Um novo mundo é possível e sem o socialismo

Sim, um simples estilingue pode fazer muito estrago

Sim, um simples es­ti­lingue pode fazer muito estrago

Em épocas de Fórum Social Mundial, a ide­o­logia mais feroz, de­sumana e as­sassina no­va­mente ganha ares de sal­vadora. Desde que Stalin lançou sou plano mais abo­mi­nável, o so­ci­a­lismo retoma um falso papel de “um mundo melhor”. Sem dúvida é melhor para os psi­co­patas, as­sas­sinos e es­tu­pra­dores. E adianta dizer essas coisas? Pouco pro­vável que a visão es­treita dos auto-​assumidos es­quer­distas mude. Di­fícil des­fazer um mito, prin­ci­pal­mente um que usa igualdade entre os homens como norte de uma utopia. Se essa é a pre­missa básica, acre­ditar numa des­crição ima­gi­nativa de uma so­ci­edade ideal, fun­da­mentada em leis justas e em ins­ti­tuições político-​econômicas ver­da­dei­ra­mente com­pro­me­tidas com o bem-​estar da co­le­ti­vidade, não há ba­talha a ser travada, não há lógica ou dis­cussão ra­cional que façam dois lados opostos che­garem num de­no­mi­nador comum. Essas pessoas já não vivem na re­a­lidade. Estão no campo da psi­qui­atria, não da fi­lo­sofia, po­lítica, etc.

Acho muito en­gra­çadas a brin­ca­deiras feitas com as 600 mil ca­mi­sinhas dis­tri­buídas no Fórum. É um contra-​senso, já que ali na mul­tidão a maioria de­fende uma so­ci­edade mais aberta com a li­be­ração do aborto e de al­gumas drogas. De tão bem in­for­mados e an­te­nados, nem pre­ci­sariam dessa aju­dinha. Mas como eu disse, não adianta dis­cutir e tentar de­monstrar o ab­surdo dessa e de outras situações.

Também não existe nada a acres­centar no caso do as­sassino Bat­tisti, que re­cebeu do atual Mi­nistro da Justiça um in­dulto para fazer no Brasil o que um dia fez na Itália. Isso ser dis­cutido numa mesa que quer rever a Lei da Anistia bra­si­leiro é uma piada sem graça. 

Porém, nem o Brasil, nem o mundo, é com­posto apenas por pessoas da es­querda. Elas só fazem “mais ba­rulho”, prin­ci­pal­mente porque não pre­cisam tra­balhar, tem um pro­te­ci­o­nismo exemplar (prin­ci­pal­mente o pro­te­ci­o­nismo aca­dêmico no Brasil e no mundo) e muito tempo livre para alardear suas bes­teiras. A outra parte da po­pu­lação, aquela que vive a re­a­lidade, pouco se im­porta com as bes­teiras ditas nesses fóruns. O que as pre­ocupa é o que fazer para não deixar essa gente trans­formar o mundo num caos?

Claro, num pri­meiro mo­mento, re­tirar esse povo do pro­cesso social vêm à mente. Mas, no meu caso e nos de muito, isso é in­justo. Quem gosta de fu­zilar quem os con­traria são os es­quer­distas. Num Estado De­mo­crático de Di­reito eles também têm voz, mesmo que essa seja uma fala louca e psi­cótica na maioria dos casos. É uma questão apa­ren­te­mente com­plicada de re­solver, como im­pedir que façam lou­curas e co­loquem em prática suas idéias loucas sem re­correr a re­cursos ex­tremos, não é mesmo?

Mas para um pro­blema com­plicado, muitas vezes a res­posta é a mais simples. Para de­fender o jogo justo, basta aplicar as regras do jogo. Fácil assim.

As idéias do so­ci­a­lismo e do co­mu­nismo vão contra as idéias de um Estado de Di­reito e de uma de­mo­cracia. No seu núcleo, as duas ide­o­logias são cri­mi­nosas. Par­tindo disso, as suas idéias também terão algo fora da lei, em maior ou menor grau, não im­porta a ma­quiagem usada para dis­farçar os seus fins. Também os meios uti­li­zados pelos so­ci­a­lismo e o co­mu­nismo não chegam na esfera da le­ga­lidade. Para im­pedir essas ma­lu­quices, basta re­correr às leis.

No Go­verno Bra­si­leiro, por exemplo, há inú­meras de­núncias de cor­rupção, de mal-​uso dos re­cursos pú­blicos e tantos outros atos cri­mi­nosos que alguém co­meteu. Para parar uma má­quina, basta tirar uma en­gre­nagem e não deixar co­locar outra no lugar. Como a má­quina de es­querda flerta sempre com alguma ile­ga­lidade, pela lei, poderia-​se fa­cil­mente frear suas am­bições fis­ca­li­zando efi­ci­en­te­mente suas ações. Sei bem que sempre haverá juízes de pri­meira ins­tância com­pac­tuando com tais idéias, mas nas es­feras su­pe­riores do ju­di­ciário a ide­o­logia não possui tanto espaço. Ali as aná­lises téc­nicas valem mais. Sim, pode de­morar para surtir efeitos, mas eles hão de apa­recer sim. Da mesma forma que o in­ves­ti­mento maciço em edu­cação não mudará um país no curto prazo, zelar pela lei não trará re­sul­tados amanhã, mas depois de cinco, dez ou quinze anos as mu­danças serão evidentes.

Va­lo­rizar o mérito também fun­ciona bem para evitar um surto es­quer­dista. Nessa questão a re­a­lidade bra­si­leira apre­senta de­safios enormes. As uni­ver­si­dades pú­blicas são es­ta­leiros de em­bar­cações des­ti­nadas ao fra­casso. In­fe­liz­mente, esses barcos nunca saem das ins­ti­tuições, eles sabem que não cons­troem nada que re­al­mente fun­cione, por­tanto nunca os vemos afun­darem. Como mudar a lei do fun­ci­o­na­lismo pú­blico é um tanto mais com­plicado, a saída é pegar os monstros ge­rados na USP, UFBA e con­gê­neres e largá-​los na re­a­lidade. Suas teses, suas pes­quisas, trazê-​las à luz e deixar que flutuem por ai. Não duram muito tempo. Não é a toa que as Bi­bli­o­tecas Di­gitais dessas “grandes fa­cul­dades” nunca saem do papel. Exigir trans­pa­rência no tra­balho aca­dêmico di­mi­nuiria a sanha dessa gente.

Outro as­pecto pre­o­cu­pante é a in­vasão da es­querda na cultura geral, ou “cultura de massa” como gostam de dizer. Isso já não dá para com­bater, mas a lei pode im­perar nesse setor também. Livros, re­vistas, etc obe­decem a lei da oferta e da cultura. Se já gente que gosta da Carta Ca­pital, tudo bem. Mas seria preciso rever a pu­bli­cidade es­tatal como um todo. In­ves­tigar para ver se há alguma ir­re­gu­la­ridade na dis­tri­buição dos anúncios, porque uma re­vista A e outra B re­cebem cotas di­fe­rentes se possuem o mesmo número de lei­tores. Caso haja alguma es­pécie de “dis­cri­mi­nação ide­o­lógica” nos se­tores de pu­bli­cidade de em­presas pú­blicas, metam a cons­ti­tuição em cima deles. Se há alguma es­pécie de “as­pecto social” nessa his­tória, ou as pró­prias “te­orias de acesso à in­for­mação” ge­radas nas USPs da vida, mais fácil ainda. Isso também vale para a ANCINE e todo o mi­nis­tério da cultura. Basta um bom ad­vogado querer. Não ligue para as pri­meiras ins­tâncias. A gente re­solve isso é no STF.

Muitas vezes a má­quina de es­querda nos faz sentir im­po­tentes. Mas até isso é falso. Ela não é tão grande, nem tão po­derosa. Aliás, essa mentira, a da sua gran­di­o­sidade, é a única defesa que ela possui. Todo e qualquer as­pecto do socialismo/​comunismo rui diante da re­a­lidade. E boas doses de re­a­lidade são su­fi­ci­entes para im­pedir uma “do­mi­nação” com­pleta. Não precisa de uma força ho­mérica, só um pouco de dis­po­sição no nosso tempo livre. Uma pessoa com bom-​senso pode causar mais es­trago na es­querda num do­mingo a tarde do que todo um Fórum Social Mundial na nossa vida. É sério. No duro.

Foto: Erik

Bagno, Marcos - A Norma Oculta

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Foco!

Foco!

Marcos Bagno é doutor em lingüística e pro­fessor da UNB. Seus livros são fi­guras certas nas aulas dos cursos de co­mu­ni­cação. Pos­si­vel­mente, é o pri­meiro de dis­cussão da língua que o gra­duando toma co­nhe­ci­mento. É ine­gável que A NORMA OCULTA suscita pontos im­por­tantes na re­flexão, nosso modo de falar e in­te­ragir so­ci­al­mente com os outros falantes.

En­tre­tanto, assim como é pro­vo­cadora, a obra pode en­ganar os menos acos­tu­mados ao tema (e que por sinal, é maioria dos alunos de uni­ver­si­dades). Talvez o melhor mo­mento para abordá-​lo fosse a partir do 3º se­mestre, quando o es­tu­dante já ad­quiriu o mínimo da ba­gagem teórica. Nem sempre o de­se­jável é o ro­ti­neiro, por isso tomo a au­to­ridade dada a mim por Bagno (afinal, como ele diz, sou um fa­lante da língua e, por­tanto, es­pe­ci­a­lista no as­sunto) para des­trinchar os pre­con­ceitos e erros que apa­recem cons­tan­te­mente dentro do livro. De outra forma, os des­lizes po­deriam sim­pli­ficar demais o ra­ci­o­cínio dos que de­sejam co­nhecer mais os es­tranhos sons que pro­nun­ciamos diariamente.

Antes de mais nada, de­vemos ob­servar que Marcos Bagno de A NORMA OCULTA não é um pro­fessor in­te­ressado em de­sen­volver o senso crítico de ninguém. Ele está mais para um com­ba­tente. Está em guerra com os gra­má­ticos. E como das guerras só saem per­de­dores, Bagno destrói tudo e a todos, não dei­xando pedra sobre pedra para a de­mo­cracia que visa ins­taurar. Na ten­tativa de acabar com um pre­con­ceito real, ele im­pos­si­bilita o leitor de ad­quirir algo muito mais im­por­tante do que um simples pan­fleto dou­tri­nário: pensar di­reito – a única arma eficaz contra o mundo in­justo traçado pelo autor.

O VALOR DA LETRA “S”

A NORMA OCULTA pre­tende ra­ci­o­cinar sobre língua e poder na so­ci­edade bra­si­leira. De acordo com o autor, o último reduto do com­por­ta­mento pre­con­cei­tuoso é a dis­cri­mi­nação através da língua: falar ou não errado, usar ou não a norma culta gra­ma­tical. Ao cri­ticar falhas de mor­fos­sintaxe no dis­curso ou texto de uma pessoa, o que está por trás desse “cor­re­ci­o­nismo” é a ten­tativa da classe do­mi­nante bra­si­leira em manter a de­si­gualdade econômico-​social no país.

O livro começa e termina uti­li­zando como exemplo a re­cepção do pre­si­dente bra­si­leiro Luiz Inácio na grande im­prensa. Vários ar­ti­cu­listas re­la­cionam o “re­la­xismo lingüístico” do pre­si­dente com uma pos­sível falta de cultura e ca­pa­cidade para co­mandar a nação.

Eles in­sistem em fo­ca­lizar os erros de con­cor­dância de Lula e sua forma simples (ou sim­plória?) de se ex­pressar. Para Bagno, isso nada mais é uma es­tra­tégia po­lítica contra a imagem da­quele e o que ele re­pre­senta (po­li­ti­ca­mente) na his­tória bra­si­leira. É fácil ver isso no tom do dis­curso de Bagno, enal­te­cendo a vi­tória nas eleições de 2002: (os grifos são meus, a não ser que eu diga o contrário)

“Seria uma ilusão supor que uma vi­tória como foi a de Lula nas eleições de 2002 bas­taria para que o pre­con­ceito lingüístico de­sa­pa­re­cesse de vez da nossa sociedade” – Pag. 15

“A his­tória pessoal de Lula é, sem dúvida, uma re­vo­lução “quase mágica”, mas é uma re­vo­lução in­di­vidual, par­ti­cular, digna de as­sombro, é claro, num país tão in­justo quanto o nosso.” – Pag 38

Para mostrar o erro da im­prensa, Bagno usa como exemplo pessoas con­si­de­radas “letradas” – como outras ma­térias “res­pei­tadas” vei­cu­ladas em jornais (pág 26) – que também co­metem os mesmos “erros”, pro­vando, em tese, a nu­lidade desses julgamentos.

“Em ambas as co­lunas, Dora Kramer deixa bem claro seu total des­preparo para tratar desses as­suntos, uma vez que fala de “plural e con­cor­dância verbal” e de “lições de plural e con­cor­dância” como se fossem duas coisas dis­tintas, como se as regras de plural não fi­zessem parte das regras de con­cor­dância (verbal e no­minal), como de fato fazem.” – Pág 22.

Porém, lem­bremos que Bagno tenta de­sa­cre­ditar a opinião dos jor­na­listas usando o mesmo jul­ga­mento: eles também co­mentem erros e não sabem do que falam. As crí­ticas ne­ga­tivas contra o Lula valem-​se do mesmo teor: lula não tem co­nhe­ci­mento para isso ou aquilo, por­tanto é in­capaz de fazer isso ou aquilo. O que o autor não ex­plica é por que formas de análise se­me­lhantes são vá­lidas no caso dele, mas não nos dos jor­na­listas. Por que Lula pode go­vernar o Brasil na base de tra­pa­lhadas e o jor­na­lista não pode, também atra­pa­lhado, tentar ana­lisar a língua? Mais, por que le­va­ríamos a sério em livro cheio de tra­pa­lhadas mesmo de um autor dou­torado e vacinado?

“As ob­ser­vações da jor­na­lista, por­tanto, de­monstram a atitude au­to­ri­tária de quem se acha com o di­reito de opinar e propor le­gis­lação sobre o que des­co­nhece, apenas por re­ve­renciar o senso comum, sem criticá-​lo com ins­tru­mento teórico ade­quado: não sendo lingüista nem pe­dagoga, com que fun­da­men­tação ela pode sus­tentar suas pro­postas de re­visão dos cur­rí­culos escolares?” – Pág. 23.

O mais in­crível é o Lula ter pleno do­mínio da norma culta. No dia a dia, ele atua nos pa­lanques usando a lin­guagem dos menos edu­cados. En­tre­tanto, nos dis­cursos em 2005, depois da crise no go­verno, quando in­flamado e sem ro­teiros para seguir, Lula de­monstra saber falar muito bem, fle­xi­o­nando os verbos cor­re­ta­mente, usando os co­nec­tivos de forma apro­priada, etc, etc, etc. Lula não é mais parte do povo comum: ele se educou lingüis­ti­ca­mente, ainda que te­nhamos sérias dú­vidas se o fez cul­tu­ral­mente. A qua­lidade veio depois da autoridade.

PRECONCEITO DE QUEM, CARA PÁLIDA?

O pre­con­ceito oculto detrás do pu­rismo gra­ma­tical é ver­da­deiro. Ele existe, ponto. En­tre­tanto, pensar que todo pu­rismo é um ato dis­si­mulado de pre­con­ceito é lo­gi­ca­mente errado. E também vemos isso na prática. De­fender a língua não sig­nifica me­nos­prezar quem não pôde con­cluir os es­tudos ou não teve con­dições ou vontade de se ins­truir por conta própria. Imagine se a li­te­ratura fosse en­gajada na uni­ver­sa­li­zação do falar mal.

Que ninguém se iluda: só a leitura in­tensa permite co­nhecer os múl­tiplos re­cursos da língua e usá-​los com efi­ci­ência, sem a de­coreba gra­ma­ti­queira“
Marcos Bagno

Porém, du­rante a obra, somos le­vados a crer que se não o é sempre, na maioria dos casos é pre­con­ceito (cons­ciente ou inconsciente).

“(…) em boa medida, nós somos a língua que fa­lamos, e acusar alguém de não saber falar sua própria língua ma­terna é tão ab­surdo quanto acusar essa pessoa de não saber “usar”corretamente a visão (isto é, afirmar o ab­surdo de que alguém é capaz de en­xergar, mas não é capaz de ver) ou o olfato (isto é, afirmar o ab­surdo de que alguém é capaz de sentir o cheiro, mas não de aspirá-​lo).” Pág. 17 [grifos do autor].

Se Marcos Bagno é doutor em lingüística, de­veria comprar um livro de lógica básica (bem como um de fi­lo­sofia). As duas ana­logias são er­radas de qualquer ponto de vista. Pri­meiro, elas não se equi­valem. Se assim fosse, o “ab­surdo” seria alguém ver e não ser capaz de deixar a luz entrar na retina; ou alguém ser capaz de as­pirar e não con­seguir iden­ti­ficar o cheiro.

Isso porque “en­xergar” não é sinônimo de “ver”. Quando as pa­lavras perdem o seu poder sim­bólico (fruto da falta de leitura e cultura) criam, aí sim, pro­po­sições ab­surdas como essas.

En­xergar se re­la­ciona com o ato fi­si­o­lógico. Se você tem o globo, a retina e demais partes do sistema ocular bem for­mados, você poderá en­xergar. En­tre­tanto, um daltônico recebe a luz verde na retina. Por uma série de fa­tores, vê ver­melho. Ou um es­qui­zo­frênico, que vê alu­ci­nações mas não en­xerga os monstros (não há fi­si­ca­mente ne­nhuma imagem na retina).

Falar e dizer seguem a mesma linha. Lula, por exemplo. Fala que foi traído, mas não diz quem foi. Uma pessoa pode falar du­rante horas mas não dizer nada, i.e., seu dis­curso não tem ne­nhuma in­tenção, não transmite qualquer dado re­le­vante para o as­sunto em questão. Também ler. Qualquer pessoa al­fa­be­tizada é capaz de in­ter­pretar os ca­rac­teres em um livro do Sartre, mas só alguns terão a ba­gagem ne­ces­sária para en­tender o que ele quis dizer.

LÍNGUA É PODER

A NORMA OCULTA não con­segue acabar com os pro­blemas que se propõe a ex­pli­citar. Muito menos desnudá-​los de forma correta. Du­rante todo o livro Bagno usa as mesmas si­tu­ações para ilustrar va­lores opostos. Tudo parece ser re­lativo. Sua missão é jus­ti­ficar sua luta contra os gra­má­ticos e, no fim, também jus­ti­ficar uma postura po­lítica pessoal.

Ao acusar uma “elite pri­vi­le­giada” de “oprimir” os bra­si­leiros “ví­timas de anos de de­si­gualdade”, Marcos deixa de ana­lisar os pro­blemas es­tru­turais que le­varam e levam o povo a des­co­nhecer as regras gra­ma­ticais da língua portuguesa.

Na página 124, lê-​se que nas so­ci­e­dades onde a cultura es­crita é oni­pre­sente, existem ins­ti­tuições que inibem as forças de mu­dança da língua. O autor es­quece de dizer (in­ten­ci­o­nal­mente?) que essas so­ci­e­dades são as mais ricas, de­mo­crá­ticas e justas – além de terem enorme in­fluência econômica, social e cul­tural nos países de ter­ceiro mundo.

Esse poder nasce quando há opor­tu­ni­dades para povo ter acesso a uma boa edu­cação. Ao tentar jus­ti­ficar a falta dessa edu­cação no Brasil, Bagno presta um des­serviço ao país. Ao invés de lutar para que as pessoas evoluam, ele parece querer que as res­peitem pela sua ig­no­rância, e não “apesar da”. Neste caso, não é só válido – é fun­da­mental esse res­peito para existir uma de­mo­cracia. Mas na­quele, ao poupar alguém pela sua in­ca­pa­cidade, to­mamos um ca­minho muito pe­rigoso. Não é apenas uma questão gra­ma­tical. Em última ins­tância, é uma questão de in­te­gridade física: se duas pessoas não sabem se ex­pressar, se eles não se com­pre­endem, ter­minam sempre usando a violência.

Triste e de­cep­ci­o­nante é a obra de Marcos Bagno. A NORMA OCULTA é um livro cheio de erros in­fantis de dis­curso, ra­ci­o­cínio e análise. Não de­veria ser levado a sério, como o fazem várias pessoas. É antes de tudo, para aqueles que sabem pensar, a fa­gulha inicial de uma re­flexão pro­funda sobre o povo bra­si­leiro. Se bem feita, dará grandes frutos. Do con­trário, se se­guirmos a lógica do autor, vol­ta­remos ao jardim de in­fância, quando dis­cu­tíamos fe­roz­mente para de­cidir se o mais feio era eu ou você.

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Esse blog apoia John McCain

Diferenças nos discursos (clique para amplicar)/TH

Di­fe­renças nos dis­cursos (clique para ampliar)/Thomas Hawk

Quem ficou sur­preso com meu apoio ao McCain? Quem, quem? Já era de se es­perar, não é? Nesse mo­mento, o blog, pu­bli­ca­mente, dá seu apoio a John McCain. Sim, sim. E a razão disso é simples: é único can­didato que aceita meu total e com­pleto apoio res­trito à sua pre­si­dência. Isso mesmo, res­trito. Essa é a razão de eu gostar tanto dos re­pu­bli­canos, eles não pedem minha fi­de­lidade cega para seus pro­gramas de go­verno. Não mesmo. Não, não.

Votar no Obama é as­sinar uma folha em branco, com firma re­co­nhecida e re­gis­trada em car­tório. Não sejam in­gênuos. A Left Wing não pede nada menos. Depois alegam que a Di­reita é a ra­dical. Falo sobre isso mais abaixo.

Eu também gosto de um pouco de decoro, de uma certa ver­gonha, da hi­po­crisia. A hi­po­crisia sig­nifica que alguns va­lores ainda existem e não podem ser “que­brados”. Já a es­querda adora mudar o sig­ni­ficado das coisas para seu pro­veito próprio. Lembro muito bem das es­tri­pulias orais do Sr. Bill Clinton. O que cada um faz no seu canto não me im­porta, mas não es­queço da Mônica L. fa­lando sobre suas for­ni­cações como Bill no salão oval. Óbvio que eu não coloco minha mão no fogo pelo W. Bush e nem por ninguém, mas ao menos, se ele tiver feito coisas feias na­quela sala, eu não vou saber. Melhor ter es­ta­giárias que saibam como ligar a má­quina de lavar. Guardar ves­tidos sujos com fluídos cor­porais de um homem é anti-​higiênico. E eu gosto de tudo limpinho.

E esses de­mo­cratas gostam de um es­cândalo sexual, não é mesmo. JFK fa­turou a Mary Pinchot Meyer e também a Ma­rilyn Monroe du­rante a pre­si­dência, e nem por isso deu o vexame do Bill Também. O cara era acos­tumado com mu­lheres bo­nitas.

Não me en­tendam mal. Eu não tenho aversão aos de­mo­cratas ame­ri­canos, não mesmo. Pra mim, tanto o Kennedy quanto o Ro­o­sevelt foram ótimos pre­si­dentes. Mas de lá pra cá, o partido perdeu a mão. Esses dois en­fren­taram pro­blemas con­cretos, de so­luções nada fáceis. Com­praram brigas ho­mé­ricas, Obama pe­diria pra sair na menor delas. Faltam aos de­mo­cratas grandes nomes. O partido ainda vive na nos­talgia de pre­cisar ser o partido da mu­dança, sem ter noção para onde querem mudar. Isso é pe­rigoso, muito pe­rigoso. Como não con­seguem ter um foco de­finido agora, sabe-​se lá para onde vol­tarão a sua atenção na Casa Branca.

Atu­al­mente, os Re­pu­bli­canos possuem esse foco. No que diz res­peito à eco­nomia, à re­ligião, à se­gu­rança in­terna e tudo mais. Claro, as visões não são una­ni­midade na Right Wing, mas ao menos dá pra con­versar. Ao saber as in­tenções de McCain na pre­si­dência, fica bem mais fácil co­locar freios e li­mites aos planos ma­lucos que qualquer partido tem. E isso só pode ser feito quando o dis­curso é claro. Os de­mo­cratas vivem na tan­gente, tal qual o nosso PT. Falam muito mas não dizem nada. Des­co­nhecem demais a si próprios.

Claro que a di­reita com­porta ra­di­ca­lismos também. Os beatos de porta de igreja, o pessoal mais doido da As­so­ciação Na­cional do Rifle e mais um monte de loucos. Tudo bem, de­mo­cracia é assim mesmo. Mas a es­querda também tem sua cota, e acho que ela é bem mais pe­rigosa. Trans­ves­tidos de bom-​mocismo, com um des­curso po­li­ti­ca­mente correto e sen­ti­men­ta­lóide, os ra­dicais da es­querda podem causar es­tragos reais, re­tirar várias li­ber­dades in­di­vi­duais e todo tipo de coisa. Melhor dis­cutir o ensino do cri­a­ci­o­nismo na escola do que, sei lá, a proi­bição de pes­quisas com animais. Essa última sim, po­deria levar o mundo de volta às trevas.

Também me de­sa­grada a ten­tativa de mas­sacre pú­blico contra a Sarah Palin. Tudo bem que a mulher é uma fera, mas espera um pouco. Criar boatos sobre a fa­mília dela? Que moral os de­mo­cratas têm para querer dar essas lições? Agora vieram com a his­tória das notas na fa­culdade, que ela teria sido uma aluna me­díocre. O Obama até agora não li­berou a ficha aca­dêmica dele. Têm medo de quê? O W. Bush freqüentou a Uni­ver­sidade de Yale e o chamam de idiota dia sim e no outro também. Nessa his­tória de es­conder a vida, Obama é um pro­fis­sional, não existe nada sobre o cara…

Eu prefiro saber com quem estou li­dando. Se fosse ame­ricano, vo­taria em McCain. Sou (in­fe­liz­mente) bra­si­leiro, e espero que ele vença. Mas apesar disso tudo, outra coisa me cativa na sua can­di­datura: a cam­panha. Os re­pu­bli­canos con­seguem ser sérios, res­pon­sáveis e di­ver­tidos ao mesmo tempo. Eles tiram sarro da cam­panha de­mo­crata a toda hora. Adoro. Go­vernar os EUA não deve ser uma brin­ca­deira, mas en­carar a pre­si­dência como um fardo, algo penoso e frágil, um em­prego que só um en­viado es­pecial po­deria en­carar é bes­teira. Obama acha que é demais e o eleito pelo mundo para o cargo. Pense ele o que quiser. Ele não é um super-​homem. Aliás, pode nem ter nascido na América. Isso sim é engraçado.

Photo: Thomas Halk