aspirá-lo).” Pág. 17 [grifos do autor].
Se Marcos Bagno é doutor em lingüística, deveria comprar um livro de lógica básica (bem como um de filosofia). As duas analogias são erradas de qualquer ponto de vista. Primeiro, elas não se equivalem. Se assim fosse, o “absurdo” seria alguém ver e não ser capaz de deixar a luz entrar na retina; ou alguém ser capaz de aspirar e não conseguir identificar o cheiro.
Isso porque “enxergar” não é sinônimo de “ver”. Quando as palavras perdem o seu poder simbólico (fruto da falta de leitura e cultura) criam, aí sim, proposições absurdas como essas.
Enxergar se relaciona com o ato fisiológico. Se você tem o globo, a retina e demais partes do sistema ocular bem formados, você poderá enxergar. Entretanto, um daltônico recebe a luz verde na retina. Por uma série de fatores, vê vermelho. Ou um esquizofrênico, que vê alucinações mas não enxerga os monstros (não há fisicamente nenhuma imagem na retina).
Falar e dizer seguem a mesma linha. Lula, por exemplo. Fala que foi traído, mas não diz quem foi. Uma pessoa pode falar durante horas mas não dizer nada, i.e., seu discurso não tem nenhuma intenção, não transmite qualquer dado relevante para o assunto em questão. Também ler. Qualquer pessoa alfabetizada é capaz de interpretar os caracteres em um livro do Sartre, mas só alguns terão a bagagem necessária para entender o que ele quis dizer.
LÍNGUA É PODER
A NORMA OCULTA não consegue acabar com os problemas que se propõe a explicitar. Muito menos desnudá-los de forma correta. Durante todo o livro Bagno usa as mesmas situações para ilustrar valores opostos. Tudo parece ser relativo. Sua missão é justificar sua luta contra os gramáticos e, no fim, também justificar uma postura política pessoal.
Ao acusar uma “elite privilegiada” de “oprimir” os brasileiros “vítimas de anos de desigualdade”, Marcos deixa de analisar os problemas estruturais que levaram e levam o povo a desconhecer as regras gramaticais da língua portuguesa.
Na página 124, lê-se que nas sociedades onde a cultura escrita é onipresente, existem instituições que inibem as forças de mudança da língua. O autor esquece de dizer (intencionalmente?) que essas sociedades são as mais ricas, democráticas e justas – além de terem enorme influência econômica, social e cultural nos países de terceiro mundo.
Esse poder nasce quando há oportunidades para povo ter acesso a uma boa educação. Ao tentar justificar a falta dessa educação no Brasil, Bagno presta um desserviço ao país. Ao invés de lutar para que as pessoas evoluam, ele parece querer que as respeitem pela sua ignorância, e não “apesar da”. Neste caso, não é só válido – é fundamental esse respeito para existir uma democracia. Mas naquele, ao poupar alguém pela sua incapacidade, tomamos um caminho muito perigoso. Não é apenas uma questão gramatical. Em última instância, é uma questão de integridade física: se duas pessoas não sabem se expressar, se eles não se compreendem, terminam sempre usando a violência.
Triste e decepcionante é a obra de Marcos Bagno. A NORMA OCULTA é um livro cheio de erros infantis de discurso, raciocínio e análise. Não deveria ser levado a sério, como o fazem várias pessoas. É antes de tudo, para aqueles que sabem pensar, a fagulha inicial de uma reflexão profunda sobre o povo brasileiro. Se bem feita, dará grandes frutos. Do contrário, se seguirmos a lógica do autor, voltaremos ao jardim de infância, quando discutíamos ferozmente para decidir se o mais feio era eu ou você.
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Lispector, Clarice. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres.
Eu detesto os livros da Clarice, desde que li o primeiro. Sempre vi neles não uma escritora, mas apenas uma autora, talentosa, que não queria ir até onde poderia. Mas eu tinha algo em comum com ela, o dia do nascimento. Ela nasceu no dia 10 de dezembro, eu no dia 11. Por essa “proximidade”, sempre me interessei mais pela sua vida do que por suas obras. Pode imaginar quão problemático é desgostar de uma das “escritoras” mais importantes do Brasil? Ainda não é fácil.
Naquela época, eu só tinha os meus achismos e a minha percepção dos seus textos. Do outro lado, diferente tipos de professores, uns que respeitavam minha opinião, outros que as desdenhavam. De qualquer forma, o tempo passou (como diz a Clarice). Minha opinião não mudou, nem a dos outros. Porém, em tempos de Youtube, é fácil ver que eu tinha razão, e não eles. O jeito blasé dela, misturado com um nervosismo incontrolável atiça a minha imaginação. Gosto de semear a idéia de que poderíamos ter sido bons amigos, se tivéssemos vivido na mesma época. Dividir um cigarro com ela deveria ser uma experiência e tanto. Vamos ao livro.
Uma aprendizagem… conta a história de Loreley – ou Lóri, como é chamada na maior parte do livro –, uma jovem professora primária que se estabelece no Rio De janeiro depois de sair da casa de sua rica família na cidade de Campos. Ali, vive desinteressadamente entre as suas aulas e os ocasionais namoros quando então conhece Ulisses, professor de filosofia. Então, ele começa a guiar Lóri por uma jornada de auto-conhecimento, na busca pelo sua verdadeira identidade para poderem começar um relacionamento baseado em amor e não em aparências.
Para Clarice, não há como viver plenamente sem o autoconhecimento. Lispector tenta mostrar durante a narrativa o processo de amadurecimento psicológico da personagem principal, Lóri. Orientada e incentivada por Ulisses, seu pretendente, Loreley começa a pensar sobre quem ela foi, é e quer ser, em um caminho confuso e, para ela, doloroso. Por fim, Lóri descobre o seu Eu, resolvendo importante parte das dúvidas que a preocupavam e pode entregar-se de corpo e alma para Ulisses. Simples assim, rápido mesmo. Clarice não ia nem pedir a minha opinião sobre o livro, porque saberia bem o que eu lhe diria.
Vargas Llosa divide a literatura moderna em dois blocos inquietantes. O primeiro é formado pela literatura de consumo, aquela que os autores só repetem formas e histórias: interessam-se pela vendagem. O outro é a patriotera, transigente, que se fecha em si mesma, na crença de que só o isolamento impedirá a contaminação do mundo consumista – escrevem para e entre eles. Clarice Lispector encontra-se no segundo grupo, é ela mesma quem diz, mas entendi isso de primeira.
Uma aprendizagem… faz parte da tradição de Clarice. Ela é estudada e elogiada sempre em conjunto, como se um livro automaticamente levasse a outro. Qualquer crítica é obrigada a destacar que sua literatura é intimista e psicológica, escrita para dentro, que se desenvolve de obra para obra, mas sempre como um todo. Um livro para ser considerado clássico precisa sustentar-se por si mesmo. Aí entramos na fragilidade desta obra. A própria Clarice dá de ombros para essas interpretações. Legal. Mas os tais doutores adoram esses por menores. Vamos lá.
O número de elementos teóricos na narrativa são muitos e, na maioria das vezes, redundantes. O tema central é a vida de Lóri e sua relação com Ulisses. Ok. Em uma referência direta a Homero, Clarice pega o episódio das sereias para compor uma história às avessas: Lóri, a sereia, não traga Ulisses, mas é resgatada por ele. Uma obra Clássica possui ingredientes fáceis de se identificar, mas que dão um trabalho homérico para o autor escrever. Clarice padece de preguiça crônica.
Clarice não se importa com o leitor. Eu digo isso e ela sustenta a minha opinião (chorem fãs…). O reconhecimento de sua obra baseia-se em uma legitimidade autoral vinda de uma credibilidade construída pelos admiradores. O efeito imaginário é grande, mas devido aos vácuos no enredo. O momento psicológico de Lóri é explorado à exaustão, mas não a sua psicologia. Sua relação com a família, principal propulsor para sua mudança de vida, é revelado superficialmente. Ulisses, o professor de filosofia, o principal responsável pela jornada de Loreley, não passa de um estereótipo de analista. Todos os alicerces dos personagens devem ser imaginados pelo leitor, mas pela ótica de Clarice. Praticamente; qualquer coisa cabe nessas lacunas, mas somente a imaginação do leitor vinculada a da autora completam o quadro. Para ler Clarice, precisa-se ser Clarice. Por isso, Otto Lara Resende disse que suas obras não são literatura, mas bruxaria. O leitor como leitor precisa perder o seu eu para poder encontrar o eu da obra: Clarice Lispector.
A alta literatura permite ao leitor participar da vida. Mas é a vida em seu sentido universal, não biográfico. Julien Sorel e Gina Pietranera, de Stendhal; Anna Karenina, de Toltói; Mademe Bovary, de Flaubert – todos esses personagens respiram em nossos ouvidos sem precisarmos recorrer a nada mais que o livro. São personagens magnificamente construídos, com uma profundidade psicológica tão grande que podemos jurar conhecer seus pensamentos mais ocultos. Ao contrário de Lóri, que, para ser compreendida em sua totalidade, precisa da ajuda ou dos outros livros da autora, ou da própria.
Ao fazer construir sua história sobre a passagem da Odisséia de Homero, Clarice descuida-se de relacionar sua narração com aquela. Por que Ulisses de Clarice apaixona-se pela algoz, ao contrário do original, que busca desesperadamente retornar para casa?
Por que Ulisses de Clarice resolve resgatar a sereia se o Ulisses de Homero faz o impossível para derrotá-la? E, mais importante, por que Lóri aceita buscar seu verdadeiro eu de uma hora para outra, já que ela era uma sedutora predadora?
A busca do Eu é complexa e exige muito do aventureiro. A vírgula e o dois pontos que, respectivamente, abrem e fecham o livro não delimitam somente um período na vida da personagem. Eles delimitam o entendimento do leitor. A magnitude de Fernando Pessoa, outro escritor intimista, esmaga qualquer pretensão de Uma aprendizagem… se comparados. E os clássicos devem ser comparados com clássicos, não é covardia fazê-lo. Tanto que a forma de Clarice aproxima-se da de James Joyce. Embora não haja razão para acreditar que Clarice conhecia a obra do escritor – e os historiadores insistem que não – é preciso relacionar um com o outro e se perguntar qual deles desenvolveu melhor o estilo.
Clarice precisa ser lido por Clarice. Palavras como “indizível” ou “intraduzível” – vistas no livro – são pecados dos quais os bons escritores fogem como o diabo da cruz. Suas obras fazem sentido dentro de sua biografia. Talvez, quando esta for escrita, cada livro possa fazer parte de seu anexo, ou até mesmo do enredo. Mas Uma aprendizagem.,., por si só, é insuficiente para um clássico. Talvez, o autor que encarar a história de Clarice Lispector (por que ela nunca quis ser uma profissional), se competente, a transformará em obra-prima. Mas o mérito não será dela, mas do escritor que ousar escrevê-la.
Mas eu gosto dela. Assim como algumas amigas minhas, é preguiçosa e não voa tão alto quanto poderia. Eu desculpo isso, afinal, são meninas e maravilhosamente lindas. Se isso soar machista para você leitor, aprenda a ler. A adoro a falsa futilidade de algumas mulheres, o seu desapego. Dá pra ver que é mentira, e isso faz nossa paixão por elas aumentar cada vez mais. Isso é uma aprendizagem. Irônico, não?
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Tags:adaptação, filme, I am legend, livros, will smith
Eu sou a lenda [I Am Legend]
Acabo de ler I Am Legend, o livro. Também acabo de ver o filme I Am Legend. Sério, basta ser meio homo para ter uma carreira de sucesso em Hollywood? Penso que a vida na cidade das ilusões pode ser bem fácil para os que jogam no outro time. Nunca vi uma adaptação tão tosca de um livro. Sigamos.
Eu vou comentar o fim do filme, portanto, se ainda não viu, vá para outro site.
Bem o filme I Am Legend é na verdade uma adaptação de um roteiro. O livro, enfim, foi “relido” num roteiro e o imbecil do Akiva Goldsman readaptou esse roteiro para o filme. Enfim, um trabalho de porco. Essa mesmo “gay mister” produziu o filme Constantine (com o mesmo diretor). Diante desse quadro posso deduzir o seguinte:
Esse senhor faz lobby anti-tabaco. No duro. Tanto Constantine quanto I Am Legend, no original, têm protagonistas que fumam e bebem demais. Em ambos os filmes, os protagonistas são loiros de olhos azuis. Mas as adaptações, ele resolveu mudar tudo. Constantine foi interpretado pelo Keanu Reeves, que de cabelo dourado não entende nada. Imagine o Will Smith em I am Legend? Esse cara tem alguma espécie de preconceito.
Em ambos os filmes, as adaptações de roteiro foram esdrúxulas. Uma mudança radical. Chega a dar pena. Assim como no Brasil, algumas universidades americanas de cinema dão um diploma para qualquer um. Mediocridade não é exclusividade nossa.
Eu realmente não consigo resenhar esse filme. Primeiro, a produção mudou o plot da história, que no original era sobre vampiros, e uma bactéria que infectou qualquer mamífero. No filme, é um vírus que transforma a raça humana em zumbis mutantes. Calma, calma. No decorrer do livro, o escritor dá uma alternativa bem razoável (até cientificamente aceitável para isso tudo. No filme, os zumbis nascem de uma tal cura do câncer e pronto. Sem mais explicações.
Novamente no livro, o protagonista precisa lutar com a solidão de ser o único sobrevivente durante anos. No filme, ele até tem um cão. No livro, esse cão não dura nem uma semana. A psicologia do personagem é descartada por completo. Como é que um roteiro desses passa? Eis o mistério das relações (dizem) humanas.
Eu gostaria de falar mais sobre o filme, mas estou um pouco revoltado com o que vi. Gastar caracteres a toa por quê? Quase ninguém leu esse livro (terror ainda é considerado sub-literatura no Brasil, mesmo que o Stephen King ganhe muito mais que o Paulo Coelho). Estou cansado demais pra ferrar essa gente.
Mas o Will Smith estava muito bem apesar de tudo.









