Mídia e Ética: Caso Eloá

Memorial do Holocausto
Me­morial do Ho­lo­causto em Berlin, Ale­manha. De­se­nhado pelo ar­quiteto Peter Ei­senman e pelo en­ge­nheiro Buro Happold — Photo by Al­fonso Romay

Qual seria o ver­da­deiro com­pro­misso da mídia? Seria levar a in­for­mação àqueles que a an­seiam? Seria despir o mundo, na ten­tativa de mostrar a sua es­sência? Des­mis­ti­ficar as­suntos na ur­gência de sua dis­cussão? Em suma, mostrar a verdade em meio a con­fusão que é a vida?

Sa­bemos que o com­pro­misso com a busca pela verdade é muito maior do que a verdade em si. Nem mesmo a de­fi­nição de “verdade” é clara, direta, real. Um con­ceito abs­trato, per­so­nagem prin­cipal de lutas fi­lo­só­ficas desde o início dos tempos. Buscá-​la, ao con­trário, sempre foi es­ti­mulado e va­lo­rizado. Nesse as­sunto, o ca­minho sempre foi mais im­por­tante que o destino final.

Então, qual seria a vo­cação ética da mídia? Po­demos entrar fi­nal­mente na questão depois de des­cobrir o que ela sig­nifica. No bom-​senso comum ética seria a im­par­ci­a­lidade no relato dos fatos. Mais, uma au­sência de pré-​julgamentos, um com­pro­misso, antes de tudo, com a busca pelo ver­da­deiro. Por isso, fo­mentar a dis­cussão, o debate, o senso crítico dos in­di­víduos é fundamental.

É ser humano se apai­xonar, chorar, sentir falta, não exe­cutar duas me­ninas a queima roupa.

A teoria só re­flete a prática se espelhar-​se na última. O que en­ten­demos por vo­cação ética da mídia é mais um pen­sa­mento abs­trato, fi­lo­sófico, do que uma re­a­lidade. In­formar, acima de tudo, é se­le­cionar. A im­par­ci­a­lidade não está na di­visão equi­va­lente entre os pontos-​de-​vista dis­tintos. Muito menos na lin­guagem es­téril que, ul­ti­ma­mente, é tão comum na im­prensa. A im­par­ci­a­lidade é uma mentira. Ela não existe. É apenas um mito. E como todos, cada vez que o des­truímos, au­to­ma­ti­ca­mente o reforçamos.

Mas o caso Eloá trouxe al­gumas mu­danças, só não sei se serão de­fi­ni­tivas ou não. Há anos não vejo os veí­culos de co­mu­ni­cação cha­marem as­sas­sinos pelo nome. Nor­mal­mente são “sus­peitos”, mesmo quando presos em fla­grante delito. A mídia não é pro­cu­ra­doria, nem juiz ou júri para con­denar ou ab­solver quem quer que seja. “As­sassino” é apenas o que Lin­demberg es­colheu para sua vida. Não é pro­blema do Jornal Na­cional as es­colhas que ele fez, mas é preciso sim, sem sombras de dúvida, chamar pelo nome a verdade que aparece.

Fo­mentar o debate nunca foi tarefa da mídia. Ela usou esse ar­ti­fício quando as pessoas o re­qui­si­tavam como peça fun­da­mental do discurso.

Não há uma justiça a se pro­curar na mídia, ela só exis­tiste no in­di­víduo. Uma sin­ce­ridade da mídia está no fato dela mostrar que, acima de tudo, só se­le­ciona e compila. Gos­tamos de acre­ditar que esse pro­fis­sional tra­balha por nós – que ele busca a verdade en­quanto o ci­dadão comum preocupa-​se com tra­balho, casa, filhos. Mas isso é um ato so­li­tário e não pode ser de­legado a outros. Acontece dentro da mente de cada um, e so­mente nela. É um exer­cício in­di­vidual e intransferível.

Em casos como esse, fica fácil achar essa verdade, es­pe­ci­al­mente quando ela está gravada em vídeo. Ainda assim, não fal­tarão ana­listas para culpar a mesma mídia pelo des­fecho da his­tória. São apenas te­orias ig­no­miosas, de jor­na­listas que pouco fazem e muito de­dicam a causas ideológicas.

A única vo­cação ética da mídia é manter-​se, é o com­pro­misso com sua so­bre­vi­vência. Houve um tempo no qual essa vo­cação era ex­plícita – era ma­ni­festa porque ur­gente. Aqueles que bus­cavam a in­for­mação o faziam para poder pensar sobre de­ter­minado as­sunto e buscar por si sua es­sência. A par­ci­a­lidade la­tente era ne­ces­sária para mostrar a que a mídia de­fendia, contra quem lutava, qual verdade buscava. Só assim po­deriam levá-​la a sério.

Fo­mentar o debate nunca foi tarefa da mídia. Ela usou esse ar­ti­fício quando as pessoas o re­qui­si­tavam como peça fun­da­mental do dis­curso. Não foi ela quem mudou, mas o pú­blico. Hoje, a ur­gência é de pro­cessos aca­bados, ex­pli­cados, fi­nitos em si. Há muito pouca dis­po­sição para re­fletir sobre um as­sunto. Para so­bre­viver, a mídia se adaptou.

Mas alguma coisa acon­teceu agora. Num ano cheio de tra­gédias, os ver­da­deiros jor­na­listas pa­recem ter acordado. Viram que a escola do Al­berto Dines não con­segue apre­ender a re­a­lidade tal como ela é. O “jor­na­lismo im­parcial” serve a in­te­resses, não à verdade. O pú­blico precisa mais do que meias pa­lavras. E também fica di­fícil fazer eu­fe­mismos quando a vida real é tão cruel, tão mau, tão asquerosa.

A questão não é ex­plicar como a mídia não es­timula o debate, nem o senso crítico do seu pú­blico – nunca foi seu papel. Agora, se qui­sermos ex­plicar como a so­ci­edade baniu a vontade de pensar e ra­ci­o­cinar, po­demos buscar a verdade dentro desses li­mites es­ta­be­le­cidos. E essa verdade é uma das mais fáceis de se des­cobrir. O pro­blema é acre­di­tarem nela — mesmo ela apa­re­cendo ao vivo e a cores em cadeia na­cional de rádio e te­le­visão.
PS: Para quem não en­tendeu a foto com o texto, leia isso.

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Lispector, Clarice. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres.

Estilo é tudo…

Eu de­testo os livros da Clarice, desde que li o pri­meiro. Sempre vi neles não uma es­critora, mas apenas uma autora, ta­lentosa, que não queria ir até onde po­deria. Mas eu tinha algo em comum com ela, o dia do nas­ci­mento. Ela nasceu no dia 10 de de­zembro, eu no dia 11. Por essa “pro­xi­midade”, sempre me in­te­ressei mais pela sua vida do que por suas obras. Pode ima­ginar quão pro­ble­mático é des­gostar de uma das “es­cri­toras” mais im­por­tantes do Brasil? Ainda não é fácil.

Na­quela época, eu só tinha os meus achismos e a minha per­cepção dos seus textos. Do outro lado, di­fe­rente tipos de pro­fes­sores, uns que res­pei­tavam minha opinião, outros que as des­de­nhavam. De qualquer forma, o tempo passou (como diz a Clarice). Minha opinião não mudou, nem a dos outros. Porém, em tempos de Youtube, é fácil ver que eu tinha razão, e não eles. O jeito blasé dela, mis­turado com um ner­vo­sismo in­con­tro­lável atiça a minha ima­gi­nação. Gosto de semear a idéia de que po­de­ríamos ter sido bons amigos, se ti­vés­semos vivido na mesma época. Di­vidir um ci­garro com ela de­veria ser uma ex­pe­ri­ência e tanto. Vamos ao livro.

Uma apren­di­zagem… conta a his­tória de Lo­reley – ou Lóri, como é chamada na maior parte do livro –, uma jovem pro­fessora pri­mária que se es­ta­belece no Rio De ja­neiro depois de sair da casa de sua rica fa­mília na cidade de Campos. Ali, vive de­sin­te­res­sa­da­mente entre as suas aulas e os oca­si­onais na­moros quando então co­nhece Ulisses, pro­fessor de fi­lo­sofia. Então, ele começa a guiar Lóri por uma jornada de auto-​conhecimento, na busca pelo sua ver­da­deira iden­tidade para po­derem co­meçar um re­la­ci­o­na­mento ba­seado em amor e não em aparências.

Para Clarice, não há como viver ple­na­mente sem o au­to­co­nhe­ci­mento. Lis­pector tenta mostrar du­rante a nar­rativa o pro­cesso de ama­du­re­ci­mento psi­co­lógico da per­so­nagem prin­cipal, Lóri. Ori­entada e in­cen­tivada por Ulisses, seu pre­ten­dente, Lo­reley começa a pensar sobre quem ela foi, é e quer ser, em um ca­minho confuso e, para ela, do­loroso. Por fim, Lóri des­cobre o seu Eu, re­sol­vendo im­por­tante parte das dú­vidas que a pre­o­cu­pavam e pode entregar-​se de corpo e alma para Ulisses. Simples assim, rápido mesmo. Clarice não ia nem pedir a minha opinião sobre o livro, porque sa­beria bem o que eu lhe diria.

Vargas Llosa divide a li­te­ratura mo­derna em dois blocos in­qui­e­tantes. O pri­meiro é formado pela li­te­ratura de consumo, aquela que os au­tores só re­petem formas e his­tórias: interessam-​se pela ven­dagem. O outro é a pa­tri­otera, tran­si­gente, que se fecha em si mesma, na crença de que só o iso­la­mento im­pedirá a con­ta­mi­nação do mundo con­su­mista – es­crevem para e entre eles. Clarice Lis­pector encontra-​se no se­gundo grupo, é ela mesma quem diz, mas en­tendi isso de primeira.

Uma apren­di­zagem… faz parte da tra­dição de Clarice. Ela é es­tudada e elo­giada sempre em con­junto, como se um livro au­to­ma­ti­ca­mente le­vasse a outro. Qualquer crítica é obrigada a des­tacar que sua li­te­ratura é in­ti­mista e psi­co­lógica, es­crita para dentro, que se de­sen­volve de obra para obra, mas sempre como um todo. Um livro para ser con­si­derado clássico precisa sustentar-​se por si mesmo. Aí en­tramos na fra­gi­lidade desta obra. A própria Clarice dá de ombros para essas in­ter­pre­tações. Legal. Mas os tais dou­tores adoram esses por me­nores. Vamos lá.

O número de ele­mentos teó­ricos na nar­rativa são muitos e, na maioria das vezes, re­dun­dantes. O tema central é a vida de Lóri e sua re­lação com Ulisses. Ok. Em uma re­fe­rência direta a Homero, Clarice pega o epi­sódio das se­reias para compor uma his­tória às avessas: Lóri, a sereia, não traga Ulisses, mas é res­gatada por ele. Uma obra Clássica possui in­gre­di­entes fáceis de se iden­ti­ficar, mas que dão um tra­balho ho­mérico para o autor es­crever. Clarice padece de pre­guiça crônica.

Linda, lindíssima!

Linda, lin­díssima!

Clarice não se im­porta com o leitor. Eu digo isso e ela sus­tenta a minha opinião (chorem fãs…). O re­co­nhe­ci­mento de sua obra baseia-​se em uma le­gi­ti­midade au­toral vinda de uma cre­di­bi­lidade cons­truída pelos ad­mi­ra­dores. O efeito ima­gi­nário é grande, mas devido aos vácuos no enredo. O mo­mento psi­co­lógico de Lóri é ex­plorado à exaustão, mas não a sua psi­co­logia. Sua re­lação com a fa­mília, prin­cipal pro­pulsor para sua mu­dança de vida, é re­velado su­per­fi­ci­al­mente. Ulisses, o pro­fessor de fi­lo­sofia, o prin­cipal res­pon­sável pela jornada de Lo­reley, não passa de um es­te­reótipo de ana­lista. Todos os ali­cerces dos per­so­nagens devem ser ima­gi­nados pelo leitor, mas pela ótica de Clarice. Pra­ti­ca­mente; qualquer coisa cabe nessas la­cunas, mas so­mente a ima­gi­nação do leitor vin­culada a da autora com­pletam o quadro. Para ler Clarice, precisa-​se ser Clarice. Por isso, Otto Lara Re­sende disse que suas obras não são li­te­ratura, mas bru­xaria. O leitor como leitor precisa perder o seu eu para poder en­contrar o eu da obra: Clarice Lispector.

A alta li­te­ratura permite ao leitor par­ti­cipar da vida. Mas é a vida em seu sentido uni­versal, não bi­o­gráfico. Julien Sorel e Gina Pi­e­tranera, de Stendhal; Anna Ka­renina, de Toltói; Mademe Bovary, de Flaubert – todos esses per­so­nagens res­piram em nossos ou­vidos sem pre­ci­sarmos re­correr a nada mais que o livro. São per­so­nagens mag­ni­fi­ca­mente cons­truídos, com uma pro­fun­didade psi­co­lógica tão grande que po­demos jurar co­nhecer seus pen­sa­mentos mais ocultos. Ao con­trário de Lóri, que, para ser com­pre­endida em sua to­ta­lidade, precisa da ajuda ou dos outros livros da autora, ou da própria.

Ao fazer cons­truir sua his­tória sobre a pas­sagem da Odisséia de Homero, Clarice descuida-​se de re­la­cionar sua nar­ração com aquela. Por que Ulisses de Clarice apaixona-​se pela algoz, ao con­trário do ori­ginal, que busca de­ses­pe­ra­da­mente re­tornar para casa?

Por que Ulisses de Clarice re­solve res­gatar a sereia se o Ulisses de Homero faz o im­pos­sível para derrotá-​la? E, mais im­por­tante, por que Lóri aceita buscar seu ver­da­deiro eu de uma hora para outra, já que ela era uma se­dutora predadora?

A busca do Eu é com­plexa e exige muito do aven­tu­reiro. A vírgula e o dois pontos que, res­pec­ti­va­mente, abrem e fecham o livro não de­li­mitam so­mente um pe­ríodo na vida da per­so­nagem. Eles de­li­mitam o en­ten­di­mento do leitor. A mag­nitude de Fer­nando Pessoa, outro es­critor in­ti­mista, esmaga qualquer pre­tensão de Uma apren­di­zagem… se com­pa­rados. E os clás­sicos devem ser com­pa­rados com clás­sicos, não é co­vardia fazê-​lo. Tanto que a forma de Clarice aproxima-​se da de James Joyce. Embora não haja razão para acre­ditar que Clarice co­nhecia a obra do es­critor – e os his­to­ri­a­dores in­sistem que não – é preciso re­la­cionar um com o outro e se per­guntar qual deles de­sen­volveu melhor o estilo.

Clarice precisa ser lido por Clarice. Pa­lavras como “in­di­zível” ou “intraduzível” – vistas no livro – são pe­cados dos quais os bons es­cri­tores fogem como o diabo da cruz. Suas obras fazem sentido dentro de sua bi­o­grafia. Talvez, quando esta for es­crita, cada livro possa fazer parte de seu anexo, ou até mesmo do enredo. Mas Uma apren­di­zagem.,., por si só, é in­su­fi­ciente para um clássico. Talvez, o autor que en­carar a his­tória de Clarice Lis­pector (por que ela nunca quis ser uma pro­fis­sional), se com­pe­tente, a trans­formará em obra-​prima. Mas o mérito não será dela, mas do es­critor que ousar escrevê-​la.

Mas eu gosto dela. Assim como al­gumas amigas minhas, é pre­guiçosa e não voa tão alto quanto po­deria. Eu des­culpo isso, afinal, são me­ninas e ma­ra­vi­lho­sa­mente lindas. Se isso soar ma­chista para você leitor, aprenda a ler. A adoro a falsa fu­ti­lidade de al­gumas mu­lheres, o seu de­sapego. Dá pra ver que é mentira, e isso faz nossa paixão por elas au­mentar cada vez mais. Isso é uma apren­di­zagem. Irônico, não?

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Quando o tempo passa...

Sabe essa his­tória de 365 por ano? Pois então…

O idiota que fez a me­dição nunca deve ter es­cutado blues na vida.

Quero ver ele fazer caber meu co­ração nisso ai.

E tenho tido.