Os incríveis erros do G1

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Estagiários fazendo o que melhor sabem

Es­ta­giários fa­zendo o que melhor sabem

Dis­cu­tindo com meu antigo pro­fessor, deparei-​me com uma si­tuação ini­ma­gi­nável. Disse ele, “essa nova ge­ração é in­capaz de aprender”. Tomei pri­meiro como uma brin­ca­deira normal entre ele, um edu­cador pro­fis­sional, e eu, alguém que pagou seu cur­sinho en­si­nando muitos outros a como entrar no IME e no ITA. Porém, ele falava sério. A ge­ração atual parece in­capaz de reter co­nhe­ci­mento, e muito menos de con­seguir seguir sobre os pró­prios passos o ca­minho da educação.

Creio que em cinco anos eles es­tarão no mercado de tra­balho. Em dez, nem serão mais es­ta­giários. O pes­si­mismo me abala quando penso na si­tuação. Hoje mesmo, nos mais va­riados locais, há uma amostra do amanhã. Sinto mais quando vejo que o jor­na­lismo, uma área de ex­ce­lência das letras (apesar dos pe­sares), agora é medida por baixo, e não pelos me­lhores co­lu­nistas ou jornalistas.

Todos os bons es­cri­tores do Brasil tra­ba­lharam de alguma forma em jornais (e os ruins também). Garcia Marquez, Sa­ramago, He­mingway também. Outros tantos pro­fes­sores. Mas a tra­dição perdeu espaço. Não porque aqueles bons na es­crita não queiram um em­prego numa pu­bli­cação. A razão deve ser outra, embora eu re­al­mente não a en­xergue. E o pro­blema está aqui, é real e os veí­culos pa­recem des­co­nhecer a ex­tensão dessa crise. E o melhor exemplo disso é o melhor jor­na­lismo bra­si­leiro, o da Globo.

Há dois anos a Globo lançou o portal G1 de no­tícias. Ai afunila-​se todo o con­teúdo jor­na­lístico pro­duzido pela em­presa. Essa abran­gência visava, claro, fa­ci­litar a cir­cu­lação das no­tícias. En­tre­tanto, esse pro­pósito foi so­lapado por outro: a de reunir num mesmo lugar tudo o que o jor­na­lismo na­cional produz de ruim. Claro, todos os as­pectos da vida possuem coisas boas e más, o pro­blema é quando essa última sobressai.

Tento mostrar com alguns exemplos essa questão, mas o pro­blema é imenso. Ao menos uma chamada por dia do portal está cheia de erros pri­mários, tanto de re­dação como de gra­mática. Sobre a arte do jor­na­lismo, nem se fala. É um tra­balho in­grato, mas pior é pre­cisar ler tudo isso diariamente.

É es­pantoso a falta de vo­ca­bu­lário dos es­ta­giários do portal. Eles ouvem algo e acham que é sinônimo de algo, per­dendo to­tal­mente a ironia de certos co­men­tários in­ternos entre jor­na­listas. Nessa ma­téria sobre car­naval, o estagiário-​reporter não con­seguiu falar com a de­le­gacia para, enfim, ve­ri­ficar a his­tória apurada e assim publicá-​la, mas ele usa o verbo re­per­cutir para ex­pressar essa ação.

Matéria que faz uso errado de verbos

Ma­téria que faz uso errado de verbos

Re­per­cutir tem duas acepções no Houaiss, “refletir(-se), reproduzir(-se) [som e luz]” ou “causar im­pressão ge­ne­ra­lizada”. Até mesmo no Di­ci­o­nário Aulete, que não é lá essas coisas, aparece as de­fi­nições. De acordo com Dório Victor, o G1 não con­seguiu falar a de­le­gacia para que o causo dos sam­bistas im­pres­si­o­nasse, ti­vesse con­seqüências ou cau­sasse co­men­tários. Pela ética jor­na­lística, ele nem de­veria ter pu­blicado a his­tória sem confirmação.

Outra ma­téria de Daniel Bu­arque (que não presta ho­me­nagem alguma ao so­brenome) fala do re­fe­rendo na Ve­ne­zuela. Bom, no tal re­fe­rendo há duas es­colhas, o “sim” ou o “não”. Mas olhe que, para ele, há so­mente a al­ter­nativa “Sim”. Ou seja, será Daniel um agente da re­vo­lução bo­li­va­riana que tenta de ma­neira sub-​limiar con­verter os lei­tores ou apenas um re­dator des­cuidado? Uma ob­ser­vação in­te­res­sante é a per­ma­nência do ne­o­lo­gismo re­puita, algo nunca visto por mim antes e sem re­fe­rência no manual do novo acordo ortográfico.

Coisa errada

Duas opções, sim e sim, e o famoso verbo “repuitir”.

Pior ainda é o in­fo­gráfico sobre o so­ci­a­lismo do portal, ainda em es­panhol. Oras, se o site é bra­si­leiro, porque não tra­du­ziram para o por­tuguês? O que diabos é “co­gollos re­pre­sen­tantes”?

O mais grave, en­tre­tanto, con­tinua sendo a ad­je­ti­vação. Não sei a razão, mas as­sas­sinos, mesmo depois de con­de­nados, ou mortos em troca de tiros com a po­licia ou entre eles mesmo, são sempre sus­peitos. No caso de Césare Bat­tisti, isso vai ainda mais longe. Notem que o portal diz que ele é “acusado de ter­ro­rismo”. Não é não. Ele foi con­denado por ter­ro­rismo, ter­ro­rista é, as­sassino é. Apesar disso, os re­pór­teres do portal co­var­de­mente (ou será apro­xi­mação ide­o­lógica) não men­cionam o atual estado do ci­dadão italiano.

Mesmo condenado, ele ainda é suspeito?

Mesmo con­denado, ele ainda é suspeito?

Nem quando a si­tuação é es­can­dalosa a coisa me­lhora no portal. Du­rante o quebra-​quebra pro­movido na Favela de Pa­rai­só­polis em São Paulo, o G1 foi in­capaz até de iden­ti­ficar o bandido morto que deu origem ao con­fronto. Por todas as re­por­tagens você lê se­mente um su­posto bandido, mesmo que ele con­denado e fo­ragido da prisão. Se você não souber o nome dele, Marcos Purcino, nunca en­con­traria nada no portal. Aliás, só há duas ma­térias, ori­gi­nadas na Agência Estado e re­pro­duzida pelo G1. Em com­pen­sação, há cen­tenas sobre o con­flito sem men­cionar o bandido con­denado em questão. Veja por si mesmo.

Há outros casos es­can­da­losos onde as­sas­sinos con­fessos são apenas acu­sados. Eles não negam a au­toria do crime, como o Gil Rugai, por exemplo. São casos di­fe­rentes que re­cebem o mesmo tra­ta­mento de uma fofoca de ce­le­bri­dades. “Luana Pi­o­vanni pode estar com um ca­sinho novo com fulano de tal”. Não há mais pesos nas re­dações. Não há in­ves­ti­gação. Não há pro­fis­si­o­na­lismo nem com­pro­misso em buscar a verdade, nem mostrar o fato real. O G1 mostra que serve apenas para re­trans­mitir uma in­for­mação dada por ter­ceiros. Como já disse antes, falta co­ragem para ve­ri­ficar a verdade, seja na guerra ou na rua do lado.

Isso cria uma si­tuação inu­sitada. Ao invés de tra­balhar para fazer jus ao sa­lário e a pro­fissão, o jor­na­lismo virou apenas uma cesta de vai­dades. Blogs na rede fazem uma co­bertura mais com­pleta que o jor­na­lista pro­fis­sional. Diante da sua própria falha, o jor­na­lista tenta ocultar as novas in­for­mações, ou fingem que elas nem existem. An­ti­ga­mente, a com­pe­tição mo­tivava esse pessoal. Se fulano me passou a perna, faria tudo para dar o troco. A me­di­o­cridade assola as mesas dos jornais. Só não en­tendo como os res­pon­sáveis pelo maior jornal do país aceitam tão baixo padrão, muito aquém do tão di­fundido Padrão Globo de Jornalismo.

A morte do antigo di­retor do De­par­ta­mento de Jor­na­lismo da Globo, Evandro Carlos de An­drade, pode ter pi­orado a si­tuação geral. O atual, Carlos Hen­rique Sch­roeder, não sei por qual razão parece dis­tan­ciado da re­a­lidade que assola essa área da em­presa. O G1, nesse con­texto, aparece como um produto final da si­tuação que se ar­rasta por anos. A Globo News, essa sim, foi afetada e perdeu em muito a qua­lidade que um dia teve, sendo hoje só um vale a pena ver de novo per­ma­nente de no­tícias velhas. Ambos pa­recem ví­timas de espaço re­duzido, embora tanto a tv a cabo quanto a in­ternet ofe­reçam pos­si­bi­li­dades ili­mi­tadas nesse sentido.

Resta saber se algum acon­te­ci­mento abalará esses fracos ali­cerces. Não, não será a com­pe­tição da Band News ou da si­miliar Record News. Resta a Globo aprender com as con­cor­rentes e de­finir uma linha edi­torial. Um ma­terial tão di­ver­si­ficado termina uma por­caria. Minha maior cu­ri­o­sidade é saber quais sites esses novos re­pór­teres, jor­na­listas e es­ta­giários entrem du­rante seu tra­balho. Não me ad­mi­raria que os da Escola Dines de Não Fazer Jor­na­lismo fossem os pri­meiros na lista.

Foto: A Hermida

Miss Saigon: Um Opereta de Malandro

Kim e Chris

Kim e Chris

Ino­cente, as­sisti ao mu­sical Miss Saigon, a pro­dução in­ter­na­cional, em cartaz no Teatro Abril em São Paulo. Foram três horas de tortura e mas­sacre. Três horas as­sis­tindo ao pior que a raça bra­si­leira têm a ofe­recer. Três horas de mar­tírio, tristeza e me­lan­colia. E isso nada tem com a his­tória. Miss Saigon, obra ba­seada em Madame But­terfly, é uma tra­gédia linda. Mas a adap­tação bra­si­leira (que só pre­cisou tra­duzir o texto ori­ginal e mais nada) é me­díocre, baixa, vil, gay e por aí vai.

Mas eu de­veria des­confiar. Cláudio Bo­telho, o tal “mago dos mu­sicais” (leia-​se trans­forma tudo em merde, com di­reito a um eu­fe­mismo afran­cesado), já des­truíra My Fair Lady. O Eduardo me con­vidou para as­sistir, mas nem morto eu iria. Nessa apre­sen­tação no Teatro Alfa, meu bom amigo já an­tevia o que eu en­fren­taria essa semana no Teatro Abril:

E agora, a peça My fair lady ganhou uma adap­tação bra­si­leira, que me pa­receu meio in­sensata. É di­fícil adaptar peças da Bro­adway sim­ples­mente porque eles fazem peças per­feitas. E quando se imita algo que é per­feito, suas duas opções são: fazer igual ou fazer pior. É risco demais. — Eduardo Mineo

E Bo­telho sempre es­colhe a se­gunda opção.

Então o leitor se per­gunta “mas Le­febvre, eu não acredito que você foi as­sistir isso pen­sando no ori­ginal. Não foi, né?”. E eu res­pondo, fui sim. Estava lá na si­nopse bra­si­leira. Olha lá, no final, depois de in­for­mações im­por­tantes como os 500 fi­gu­rinos con­fec­ci­o­nados no Brasil, as oito trocas de ce­nário, os 336 sa­patos feitos sob medida, além de apro­xi­ma­da­mente 500 aces­sórios como chapéus e cintos. Diz: “Miss Saigon já ganhou 30 dos maiores prêmios te­a­trais do mundo, in­cluindo três Tony Awards, quatro Drama Desk Awards, três Outer Critics Circle Awards e um Theatre World Award. O mu­sical ficou mais de uma década em cartaz no West Wend e na Broadway.”

Mas não era nada disso. Não foi como eu pensei.

Essas pro­duções in­ter­na­ci­onais são com­pli­cadas. Tudo precisa ser igual ao ori­ginal. As atu­ações, os ce­nários, as mu­sicas. Tudo, tudo. De três em três meses os ame­ri­canos vêm ins­pe­cionar a adap­tação. In­fe­liz­mente, o texto precisa ser tra­duzido (por mim deixava no ori­ginal também, sou contra até le­gendas no cinema) e novos atores entram em cena. Bem, vamos de­vagar ou perco a pena.

Toda tra­dução não é a obra ori­ginal. É uma obra de co-​autoria entre o autor ori­ginal (morto ou não) e o tra­dutor. Toda tra­dução pode ser ava­liada. Boas tra­duções são aquelas que pegam o es­pírito da obra, o estilo do autor, as brin­ca­deiras lingüís­ticas do texto e con­seguem trans­mitir todos esses as­pectos em outra língua. Não é fácil. O tra­dutor precisa ser muito bom, mas bom mesmo, nos dois idiomas para ter su­cesso. Não pode ter pre­guiça. Precisa ler e reler tudo um monte de vezes. Isso só na li­te­ratura. Em mu­sicais, além de tudo isso, o cara também precisa saber de música. Não é só tra­duzir, mas adaptar a tra­dução à música, o que é mais di­fícil ainda. 

Cláudio Bo­telho não parece ter ne­nhuma das ca­rac­te­rís­ticas para o tra­balho. Em Miss Saigon as­sis­timos a uma prova da pre­guiça tro­pical e do mal-​gosto de certos se­tores da cultura brasileira. 

The American Dream - Miss Saigon

The Ame­rican Dream — Miss Saigon Brasil

Pri­meiro, a falta de cultura. Miss Saigon é uma tra­gédia. Sim, há mo­mentos cô­micos, mas é uma tra­gédia, Cristo Santo. E, além de tra­gédia, é uma triste his­tória de amor he­te­ros­sexual. No Brasil aparece homem vestido de sado-​maso bei­jando outro cara no palco. Fica ter­rível ver um monte de sol­dados mais pra lá do que pra cá dentro de um bordel. Os gays de­mo­raram anos para con­quis­tarem o res­peito que me­recem. Mas agora, aqui, in­sistem em co­locar algo que pensam ser uma certa cultura gay onde não cabe. Tenham dó. Vão en­cenar Oscar Wide então. 

Se­gundo, o bra­si­leiro trans­forma tudo em co­média. Credo. Isso está en­raizado na gente. Não tem como Escapar.

E há outras falhas gro­tescas, essa a minha prima pegou. A Kim (a pro­ta­go­nista), é vi­et­namita e bu­dista. Mas lá pelos tantos diz “pela Cruz, bla bla bla”. Como assim, “pela Cruz”? Desde quando nos anos 70 o Bu­dismo ab­sorveu o Cris­ti­a­nismo? Será esse o musical-​do-​crioulo-​doido?

En­tre­tanto, so­frível mesmo é a tra­dução de Bo­telho. Parece in­com­pe­tência mudar tanto o sentido ori­ginal. Quem sabe, o coi­ta­dinho apenas não é capaz de en­tender inglês di­reito. Ok. Mas nas rimas ele mostra que re­al­mente nada en­tende de por­tuguês. Nas rimas é onde a pe­quenêz bo­te­lhana salta aos olhos (ou ou­vidos, escolha).

Se a pri­meira rima termina em “mim”, saiba que se­guirão as se­guintes pa­lavras du­rante mi­nutos in­teiros: enfim, assim, sim, “verbos con­ju­gados com ter­mi­nação em im”, mim (de novo, várias vezes), enfim-​assim-​sim (de novo várias vezes). Se termina em “eu” (pronome), lá vai “meu”, “seu” e verbos con­ju­gados com ter­mi­nação em “eu”. Se termina em “Deus” (oh, god, aposto muito usado em inglês), as opções acabam e al­ternam as pa­lavras “meus”, “eus”, “seus” indefinidamente.

Depois de dez mi­nutos o meu cé­rebro desligou.

Um mu­sical é a com­bi­nação de música, canto, diá­logos fa­lados e dança. A emoção (humor, alegria, tristeza, drama, etc.) é trans­mitida através da própria his­tória, da música, das canções, dos mo­vi­mentos e dos as­pectos téc­nicos (como ilu­mi­nação, ce­nário, efeitos vi­suais, etc.). Isso é o básico.

Rimar em inglês parece mais prático. É da na­tureza da língua. Já em por­tuguês, talvez seja mais tra­ba­lhoso, nunca mais fácil. Rimas como essas usadas por Bo­telho são cha­madas de “rimas pobres”. Isso porque não mudam as funções das pa­lavras ri­madas e sempre no fim da sen­tença, não porque é ruim. “Rima rica” são aquelas que juntam pa­lavras de funções di­fe­rentes, em partes di­fe­rentes da frase. Essas são mais tra­ba­lhosas, mas não quer dizer que são me­lhores que as outras. 

Em mu­sicais e óperas as rimas são bem tra­ba­lhadas. Muito tempo de uma ou de outra cansa os ou­vidos. Não há esse cuidado em Miss Saigon. Fico ima­gi­nando razões hi­po­té­ticas. Se Bo­telho tiver um ca­chorro, será que este queria fazer xixi e logo ele pensou “vou enfiar uns mim’s aqui que tá bom, já fui pago mesmo”. Para ve­ri­ficar a mé­trica dos versos será que ele pegou as par­ti­turas e gritou “amor, pega a régua pra mim”? Não gosto de ser agressivo, mas diante do que vi e ouvi, so­mente um de­sapego com­pleto do pro­fis­sional ex­pe­riente pode ex­plicar tantos erros. Ele deu de ombros. Ou isso ou Bo­telho nem é pro­fis­sional, nem têm ex­pe­ri­ência de verdade. Não de­veria ter aceito a tra­dução do mu­sical. Mas não adianta, os pro­fis­si­onais de cultura no Brasil pa­recem mais membros de um cartel.

E como isso atra­palhou os atores. Eles estão até de pa­rabéns. Não perdem uma deixa. “Fazem das tripas, co­ração, para cantar a ter­rível tra­dução”. In­di­vi­du­al­mente, fazem o seu papel com emoção e energia.

Claro que isso seria per­feito se Miss Saigon não fosse com­posto por duetos e corais

Duetto é quando dois can­tores exe­cutam juntos a canção. Em Miss Saigon temos mo­nó­logos so­bre­postos. Di­fícil prestar atenção no outro cantor? Parece que sim. Nenhum dos atores parece ter o co­nhe­ci­mento técnico para ali estar. Aliás, nenhum ator con­se­guiria com­pletar um étude simples. Mas aí é querer demais, Le­febvre. Mu­sical no Brasil é coisa para Ju­liana Paes.

Enfim, Miss Saigon é qualquer coisa bra­si­leira, mas nada que po­deria re­ceber o nome ori­ginal. O texto é ruim, as danças não possuem sin­cro­nismo, os atores não con­vencem, os corais não trans­mitem emoção.

O ponto máximo da peça, a música The Ame­ricam Dream, fica com­ple­ta­mente sem sentido por causa da péssima tra­dução. Para en­tender os passos da co­re­o­grafia é preciso re­correr à versão ori­ginal, ou você nada en­tende. Miss Saigon, aqui, é apenas mais um es­pe­táculo vulgar (muito vulgar), ape­lativo e caro. Sinto como se ainda vi­vesse em 1700, quando os In­gleses nos vendiam esquis no Rio de Ja­neiro. Um par de esqui é bem bonito, mas qual é a uti­lidade para nós? E para ar­ranjar alguma forma de se mostrar, e de mostrar o ta­manho do poder aqui­sitivo, alguns bra­si­leiros fazem coisas bi­zarras. Miss Saigon é uma delas. Miss Saigon é uma ex­pe­ri­ência humana bizarra.

E, in­fe­liz­mente, não é a última.

Bagno, Marcos - A Norma Oculta

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Foco!

Foco!

Marcos Bagno é doutor em lingüística e pro­fessor da UNB. Seus livros são fi­guras certas nas aulas dos cursos de co­mu­ni­cação. Pos­si­vel­mente, é o pri­meiro de dis­cussão da língua que o gra­duando toma co­nhe­ci­mento. É ine­gável que A NORMA OCULTA suscita pontos im­por­tantes na re­flexão, nosso modo de falar e in­te­ragir so­ci­al­mente com os outros falantes.

En­tre­tanto, assim como é pro­vo­cadora, a obra pode en­ganar os menos acos­tu­mados ao tema (e que por sinal, é maioria dos alunos de uni­ver­si­dades). Talvez o melhor mo­mento para abordá-​lo fosse a partir do 3º se­mestre, quando o es­tu­dante já ad­quiriu o mínimo da ba­gagem teórica. Nem sempre o de­se­jável é o ro­ti­neiro, por isso tomo a au­to­ridade dada a mim por Bagno (afinal, como ele diz, sou um fa­lante da língua e, por­tanto, es­pe­ci­a­lista no as­sunto) para des­trinchar os pre­con­ceitos e erros que apa­recem cons­tan­te­mente dentro do livro. De outra forma, os des­lizes po­deriam sim­pli­ficar demais o ra­ci­o­cínio dos que de­sejam co­nhecer mais os es­tranhos sons que pro­nun­ciamos diariamente.

Antes de mais nada, de­vemos ob­servar que Marcos Bagno de A NORMA OCULTA não é um pro­fessor in­te­ressado em de­sen­volver o senso crítico de ninguém. Ele está mais para um com­ba­tente. Está em guerra com os gra­má­ticos. E como das guerras só saem per­de­dores, Bagno destrói tudo e a todos, não dei­xando pedra sobre pedra para a de­mo­cracia que visa ins­taurar. Na ten­tativa de acabar com um pre­con­ceito real, ele im­pos­si­bilita o leitor de ad­quirir algo muito mais im­por­tante do que um simples pan­fleto dou­tri­nário: pensar di­reito – a única arma eficaz contra o mundo in­justo traçado pelo autor.

O VALOR DA LETRA “S”

A NORMA OCULTA pre­tende ra­ci­o­cinar sobre língua e poder na so­ci­edade bra­si­leira. De acordo com o autor, o último reduto do com­por­ta­mento pre­con­cei­tuoso é a dis­cri­mi­nação através da língua: falar ou não errado, usar ou não a norma culta gra­ma­tical. Ao cri­ticar falhas de mor­fos­sintaxe no dis­curso ou texto de uma pessoa, o que está por trás desse “cor­re­ci­o­nismo” é a ten­tativa da classe do­mi­nante bra­si­leira em manter a de­si­gualdade econômico-​social no país.

O livro começa e termina uti­li­zando como exemplo a re­cepção do pre­si­dente bra­si­leiro Luiz Inácio na grande im­prensa. Vários ar­ti­cu­listas re­la­cionam o “re­la­xismo lingüístico” do pre­si­dente com uma pos­sível falta de cultura e ca­pa­cidade para co­mandar a nação.

Eles in­sistem em fo­ca­lizar os erros de con­cor­dância de Lula e sua forma simples (ou sim­plória?) de se ex­pressar. Para Bagno, isso nada mais é uma es­tra­tégia po­lítica contra a imagem da­quele e o que ele re­pre­senta (po­li­ti­ca­mente) na his­tória bra­si­leira. É fácil ver isso no tom do dis­curso de Bagno, enal­te­cendo a vi­tória nas eleições de 2002: (os grifos são meus, a não ser que eu diga o contrário)

“Seria uma ilusão supor que uma vi­tória como foi a de Lula nas eleições de 2002 bas­taria para que o pre­con­ceito lingüístico de­sa­pa­re­cesse de vez da nossa sociedade” – Pag. 15

“A his­tória pessoal de Lula é, sem dúvida, uma re­vo­lução “quase mágica”, mas é uma re­vo­lução in­di­vidual, par­ti­cular, digna de as­sombro, é claro, num país tão in­justo quanto o nosso.” – Pag 38

Para mostrar o erro da im­prensa, Bagno usa como exemplo pessoas con­si­de­radas “letradas” – como outras ma­térias “res­pei­tadas” vei­cu­ladas em jornais (pág 26) – que também co­metem os mesmos “erros”, pro­vando, em tese, a nu­lidade desses julgamentos.

“Em ambas as co­lunas, Dora Kramer deixa bem claro seu total des­preparo para tratar desses as­suntos, uma vez que fala de “plural e con­cor­dância verbal” e de “lições de plural e con­cor­dância” como se fossem duas coisas dis­tintas, como se as regras de plural não fi­zessem parte das regras de con­cor­dância (verbal e no­minal), como de fato fazem.” – Pág 22.

Porém, lem­bremos que Bagno tenta de­sa­cre­ditar a opinião dos jor­na­listas usando o mesmo jul­ga­mento: eles também co­mentem erros e não sabem do que falam. As crí­ticas ne­ga­tivas contra o Lula valem-​se do mesmo teor: lula não tem co­nhe­ci­mento para isso ou aquilo, por­tanto é in­capaz de fazer isso ou aquilo. O que o autor não ex­plica é por que formas de análise se­me­lhantes são vá­lidas no caso dele, mas não nos dos jor­na­listas. Por que Lula pode go­vernar o Brasil na base de tra­pa­lhadas e o jor­na­lista não pode, também atra­pa­lhado, tentar ana­lisar a língua? Mais, por que le­va­ríamos a sério em livro cheio de tra­pa­lhadas mesmo de um autor dou­torado e vacinado?

“As ob­ser­vações da jor­na­lista, por­tanto, de­monstram a atitude au­to­ri­tária de quem se acha com o di­reito de opinar e propor le­gis­lação sobre o que des­co­nhece, apenas por re­ve­renciar o senso comum, sem criticá-​lo com ins­tru­mento teórico ade­quado: não sendo lingüista nem pe­dagoga, com que fun­da­men­tação ela pode sus­tentar suas pro­postas de re­visão dos cur­rí­culos escolares?” – Pág. 23.

O mais in­crível é o Lula ter pleno do­mínio da norma culta. No dia a dia, ele atua nos pa­lanques usando a lin­guagem dos menos edu­cados. En­tre­tanto, nos dis­cursos em 2005, depois da crise no go­verno, quando in­flamado e sem ro­teiros para seguir, Lula de­monstra saber falar muito bem, fle­xi­o­nando os verbos cor­re­ta­mente, usando os co­nec­tivos de forma apro­priada, etc, etc, etc. Lula não é mais parte do povo comum: ele se educou lingüis­ti­ca­mente, ainda que te­nhamos sérias dú­vidas se o fez cul­tu­ral­mente. A qua­lidade veio depois da autoridade.

PRECONCEITO DE QUEM, CARA PÁLIDA?

O pre­con­ceito oculto detrás do pu­rismo gra­ma­tical é ver­da­deiro. Ele existe, ponto. En­tre­tanto, pensar que todo pu­rismo é um ato dis­si­mulado de pre­con­ceito é lo­gi­ca­mente errado. E também vemos isso na prática. De­fender a língua não sig­nifica me­nos­prezar quem não pôde con­cluir os es­tudos ou não teve con­dições ou vontade de se ins­truir por conta própria. Imagine se a li­te­ratura fosse en­gajada na uni­ver­sa­li­zação do falar mal.

Que ninguém se iluda: só a leitura in­tensa permite co­nhecer os múl­tiplos re­cursos da língua e usá-​los com efi­ci­ência, sem a de­coreba gra­ma­ti­queira“
Marcos Bagno

Porém, du­rante a obra, somos le­vados a crer que se não o é sempre, na maioria dos casos é pre­con­ceito (cons­ciente ou inconsciente).

“(…) em boa medida, nós somos a língua que fa­lamos, e acusar alguém de não saber falar sua própria língua ma­terna é tão ab­surdo quanto acusar essa pessoa de não saber “usar”corretamente a visão (isto é, afirmar o ab­surdo de que alguém é capaz de en­xergar, mas não é capaz de ver) ou o olfato (isto é, afirmar o ab­surdo de que alguém é capaz de sentir o cheiro, mas não de aspirá-​lo).” Pág. 17 [grifos do autor].

Se Marcos Bagno é doutor em lingüística, de­veria comprar um livro de lógica básica (bem como um de fi­lo­sofia). As duas ana­logias são er­radas de qualquer ponto de vista. Pri­meiro, elas não se equi­valem. Se assim fosse, o “ab­surdo” seria alguém ver e não ser capaz de deixar a luz entrar na retina; ou alguém ser capaz de as­pirar e não con­seguir iden­ti­ficar o cheiro.

Isso porque “en­xergar” não é sinônimo de “ver”. Quando as pa­lavras perdem o seu poder sim­bólico (fruto da falta de leitura e cultura) criam, aí sim, pro­po­sições ab­surdas como essas.

En­xergar se re­la­ciona com o ato fi­si­o­lógico. Se você tem o globo, a retina e demais partes do sistema ocular bem for­mados, você poderá en­xergar. En­tre­tanto, um daltônico recebe a luz verde na retina. Por uma série de fa­tores, vê ver­melho. Ou um es­qui­zo­frênico, que vê alu­ci­nações mas não en­xerga os monstros (não há fi­si­ca­mente ne­nhuma imagem na retina).

Falar e dizer seguem a mesma linha. Lula, por exemplo. Fala que foi traído, mas não diz quem foi. Uma pessoa pode falar du­rante horas mas não dizer nada, i.e., seu dis­curso não tem ne­nhuma in­tenção, não transmite qualquer dado re­le­vante para o as­sunto em questão. Também ler. Qualquer pessoa al­fa­be­tizada é capaz de in­ter­pretar os ca­rac­teres em um livro do Sartre, mas só alguns terão a ba­gagem ne­ces­sária para en­tender o que ele quis dizer.

LÍNGUA É PODER

A NORMA OCULTA não con­segue acabar com os pro­blemas que se propõe a ex­pli­citar. Muito menos desnudá-​los de forma correta. Du­rante todo o livro Bagno usa as mesmas si­tu­ações para ilustrar va­lores opostos. Tudo parece ser re­lativo. Sua missão é jus­ti­ficar sua luta contra os gra­má­ticos e, no fim, também jus­ti­ficar uma postura po­lítica pessoal.

Ao acusar uma “elite pri­vi­le­giada” de “oprimir” os bra­si­leiros “ví­timas de anos de de­si­gualdade”, Marcos deixa de ana­lisar os pro­blemas es­tru­turais que le­varam e levam o povo a des­co­nhecer as regras gra­ma­ticais da língua portuguesa.

Na página 124, lê-​se que nas so­ci­e­dades onde a cultura es­crita é oni­pre­sente, existem ins­ti­tuições que inibem as forças de mu­dança da língua. O autor es­quece de dizer (in­ten­ci­o­nal­mente?) que essas so­ci­e­dades são as mais ricas, de­mo­crá­ticas e justas – além de terem enorme in­fluência econômica, social e cul­tural nos países de ter­ceiro mundo.

Esse poder nasce quando há opor­tu­ni­dades para povo ter acesso a uma boa edu­cação. Ao tentar jus­ti­ficar a falta dessa edu­cação no Brasil, Bagno presta um des­serviço ao país. Ao invés de lutar para que as pessoas evoluam, ele parece querer que as res­peitem pela sua ig­no­rância, e não “apesar da”. Neste caso, não é só válido – é fun­da­mental esse res­peito para existir uma de­mo­cracia. Mas na­quele, ao poupar alguém pela sua in­ca­pa­cidade, to­mamos um ca­minho muito pe­rigoso. Não é apenas uma questão gra­ma­tical. Em última ins­tância, é uma questão de in­te­gridade física: se duas pessoas não sabem se ex­pressar, se eles não se com­pre­endem, ter­minam sempre usando a violência.

Triste e de­cep­ci­o­nante é a obra de Marcos Bagno. A NORMA OCULTA é um livro cheio de erros in­fantis de dis­curso, ra­ci­o­cínio e análise. Não de­veria ser levado a sério, como o fazem várias pessoas. É antes de tudo, para aqueles que sabem pensar, a fa­gulha inicial de uma re­flexão pro­funda sobre o povo bra­si­leiro. Se bem feita, dará grandes frutos. Do con­trário, se se­guirmos a lógica do autor, vol­ta­remos ao jardim de in­fância, quando dis­cu­tíamos fe­roz­mente para de­cidir se o mais feio era eu ou você.

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