Fui pego de surpresa com a notícia da morte de Jackson. Vi, sim, que ele fora levado ao hospital com uma parada cardíaca. Acho até que demorou demais para o cara finalmente ter um piripaque sério. Também sabia que a morte era mais certa do que a recuperação, devido ao seu estado de saúde nos últimos anos. Mesmo assim, fiquei surpreso com a quantidade de besteiras escritas nesse meio tempo. O mundo pararia quando Michael Jackson morresse. E parou mesmo.
Eu gosto de música desde que nasci. Lembro de ouvir Dire Straits no SBT e achar aquilo o máximo, e nem sequer saber o nome da banda. Lembro de passar horas no meu gravador de fita procurando no rádio músicas legais para escutar no walkman. Tive a sorte de nascer antes do MP3, por isso aprendi o que era som. Meu tio possui uma bela coleção de música clássica em vinil. Ainda não sei distinguir direito um sibemol de um dó, mas quando todos saiam do apartamento, pegava os lps para descobrir porque aquele disco do Beethoven era mais “caro” do que o outro com a mesma “música”. Como sabem, a qualidade sonora do vinil é muito superior, e mesmo que falassem que “Disco é Cultura”, o bom mesmo era pegar coisa importada quando possível.
Foi nesse contexto que descobri Michael Jackson. Eu assistia o Show da Xuxa pelos desenhos e não pelas paquitas. Meu pai era indestrutível e o MJ era o melhor cara do mundo.
Vamos lá, eu tinha cinco, seis anos. Nem imaginava que saberia tanta coisa. No discos do Michael, eu gostava do fato dele estar “cantando do lado”. O som era tão bom que você jurava que ele estava logo ali. Claro que a produção do disco era maravilhosa, obra do Quincy Jones, que levou o ar “live” do jazz para a gravação do MJ. Sim, Proteus não existia. Tal perfeição não existia nos discos brasileiros. Se o ritmo não bastasse para ficar repetindo as músicas ao infinito.
Muitas pessoas tiveram a mesma experiência que a minha. Outras pegaram o MJ enquanto “estavam” adolescentes. Dois guitarristas amigos conheceram Van Halen na música Beat It. Dá pra ter um mosaico interessante dos 80 se pegarmos as diferentes faixas etárias dessa década e reuni-las num livro. Seja como for, muitos até hoje se lembram do “nascimento” do video-cassete e esperar para gravar os clipes do Jackson da tv para depois tentar fazer o moonwalk. Então tudo era mais difícil.
Claro, cada escândalo do Michael Jackson me deixava triste. Mas isso é parte do crescimento, ver nossos ídolos se deteriorarem e chegar na mortalidade. Michael Jackson era um cara cheio de problemas, muitos ficarão sempre em segredo. Mas no fundo, como um fã, custa acreditar que ele fez coisas tão horríveis. Primeiro, porque a doença dele era tão profunda e estranha que padrões normais de análise não produzem bons resultados. Segundo, difícil crer que uma pessoa má teria tantos admiradores e pessoas que o amam incondicionalmente. Amizades que duram décadas.
Sua morte só serve para finalmente solidificar o mito. Quem gostaria de defende-lo em vida e não o fez, agora pode voltar a admirar o artista. Quem não gosta dele agora tem como discutir, já que não obtém como retorno aquele silêncio resignado. Sua grandeza musical pode ser inversamente proporcional à sua sanidade mental. Mesmo assim ele faz sucesso e sempre será um ícone e uma referência, unindo mundo tão distantes quanto opostos. E isso, nem os críticos nem os próprios erros de Michael podem destruir.

