O Museu da Corrupção

Através do Gil Gi­ar­delli achei a melhor idéia dos útimos tempos: MUSEU DA CORRUPÇÃO. Clique na imagem para entrar:

Muco - Museu da Corrupção

Muco — Museu da Corrupção

Jornalismo e mídia "internet"

Bad News

Bad News

Vez ou outra, o jor­na­lista acha uma in­for­mação apenas com a sorte. Apenas por estar no lugar certo, na hora certa. O jor­na­lismo ainda en­ga­tinha na in­ternet. Por en­quanto, as únicas ino­vações da rede é a ra­pidez de pu­bli­cação das ma­térias, os tais “co­men­tários” e, mais im­por­tante, a ca­pa­cidade de re­visar os textos cons­tan­te­mente.

A re­visão de textos (ou atu­a­li­zação, como é chamada pelos veí­culos) não foi ini­ci­ativa do setor. Nos pri­mórdios desses no­ti­ciários, erros ou re­visão de in­for­mação era feita sem o devido es­cla­re­ci­mento para o leitor. Não por má-​fé, a questão era que isso de ar­rumar uma re­por­tagem, re­al­mente, era algo novo para o jor­na­lismo, desde sempre acos­tumado com o fato de, uma vez pu­blicado, não dá pra voltar atrás no texto. Jornais, an­ti­ga­mente, pos­suíam duas edições, tanto para adi­cionar novas ma­térias como para con­sertar erros das edições ma­tu­tinas. Na era da in­ternet, atu­a­lizar o texto já pu­blicado era algo nunca antes pensado numa re­dação. Ma­térias eram pro­du­zidas as seis horas e, ma­gi­ca­mente, a mesma ma­téria das seis tinham in­for­mações que só apa­re­ceram as nove da noite na­quele dia.

Era preciso avisar que o texto re­cebeu uma atu­a­li­zação. Os lei­tores exigiam e, além disso, pega mal para a empresa.

Nesse começo, era di­fícil per­ceber as mu­danças no texto. Agora, é di­fícil saber quais foram essas mu­danças. Acres­cen­taram ou re­ti­raram in­for­mações? Foi preciso es­cla­recer certos pontos do texto? Ar­rumar a gra­mática? Ou, quem sabe, omitir uma bela bola-​fora que o re­pórter deu?

Do­cu­mentar essas re­visões é com­plicado por dois mo­tivos. O pri­meiro, é a fer­ra­menta para tornar isso re­a­lidade. Criada, como ela fun­ci­onará? Como fa­ci­litar o uso dessa fer­ra­menta? Esses são as­pectos técnicos.

O se­gundo motivo, e re­al­mente o que mais in­comoda os veí­culos, é as in­for­mações con­tidas nas re­visões. Ali, você poderá ver o que foi al­terado, re­tirado, acres­centado. Jornais, qualquer um, ainda não se sentem con­for­táveis para ta­manho tipo de trans­pa­rência. A Wi­ki­pédia, por exemplo, dispõe desse serviço. Através dele é pos­sível ver como as in­for­mações de um artigo são ma­ni­pu­ladas pelos autores/​colaboradores e a in­tenção deles quando o fazem.

En­tre­tanto, isso é pro­blema dos jornais. Eu gosto mesmo é de, vez ou outra, pegar um jor­na­lista no pulo! Dando uma in­for­mação equi­vocada e logo depois omitindo-​a. É muito engraçado.

Ontem, foi a vez do blog da BBC. Tive a sorte de acom­panhar a mu­dança dra­mática de um post en­quanto a no­tícia acontecia.

Esse post da BBC sobre o caso da Paula Oli­veira foi pu­blicado às 17:35. O texto serve para jus­ti­ficar a co­bertura da rede no caso, ale­gando que eles não se pre­ci­pi­taram como os jornais bra­si­leiros. O final do pe­núltimo pa­rá­grafo ori­ginal estava assim:

Fi­camos então ainda mais atentos para não abraçá-​la in­de­vi­da­mente. O que é um cálculo de­licado, afinal o caso, se ver­da­deiro, era ex­tre­ma­mente grave. In­clusive, ainda não foi to­tal­mente es­cla­recido. Paula Oli­veira não estava grávida, mas ainda não está provado que ela fan­tasiou a su­posta agressão.

Ali ainda se via uma pre­o­cu­pação de deixar as duas his­tórias em des­taque, não des­car­tando as opções e ainda co­lo­cando em dúvida a pe­rícia feita pela po­lícia da Suíça. Além disso, ele toca num as­sunto im­por­tante, o que deve fazer um jor­na­lista com um caso ex­plosivo na mão, o tal “cálculo de­licado”. Meia hora depois, às 18:00, uma re­vista suíça país di­vulgou a in­for­mação de que a ad­vogada bra­si­leira tinha con­fessado a farsa para a po­lícia. Ma­gi­ca­mente, o texto foi atu­a­lizado para isso:

Fi­camos então ainda mais atentos para não abraçá-​la indevidamente.

Bela re­dução, creio. Hoje, na versão final (acho), tal pa­rá­grafo mudou completamente:

Apesar do cuidado da noite an­terior, minha ten­dência na­quele mo­mento era achar que a his­tória fosse ve­rídica. Fi­camos então ainda mais atentos para não abraçá-​la in­de­vi­da­mente. O caso segue sendo in­ves­tigado na Suíça, e ainda não está provado se o su­posto ataque ocorreu ou não.

Minha dúvida é, há pro­blema nisso tudo? Creio que há.

O jor­na­lista parece-​se com o pu­bli­ci­tário porque ambos sempre querem estar certos. Talvez seja mais fácil um médico ad­mitir um erro do que esses dois. É o con­si­derado normal na pro­fissão. Talvez esteja no fer­mento que usam para criá-​los. Os as­ses­sores de im­prensa, por exemplo, não podem se dar a esse luxo, já que um erro na pro­fissão deles pode ser fatal. Nem coloco em questão esse com­por­ta­mento, já que nada irá mudá-​lo. Espanto-​me é como essa postura pode em­po­brecer um texto. A ne­ces­sidade de estar sempre “ligado” e “correto” empobrece.

Se o autor, Ro­gério Simões, man­ti­vesse o texto ori­ginal, não seria ver­go­nhoso. Já que ele re­solveu dar uma de om­budsman, que apro­vei­tasse a si­tuação para exem­pli­ficar ainda mais a questão prin­cipal de toda a con­fusão gerada pela Paula, a di­fi­culdade do tal “cálculo de­licado”. Seria ainda mais in­te­res­sante um se­gundo post mos­trando o quão di­fícil é isso. Po­deria ter até o mote “olha, quis mostrar os pro­blemas de fazer jor­na­lismo e, na mesma hora, o pior deles acon­teceu de novo, en­ten­deram a questão?”.

Porém, faltou visão ao Ro­gério, ou vontade, ou co­ragem, para mostrar que os jor­na­listas erram toda hora, todo dia, e con­sertar esses erros para não com­pro­meter ino­centes e a re­a­lidade também é peça im­por­tante no exer­cício da pro­fissão. In­fe­liz­mente, só de­monstrou que o cor­po­ra­ti­vismo é vivo e forte no setor, que nunca aprende com seus pró­prios erros até que seja tarde demais. E mesmo assim, quando tentam, aprendem errado. Esse blog da BBC é para ajudar o leitor a “a en­tender melhor o con­texto do no­ti­ciário in­ter­na­cional”. Já en­ten­demos. Na BBC, na TV Brasil, TVE, na Globo ou na Carta Ca­pital, o pro­blema é sempre o mesmo.

Foto: Bad News

Se o motoboy se matar, vc faz o quê?

A Po­lícia é uma piada. Os mo­toboys fazem o que querem e morrem por isso, se juntam em bando quando fazem merda e nós, pobres mortais que pa­gamos IPVA tempos que ficar lá, mesmo se formos es­pan­cados, ou somos presos por “omissão de so­corro”. Ridículo.

Mídia e Ética: Caso Eloá

Memorial do Holocausto
Me­morial do Ho­lo­causto em Berlin, Ale­manha. De­se­nhado pelo ar­quiteto Peter Ei­senman e pelo en­ge­nheiro Buro Happold — Photo by Al­fonso Romay

Qual seria o ver­da­deiro com­pro­misso da mídia? Seria levar a in­for­mação àqueles que a an­seiam? Seria despir o mundo, na ten­tativa de mostrar a sua es­sência? Des­mis­ti­ficar as­suntos na ur­gência de sua dis­cussão? Em suma, mostrar a verdade em meio a con­fusão que é a vida?

Sa­bemos que o com­pro­misso com a busca pela verdade é muito maior do que a verdade em si. Nem mesmo a de­fi­nição de “verdade” é clara, direta, real. Um con­ceito abs­trato, per­so­nagem prin­cipal de lutas fi­lo­só­ficas desde o início dos tempos. Buscá-​la, ao con­trário, sempre foi es­ti­mulado e va­lo­rizado. Nesse as­sunto, o ca­minho sempre foi mais im­por­tante que o destino final.

Então, qual seria a vo­cação ética da mídia? Po­demos entrar fi­nal­mente na questão depois de des­cobrir o que ela sig­nifica. No bom-​senso comum ética seria a im­par­ci­a­lidade no relato dos fatos. Mais, uma au­sência de pré-​julgamentos, um com­pro­misso, antes de tudo, com a busca pelo ver­da­deiro. Por isso, fo­mentar a dis­cussão, o debate, o senso crítico dos in­di­víduos é fundamental.

É ser humano se apai­xonar, chorar, sentir falta, não exe­cutar duas me­ninas a queima roupa.

A teoria só re­flete a prática se espelhar-​se na última. O que en­ten­demos por vo­cação ética da mídia é mais um pen­sa­mento abs­trato, fi­lo­sófico, do que uma re­a­lidade. In­formar, acima de tudo, é se­le­cionar. A im­par­ci­a­lidade não está na di­visão equi­va­lente entre os pontos-​de-​vista dis­tintos. Muito menos na lin­guagem es­téril que, ul­ti­ma­mente, é tão comum na im­prensa. A im­par­ci­a­lidade é uma mentira. Ela não existe. É apenas um mito. E como todos, cada vez que o des­truímos, au­to­ma­ti­ca­mente o reforçamos.

Mas o caso Eloá trouxe al­gumas mu­danças, só não sei se serão de­fi­ni­tivas ou não. Há anos não vejo os veí­culos de co­mu­ni­cação cha­marem as­sas­sinos pelo nome. Nor­mal­mente são “sus­peitos”, mesmo quando presos em fla­grante delito. A mídia não é pro­cu­ra­doria, nem juiz ou júri para con­denar ou ab­solver quem quer que seja. “As­sassino” é apenas o que Lin­demberg es­colheu para sua vida. Não é pro­blema do Jornal Na­cional as es­colhas que ele fez, mas é preciso sim, sem sombras de dúvida, chamar pelo nome a verdade que aparece.

Fo­mentar o debate nunca foi tarefa da mídia. Ela usou esse ar­ti­fício quando as pessoas o re­qui­si­tavam como peça fun­da­mental do discurso.

Não há uma justiça a se pro­curar na mídia, ela só exis­tiste no in­di­víduo. Uma sin­ce­ridade da mídia está no fato dela mostrar que, acima de tudo, só se­le­ciona e compila. Gos­tamos de acre­ditar que esse pro­fis­sional tra­balha por nós – que ele busca a verdade en­quanto o ci­dadão comum preocupa-​se com tra­balho, casa, filhos. Mas isso é um ato so­li­tário e não pode ser de­legado a outros. Acontece dentro da mente de cada um, e so­mente nela. É um exer­cício in­di­vidual e intransferível.

Em casos como esse, fica fácil achar essa verdade, es­pe­ci­al­mente quando ela está gravada em vídeo. Ainda assim, não fal­tarão ana­listas para culpar a mesma mídia pelo des­fecho da his­tória. São apenas te­orias ig­no­miosas, de jor­na­listas que pouco fazem e muito de­dicam a causas ideológicas.

A única vo­cação ética da mídia é manter-​se, é o com­pro­misso com sua so­bre­vi­vência. Houve um tempo no qual essa vo­cação era ex­plícita – era ma­ni­festa porque ur­gente. Aqueles que bus­cavam a in­for­mação o faziam para poder pensar sobre de­ter­minado as­sunto e buscar por si sua es­sência. A par­ci­a­lidade la­tente era ne­ces­sária para mostrar a que a mídia de­fendia, contra quem lutava, qual verdade buscava. Só assim po­deriam levá-​la a sério.

Fo­mentar o debate nunca foi tarefa da mídia. Ela usou esse ar­ti­fício quando as pessoas o re­qui­si­tavam como peça fun­da­mental do dis­curso. Não foi ela quem mudou, mas o pú­blico. Hoje, a ur­gência é de pro­cessos aca­bados, ex­pli­cados, fi­nitos em si. Há muito pouca dis­po­sição para re­fletir sobre um as­sunto. Para so­bre­viver, a mídia se adaptou.

Mas alguma coisa acon­teceu agora. Num ano cheio de tra­gédias, os ver­da­deiros jor­na­listas pa­recem ter acordado. Viram que a escola do Al­berto Dines não con­segue apre­ender a re­a­lidade tal como ela é. O “jor­na­lismo im­parcial” serve a in­te­resses, não à verdade. O pú­blico precisa mais do que meias pa­lavras. E também fica di­fícil fazer eu­fe­mismos quando a vida real é tão cruel, tão mau, tão asquerosa.

A questão não é ex­plicar como a mídia não es­timula o debate, nem o senso crítico do seu pú­blico – nunca foi seu papel. Agora, se qui­sermos ex­plicar como a so­ci­edade baniu a vontade de pensar e ra­ci­o­cinar, po­demos buscar a verdade dentro desses li­mites es­ta­be­le­cidos. E essa verdade é uma das mais fáceis de se des­cobrir. O pro­blema é acre­di­tarem nela — mesmo ela apa­re­cendo ao vivo e a cores em cadeia na­cional de rádio e te­le­visão.
PS: Para quem não en­tendeu a foto com o texto, leia isso.

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Orkut de Lindemberg?

Vai saber se é real ou algum maluco, mas o google já po­deria ter re­tirado do ar esse orkut do Lin­demberg e mandado os dados pra justiça, não? O Google Inc também não ajuda…

Um bode no Rio Grande Do Sul

Tarso Genro é um im­becil. Como ad­vogado ele é um asno. Só mesmo num pe­ríodo de loucura tal ci­dadão (porque ele é) pode ser chefe de qualquer coisa. Sobre o uso de al­gemas, o ilustre declarou:

“Isso aí [a res­trição ao uso de al­gemas] pode gerar uma reação mais vi­o­lenta na pessoa [um eventual preso], o que leva a Po­lícia Civil a ter mais vi­o­lência para se pro­teger”, disse o mi­nistro, antes de pro­ferir uma pa­lestra para es­tu­dantes.
Tarso Genro afirmou também que, “por ser bem pre­parada, por ser uma elite treinada”, a Po­lícia Fe­deral terá mais fa­ci­lidade para se adaptar à de­cisão do STF.
“O ar­bítrio do agente au­mentou. O juízo do agente de usar ou não algema ficou mais forte, ele fica mais senhor da cus­tódia”, afirmou o mi­nistro.
“Se ti­vesse uma de­cisão, por exemplo, não se pode al­gemar ninguém ou pode al­gemar de­ter­mi­nadas pessoas, aí o po­licial teria uma norma mais direta sobre a sua conduta.”

O que é isso? quer dizer que não de­vemos confiar na po­lícia civil porque ele é mal treinada? Di­gamos, se qualquer um for abordado, o po­licial civil é um brucutu que não co­nhece as leis? Por­tanto, diante de uma si­tuação de vida ou morte (pois po­li­ciais civis podem usar armas), o ci­dadão precisa se de­fender de agentes pú­blicos que não co­nhecem as leis e seus limites?

Tarso genro está di­zendo, no âmago, que os ci­dadãos devem reagir à po­lícia porque eles não tem ca­pa­cidade de abordar um ci­dadão de bem. Onde já se viu isso?

Como ele disse, o uso de al­gemas, de acordo com o STF, é ilegal em certos casos. Como um ci­dadão de bem, posso me opor ao abuso de au­to­ridade (que é crime), por­tanto, a reação à po­lícia está re­gu­la­mentada no código penal.

Bruce Lee?

Não falei aqui sobre o as­sas­sinato da Cara Marie Burke, 17 anos. Eu sou um chato. Eu acho que me­ninas de­veriam ser mais es­pertas, en­tender di­reito com quem andam. Eu sei, sou um chatão. É óbvio que eu nnao desejo a morte de ninguém que anda em más com­pa­nhias. Mas é um risco. Gosto de mostrar esses riscos para as mu­lheres que en­contro. Sou um na­morado bem chato por isso.

Mas enfim, a tal Cara foi morta e es­quar­tejada por um ci­dadão chamado Mohammed D’Ali Santos. Isso é bem surreal. Mas pior ficou quando vi o nome do irmão desse psi­copata: Bruce Lee. São as pe­quenas coisas que mostram a ma­lu­quice do povo brasileiro.

O Brasil fica mais doido a cada dia.

A quem servem os bafômetros

Livro econômico, que traz pouco sobre a nova lei

Livro econômico, que traz pouco sobre a nova lei

O Shikida lançou um e-​book sobre a Lei Seca (péssimo nome, por sinal, que de­monstra a falta de cultura do bra­si­leiro). Esse as­sunto me dá tanta pre­guiça… E dis­cutir com eco­no­mistas destrói com­ple­ta­mente minha libido. Eles são o pau-​pra-​toda-​obra da atu­a­lidade. Várias pro­fissões já su­biram nesse pe­destal: re­li­giosos, aris­to­cracia, ci­en­tistas, darwi­nistas, jor­na­listas, po­si­ti­vistas, hu­ma­nistas. O ne­gócio é não entrar no embate, por isso ou vou fazer um mo­nólogo, sem con­versas, muito menos vou entrar na di­a­lética por­caria de qualquer cor­rente ideológica. 

Pa­norama His­tórico o Termo “Lei Seca”

Isso é um resumo. Em 1917 os Es­tados Unidos de­cla­raram guerra à Ale­manha. Nesse mesmo ano, o con­gresso ame­ricano aprovou uma emenda à cons­ti­tuição que tornava ilegal a venda de bebida al­cóolica no país. Ao con­trário do Brasil, que adora aprovar leis da noite para o dia, o con­gresso ame­ricano apenas san­cionou uma lei que teve muito apoio po­pular antes de chegar ao Senado Americano.

Culpem os me­to­distas. Mas também os ci­en­tistas. Culpem um monte de gente, por via das dú­vidas. Essa la­dainha ronda a cultura ame­ricana desde os 1700’s, ganhou força nos 1800’s e no começo dos 1900’s virou lei. Ah, o álcool faz mal a saúde. Ah, o álcool trans­forma um bom pai de fa­mília num bebum. Ah, o álcool de­nigre os bons cos­tumes. Imagina os de­fen­sores dessa lei hoje, quando pro­vamos que uma taça de vinho por dia faz bem ao co­ração. Aliás, se eu tiver um en­farto (in­farto, in­farte, foda-​se), pro­cessem o estado. Vol­temos. A lei foi aprovada pelo senado devido a um clamor da sociedade. 

E todo mundo sabe o que acon­teceu (vocês vêem filmes, não?).

A bebida con­tinuou a ser vendida no mercado negro, criando uma classe de cri­mi­nosos tão pe­rigosa quanto charmosa nos anos 2030. A figura máxima era Al Capone. E en­volveu po­lí­ticos, po­li­ciais, fa­zen­deiros, bares, enfim… Depois de quase duas dé­cadas de proi­bição, fi­nal­mente che­garam à con­clusão que o melhor era mo­derar o consumo, mas nunca mais proibí-​lo com­ple­ta­mente. Esse é o resumo da ópera.

O novo texto do código bra­si­leiro de trânsito não faz nada disso aí. Apenas proíbe que você dirija um veículo au­to­motor se tiver con­sumido qualquer quan­tidade de álcool. Além de ser um pé no saco, pode te mandar pra cadeia assim, num es­talar de dedos (ou numa so­prada, ou numa recusa, enfim).

Eu de­testo esse termo desde o princípio.

O Novo Código Bra­si­leiro de Trânsito

Pouca gente se lembra de quando ele entrou em vigor. Mudou com­ple­ta­mente a nossa vida. Além de multas bem pe­sadas por ter, por exemplo, uma lan­terna queimada, ins­tituiu a obri­ga­to­ri­edade do cinto de se­gu­rança e ca­pacete, por exemplo. Lembro bem da dis­cussão na época. Se eu quiser di­rigir sem cinto, pro­blema meu. Sem ca­pacete, pro­blema meu. O lado oposto dessa dis­cussão era as man­chetes de jornal: Número de mortos cai em hos­pital. Cinto e ca­pa­cetes salvam vidas (assim, sem con­cor­dância nos termos). Alguma se­me­lhança com o debate hoje? Humm, depois de alguns anos o número de aci­dentes au­mentou, es­ta­bi­lizou ou di­i­minuiu? Hummm…

Mas também teve outras coisas bem di­ver­tidas, como a obri­ga­to­ri­edade de ter no carro um Kit de Pri­meiros So­corros. Lembram deles? Uma bol­sinha branca, com uma cruz ver­melha que só servia para acu­mular poeira no porta malas? Tinha que ter uma luva des­car­tável, es­pa­ra­drapo, gazes e outras coi­sinhas bem úteis quando uma ca­mi­nhonete passa por cima da sua cabeça ou você está preso nas fer­ragens. Ao mesmo tempo tí­nhamos novos cursos para tirar a car­teira de mo­to­rista, como o de pri­meiros so­corros que era mais ou menos assim: tente deixar a vítima imo­bi­lizada, sem ninguém tocar nela até a chegada da am­bu­lância. Aí um aluno bri­lhante per­guntava, “mas e o kit do carro?”. Eu ainda lembro das risadas.

Muita gente ganhou di­nheiro com isso, ven­dendo os kits. E muita gente ganhou di­nheiro fis­ca­li­zando os kits. Mé­dicos iam a te­le­visão falar que nem todos os kits eram es­téreis, que con­tinham bac­térias, isso e aquilo. Melhor nem usá-​los. Ao mesmo tempo, nas es­tradas, perto dos postos po­li­ciais, apa­re­ceram kombis ven­dendo toda sorte de equi­pa­mentos. Um kit que custava 5 reais na cidade ia pra 50 do lado da PRF. O dolár era um pra um, ok? Ah, essas kombis… elas ainda existem até hoje, ven­dendo lâm­padas de farol a mó­dicas quantias. Bela he­rança. Mas o grosso mesmo foram as em­presas que mon­tavam o tal kit. Da mesma forma que sur­giram, de­sa­pa­re­ceram quando essa exi­gência caiu.

Isso então é es­tranho pra você, leitor?

Pra mim não é.

Atuação da Po­lícia na Fis­ca­li­zação do Trânsito

No pri­meiro ano do Código de Trânsito ti­vemos que nos acos­tumar com as Blitz. E eram piores do que hoje. Não era raro pegar umas três antes de chegar em casa. A po­lícia apa­receu da noite pro dia. Com­praram novos guinchos ta­manha era a quan­tidade de carros ir­re­gu­lares. Até o tio da Kombi ter a bri­lhante idéia de es­ta­cionar perto delas. Seu carro não era guin­chado se você ar­ru­masse a coisa na hora. A po­lícia te abordava por causa de uma lâmpada queimada. Meu Deus, parece os Es­tados Unidos, as pessoas co­me­mo­ravam. E como ter­minou a fis­ca­li­zação? Bem, a lâmpada do freio de um amigo meu está queimada faz uns 3 anos e ele tem uma no­vinha no porta-​luvas. Não troco porque quero ver quando vão me parar por isso. Só por di­versão. No duro. Não foram poucas vezes que os po­li­ciais até qui­seram cobrar uma propina dele para es­quecer o caso. Tem hora que a car­teira vale o esforço.

Hoje, no­va­mente, vejo a mesma his­tória. As pessoas co­me­moram porque parece que elas estão nos Es­tados Unidos, na Europa. Eu tento lembrá-​las que não, elas vivem no BRASIL. Imagine o poder na mão do po­lícial que agora, por nada (des­culpa, mas o happy hour ainda é uma cultura bra­si­leira), pode te mandar pra prisão! Quem teme a lei não é o bêbado (ele já é louco por na­tureza), mas o tio da Kombi. Não pre­cisam mais dela (su­jeito in­de­ter­minado ou oculto, hein? hein?). Se mesmo depois de anos os ra­dares pegam um carro a 800 Km/​h e o Detran não admite sua parcela de culpa, imagina os bafô­metros em, di­gamos, 2010?

O Que O Futuro Nos Promete

Eco­no­mistas, pra voltar ao livro depois de tanta la­dainha, tem uma séria de­fi­ci­ência: eles não passam da ma­te­mática básica. Tudo bem que eles tem fór­mulas enormes, mas deviam se apro­fundar em ma­te­mática antes de emitir opinião. Tra­balhar com X e Y é fácil. A na­tureza humana está mais para cálculo avançado. É como acre­ditar que alunos me­dianos da escola pú­blica podem cons­truir uma nave espacial.

Não só os co-​autores do livro “es­que­ceram” da abran­gência de certas ex­ter­na­li­dades negativas.

Di­gamos, sei lá, que um agente pú­blico mal-​intencionado compre um bafô­metro no E-​Bay (o mesmo com­prado pela po­lícia por SETE MIL REAIS, nos Es­tados Unidos custa 150 DÓLARES) e re­solva adul­terar o número pra cima (bem, para os cé­ticos, alguém já pre­cisou des­blo­quear um ce­lular?)? Olha só eu dando idéia pra mar­manjo. Até você re­solver a si­tuação, meu bem… 

Ou pior, como o álcool sai do or­ga­nismo ra­pi­da­mente, e o IML não é um exemplo de com­pe­tência, logo logo irá criar uma si­tuação ju­rídica mais ou menos assim: o bafô­metro acusou po­sitivo, mas o su­jeito pre­cisou es­perar no IML, tomou um monte de re­fri­ge­rante e água e o exame de sangue deu ne­gativo ou abaixo do número acusado no bafô­metro. Vale qual leitura? Ah, no meu dia o IML fez o exame em cinco mi­nutos, mas o outro su­jeito teve 6 horas, a justiça é igual para todos ou o quê?

Eu não estou louco. Como a lei es­ta­belece li­mites tão baixos, um copo de cerveja, ou uma hora a mais ou a menos podem de­cidir entre li­berdade e CADEIA. Pela lei, eu posso me re­cusar a fazer tudo isso aí, bafô­metro, exame de sangue. Como o Estado vai di­fe­renciar os bê­bados ha­bi­tuais do pai de fa­mília que, sei lá, re­solveu tomar uma la­tinha a mais? Eu posso entrar com re­cursos con­tes­tando o tempo de espera, os equi­pa­mentos, qualquer coisa. Isso be­ne­ficia, uni­ca­mente, os piores ele­mentos. E não dá pra co­locar todo mundo no mesmo saco como o novo texto da lei fala.

Ou coisas bem en­gra­çadas como, um muy amigo teu re­solve te pregar uma peça e diz que a cerveja que ele te ofe­receu é sem álcool, mas não é. Ou sua em­presa faz uma festa po­li­ti­ca­mente correta sem álcool e um en­gra­ça­dinho re­solve zoar com todo mundo. O cara toma duas e nem sente, vai pra casa e cai na blitz, faz o teste do bafô­metro todo con­tente e vai pra Cadeia. Todo mundo vai na de­le­gacia dizer que foi um mal en­tendido (olha eu de novo dando idéia pra mar­manjo…), mas o pro­motor é meio pro­tó­genes e re­solve te pro­cessar mesmo assim. Le­vando em con­si­de­ração a lei, que diz que beber é po­ten­ci­al­mente co­locar outros em perigo de forma dolosa; e a loucura do pro­motor, claro – te­remos no Brasil o pri­meiro caso mundial, em outras letras, de Ten­tativa de Ho­mi­cídio sem a In­tenção de Matar.

O que eu tento dizer é: le­gislar pelo medo ou pelas emoções só traz con­seqüências ma­lé­ficas a médio e longo prazo. Hoje, é no­tório que as blitz param muito mais os mais jovens do que os mais velhos. E quando um “mais velho”, bêbado, passar pelos po­li­ciais e matar al­gumas pessoas no próximo cru­za­mento? O po­lícia tem o dever de evitar coisas como essa. Com melhor trei­na­mento, com uma ação efetiva, com método, eles po­deriam acabar com o crime or­ga­nizado no Rio de Ja­neiro. Mas do jeito que é, é dar muito crédito a uma cor­po­ração que ainda não o merece, mas tenta merecer.

E O Futuro Próximo?

Bem, com o passar do tempo a fis­ca­li­zação di­mi­nuirá. É um fato com­provado, porque o efetivo usado até as três ou quatro da manhã fará falta no resto do dia, ou em outros pontos da cidade. Bandido sabe onde tem blitz, onde po­li­ciais são re­qui­si­tados e dei­xando de lado outras atri­buições. Não é uma si­tuação sus­ten­tável (e os eco­no­mistas apostam num futuro exemplar onde haverá con­tra­tação de mais pessoal — gente, olha o or­ça­mento da se­gu­rança e acordem!). Mas o medo já estará instaurado.

Eu por exemplo, moro no Jardins, e não vou me ar­riscar be­bendo no centro, onde a de­le­gacia é outra, o perfil é outro. Eu não me ar­risco nem aqui, mas tem gente que pensa, HOJE, POR CAUSA DA LEI, no custo-​benefício de cruzar a cidade. E é um pen­sa­mento normal. As ba­tidas de trânsito vol­tarão aos níveis “normais”, sim, mas es­tarão es­pa­lhadas, e não mais con­cen­tradas onde nor­mal­mente tí­nhamos maior mo­vi­mento de bares, boates, etc. En­quanto a lei ficar como está, tudo ficará mais local, o que ajudará a ma­quiar os nú­meros por muito tempo.

E a mesma lei, que em suma po­deria criar dis­cussões pro­du­tivas, como a me­lhora da po­lícia, dos di­reitos dos ci­dadãos comuns e tanta coisa que ainda falta no país vai se trans­formar numa ba­talha entre os ditos anjos e os con­de­nados a serem demônios. Tal como no de­sar­ma­mento, a turma do paz e amor quer usar nossas emoções para uma agenda. Hoje, ninguém, salvo raras ex­ceções, pode andar armado. O crime não di­minuiu, au­mentou e ficou ainda pior. Po­li­ciais hoje dis­param a esmo, porque sabem se é bandido num carro, numa casa, ele vai estar armado. Hoje, bandido não leva mais 38 da casa do pai de fa­mília, andam com 765, 354, fuizis de as­salto, armas sempre foram de uso ex­clusivo e res­trito às forças ar­madas e a es­quecida po­lícia federal.

No­va­mente, otários são re­cru­tados, pen­sando terem as me­lhores in­tenções, para abrir uma lacuna pe­rigosa na vida, na justiça e no di­reito bra­si­leiro. Chuvas causam 35% mais aci­dentes. Só quando apro­varem uma lei que te mande pra cadeia por di­rigir com mal tempo as pessoas acor­darão? Acho que nem assim o bom-​senso do bra­si­leiro despertará.

E muito menos dos economistas.

Cala a boca, Beltrame!

Em qualquer outro lugar do mundo ci­vi­lizado (o Brasil não per­tence a esse grupo) o Se­cre­tário de Se­gu­rança do Rio de Ja­neiro já es­taria com sua car­reira pú­blica en­terrada. Já falei aqui da morte do João, e hoje mais um ino­cente é morto em ti­roteio com a po­lícia. O mais in­crível por cá são as im­be­ci­li­dades pro­fe­ridas pela au­to­ri­dades. A da vez é o Bel­trame afir­mando que “em qualquer lugar do mundo a po­lícia res­ponde a esmo quando é al­vejada”. Sr. Se­cre­tário, re­co­mendo as­sistir aos Vídeos In­críveis, no People + Arts. Quem sabe ali você aprende algo sobre se­gu­rança e ações da polícia.

Em qualquer lugar do mundo ci­vi­lizado, Sr. Se­cre­tário, a po­lícia antes zela pelos ino­centes en­vol­vidos nas con­fusões. Os po­li­ciais, Sr. Se­cre­tário, são pagos para isso. A in­te­gridade física dos homens da lei vêm depois da in­te­gridade física dos ino­centes no local. Eu nunca vi um caso nos Es­tados Unidos que o po­licial pegou uma das ví­timas e a usou como escudo humano. Alguém ai já ouviu ou leu algo do tipo? Hein? Hein? Agora, se o mar­ginal usa a vítima como escudo, a força po­licial nor­mal­mente faz a se­gu­rança do local até a chegada da SWAT. Não atira em carros sem saber quem dentro dele é bandido ou vítima.

O Rio de Ja­neiro é re­al­mente um re­a­lismo fan­tástico. O que acontece na­quela cidade precisa de um ca­pítulo próprio nos livros de an­tro­po­logia. Vai ver, sei lá, não é apelas cul­tural a di­fe­rença da­quele povo. Talvez en­volva hormônios, algo já bi­o­lógico, que faça o ca­rioca ver um si­mu­lacro da realidade. 

Fatos não são tão fáceis de ma­ni­pular como as versões. O que o Bel­trame quer é mudar a re­a­lidade mundial para salvar a própria pele e o cargo. Eu digo para ele não se pre­o­cupar. Quem foi a última au­to­ridade con­denada pelos crimes de res­pon­sa­bi­lidade? Não me lembro. Mas por amor ao mínimo de hu­ma­nidade e in­te­li­gência que nos resta, o Se­cre­tário de Se­gu­rança do Rio de Ja­neiro po­deria cultiva o si­lêncio. Cala a boca, Beltrame!

Atu­a­li­zação: Diz a Constituição:

Art. 144. A se­gu­rança pú­blica, dever do Estado, di­reito e res­pon­sa­bi­lidade de todos, é exercida para a pre­ser­vação da ordem pú­blica e da in­co­lu­midade das pessoas e do pa­trimônio, através dos se­guintes órgãos: (entre eles a po­lícia militar)

Bom, só depois disso que todas as outras dis­po­sições da Po­licia Mi­litar vêm. Elas pre­cisam res­peitar o pa­rá­grafo a cima. Já que os po­li­ciais mi­li­tares do RJ tem de­fi­ci­ência pra en­tender o que está es­crito, vamos lá:

In­co­lu­midade
Da­tação
1713 cf. RB

Acepções
■ subs­tantivo fe­minino
1 qua­lidade ou con­dição de in­cólume
1.1 isenção de perigo, de dano; se­gu­rança
1.2 Ru­brica: di­reito penal.
si­tuação do que está pro­tegido e seguro (fa­lando de bens que se quer proteger)

Mais:

In­cólume
Da­tação
1702 cf. NumVoc

Acepções
■ ad­jetivo de dois gê­neros
1 sem lesão ou fe­ri­mento; livre de dano ou perigo; são e salvo; intato, ileso
Ex.: voltou da ba­talha i.
2 que per­manece igual, sem al­te­ração; bem con­servado, inal­terado
Ex.: saiu do ne­gócio com a re­pu­tação i.

Bom… vamos ver como o Bel­trame escapa dessa.

Não somos diferentes e nem tão iguais para eles

Como é bonito ver o Marcos Pontes (o turista-​espacial-​patrocinado-​pela-​petrobrás) fa­lando no Dis­covery Channel como se re­al­mente fez algo além de ficar sentado no fo­guete. Mas isso é só uma divagação.

Vol­temos. Não sei se estão acom­pa­nhando o no­ti­ciário, mas acon­teceu dois as­sas­si­natos nos quais as ví­timas, “de classe média”, foram mortas por po­li­ciais em si­tu­ações im­becis. A pri­meira do Daniel Duque, al­vejado a queima-​roupa por um po­licial. A se­gunda acon­teceu hoje, um menino de 3 anos, al­vejado na nuca. 

Antes disso, 3 ra­pazes foram co­var­de­mente dei­xados por mi­li­tares numa favela rival e, bem, exe­cu­tados por tra­fi­cantes. Três crimes hor­ríveis, sim. Os cul­pados devem ser pu­nidos, sejam eles po­li­ciais, mi­li­tares ou os sempre fo­ra­gidos tra­fi­cantes. En­tre­tanto, enoja-​me a atitude das tais au­to­ri­dades, tão di­fe­rentes nos casos acima citados.

Os ra­pazes do morro da pro­vi­dência mor­reram entre os dias 1415 de junho. Já no dia 17, dois dias depois, o mi­nistro Nelson Jobim já estava no morro pe­dindo des­culpas em nome do estado para os pa­rentes. Uma semana depois, o Ape­deuta Lula também estava lá pe­dindo des­culpas. Ne­nhuma das ví­timas “de classe média” re­cebeu nem um me­mo­rando dessas au­to­ri­dades. Por que será?

Eu vou tentar res­ponder a essa per­gunta. Parece que tanto o Jobim quanto o Luís Inácio não gostam de en­carar pessoas es­cla­re­cidas. O de­sabafo do pai do menino de 3 anos é de­ses­pe­rador. Mesmo ainda na dor de saber que seu filho estava morto, ele con­segue fazer as per­guntas certas. Eu quero ver Jobim e Lula ex­pli­carem para esse pai por que ele paga seus im­postos e tem sua fa­mília exe­cutada “por engano”. Como os po­li­ciais con­fundem um Tipo com um Palio We­ekend? Da mesma forma que gos­taria de ver eles ex­pli­carem porque Daniel morreu su­pos­ta­mente por causa de uma garota. Como um po­licial mi­litar, que fazia ga­rantia a se­gu­rança da fa­mília de uma pro­motora há oito anos viu numa briga de bar uma ameaça tão séria quanto um grupo de ex­ter­mínio do Co­mando Vermelho?

Lula e Jobim não apa­recem porque só há uma res­posta para tudo isso: ine­fi­ci­ência es­tatal, cor­rupção e crime de res­pon­sa­bi­lidade, no mínimo. E o Rio de Ja­neiro (o ce­nário de todas essas tra­gédias) é o ápice dessa vi­o­lência contra o ci­dadão comum. Não bas­tassem os mar­ginais, cri­mi­nosos que in­festam as fa­velas ca­riocas, ainda pre­cisam lidar com uma po­lícia re­gular que produz tanto mal quanto os ban­didos mais ordinários. 

É in­crível a ter­rível ca­pa­cidade do Brasil pro­duzir tra­gédias desse porte. Mais ma­cabro ainda é ver a morte sem sentido de uma criança marcar o pri­meiro dia das cam­panhas elei­torais. O que essa gente pro­meterá nessas eleições? Mais se­gu­rança? Mais rigor? Quem acredita nisso? Ao que parece, a força pú­blica, em es­pecial a ca­rioca, só sabe com­bater dois tipos de ban­didos e colocá-​los na cadeia: as pessoas que fumam e as que bebem dois copos de chopp. Es­tamos lascados.