Logo mais tonar-me-ei um fora da lei. Um criminoso maléfico que ainda ousa usar mesóclise no mundo pós-moderno. Eu já me resignei com a nova lei em São Paulo. Sei que poderei fumar e tomar meu uísque no Ranieri e deixo o resto da cidade para essa gente chata e idiota. Sim, chatas e idiotas. Há várias justificativas para a proibição do fumo (de cigarro, não de maconha). Mas nenhuma delas é fascinante.
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Confissões de um fumante perigoso
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Minha Biblioteca
E num desses diálogos, eu absorto nos devaneios de final de tarde, um grande colega interrompeu-me:
“Lefebvre, estamos na Vieira Souto, o metro quadrado mais caro do país. Olhe pros apartamentos e me diga o que vê.”
“Bem, luzes acesas, quadros, salas, televisão…” eu dizia.
“Então, e o que você não vê?”, perguntou ele.
“Humm…”, pensei, “bibliotecas?”, respondi.
“Sim, exatamente. Brasileiro não gosta de livros. Na Europa, a biblioteca fica sempre na sala. Não para impressionar as visitas, mas porque é mais prático. A família lê. No Brasil, ninguém lê, ninguém se importa com isso. Livro serve para juntar pó. Agora com a internet, com o computador, acabaram até mesmo com as enciclopédias. Muito carpinteiro faliu com isso. É o que eu chamo de crise. Brasileiro não lê. Não usa jornal nem para catar cocô de cachorro…”
Desde então, decidi usar a biblioteca como meu índice pessoal de desenvolvimento humano. Quando faço uma visita, procuro primeiro a biblioteca. Pouco me importa o que o ser lê. Se tem uma biblioteca, e os livros são “usados”, fico contente, á vontade. Tenho medo ao entrar numa casa sem livros. Peço logo uma água com açúcar para me acalmar.
Andei muito pelo Rio a caça de bibliotecas pessoais. Olhava atentamente as janelas em busca de livros. “Carioca não lê”, pensava. Uma vez, no Leblon, vi cinco apartamentos com biblioteca na sala. Quis me mudar para o prédio imediatamente. Quando cheguei em São Paulo, comecei a analisar os meus vizinhos com um binóculo.
Aqui, há cerca de 500 janelas (ou mais). Em todo prédio, ao menos um cidadão possui uma estante de livros. O assunto deles, não sei. Nas minhas noites de insônia, muitas vezes apagava a luz do meu quarto e bisbilhotava a vida alheia. Tem um velhinho que mora no terceiro prédio do outro lado da rua. Toda a noite ele acende o seu abajur, senta na poltrona e lê ininterruptamente por quase duas horas. Ninguém o incomoda. Acho isso tão legal. Quero ser assim quando eu crescer.
No prédio atrás do meu, uma família se reúne religiosamente todo dia para jantar. É tão bonito. Depois, conversam um pouco na frente da televisão, sempre sintonizada num canal de notícias. Quando se separam, fico de olho na janela do escritório, onde fica a biblioteca deles. A luz acende e apaga. Toda hora alguém pega algum volume. Penso que nessa família todo mundo é doutorando. Só pode. Ou advogados, vai saber. Mas é uma rotina viciante. Quase me esqueço que dois andares acima mora uma das mulheres mais bonitas que já vi.
Nisso, olho para os meus próprios livros. Coitados, nem são muitos mas são queridos. Bem devagar, como um sapatinho-de-judia (Tumbergia mysorensis), eles tentam tomar conta da parede da minha sala. Toda biblioteca é um projeto eterno. Os arquitetos devem gostar quando pegam um cliente com uma coleção imensa, porque, além de tudo, a ela é um ótimo objeto de decoração. E a biblioteca é a pupila dos olhos do dono. Nem o carro a vence.
Minha biblioteca, como as histórias de amor, também é um clichê. Talvez a de todo mundo seja, mesmo que ninguém admita. Eu gosto de passar por ela, e me pego, às vezes, admirando os livrinhos enfileirados. Sinto uma sensação tão grande de orgulho que só pode ser pecado. “Padre, perdoe porque eu pequei. Faz 16 anos desde minha última confissão. Eu olho a minha biblioteca é fico todo orgulhoso…”. Talvez por isso eu goste tanto desse poema do J. G. de Araújo Jorge (desculpe a música, não é minha culpa), que nada tem de grandioso, mas que é tão eficiente quanto riminhas entre namorados.
A biblioteca é toda do dono, é uma daquelas coisas que ninguém pode fazer por você. Quer dizer, até pode, em casos extremos. Mas de nada adianta se os livros ficarem por lá. Livros não servem apenas para pegar pó. Livros servem para dar vida, principalmente para nós, homens. É que nós não podemos gerar filhos, e essa deve ser uma experiência maravilhosa. Mas através dos livros, talvez cheguemos bem perto disso. Junto com outra pessoa, o autor, através da leitura, transformamos em realidade algo que até então não existia para nós. É por isso que fico tão orgulhoso e cheio de mim. Assim como meu cachorro, a biblioteca faz parte da família e é insubstituível.
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Nanowrimo, Novembro, 2008
Como em todos os anos, uma semana antes (tudo bem, ’08 veio atrasado), preparo-me para o Nanowrimo. A idéia é bem simples. Um bando de malucos resolveu que Novembro seria um bom mês para escrever um livro. Outros doidos gostaram dessa história e se juntaram. Dez anos depois, milhares de pessoas tentam a loucura: escrever uma novela de 50,000 palavras, do zero, em um mês.
Não é nada fácil, e grandes autores tentaram a jornada e não conseguiram. Nesse ano, Neil Gaiman resolveu se aventurar, e está morrendo de medo. Assim como ele, não recebi nenhum lembrete do evento esse ano. O trabalho começa sábado, e quem quiser participar vai ter que se apressar.
Não existe nenhuma estratégia para terminar o Nanowrimo. Muitos vêem nisso o melhor do evento. Tudo é imprevisível, novo e surpresas sempre aparecem. Claro que a experiência de cada escritor é sua, cada um deles decide como enfrentará o desafio.
Traduzo então o texto que o Neil publicou ano passado. Será que ele seguirá os próprios conselhos?
Caro Autor do Nanowrimo
Agora você deve estar pronto para desistir. Você está passando pelo primeiro entusiasmo furioso quando os personagens e a idéia é nova e interessante. Você ainda não está no momento final, quando as palavras e as imagens saltam da sua cabeça mais rápido do que você consegue colocar no papel. Você está no meio, só um pouco depois da metade. O glamour desapareceu, a mágica se foi, suas costas doem por causa da digitação, sua família, amigos e os emails de conhecidos deixaram de ser encorajadores, no mínimo reclamam que não o vêem mais – e isso sabem que você está preocupado e não está se divertindo. Você não sabe porque começou sua novela, você nem se lembra mais porque imaginou que alguém gostaria de lê-la, e você está certo de que, quando terminá-la, ela não valerá o tempo ou a energia, e toda vez que você parar tempo o bastante para comparar com aquilo que você tinha na cabeça quando começou – uma brilhante e maravilhosa novela, na qual toda palavra solta fogo e queima, um livro tão bom ou melhor do que o melhor livro que você leu – seu livro desaba dolorosamente que você ter certeza de que seria um ato de misericórdia apagar a coisa toda.
Bem-vindo ao clube.
É assim que livros são escritos.
Você escreve. Esse é parte difícil que ninguém vê. Você escreve nos dias bons e escreve nos dias ruins. Como um tubarão, ou você continua indo para frente ou morre. Escrever pode ser sua salvação, ou não; pode ser o seu destino, ou não. Mas isso não importa. O que importa agora são as palavras, uma depois da outra. Ache a próxima. Escreva. Repita, repita, repita.
Um muro de pedras é uma coisa linda quando você o vê margeando um campo no meio do nada, mas fica mais impressionante quando você se dá conta de que foi construído sem argamassa, que o construtor precisou escolher cada pedra e coloca-la lá. Escrever é como construir um muro. ë uma busca contínua pela palavra que se encaixará no texto, na sua mente, na página. Trama e personagens e metáforas e estilo, tudo isso se torna secundário para as palavras. O construtor de muros levanta sua parede com uma pedra por vez até que ele chega ao final do campo lá longe. Se ele não construir, o muro não estará lá. Então ele olha a sua pilha de rochas, escolhe a que melhor servirá ao seu propósito e a encaixa.
A busca pela palavra nunca fica mais fácil, mas ninguém mais escreverá sua novela pra você.
A última novela que escrevi (foi ANANSI BOYS, caso esteja curioso), quando eu cheguei a 3⁄4 do caminho eu falei com minha agente. Disse a ela como me sentia estúpido escrevendo algo que ninguém nunca gostaria de ler, como os personagens eram rasos, como a trama era sem sentido. Eu sugeri que estava preste a abandonar esse livro e, no lugar, escrever outra coisa, ou talvez eu poderia abandonar o livro e começar vida nova como um jardineiro de paisagens, assaltante de banco, cozinheiro ou um biólogo marinho. E ao invés de simpatizar ou concordar comigo, eu me bombardear com uma onda de entusiasmo – ou discutir comigo – ela simplesmente disse, com uma cordialidade suspeita: “Oh, você está naquela parte do livro, não está?”
Eu fiquei chocado. “Quer dizer que eu já fiz isso antes?”
“Você não se lembra?”
“Na verdade, não”
“Ah, sim, ” ela disse. “Você faz isso toda vez que escreve uma novela. Mas todos os meus outros clientes também fazem.”
E nem consegui me sentir especial no meu desespero.
Então eu desliguei o telefone e dirigi até a cafeteria onde eu estava escrevendo o livro, seguirei a caneta e continuei a escrever.
Uma palavra depois da outra.
É a única maneira maneira das novelas serem escritas e, a não ser que elfos venham na noite e transformem suas confusas anotações no Capítulo Nove, é a única maneira de escrevê-las.
Portanto, continue a ir em frente. Escreva uma palavra depois da outra.
Logo logo você estará no final, e não é impossível que logo então você terá terminado.
Boa Sorte
Neil Gaiman.
Mais:
Sobrevivendo aos 30 dias de NaNoWriMo — MacWorld
Sou VIP mesmo, e dai?
A Lalai resolveu abrir o verbo. Ser V.I.P. parece ser uma questão muito séria. E é mesmo. Entra no rol daqueles problemas primordiais da vida humana como “coloco ou não namorando no orkut”. Seja nas cidadezinhas do interior ou nos grandes centros urbanos, ter alguma vantagem nas festas parece deslumbrar algumas mentes inquietas. Existe uma ilusão de que uma aura aparece quando você é VIP. Agora, o que essa aura significa para cada “eu”, difícil saber.
Lidar com a noite não é algo fácil. Para quem nunca trabalhou no ramo do entretenimento, tudo são flores e rosas. Afinal, como ficar preocupado com alguma coisa já que sua festa está ma-ra-vi-lho-sa!!! Não é bem assim. Tocar, produzir festas, idealizar um bom momento para as pessoas, óbvio, proporciona prazeres imensos. Mas como toda profissão, tem seus contra-tempos, seus problemas e mais uma série de adversidades. O trabalho dos profissionais da noite é não deixar isso transparecer e fazer uma festa do caralho. E chega de digressão.
Sou VIP em alguns lugares, daqueles privilegiados mesmo. Desconto em tudo que consumir, não fico em filas e tudo aquilo. Alguns ficam abismados com essa desenvoltura. Posso afirmar, o que a Lalai passa, os VIPs também passam. Gente ligando, atrasada na fila, “sem dinheiro” pra pagar, essas coisas. Mas tem um pequeno porém: a festa não é minha. Da mesma forma que os donos da festa pisam em ovos para dizer um não educado, os VIPs também precisam fazer a mesmíssima coisa. Talvez o nível de irritação seja o mesmo para os dois.
Entretanto, ninguém entende a razão de você ser essa espécie privilegiado. Primeiro de tudo, a palavra VIP é meio fora de propósito. Pessoa muito importante mesmo é o dono da casa, que ralou muito pra criar aquilo ali. Pessoa muito importante mesmo é quem fez a festa, passou dias planejando e montando tudo para a minha diversão. Talvez eu seja um cliente especial que acabou se tornando amigo deles. Mas uma coisa é nós irmos farrear na minha casa. Outra bem diferente é ir lá na festa. Amigos sempre somos. Mas quando vou aos seus bares, boates ou restaurantes, também sou um cliente.
O fato de eu ser amigo do dono não significa que meu serviço será pior, ou o atendimento ruim, ou vou me divertir menos — não há economia. E se estou feliz ali, feliz com o sucesso dos meus amigos, como é que vou dizer para ele que “eu não quero pagar, quero ser VIP”? Não há lógica nisso. Você deve pedir desconto quando compra um carro zero, isso sim. Afinal, o Jack que me é oferecido vem do trabalho deles. Eles seguram a minha barra, me deixam dormir no sofá quando estou perdido na cidade, sempre rindo das minhas piadas sem graça, mas as pessoas acham que essa amizade deve ser paga com desconto na profissão deles? Tenha dó.
Conheço gente que nunca aparece nos lugares que gosto de ir. Duma hora pra outra resolvem que vão e eu aqui é que preciso arrumar tudo pra eles. Não é bem assim. Muitas vezes é preciso tempo para conquistar as coisas. Você não pode esperar um nível de intimidade igual a um cliente que freqüenta o mesmo bar há 30 anos. Frank Sinatra não era bem recebido e tinha canto cativo nos seus bares prediletos porque era o Frank, mas porque era uma ótima pessoa. Fez amizade. O dono foi com a cara. Lógico que tem gente querendo vantagens em ambos os lados. Tem amigo folgado, e promotor de festa folgado também. Há seres que acreditam que amizade se compra.
Na mente comum, talvez ser VIP signifique, de alguma forma, você está acima dos outros mortais que estão se divertindo na festa. Que seu apelo será maior, que vai arrasar os corações por causa de um troço de plástico amarelo no seu pulso, ou que todo mundo vai te achar o máximo se você guardar a bolsa atrás do DJ. Ledo engano. Tem gente assim, eu sei, e se você gosta dessas companhias melhor mesmo ligar e torrar a paciência do promoter, do dono ou do seu “amigo VIP”. Vez ou outra a gente gosta de te deixar entrar, mas é uma espécie de experiência antropológica, entende?
Se em uma festa você ver alguém ser cumprimentado por todos, papear alegremente com o DJ, andando descontraído por vários grupos, tenha certeza que não é nenhuma espécie de credencial que faz aquilo acontecer. É assim que os amigos se relacionam. Tenha certeza que te fazer furar fila, te dar desconto na festa vale muito menos do que dividir um copo de uísque contigo na alegria ou na tristeza. E é nesses momentos que você sabe que é, de verdade, sem sombra de dúvida, uma pessoa realmente muito importante.


